Mostrando postagens com marcador nota: 7. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nota: 7. Mostrar todas as postagens

Crítica: Velvet Buzzsaw



"Velvet Buzzsaw" é um filme de nicho. Alternativo em sua essência, aborda o mundo da arte através do comércio de telas para compradores milionários. Os protagonistas da trama são donos de galerias, artistas e críticos de arte. Esse ambiente elitista, somado a alguns toques do horror, serve de metáfora para muitas questões contemporâneas.

Se fosse lançado há uma década, o título certamente seria pouco alugado na locadora, frente aos blockbusters do momento. Porém, o consumo de cinema mudou e "Velvet Buzzsaw" é uma das primeiras novidades de 2019 no catálogo dos originais da Netflix, tendo como chamariz o nome de Jake Gyllenhaal à frente do elenco. O convite atraiu, para o bem e para o mal, diversos desavisados.

A primeira pista de que esta não será uma receita de fácil digestão é a assinatura de Dan Gilroy como diretor e roteirista do projeto. Ele possui como destaque em seu currículo o longa "O Abutre", de 2014, em que apresenta um retrato sombrio da prática jornalística, alicerçada na falta de ética e no sensacionalismo.

Com seu novo filme, Gilroy envereda por uma trama satírica sobre a cena artística de Los Angeles. Introduz o funcionamento deste curioso universo, baseado em cinismo e altas cifras, para gradativamente revelar sua análise negativa do mesmo.

A narrativa tem início quando a assistente de uma galeria de arte, Josephina (Zawe Ashton, do seriado "Wanderlust"), encontra seu vizinho morto. Ele é Vetril Dease, um desconhecido artista que deixou em seu apartamento inúmeras pinturas. Hipnotizada pelas imagens e sabendo que o legado vai para o lixo, Josephina decide ficar com as telas.

Todos os personagens do filme, de certa forma, serão envolvidos pelo trabalho de Dease. Seus quadros transformam-se em uma sensação no circuito da arte. Eis que o espírito do artista que nunca foi valorizado se personifica nas obras para buscar sua vingança, principalmente daqueles que tentam lucrar com as telas do falecido.

A partir deste ponto, o longa-metragem passa a seguir uma sucessão de mortes bizarras. Dease, supostamente, estaria punindo quem utiliza a arte como uma oportunidade para gerar status e lucro. O personagem de Gyllenhaal chega a comentar que existe um nojo, por parte do assassino, pelo mundo do dinheiro. Ou seja, quando a arte colide com o comércio.

O espírito do pintor salva aqueles que lidam com a arte de uma forma mais saudável, tendo-a como uma forma de expressão, original, verdadeira, de puro sentimento, catarse. Imerso nesse universo, o roteiro ainda debate a pergunta universal dentro da área: “o que é arte?”, seja através da cena de um crime vista como parte de uma exposição ou sacos de lixo que são confundidos como novas obras de um excêntrico artista.

Há um tom de humor que permeia todo discurso. Gyllenhaal, o nome à frente do elenco, não decepciona em mais uma surpreendente performance - mesmo que, por vezes, fuja do personagem. Rene Russo também rouba a cena como Rhodora, uma ambiciosa dona de galeria. O elenco ainda comporta nomes como Toni Collette ("Hereditário") e John Malkovich ("Bird box"), além de jovens talentos como Natalia Dyer ("Stranger Things"), Billy Magnussen ("A Noite do Jogo") e Tom Sturridge ("Mary Shelley").

Independentemente se é bom ou ruim, "Velvet Buzzsaw" é um filme extremamente intrigante. Envolve o espectador pelas excentricidades, embora enquanto terror não seja tão eficaz. As mortes são previsíveis, mesmo que por vezes causem arrepios. O interessante da história está nas discussões que provoca após os créditos finais. Depois de "O Abutre", seria esta uma visão pessimista de Gilroy para o mundo da arte? Ou para qualquer atividade a qual nos tornamos responsáveis em nossas vidas?

Nota: 7,5

Crítica: Jackie


"Jackie" não é uma cinebiografia tradicional, acompanhando desde o nascimento até a morte da primeira-dama mais famosa dos Estados Unidos. O filme dirigido pelo chileno Pablo Larrain ("No") se passa sete dias após o assassinato do presidente Kennedy, quando sua esposa decide quebrar o silêncio e falar com a imprensa.

Jacqueline recebe em sua casa o jornalista Theodore White (Billy Crudup), que, durante a conversa, fará com que sua fonte relembre a trajetória ao lado do marido e, principalmente, os acontecimentos entre a morte de JFK e o seu funeral.

O forte sotaque, a voz doce e os trejeitos levemente discordenados de Natalie Portman na pele da protagonista incomodam em um primeiro momento. O desconforto pela atuação carregada logo dilui-se frente ao trabalho dedicado tanto na fidelidade quanto na caracterização da homenageada.

A Jackie de Portman fisga o espectador e revela um trabalho elegante que, ao fim da sessão, fará com que este reveja sua opinião quanto a improvável escalação da atriz para viver a personagem. Depois de "Cisne Negro", certamente esta é sua melhor atuação.

Durante a entrevista, a ex-primeira-dama revela a jogada de mestre - ou de marketing mesmo - executada durante seus últimos dias na Casa Branca. Atormentada pela possibilidade de terminar sem nenhum tostão como a esposa de Abraham Lincoln, considerado a principal referência na política norte-americana, Jackie aproveita para oferecer a solenidade que seu marido, a nação e o mundo merecem.

A primeira-dama percebe que esta é a chance de garantir o lugar de John F. Kennedy na história. Para isso, ela enfrentará uma corja de homens poderosos querendo barrar suas ideias, incluindo o próprio irmão do falecido, Bobby (Peter Sarsgaard).

Apesar da aparente fragilidade, Jacqueline sabe que aquele é o momento decisivo da sua vida, e o torna num espetáculo, com direito à carruagem para carregar o caixão numa marcha solene pelas ruas de Washington. A primeira-dama também faz questão que seus filhos pequenos participem da cerimônia.

Desta forma, a produção apresenta o momento mais obscuro da figura pública que foi Jackie Kennedy, sem os tradicionais acenos e sorrisos em terninhos coloridos. A tela explora, na verdade, um momento de luto. Aliás, a cena da morte, inclusive com a bala explodindo o cérebro do presidente, é repetida diversas vezes na projeção.

Naquele momento, o sonho se desfaz frente aos olhos de Jackie, que esteve apenas dois anos na Casa Branca. Vê tudo ruir ao seu redor. A morte de JFK significa perder o marido, o pai de seus filhos, o casamento, o título de primeira-dama, a estadia na Casa Branca, sua fonte de renda/sustento e até mesmo seu sobrenome.

"Jackie" é um filme sobre perda, sobre legado, sobre a força feminina, mesmo que por vezes revele interesses e preocupações fúteis da biografada, como decorar a Casa Branca ou oferecer concertos para a elite. Por fim, a jornada resulta num amadurecimento da personagem, que precisa lidar com as desventuras do destino. O longa comprova que, além de John Kennedy, nascia uma outra lenda.

Nota: 7,5

Crítica: Mulher-Maravilha



Enquanto Superman e Batman aparecem nas telas desde os anos 1950 e 1980, respectivamente, a principal heroína dos quadrinhos recebe seu primeiro longa-metragem com décadas de atraso. Frente a uma indústria que exalta personagens do sexo masculino, o filme da Mulher-Maravilha, estrelado por Gal Gadot, possui um importante papel social no reconhecimento das mulheres na Sétima Arte.

Os tempos são outros e, finalmente, a DC Comics percebeu que estava mais do que na hora de contar a história da guerreira Diana, filha de Zeus com a amazonas Hippolyta. O momento não poderia ser mais adequado, conforme o atual debate sobre às questões feministas e de gênero.

No filme, a jovem é criada na escondida e paradisíaca ilha de Temiscira, onde encontra-se isolada do mundo dos humanos até a chegada do misterioso Steve Trevor (Chris Pine), que sofre um acidente de avião e cai numa praia local.

O estrangeiro conta que, recentemente, descobriu detalhes sobre a elaboração de uma arma devastadora, criada pela Doutora Veneno para matar milhões de pessoas. Assim, os dois partem rumo a Londres para dar um fim aos conflitos da Primeira Guerra Mundial.

Os dois primeiros atos da produção (Temiscira e Londres) são melhores construídos que o encerramento, o qual  aposta numa revelação não convincente do vilão. A batalha final deixa a desejar em pancadaria e efeitos especiais, mas neste momento Gal Gadot já conquistou o espectador - e ele não vai abandoná-la em sua jornada.

Isso porque Diana mostra-se pouco a pouco ser realmente uma mulher poderosa, uma heroína a altura de qualquer marmanjo de capa vermelha ou preta. Existe uma química entre Diana e Steve, sem que ele roube o brilho da protagonista. O show é inteiramente da Mulher- Maravilha.

Se Gal Gadot já havia chamado atenção no ano passado em Batman vs Superman, agora, em seu território, a atriz esbanja carisma. Para fins do roteiro, ela mantém um ar inocente, o que a torna facilmente manipulada. Entretanto, o tratamento que foi criticado por muitos mostra um amadurecimento que faz parte de uma história de origem.

"Mulher-Maravilha" não é um filme que exalta o caráter feminista. Trata as questões de forma natural, como deve ser. Diverte, empolga e reforça que representatividade no cinema é importante. A heroína estará de volta em novembro deste ano em Liga da Justiça.

Nota: 7,3

Crítica: Quase 18


Nadine é uma típica adolescente. Insegura, ela não se sobressai entre os demais no colégio e transforma qualquer problema no fim do mundo. Por vezes, é exagerada, irritante, egoísta e mimada. "Quase 18" apresenta o amadurecer de uma personagem que não é idealizada. Seus dramas são reais e conferem o peso que é enfrentar a transição da adolescência para a maioridade.

A história se desenvolve a partir da descoberta que a melhor (e única) amiga de Nadine está se relacionando com o irmão mais velho dela. E, claro, ele faz parte do grupo de pessoas que se destacam em tudo. O mundo da jovem entra em colapso. Sente-se excluída, pois acredita que sua amiga tem outras prioridades agora, inclusive interagir com colegas mais velhos e mais populares.

Revoltada com a situação, Nadine acaba por atrair mais e mais problemas, despertando uma sucessão de erros envolvendo sua mãe, dois interesses amorosos, um professor e a própria relação com o irmão tido como perfeito. Será preciso, então, encarar cada desafio de uma outra forma. Afinal, a vida é feita de riscos, de escolhas e de aprendizado.

A diretora estreante Kelly Fremon Craig, que também assina o roteiro, adota a linha da comédia sutil para abordar os dramas da personagem. O que chama atenção são os rumos inesperados da narrativa. Quando espera-se que uma mensagem comprometedora seja divulgada na escola, o roteiro apresenta justamente o contrário. E assim por diante.

Hailee Steinfeld, já vista em produções como "Mesmo se nada der certo" e "A Escolha Perfeita 2", é puro carisma. A atriz - e também cantora fora das telas - toma o filme para si e brilha em cena, oferecendo muita verdade para a protagonista. Desta forma, e por todos os motivos anteriores, Quase 18 é um filme que se relaciona totalmente com seu público, e expande o diálogo para todos aqueles que já foram adolescentes. Sem precisar envolver situações absurdas, vampiros ou brincadeiras mortais.

Nota: 7,6

Crítica: Colossal


Notícias de todo mundo divulgam que um monstro gigante e assustador surgiu repentinamente em Seul, na Coreia do Sul, e está destruindo a cidade. Este poderia ser mais um filme catástrofe na linha de Godzilla, mas "Colossal" inova quando coloca uma mulher comum com o poder de controle sobre a criatura.

Anne Hathaway interpreta a protagonista Glória, que vive em Nova York e precisa retornar para a sua cidade natal depois de perder o emprego, afundar-se na bebida e ainda terminar o relacionamento com o namorado. De volta ao lar, ela descobre que possui uma forte ligação com a ameaça do outro lado do planeta, ou seja, suas ações são igualmente reproduzidas pelo monstrengo, inclusive seu tique de coçar a cabeça quando está nervosa.

O ponto de partida de "Colossal" é muito interessante - e original. Mistura comédia e ficção científica de maneira esperta, mas encontra sua base no drama. A história, na verdade, apresenta-se como uma fábula moderna, utilizando elementos fantásticos para revelar que existe um monstro dentro de cada um de nós.

No caso da personagem principal, essa descoberta é benéfica, tirando-a da inércia e dando-lhe um objetivo em sua rotina de tédio e muitas doses de álcool. Por conta disso, Glória consegue, inclusive, deixar o vício da bebida.

A derrapada do projeto acontece em seu terceiro ato, quando aposta em um suposto vilão para a trama, personificado na figura de um robô gigante. Seria este o oposto de Glória, duas faces de uma mesma moeda. Um ser amargurado, invejoso, que promoveu uma destruição interna sem volta. Mesmo com todos esses motivos, a revelação do verdadeiro comandante desta criatura não é bem construída.

Ainda assim, o roteiro assinado por Nacho Vigalondo, que também é o responsável pela direção, aproveita para conferir um caráter cult e fazer algumas críticas, como quando um dos personagens comenta que se a destruição está acontecendo apenas em Seul, ainda não é alarmante. O problema é se isso avançar.

"Colossal" pode aparentar uma divertida aventura sobre um monstro implacável, porém, em análise mais profunda apresenta-se como um filme existencial sobre pessoas em frangalhos e o que elas são capazes de fazer quando recebem poder. São os dramas pessoais que ditam as regras, e esses são os verdadeiros Godzillas.


Nota: 7,0

Crítica: Fome de Poder


Poucas vezes o título "traduzido" funciona tão bem quanto o original. O novo filme de John Lee Hancock ("Um sonho possível") consegue essa proeza, tanto com o explícito "Fome de poder" quanto com o irônico "The founder". A história baseada em fatos reais aborda a ascensão da maior rede de fast food do planeta, o McDonald's.

O responsável por este feito é Ray Kroc, um homem de 52 anos, classe média, inicialmente vendedor de máquinas de milkshake. Seria ele o criador do conceito de comida rápida, de produzir um hambúrguer em 30 segundos ao invés de 30 minutos? Não. Os verdadeiros inovadores foram os irmãos Richard e Maurice McDonald. Os dois moradores de San Bernardino, interior da Califórnia, apostaram em uma pequena grande ideia e fizeram sua lanchonete transformar-se em um sucesso local.

Numa visita à cidade para entregar suas máquinas, Ray fica encantado com o negócio idealizado pelos irmãos e dá um jeito de tornar-se sócio do empreendimento. Fica, então, responsável pela expansão da marca através de franquias.

O intruso realmente transforma a marca em um império mundial, porém sua ambição desmedida leva-o a caminhos no mínimo controversos, prejudicando a dupla que começou o projeto. A briga entre o trio vai longe no decorrer de quase duas horas de projeção.

Hancock adota uma pegada neutra, apresentando tanto o lado "persistente" quanto sacana do protagonista. Já enquanto projeto cinematográfico, o diretor segue a cartilha, sem apresentar nenhum frescor. Quem sustenta o interesse, além da curiosa história real, é Michael Keaton como o personagem dúbio, oscilando entre uma expressão carismática e um sorriso diabólico.

No geral, a produção funciona, principalmente, enquanto biografia, uma história sobre os desafios enfrentados por grandes empreendedores. E levanta questões, como quais são os limites para a ambição, a fome pelo poder? Ray, sem dúvidas, tinha uma visão empreendedora, mas levou-a ao extremo para conseguir o que queria. Foi graças a sua falta de moral que o McDonald's está espelhado pelos quatro cantos do mundo. 

Nota: 7

Crítica: Fragmentado



Vinte e três personalidades vivem no corpo de Kevin Wendell Crump. Interagem como se estivessem sentadas em círculo, sendo chamadas uma a uma para externar sua individualidade. Em "Fragmentado", novo filme do indiano M. Night Shyamalan, ele utiliza a rara doença chamada de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) para criar um intrigante conto de horror.

Na trama, Kevin mantém uma vida tranquila sob constante tratamento psiquiátrico. Porém, escondido dos olhos da sociedade, o homem sequestra três adolescentes no estacionamento de um shopping. O responsável, na verdade, foi Dennis, a versão mais perigosa de si mesmo.

Dennis desenvolve um plano, coloca-o em prática e mantém os outros 22 companheiros sob seu domínio. Quando o lado maligno aflora, o próprio Kevin fica refém desse jogo psicológico. O propósito de Dennis é despertar uma nova personalidade, muito mais poderosa.

Quem dá vida a todas essas personagens é o ator James McAvoy, certamente um dos mais subestimados de sua geração. Já deu show em produções como "Desejo e reparação", "O procurado", "Em transe", "Filth" e até mesmo na tenebrosa modernização do clássicao de Mary Shelley, "Victor Frankenstein".

Em "Fragmentado", McAvoy realiza um trabalho tanto de entrega quanto de repertório, uma vez que impressiona pela facilidade e  rapidez com que passa de uma personalidade para outra na mesma cena, seja um menino de nove anos, uma mulher mais velha, um gay estilista ou uma figura ameaçadora.

Se por um lado há uma certa preocupação sobre quem é esse complexo indivíduo, há um total descaso com os demais personagens, com exceção de Cassey (Anya Taylor-Joy, de "A bruxa"), em que o roteiro forçadamente apresenta um traumático passado para a jovem.

As demais meninas sequestradas são reduzidas a estereótipos de patricinhas fúteis. Até mesmo a psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Bucley) recebe cenas lamentáveis junto da irmã ou de colegas de profissão. Sua presença é apenas para fins didáticos.

A sensação é de que estamos frente a um roteiro com sérios problemas, sustentado principalmente por uma atuação visceral. A curiosa doença de Kevin poderia ser abordada de forma mais interessante, valorizando a crise de consciência, ou seja, o combate entre as suas forças internas.
Querendo ou não, há uma identificação com o protagonista, uma vez que todos possuímos várias personalidades perante a sociedade, enquanto filhos, pais, profissionais, amigos, netos, etc. Também possuímos nosso lado bom e também um lado negro.

Ao invés de explorar essas nuances típicas de qualquer ser humano, o terceiro ato busca provocar a repulsa do espectador por Kevin. Se o caminho até ali pouco apresentava de sangue e violência, a conclusão aposta nesse combo, somado a elementos sobrenaturais. Nos últimos 30 segundos de projeção, Shyamalan tenta fundamentar suas escolhas ao instaurar a trama em uma outra realidade, com direito a participação especial de uma estrela de Hollywood.

Mesmo desconsiderando essa última sequência, "Fragmentado" como um todo carece de cuidados. O filme não é bem orquestrado, deixando seu privilegiado lugar como suspense psicológico para um descambar para um filme de serial killer ou uma fantasia. Falta a complexidade presente em seus primeiros longas, como "O sexto sentido", "Corpo fechado", "Sinais" e "A vila".

Apesar de detalhes importantes como estes, o filme é um bom suspense (gênero praticamente esquecido pela indústria), sendo bastante tenso e instigante. Revela-se também um retorno ao topo para o diretor. O projeto faturou mais de US$ 125 milhões nas bilheterias norte-americanas em apenas três semanas, tornando-se o filme de terror mais rentável dos últimos anos. Desta forma, Shyamalan deixa para trás os recentes fracassos como "Depois da terra", "A dama da água" e "O último mestre do ar", e inaugura um novo - e quem sabe promissor - ciclo.

Nota: 7,5

Crítica: Homem-Formiga


"Homem-Formiga" chega a público cercado de preconceitos. Não bastasse o nome de caráter duvidoso, ainda é mais fácil acreditar na vinda de um deus, filho de Odin, para salvar a Terra do que na história de um homem capaz de encolher até o tamanho de um inseto. Mesmo com essa incredulidade, quem for ao cinema, não deve se arrepender.

O personagem praticamente desconhecido surgiu nos quadrinhos em 1962 sob o nome de Hank Pym, um cientista que criou partículas aptas a controlar a massa e a altura de um indivíduo. A versão cinematográfica não traz o inventor como protagonista. Ele é interpretado por Michael Douglas e vira uma espécie de mentor para o ladrão Scott Lang (Paul Rudd), que vestirá o poderoso uniforme. Apesar de pequenino, o herói mantém sua força física. 

Um dos maiores méritos da nova produção da Marvel é justamente fazer o público comprar a ideia do defensor em miniatura. Demora um pouco, mas o espectador envolve-se com o amigo das formigas. Parte dessa conquista é sustentada pelos atores do longa-metragem. Rudd é puro carisma. Ganha a simpatia logo nas primeiras aparições como o habilidoso assaltante. 

O restante do time é de igual competência. O veterano Douglas transmite confiança e seriedade à trama como o cientista Pym, o primeiro a vestir o traje do Homem-Formiga. Enquanto isso, sua filha, a misteriosa Hope, interpretada por Evangeline Lily, mescla frieza e emoção. Na esfera cômica, Michael Peña rouba as cenas como o divertido amigo do herói.  

O ponto alto do projeto é a comunicação de Lang com as formigas, suas principais aliadas. As cenas de ação dentro do formigueiro ou em canos de água são as mais empolgantes. Os voos de Lang, montado na formiga Anthony, também enchem os olhos. Pena que esses momentos são intercalados com outros que não estão à altura, o que compromete o ritmo da produção. 

A principal influência sobre essa oscilação é Daren Cross, interpretado por Corey Stoll, o Peter Russo de "House of Cards". No papel do vilão, o ex-pupilo de Pym pretende vender as partículas para grandes corporações, colocando o segredo do super-herói em risco. Suas aspirações não são bem trabalhadas pelo roteiro e, quando surge na tela o Jaqueta Amarela, a versão dele em capa e raios lasers, há pouco impacto e veracidade. 

Mesmo um pouco irregular, com uma trama que alterna humor, ação e até drama familiar, o longa-metragem pode ser considerado um filme menor do estúdio, um entretenimento leve e divertido, não mais que isso. Sua esperteza maior é mostrar que as aparências realmente enganam e o tal Homem-Formiga pode ser um novo e interessante personagem para a Marvel - inclusive para a turma dos Vingadores.

Nota: 7

Crítica: Sin City: A Dama Fatal



Quase dez anos separam os dois filmes sobre Sin City. O hiato deu-se, principalmente, por problemas legais, visto que o primeiro projeto foi um sucesso de público e crítica. Com o lançamento de "A Dama Fatal", as comparações são inevitáveis. Se ambos relatam histórias de personagens marginalizados como prostitutas, bêbados e criminosos, diferem no teor e na qualidade dos contos.

Enquanto a estreia de "Sin City", em 2005, apresentava um conjunto coeso de histórias, sendo as três excelentes tramas sobre as figuras mais icônicas da graphic novel, "A Dama Fatal" oscila com tramas mais e menos interessantes, sem manter um ritmo crescente. A abertura com uma fantástica apresentação de Marv oferece todo o impacto proposto pela produção que imita os quadrinhos. Porém, essa prévia logo é esquecida, deixando o brutamontes como um coadjuvante nos enredos protagonizados por outros personagens.

Assim, ele junta-se à narrativa que envolve Dwight (Josh Brolin, substituindo Clive Owen) e sua femme fatale Ava Lord, interpretada por Eva Green, no trecho que ocupa a maior parte da exibição. O ponto alto é a beleza nua da atriz francesa, que se despe praticamente a cada cena, o que faz sentido para uma personagem que a todo momento utiliza a sua principal arma de sedução. Infelizmente o conto que dá nome ao filme não é o melhor em tela. Cai facilmente em clichês estúpidos e numa previsibilidade banal.

Em contrapartida, a trama protagonizada pelo jovem apostador Johnny (Joseph Gordon Levitt, estreando na série) revela-se a mais completa e semelhante à primeira experiência em Sin City. Sua jornada trágica e violenta apresenta, mesmo que em dois momentos, no início e no fim da exibição, a verdadeira face de uma brutal cidade que não poupa ninguém.

Completando a trinca, Nancy (Jessica Alba, em danças ainda mais sensuais) encerra o longa-metragem com uma breve tentativa de vingança ao senador Roark, culpado pela morte de sua paixão John Hartigan (Bruce Willis, em pequenas aparições como fantasma). Os rápidos minutos oferecem a adrenalina necessária, mas a agilidade em conduzir a tão esperada revanche soa simplista demais.

Apesar de deixar a desejar em roteiro, o visual deslumbrante desta suposta continuação recompensa, principalmente quando exibido no cinema. A tecnologia 3D, como em raras vezes, surpreende, não tanto pelos elementos saírem da tela mas pela profundidade e dinâmica no quadro. Logo no início do filme, sequências incríveis como de um desfiladeiro, carros girando em torno de Marv ou a neve caindo sob os prédios são de arregalar os olhos.

"Sin City: A Dama Fatal" pode não ser tão incrível e original como o primeiro projeto, mas a cidade e os soturnos moradores ainda seguem fascinantes. Suas histórias marginais, motivadas principalmente pela sede de vingança, ainda são um presente para os fãs da graphic novel e, também, do cinema noir, gênero esquecido na produção cinematográfica mais recente. Embora o passeio não apresente o mesmo frescor de antes, ainda é muito bom visitar a cidade do pecado.

Nota: 7,8

Crítica: O Protetor



Antes mesmo do lançamento de "O Protetor" nos cinemas, o estúdio da Sony já havia encomendado uma sequência do filme para 2015. A notícia comprova a clara intenção de transformar o projeto em uma franquia, seguindo o estilo do seriado dos anos 1980 "The Equalizer", o qual o filme é baseado. Como esse primeiro capítulo estreou em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos,  do Canadá e do Brasil, a decisão foi acertada.

"O Protetor" acompanha a vida de Robert Call (Denzel Washington), que durante o dia trabalha como atendente em uma loja de ferramentas e à noite lê livros na lanchonete da esquina de casa. Lá, ele conhece uma prostituta russa (Chloë Grace Moretz) sob esquema de tráfico de pessoas. Assistindo aos abusos que a jovem sofre diariamente, Robert decide agir. 

O homem pacato revela ser uma máquina de matar, enfrentando todo o eixo leste da máfia russa em sequências cada vez mais violentas. Tem-se mortes com abridores de garrafas, peso de papel, arames farpados e até furadeiras. E, além da defesa da sua protegida, o veterano passa a ajudar aqueles a sua volta, como os colegas de trabalho. 

Robert, na verdade, é um ex-agente da CIA que trabalha no comércio para disfarçar a sua perigosa personalidade. Provocado pelas injustiças sociais, ele sai das sombras e se torna um justiceiro, praticamente um herói urbano. O que intriga é se esse rastro de sangue terá consequências, pois pouco mostra-se sobre o aval de seus superiores quanto ao método sem freios do Protetor. 

No auge da carreira, com um salário de 20 milhões de dólares, Denzel Washington protagoniza a suposta série de títulos e convence como um sujeito ameaçador, hábil em inúmeros golpes - mesmo estando prestes a completar 60 anos. Na outra ponta da balança, Marton Csokas equilibra o duelo como um vilão igualmente sombrio. 

Porém, o embate entre eles somente ocorre nos últimos minutos da projeção. O diretor Antoine Fuqua aposta em um ritmo lento no início, que desenvolve a relação do policial aposentado com a garota - o que seria a motivação para revelar sua verdadeira identidade. Somente na segunda metade que a produção ganha ares de filme de ação.

"O Protetor", a nova parceria entre Washington e o cineasta (os dois haviam trabalhado juntos em "Dia de Treinamento", que rendeu um Oscar para o ator), é um bom entretenimento. O sucesso nos cinemas só torna ainda mais garantido o futuro da franquia. Não por menos os produtores deixaram uma pista ao final do filme, quando o herói atende um pedido de ajuda pela internet. Exatamente como ocorre a cada novo caso do seriado.

Nota: 7

Crítica: O Lugar Onde Tudo Termina


“O Lugar Onde Tudo Termina” marca o reencontro do diretor Derek Cianfrance e o ator Ryan Gosling. A dupla esteve junta no drama “Namorados para sempre”, primeiro longa-metragem do cineasta. Nessa segunda incursão cinematográfica, Cianfrance manteve o tom realista e delicado, criando uma obra profunda e humana sobre pais, filhos e consequências. Uma saga familiar multigeracional da qual ninguém sai impune. 

O filme é claramente dividido em três atos. O primeiro – e o mais interessante – envolve o motociclista de globo da morte, Luke (Gosling) que, para oferecer melhores condições para seu filho, torna-se um ladrão de bancos. O segundo é sobre um  policial novato na corporação (Bradley Coooper) que vira herói do dia para a noite. A terceira parte é sobre dois jovens que carregam o peso do destino nas costas. 

Escrito por Cianfrance e Ben Coccio, o roteiro aborda momentos que definem a vida dos personagens. São decisões e  consequências que afetam, inclusive, gerações posteriores. Dessa forma, os dois primeiros atos preparam para o derradeiro capítulo, em que tudo colide, numa acentuada catarse de sentimentos proferida por um personagem que vem a ser o reflexo do passado. 

Parte da intensidade do projeto deve-se ao elenco. Gosling, no auge de sua carreira, encontra-se hipnótico em cena, conferindo a sua participação o ponto alto do filme. Cooper segue a frutífera investida em papéis sérios (“As Palavras”, “O Lado Bom da Vida”) e mostra-se mais uma vez competente. Completando o time, Eva Mendes surpreende como Romina, par romântico do motociclista e talvez a personagem que mais sofre ao longo dos três atos.  


“O Lugar Onde Tudo Termina” configura como mais um êxito do cineasta. Apesar das partes divergirem em qualidade – a central é a mais fraca -, torna-se difícil, em qualquer momento, tirar os olhos da tela. O diretor e roteirista constrói uma trama dramática e nervosa, interligada pela sensibilidade tocante com a qual apresenta as figuras que criou. Por este especial exercício, Cianfrance é um nome para ficar atento no futuro. 

Nota: 7,8

Crítica: Guerra Mundial Z


Lembra daquela cena no filme "Independence Day" em que a população está nas ruas, presa no tráfego, tentando fugir, e aparece uma nave alienígena? Na abertura de "Guerra Mundial Z", a sequência praticamente se repete, em um grau de tensão mais elevado. A ameaça é uma epidemia que transforma as pessoas em zumbis. Ao fim da rua, escuta-se uma explosão e o pânico se alastra, somado ao ataque de inúmeras criaturas sedentas por sangue. 

O início arrebatador do novo longa-metragem de Marc Foster ("Em Busca da Terra do Nunca") concentra-se em apresentar o trágico cenário que se sucede quando uma contaminação em nível mundial atinge à raça humana. Remete, em certos momentos, a produções como Contágio e 2012, conforme a gravidade apocalíptica adotada. Inclui-se ao quadro assustador, uma trilha sonora pesada que pontua a trama, aumentando a dose de adrenalina. 

Na linha de frente do projeto, Brad Pitt interpreta Gerry Lane, um ex-investigador da Organização das Nações Unidas (ONU), que havia se aposentado e estava cuidando da esposa e das duas filhas. O agente é obrigado a voltar a ativa para garantir a segurança de sua família em um navio militar. Assim, Lane viaja pelo mundo na tentiva de encontrar a cura para a pandemia. 

As habilidades insubstituíveis do protagonistas, constantemente citadas por seu superior, nunca vêm a tona. Seu diferencial é apenas alguns músculos e uma constatação que fica evidente para qualquer observador. Para chegar a essa conclusão, ele vai à Coreia do Sul e à Israel – dois momentos em que o longa-metragem perde o fôlego, investindo em situações banais. Volta a ficar interessante no último ato, passado em um laboratório clínico, com sequências de roer as unhas.

Temas característicos de filmes de zumbi como epidemia, luta pela sobrevivência e mutações estão presentes em "Guerra Mundial Z", mas a produção é, essencialmente, um filme de ação. Distante do terror, resulta em um filme catástrofe que substitui o aquecimento global e a fúria da natureza pela ameaça de mortos-vivos. Outro fator que deixa evidente a fuga do gênero original é a ausência de sangue, mesmo ao decepar um braço ou esmagar uma cabeça. A violência implícita foi a alternativa para garantir a censura de apenas 12 anos, que possibilita uma diversão para quase toda família.

"Guerra Mundial Z" consagra a alta popularidade das criaturas devoradoras de miolos, que recentemente receberam animações ("Paranorman"), seriados ("The Walking Dead"), filmes românticos ("Meu Namorado é um Zumbi"), inserção em clássicos da literatura ("Orgulho e Preconceito e Zumbis") e agora um blockbuster no currículo. A produção milionária – e com claro objetivo de lucro – resulta em duas horas de pura diversão. E, ao menos, não ofende o gênero. 

Nota: 7,7

Crítica: Terapia de Risco


Considerado o melhor filme de Steven Soderbergh desde “Traffic”, “Terapia de Risco” vem para mostrar que o diretor pode fazer filmes que não sejam tão chatos como boa parte dos exemplares de sua carreira. Após o auge com “Erin Brockovich” e “Onze Homens e um Segredo”, esteve envolvido em projetos blase, como “Full Frontal”, “Bubble”, “O Desinformante”, “O Segredo de Berlim” e “Confissões de uma Garota de Programa”. Até os mais recentes sofreram desse mal. “Magic Mike” é divertido, porém vazio. E “À Toda Prova” é apenas vazio. 

“Terapia de Risco” possui um interessante ponto de partida. Emily Hawkins (Rooney Mara) é uma jovem mulher que toma diversos medicamentos para conter a ansiedade pelo fato de que seu marido (Channing Tatum) está prestes a sair da prisão. Para lidar com a depressão profunda, busca um tratamento psicológico com o doutor Jonathan Banks (Jude Law). A combinação desses remédios provoca efeitos inesperados que mudam o rumo da história. 

Como os demais projetos de Soderbergh, este também conta com um time de astros. Rooney Mara, após o sucesso de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, é a atração principal do longa-metragem. Despida de elementos góticos, ela está bem diferente da hacker Lisbeth. Um desempenho competente, mas nada extraordinário. Por outro lado, Jude Law destaca-se com o personagem mais consistente em cena e roubas as atenções para si. Enquanto isso, Catherine Zeta-Jones encontra-se novamente exagerada e caricata – vide “Rock of Ages”. 

O thriller desenvolve uma curva ascendente de tensão e inquietude em pouco mais de 90 minutos. O cineasta contribui com um produto estiloso, fundamentado em um cenário contemporâneo frio e de poucos e ternos contatos humanos. Perde um pouco o foco em sua segunda metade, quando despreza a indústria farmacêutica como vilã (leia-se o ponto alto do filme), para enveredar por uma reviravolta de cunho policial. A escolha não tão é eficaz. 

“Terapia de Risco” assume seu lado banal ao concluir a trama, sem recompensar com um grande final o espectador que acompanhou o desenrolar do mistério. É um filme bem construído, curioso e envolvente, até com jeito de produção cult. Porém, se não fosse pelos atores famosos, passaria batido nos cinemas. No fim, é mais do mesmo.

Nota: 7

Crítica: Sem Segurança Nenhuma




A cada ano diversos projetos independentes são chamados de “a sensação do Festival de Sundance”. O encontro que ocorre anualmente em janeiro em Park City, Utha, é a premiação alternativa mais badalada do cinema e, recentemente, consagrou diversos projetos, como “Pequena Miss Sunshine”, “Ruby Sparks”, “Loucamente Apaixonados”, “Indomável Sonhadora” e “As Sessões”. Este ano, a comédia dramática “Sem Segurança Nenhuma” tornou-se o queridinho indie do evento ao ter seu roteiro agraciado com o Waldo Salt Screenwriting Award para Derek Connolly. 

Na trama, homem publica nos classificados de um jornal que precisa de um companheiro para viajar no tempo. Nas poucas linhas escritas, ele conta que já realizou o experimento uma única vez e pede para que o passageiro leve suas próprias armas, pois a “segurança não é garantida” (referência ao título original). O caso curioso desperta o interesse de um jornalista, que parte uma cidade do interior com dois estagiários para investigar o caso. 

Entre os quatro personagens, quem rouba a cena é Darius, a estagiária escalada para interagir com o “maluco”, interpretada por Audrey Plaza (do seriado Parks & recreation). A relação desenvolvida entre a dupla é a tônica do filme. Darius encontra em sua fonte jornalística alguém parecido com ela e isso faz com que deixe ser triste e antisocial, como define seu pai em uma das cenas do início. Ela finalmente se sente parte de algo e até começa a acreditar que pode voltar no tempo. 

A narrativa esperta mistura drama, romance e ficção científica de forma simples e inteligente. Tiradas de humor também são sabiamente pontuadas durante a exibição, além de uma trilha sonora bacana, com direito a Brick by brick do Arctic Monkeys. Esse conjunto de atribuições define com excelência o resultado de uma produção independente despretenciosa e cativante. Um feito concretizado com êxito neste projeto.

Boa parcela desse mérito deve-se também ao carisma dos personagens desajustados. E o mais interessante é que cada um deles fará descobertas ao longo do filme. Apenas o enredo do jornalista Jeff (Jake Johnson) que, apesar de ser bem interessante, torna-se inconclusivo. Já a dúvida quanto a veracidade do anúncio, mantida até o último instante, deixa para o clímax a revelação se a tal máquina do tempo realmente existe ou é apenas fruto da imaginação do sujeito. 

Com apenas uma hora e 25 minutos, “Sem Segurança Nenhuma” revela-se um filme eficiente e terno sobre as relações humanas. O primeiro longa-metragem de Colin Trevorrow, oriundo do Sundance, é uma surpresa extremamente agradável. Por isso, é mais que merecido ser chamado de “a mais nova sensação do cinema independente”.   

Nota: 7,9

Crítica: O Voo



Os acontecimentos de “O Voo” são tão passíveis de ocorrer fora da tela que o filme poderia receber o selo de “baseado em uma história real”. Na trama do novo filme de Robert Zemeckis (“Forrest Gump”, “Náufrago”), o piloto de avião Whip Withaker, interpretado por Denzel Washington, depara-se com uma falha mecânica que provoca o mergulho em queda livre da aeronave. Withaker consegue, através de uma manobra surpreendente, salvar boa parte dos passageiros. O feito louvável o transforma em herói americano. Entretanto, um exame de sangue posterior ao acidente comprova a existência elevada de álcool no organismo do piloto. Withaker dirigiu o avião embriagado. 

A partir desse ponto, o filme desenvolve questionamentos éticos sobre a possível culpa do comandante quanto à morte de quatro passageiros e dois tripulantes, decorrentes da aterrissagem forçada. A problemática, que poderia facilmente ser um acontecimento verídico, é mais complexa do que se pode julgar de imediato. Assim, o roteiro explora dualidades essenciais, como por exemplo: ao mesmo tempo que demonstrou ser um excelente piloto, evitando o provável desastre aéreo, Withaker também recebe repreensões por sua conduta, que, caso não estivesse alcoolizado, poderia ter salvo mais pessoas. Será?

Em uma de suas melhores atuações, Washington assume o personagem com um desempenho irretocável, apresentando-o de forma humana, na oscilação entre as faces de farrista, ameaçador, arrependido e bêbado. O ponto máximo é o seu depoimento durante o tribunal de acusação. Completam o elenco, os competentes Don Cheadle, Tamara Tunie, Melissa Leo e James Badge Dale, em ponta marcante como um paciente terminal. 

A narrativa de “O Voo” desenvolve-se em dois períodos. O início é de ação, com as cenas sufocantes do acidente - este que é peça fundamental para os futuros acontecimentos. O restante do filme avança pelo drama, com direito a uma subtrama desnecessária, que envolve Kelly Reilly como uma drogada. De tão descartável, a atriz nem aparece no trailer do projeto. Porém, o roteiro insiste em torná-la importante, colocando seus momentos intercalados, inclusive, com o que ocorre no interior do avião. Essa tentativa de par romântico serve apenas para aumentar a duração do filme.  

Zemeckis comanda o espetáculo com a experiência de veterano no cinema, valorizando o que seu projeto tem de melhor: a atuação do protagonista, a tensão do acidente, o questionamento ético e a aceitação do alcoolismo. Mesmo com os últimos minutos tendendo a uma lição de moral e frases de efeito/clichê, “O Voo” consegue um resultado excepcional ao apresentar um caso polêmico que, ao invés de dividir opiniões, deixa o espectador com dificuldade de escolher um lado. 

Curiosidade
O longa-metragem inspirou-se no fato verídico ocorrido em 2000, em que um avião rumo a Chicago, repentinamente, mergulhou em direção ao solo. O piloto precisou colocar a aeronave de “cabeça para baixo” a fim de estabilizá-la. Ao contrário do filme, o pouso não foi bem-sucedido. Nenhum passageiro sobreviveu.

Nota: 7,8

Crítica: Os Miseráveis



"Os Miseráveis" é um sucesso desde que foi lançado em 1962. Vendeu mais de sete mil exemplares nas primeiras 24 horas na capital francesa. Durante as décadas seguintes, a história de Jean Valjean foi assistida por mais de 60 milhões de espectadores no teatro e adaptada 46 vezes para o cinema e a televisão. Este ano, Hugh Jackman interpreta o coitado que roubou um pão, tornou-se prisioneiro e acabou perseguido para sempre pelo inspetor Javert (Russel Crowe). Então, a pergunta é: o que esta recente versão apresenta de novo?

Após a consagração de "O Discurso do Rei" com cinco Oscars, Tom Hooper poderia escolher o projeto que quisesse. A decisão foi recontar a obra de Vitor Hugo, igualmente famosa por sua versão musical na Broadway. O visual primoroso é o maior mérito da atualização do clássico. Um trabalho magnífico de direção de arte, fotografia, figurino e maquiagem – requisitos merecidamente indicados aos Oscar. 

Além da atmosfera histórica, recriando o período da Revolução Francesa de forma impressionante, o cineasta foi bem sucedido ao desafiar os atores a cantarem ao vivo durante as filmagens, sem a gravação em estúdio e posterior dublagem. Por um lado, o canto perde um pouco em qualidade, mas, por outro, a atuação é potencializada na sua carga dramática. A técnica valorizou as interpretações de Hugh Jackman – em sua melhor performance - e Anne Hawthaway, que levou o Oscar como Atriz Coadjuvante. 

O núcleo da trama que envolve Jackman e Hawthaway é o mais interessante do projeto. Nos 40 minutos iniciais, em que os dois contracenam juntos, "Os Miseráveis" é um musical perfeito, envolvente e vigoroso desde as cenas em que o pobretão Jean Valjean é humilhado por Javert até ele receber a ajuda de um bondoso padre e dar a volta por cima. Nesse contexto, surge Fantine, funcionária da fábrica gerenciada por Valjean, que perde o emprego e sucumbe à prostituição para ajudar a filha.    

Após essa primeira parte inspirada, o longa-metragem vai perdendo o ritmo com uma série de tramas tediosas, como os insuportáveis tutores de Cosette (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), o romance morno entre a jovem (Amanda Seyfried) e Marius (Eddie Redmayne) e, por fim, o cenário de luta armada, ápice da revolução, que, infelizmente, carece de emoção. Até mesmo as músicas perdem a graça ao longo da narrativa, com exceção daquelas cantadas pela trágica personagem Éponine (Samantha Barks) e o hino absoluto do projeto, "One More Day".

Mesmo sendo cansativo, "Os Miseráveis" mantém-se grandioso, somando cenas icônicas que ficarão para a história do cinema. A principal marca do filme é a ausência de diálogos. Cantado do início ao fim, pode provocar repulsa em alguns avessos ao gênero. O sucesso comercial – e também em premiações -, provavelmente, deve-se ao fato da história ser muio familiar aos americanos. Ao restante do mundo, não tão apaixonado pela obra, o resultado é um bom filme, irregular ao longo de seus 157 minutos, mas que vale a sessão pela pompa e pelo capricho visual como conta sua história. 

Nota: 7,5

Crítica: O Lado Bom da Vida



Exemplares de comédia, terror e ação não costumam figurar em listas de premiações. O drama, geralmente, é o gênero favorito às láureas. Portanto, quando uma comédia romântica conquista oito indicações ao Oscar, é preciso ficar atento a esse campeão. “O Lado Bom da Vida” deve boa parte de seu mérito ao elenco inspirado e, também, ao comando competente do diretor. Além disso, um elemento-chave: personagens fora do controle, atípicos à cartilha tradicional do gênero. O filme de David O. Russel é uma história que você provavelmente já assistiu, porém, apresentada de forma madura, verdadeira e detentora de um charme irresistível.

A trama, baseada no livro homônimo de Matthew Quick, gira em torno de Pat  (Bradley Cooper), um professor de História que surta após flagrar a esposa o traindo com um colega do trabalho. Ele é diagnosticado bipolar, internado em um hospital psiquiátrico por oito meses e, após receber alta, volta a morar com o pai (Robert DeNiro) e a mãe (Jacki Weaver). Pat pretende recomeçar sua vida, mas encontra-se obcecado em ter de volta o amor da esposa. É perdido nessa missão de reconquista que ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma garota de sua vizinhança que recentemente ficou viúva e também passou por um período sombrio. A afinidade entre eles surge justamente a partir dos traumas compartilhados.

Pat e Tiffany são dois adultos que perderam o equilíbrio frente a situações estressantes. Tornam-se amigos ao dividir suas experiências. E, aos poucos, percebem que são feitos um para o outro. São essas figuras complexas e reais que salvam o filme do trivial, personagens valorizados pela surpreendente atuação de Bradley Cooper (“Se Beber, Não Case”) como o maníaco depressivo e a perfomance sexy e hipnótica de Jennifer Lawrence (“Jogos Mortais”), vencedora do Globo de Ouro 2013 como Melhor Atriz.


Para unir esse casal disfuncional, nada melhor que divertidas (e reveladoras) aulas de dança. Alguma dúvida de que o filme terminará em uma competição esportiva? Esse é apenas um dos clichês presentes no roteiro. “O Lado Bom da Vida” não se importa que muitas cenas clássicas do gênero estejam no pacote. Seu ponto forte é tornar esses momentos verdadeiros. Escolhas acertadas de David O. Russell, um cineasta que se reinventou nos últimos anos, e que repete o feito de seu projeto anterior, “O Vencedor”, em que transformou uma história tradicional num potente e prazeroso entretenimento.

Nota: 7,9

Crítica: Lincoln



Depois das críticas ao exagero e didatismo de “Cavalo de Guerra”, Steven Spielberg avançou por um caminho mais seguro no drama histórico “Lincoln”. Ao enveredar pela vida do 16º presidente dos Estados Unidos, preferiu dar destaque à principal causa defendida pelo republicano: a abolição da escravatura. O filme não é necessariamente uma cinebiografia do personagem, revela-se um episódio altamente político da aprovação da 13ª emenda à Constituição e o fim da guerra civil, momentos marcantes para a transformação da América.

Entre jogos de poder e burocracias políticas, Abraham Lincoln negocia e utiliza até da corrupção para dar fim aos seus objetivos. São necessárias duas horas e 30 minutos para a produção concretizar na tela o feito tão importante que o presidente almeja. O conteúdo político torna a exibição em diversos momentos cansativa, mas o peso não interfere na construção desse belo exemplar de um registro histórico. A direção de arte retrata o período com perfeição, assim como o primoroso trabalho de maquiagem em Daniel Day-Lewis para torná-lo idêntico à figura pública que representa.

Como já não é novidade, o ator brilha em cena, principalmente, quando relata histórias e casos particulares como analogias para reafirmar seu ponto de vista em discussões. O esforço do ator mais uma vez impressiona. Porém, o que não encontra equilíbrio durante a sessão é como o roteiro trata a imagem do presidente, resumindo-o como um senhor bonzinho, fraco, cansado e com uma causa que o deixa inquieto. A fala lenta de Lincoln impede um rompante com verve de Day-Lewis, o que deixa a representação do personagem distante de uma demonstração poderosa da responsabilidade que está nas suas mãos.

Spielberg, que já havia trabalhado com o tema da escravidão em “Amistad”, comanda o projeto com pulso firme. Não há sentimentalismos e ode à nação. Uma oportunidade para conhecer o homem que promoveu o progresso humano em uma época de preconceitos. “Lincoln” aborda em essência a luta pela liberdade e o sentido de democracia, dentro de sua abordagem verídica.   

Nota: 7,2

Crítica: Marcados para Morrer



Diretor de “Tempos de Violência” e “Os Reis das Ruas”, além de roteirista em “Dia de Treinamento”, David Ayer demonstra em sua filmografia uma forte ligação com a luta contra o crime. Em seu novo projeto, “Marcados para Morrer”, o cineasta segue com a temática e exalta a classe policial, começando pela narração que abre o filme e apresenta os profissionais como heróis do dia a dia, limpando as ruas dos maus elementos. 

A história é, mais uma vez, o retrato das atividades diárias da polícia. Os colegas Brian (Jake Gyllenhaal) e Zavala (Michael Peña) personificam a organização. Sua tarefa é patrulhar uma das áreas mais perigosas de Los Angeles. Entre uma ocorrência e outra, atendendo incêndios, casos de crianças desaparecidas e caçadas a criminosos, a dupla irá se envolver com uma perigosa quadrilha organizada. Apesar do filme caminhar para uma trama específica de ação, a veracidade do projeto fica com a demonstração de companheirismo entre os personagens. 

Gyllenhaal e Peña (ambos ótimos) demonstram naturalidade na pele dos agentes, confirmando uma irmandade autêntica entre eles. São profissionais quando se faz necessário, os inimigos do tráfico, corajosos e destemidos, mas também mostram-se brincalhões e confidentes no contato diário, dentro da viatura. O filme apresenta ainda a vida além da farda, com os dois amigos interagindo fora do trabalho, com a esposa de Zavala e a namorada de Brian.

Uma escolha duvidosa da produção foi utilizar câmera em primeira pessoa. A justificativa é que Brian está filmando um documentário para a faculdade, porém, a gravação é inquieta, mesclando o treme-treme dessa perspectiva com as imagens do cinegrafista. O que não faz sentido. Não acrescenta ao filme, porque a sensação de realidade não é tão poderosa que não pudesse ser feita de maneira convencional.

Mais uma consideração importante é a falta de originalidade no núcleo de ação. Carece de uma motivação maior que torne essa subtrama mais relevante e envolvente ao restante da história. O capítulo acaba se desenvolvendo nos minutos finais e deixa uma sensação de vazio. Por este motivo, a potência de “Marcados para morrer” (péssimo título nacional) resulta da intensa relação da dupla de policiais. O diretor oferece um bom filme do gênero, amparado na sintonia dos protagonistas, e, apesar da escassez em novidades, permanece como um clichê gostoso de assistir.

Nota: 7,3

Crítica: Amor



O fim da vida não abre exceções. E "Amor", novo filme do diretor austríaco Michael Haneke, apresenta esse término através do penoso envelhecimento de um casal. Desenvolvido inteiramente dentro de um apartamento, a história acompanha Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), ambos pianistas e intelectuais, que parecem não se abalar com os problemas da idade. Isso até precisarem encarar a degradante realidade quando Anne sofre um AVC e tem seu lado direito paralisado.

O laço que une o casal é tão forte que Georges não demonstra incomodar-se com os novos cuidados à esposa. Ele descarta a possibilidade de levá-la a um hospital ou interná-la em um asilo. Quer Anne ao seu lado, sob sua supervisão. Essa dedicação apresenta-se como prova do companherismo e do afeto que sentem um pelo outro. Um amor alheio ao restante do mundo, o qual não parece existir além das janelas daquele cenário comum à dupla.

O espectador observa atenta e lentamente a transformação da charmosa e elegante artista em uma pessoa doente, incapaz de ter sua independência e até mesmo a racionalidade. O humilhante estado da velhice é mostrado por meio de cenas do cotidiano, como tomar banho e se alimentar. O incansável marido tem ciência de qual será o destino de sua amada – e o seu próprio. E não luta contra isso. Aceita.

As poucas visitas que circulam pelo soturno apartamento são da filha, de um aluno de música e duas enfermeiras, além de uma pomba que persiste em entrar no recinto. Seria uma analogia para dizer que o que se encontra ali está morto, abandonado ou próximo do fim? A resistência à vida não tarda a enfraquecer e o desfecho, assim como o restante da exibição, é desesperador.

Premiado com a Palma de Ouro em Cannes e indicado a cinco categorias no Oscar 2013, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro, "Amor" destaca-se pelo fiel retrato das fragilidades diante da morte, com um olhar poético e triste sobre a relação desses personagens. O ponto alto, sem dúvidas, vai para as atuações impecáveis dos dois ícones do cinema francês. A fantástica performance de Emmanuelle Riva é de uma entrega tão verdadeira que assombra mesmo após a sessão. Digna de todos os prêmios. 

Nota: 7,5