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Crítica: "O Lobo de Wall Street"



A idade não amoleceu o coração do homem que trouxe “Caminhos Perigosos”, “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”. Aos 71 anos, Martin Scorcese mostra que continua ousado e controverso com “O Lobo de Wall Street”, uma história verídica recheada de sexo, violência, linguajar chulo e muitas drogas – não por menos a produção foi censurada para menores de 18 anos.

O longa-metragem é baseado no livro homônimo de John Belfort, que relata sua experiência no mercado de ações. Ambicioso desde jovem, ele se tornou multimulionário aos 26 anos. Sua brilhante jogada foi investir em papéis de baixo valor e fora da Bolsa de Valores, tornando-se líder de um esquema de corrupção. Como presidente da Stratton Oakmont, transformou a empresa em uma espécie de máfia ou um centro religioso, que chamava seus corretores de Mestres do Universo.

A rápida ascensão de Belfort e de seus companheiros possibilitou uma vida frenética de diversão sem limites, dentro e fora do escritório, com festas homéricas com direito a prostitutas, substâncias alucinóginas e até mesmo anões. Sem freios para controlar uma fortuna diária em chegava em sua conta, os exageros e as inconsequências levaram o novato empresário a perder o controle de seu império.

Na pele do protagonista, Leonardo DiCaprio realiza sua quinta parceria com o diretor e, de quebra, oferece a melhor atuação da carreira. O Belfort de DiCaprio é exagerado, hipnotizante e carismático, influenciador não apenas de todos os personagens em cena como também da plateia que acaba torcendo pelo anti-herói – apesar da abordagem neutra de Scorcese.

Mais que um filme sobre Wall Street, “O Lobo” é um estudo de personagem, uma história excitante sobre um jovem se descobrindo na década de 1980, buscando seu lugar no mundo e querendo usufruir tudo que a vida pode oferecer. Belfort não queria apenas existir. Ele queria mais e nada era o bastante. Sua trajetória não é inspiradora, mas provoca a reflexão sobre quando se tem tudo o que deseja. É a desastrosa combinação de poder, drogas e dinheiro.

Apesar dos fatos terem ocorrido durante os anos 80, o filme é extremamente atual. A abordagem cinematográfica não dispensa certas críticas, como a corrupção dos corretores e a conquista do sonho americano a qualquer preço. O símbolo dessa distorcida realidade é o personagem de Matthew McConaughey (fantástico em poucos minutos em cena), que ensina Belfort todos os “truques” do negócio sujo.

Com mais de 30 títulos no currículo, Scorcese supera-se em uma obra agressiva, obscena e visceral. A duração de três horas não é empecílio, pois o diretor comprova o completo domínio do que ocorre na tela. Ele brinca com o ritmo da produção, alternando múltiplas cenas aceleradas com momentos em que prefere diminuir o fluxo e se deliciar com uma longa sequência, como a hilariante aventura compartilhada por Belfort e seu amigo Donnie (Jonah Hill, inspirado) ao tomar um vidro de comprimidos vencidos.

“O Lobo de Wall Street” já é um marco na carreira do diretor. Um filme memorável, com uma história vibrante e surpreendente, em perfeita sintonia com seu elenco. O projeto ainda é afinado por passagens cômicas e uma trilha sonora rock´n´roll. De absurdos e hedonismo exarcebado, nasce mais um clássico para a consagrada filmografia de Scorcese.

Nota: 9

Nine


Rob Marshall retornou ao gênero que lhe consagrou em 2002 com o filme “Chicago”, vencedor de cinco Oscar. “Nine”, na verdade, é um musical da Broadway encenado desde 1982 e baseado no filme “8 ½” de Fellini. A missão do diretor era transpor para as telas a versão dos palcos com muito mais glamour, cortes, coreografias e astros do cinema.

Assim como na obra original, a trama gira em torno de Guido Contini, cineasta famoso que cometeu dois fracassos retumbantes nos últimos anos. O próximo filme é um épico sobre o seu país de origem, a Itália, e é com esse projeto que vem a chance de voltar aos holofotes. Conforme a produção técnica vai definindo os cenários, figurinos, casting e outros detalhes, o diretor que ainda não apresentou o roteiro a ninguém sofre com dificuldades de desenvolver a primeira linha do texto.

A crise de Guido reflete na sua carreira, nas mulheres de sua vida e, conseqüentemente, no roteiro do seu novo filme. Para realizar a obra cinematográfica, primeiro ele terá que lidar com as desconfianças da sua esposa (Marion Cotillard), o fogo incontrolável da amante (Penélope Cruz) e a sedução das fãs (Kate Hudson). Tentando sobreviver em meio ao caos, o personagem volta e meia conversa com o fantasma da mãe (Sophia Loren), relembra fatos determinantes para o seu crescimento, como a primeira experiência com a sensualidade feminina (Fergie) e escuta atentamente os conselhos de uma amiga de anos (Judi Dench).

Guido é estereótipo do homem italiano: másculo, sedutor, bem sucedido e de muitas mulheres. Seria essa a mensagem da música mais marcante do longa: “Be Italian” representada pela cantora do Black Eyed Peas. Tentando ser algo além de sua capacidade, o Guido de Rob Marshall vai mergulhando em um abismo, passando de mulher para mulher, e assim as perdendo. A redenção vai depender do que ele absorver dessa jornada.

Os números musicais pontuam a narrativa para que possamos compreender melhor a angústia de Guido e os desejos das representantes femininas. Na maior parte das vezes essas intervenções chegam através de sonhos, fantasias e alucinações, acrescentando ao desenrolar da história. As músicas enriquecem o drama dos personagens e completam as emoções de cada, sem apelar para transições bruscas entre o real e o fantasioso.

A quantidade elevada de personagens, em certos momentos, prejudica o andamento da trama, já que não encontra soluções para todos eles. Apesar de o foco ser em Guido, as figuras que passam por sua vida tornam-se mais interessantes que o próprio protagonista. O ritmo da produção também é enfraquecido com as mudanças de tramas, justamente porque umas são de presença vital e outras nem tanto assim.

Em contrapartida, o time de estrelas encanta a platéia: Daniel Day-Lewis incorpora o cineasta em crise com perfeição; Nicole Kidman está radiante como a estrela de “Itália”; Kate Hudson requebra e seduz tanto Guido como o espectador; Sophia Loren esbanja a elegância e o charme da mulher italiana; Judi Dench mostra que sabe encarar um número musical com muito esplendor; Penélope Cruz tem verve de sobra para ser o caso picante de Guido; Marion Cotillard emprega emoção e delicadeza à personagem mais bem construída e Fergie completa o time com uma interpretação intensa e extremamente sensual.

Acompanhando o poder hipnótico desse time de beldades, o figurino e os cenários deslumbrantes encaixam-se primorosamente com as seqüências musicais. A fotografia do filme também é um destaque à parte, abusando de tons de rosa e roxo, alterando colorido com preto e branco e realizando jogos de luz e sombras para dar um visual refinado e condizente ao glamour do mundo do cinema. O trabalho de edição, com muitos cortes e em sintonia com as batidas das músicas, merece ser salientado.

A direção de Rob Marshall e o estilo que conferiu ao projeto são semelhantes ao de “Chicago”. A nova produção, infelizmente, peca com o seu desenvolvimento irregular, mas possui atributos inegáveis – como todos aqueles já citados – que o tornam igualmente fascinante. Encarando assim, “Nine” pode ser sexy, contagiante, belo e emocionante. Um espetáculo do início ao fim. Basta deixar-se levar pelo ritmo da música.

Nota: 9

Amor Sem Escalas


Depois de explorar o universo adolescente em “Juno”, o diretor Jason Reitman explora o ser humano e suas relações sociais em filme adulto com roteiro brilhante. George Clooney interpreta Ryan Bingham, profissional contratado por firmas que precisam demitir seus funcionários e não tem coragem para isso. Assim, ele viaja por todo os Estados Unidos demitindo pessoas.

Ryan é experiente no assunto: possui técnicas para cada situação, teorias comprovadas, confiança em suas atitudes e lábia na medida certa. Ele demite qualquer pessoa dando um show de segurança e motivação. Eis que surge a jovem Natalie (Anna Kendrick) no seu caminho, uma funcionária queridinha do chefe que sugere o sistema de demissão por teleconferência. A novidade é recebida positivamente pela empresa e as passagens aéreas de Bingham parecem estar com os dias contados.

Procurando provar para o seu chefe que a proposta não funciona, o astuto “demitidor” deve realizar suas viagens padrões acompanhado de Natalie. A jornada pelas várias cidades revela muitas descobertas para ambos personagens, que também recebem como integrante do time uma bela executiva (Vera Farmiga) que, assim como Bingham, passa mais dentro de um avião do que em sua própria casa.

Baseado em um livro, o roteiro adaptado de Sheldon Turner e do próprio diretor fala sobre o individualismo da sociedade moderna e a inevitável solidão que esse meio propicia. Orgulhoso das intermináveis milhas de viagem, o personagem de Clooney passa a reavaliar esse hobby de colecionar horas de vôo e pensar que ao estar “up in the air” todo o tempo, ele não tem chance de conviver com sua família, de ter namoradas e, muito menos, poder casar um dia. O roteiro inteligente e de ironia mordaz trabalha com a rivalidade do amor x trabalho sem ser piegas.

O trio principal personifica esses personagens de forma verdadeira e, por conseqüência, entregam um entrosamento perfeito em cena. O diretor Jason demonstra que conhece cada detalhe da história que quer contar e seu perfeccionismo leva a construção do melhor filme de sua carreira até agora. Sorte dele, que revela-se um diretor maduro e de grande potencial, e do espectador que poderá assistir produções corajosas e espertas sobre incertezas que assombram todos nós.

Nota: 9

(500) Dias com Ela


“Esta é uma história ‘garoto encontra uma garota’”. As primeiras oito palavras do narrador tentam definir o filme. O que poderia, no entanto, ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero. “500 Dias com Ela” aproxima-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

O garoto é Tom, um redator de cartões comemorativos, que se apaixona a primeira vista pela nova secretária do chefe, Summer. A moça é tudo o que ele sempre sonhou: bonita, inteligente e, ainda por cima, gosta das mesmas músicas, livros e filmes que ele. A garota Summer é uma mulher independente, livre de escolhas e com pensamentos tipicamente masculinos. Não acredita no amor, julga-o um “conto de fadas” e, por isso, possui uma facilidade tremenda em cortar as pessoas de sua vida – assim como corta seus cabelos que tanto adora.

Essa diferença de personalidade faz com que ele idealize um romance mais profundo do que a relação que está se desenvolvendo. Os 500 dias de Tom, iluminados pela presença de Summer, são contados fora de cronologia, intercalando os perfeitos e conturbados momentos do casal. Esse dinamismo torna-se essencial para o ritmo da trama, mantendo um clima agradável, que caso fosse relatado na ordem dos fatos jamais existiria.

A passagem do tempo é realizada através de uma animação introdutória, na qual os dias felizes do casal são apresentados com um céu limpo, as árvores floridas e um sol intenso. É verão para Tom! Quando o relacionamento está ruindo, vemos um dia cinzento e a falta de folhas nas árvores. Assim, já sabemos de antemão o que o personagem está sentindo e quais cenas virão a seguir. Os encontros do rapaz apaixonado com a cética garota fará com que os dois reflitam sobre o devastador sentimento do amor, colocando em xeque se é o destino que conspira ou se são as coincidências que norteiam as suas vidas.

O tema relativamente denso para um filme “adolescente” rende comparações à Woody Allen e sua visão menos poética do universo. Semelhanças com os filmes do diretor, como “Crimes e Pecados”, “Match Point” e especialmente “Igual a Tudo na Vida”, que coloca dois jovens conversando sobre o relacionamento, são muito claras. Em certo momento, a tela se divide em “realidade” e “expectativa” mostrando que nem sempre o que desejamos realmente acontece. Homenagem captada.

A menção à Nick Hornby é justificada pela presença de inúmeras referências a cultura pop, em diálogos sobre Beatles, The Smiths, Sex Pistols, o seriado televisivo “Night Rider”, o filme “A Primeira Noite de Um Homem”, Bruce Springsteen, entre tantos outros. Talvez sejam esses gostos similares que tenham aproximado o casal, porém isso definitivamente não é tudo em um relacionamento. Como diz um dos personagens para Tom: “não é só porque ela curte as mesmas bizarrices que tu que ela é a mulher da tua vida”.

Também não seria possível um filme tão completo se não fosse a presença do ótimo Joseph Gordon-Levitt e da encantadora Zooey Deschanel. A sintonia perfeita entre o casal ganha o público no primeiro instante em que é demonstrada em cena. Joseph já havia provado que pode carregar um filme nas costas com “O Vigia” e o brilhante “Mistérios da Carne”; já Zooey, que sempre demonstrou ter mais dotes físicos do que artísticos – vide a péssima atuação em “Fim dos Tempos” – tem em Summer o papel de sua carreira.

Como acréscimo nessa fantástica composição, tem-se ainda uma trilha sonora em conexão quase sobrenatural com a história. As faixas são de extrema importância para a construção das cenas e, em sua maioria, reverenciam artistas indie como Regina Spektor, Doves, Feist, Smiths e She & Him – excelente banda de Zooey Deschanel (se você nunca ouviu falar, baixe o cd imediatamente).

O responsável pela originalidade do produto é o diretor estreante Marc Webb, que tem no seu currículo uma série de videoclipes. A bagagem do cineasta é reproduzida na consecutiva utilização de mini-cenas que compõem o painel dos vários dias ao lado da amada. Após o sucesso do filme, o nome de Webb está em alta e uma nova adaptação do musical “Jesus Cristo Superstar” ganhou o seu comando.

Para o público que aguardou tanto por esse filme, “500 Dias com Ela” supera as expectativas e faz o retrato dessa nova geração “cult” na busca pelo amor. Mas não adianta tentar se enganar ao esperar pelo convencional. As intenções do filme estão explícitas nos primeiros minutos. Pode ser que Summer não tenha sido a mulher que Tom tanto procurou, mas os dias em sua companhia certamente foram inesquecíveis –assim como serão as quase duas horas dedicadas pelo espectador com o filme.

Nota: 9,5

Era Uma Vez...


Os contos de fantasia teimam em começar com o tradicional “Era Uma Vez…”. Essa escolha tem o intuito salientar o conteúdo lúdico da história, fruto da imaginação do autor e de sua liberdade poética. A mesma expressão é utilizada como título para o novo filme de Breno Silveira (diretor de “Dois Filhos de Francisco”) justamente para demarcar que o romance do pobretão D com a patricinha Nina é um conto de fadas repetido e previsível.

Ele mora na favela do Cantagalo e trabalha diariamente em um quiosque na praia do Rio de Janeiro. De seu recanto, observa a bela Nina entrar e sair do prédio da frente, até o dia em que a salva de um assalto. A aproximação deles é inevitável e logo os dois se apaixonam, porém a relação não demora para ser abalada pelas gritantes diferenças sociais e o mascarado preconceito.

Quem já não ouviu essa história? Realmente, “Era Uma Vez…” é um filme do qual todos sabem o que vai acontecer na tela, só que ainda assim, a história acaba surpreendendo o público e revelando ser uma das melhores produções nacionais dos últimos anos. O feito está relacionado com a atualização da trama, romantizada em seus núcleos para sensibilizar o espectador, injetando gás para temas tão discutidos e desgastados no dia-a-dia, como a violência no morro, o caos urbano e a falsa moralidade.

Também não se deve tirar o mérito do entrosamento perfeito entre os atores Thiago Martins e Vítria Frate, que dão sustentação vital ao romance desafiador e quase impossível de um garoto pobre com uma menina rica. Os dois juntos emocionam e levam às mais intençãs emoções, sendo ainda mais tocante que o filme anterior do diretor.

Breno Silveira demonstra em seu segundo longa-metragem que tem domínio completo pela sua obra, criando um estilo evidente e próprio de humanização dos personagens. “Era Uma Vez….” pode ser considerado uma espécie de Romeu e Julieta à brasileira, com doses cavalares de realidade e amor. A intensidade do projeto leva o público ao total comprometimento com a trama, fazendo-o sair da sessão inchado de tanto derramar lágrimas. E talvez essa troca de sensações e cumplicidades faça com que algumas percepções de mundo sejam transformadas. Por isso, e por tudo mais que você só irá descobrir ao assistir o filme, é que “Era Uma Vez…” não pode ficar nem mais um segundo parado na estante da locadora.

Nota: 9

Rock´n´Rolla - A Grande Roubada


Com “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”, o diretor Guy Ritchie foi considerado o imitador de Quentin Tarantino que deu certo. As influências incluem edição rápida, violência exarcebada e humor mordaz. Ritchie bebeu de várias fontes para construir seu próprio estilo. Depois de alguns deslizes na carreira (“Destino Insólito” e “Revolver”), ele volta melhor do que nunca.

A ação se concentra em um grupo de mafiosos que é trapaceado por criminosos menos profissionais. Como já é tradicional em seus filmes, o número de tramas e personagens ultrapassa o normal, tornando complicado descrever a trama. O que importa é que Gerard Butler está hilário e Tom Wilkson encarna o chefão de forma impecável.

O roteiro, também assinado por Ritchie, aposta suas melhores sacadas na comédia, mas não deixa de criar cenas de ação fantásticas. O cuidado com o ritmo é imenso, as cenas nunca são desnecessárias e, o melhor é reservado para o final. “Rock´n´Rolla” é um filme para ninguém colocar defeito, é o amadurecimento de um diretor e seu estilo. Que venha a continuação!

Nota: 9

O Casamento de Rachel


Após os sucessos “O Silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia”, o diretor Jonathan Demme passou uma boa fase de sua vida dedicando-se aos documentários. O retorno mais expressivo ao campo da ficção veio com este belo filme independente, no qual ele prova que não adianta tentar ser alternativo demais quando a base do roteiro são os relacionamentos e sentimentos amorosos. Filmes como “A Lula e a Baleia” ou “Margot e o Casamento” trabalham com temas do cotidiano, mas pecam quando criam diálogos e situações fora do comum, deixando o contato com o público em segundo plano.

Na trama, Kim (Anne Hathway) é liberada da reabilitação durante o final de semana para participar do casamento da irmã. Depois de permanecer um ano internada, essa é sua primeira chance de encarar a família novamente. Os conflitos não demoram a surgir, mas o hábil diretor e sua brilhante roteirista, Jenny Lumet, conduzem este drama sem nunca cair no lugar comum.

O ambiente do filme é totalmente acolhedor, gerando a empatia do público com os persongens e seus problemas. A gravação realizada em câmera de mão dá maior veracidade aos acontecimentos, enquanto as atuações de Hathway e Rosemarie DeWitt faíscam na tela. “O Casamento de Rachel” é, sobretudo, verdadeiro.

Nota: 9

O Escafandro e a Borboleta


Jean-Dominique Bauby, apelidado de Jean-Do, foi editor da revista Elle e transitava pelo badalado mundo das celebridades francesas. Repentinamente, aos 43 anos, sofreu um derrame que o deixou em coma durante três semanas. Ao despertar, descobriu-se incapaz de mexer qualquer parte do corpo – exceto o olho esquerdo. Na tentativa de comunicar-se com os médicos e familiares mais próximos, ele pisca uma vez para significar “sim” e duas vezes para “não”.

O diretor Julian Schnabel retrata em “O Escafandro e a Borboleta” o processo de adaptação de um homem ativo e saudável a um estado de vida vegetativo e sem muitas perspectivas de melhora. Em uma das passagens do longa, o protagonista afirma em narração que além do olho, duas coisas não estão paralisadas: a sua imaginação e a sua memória. Embora esteja preso nessas limitadas condições, o cérebro funciona perfeitamente e não pára um segundo de maquinar.

Até os quarenta minutos iniciais o espectador enxerga somente através dos olhos do protagonista e a experiência é reproduzida de forma perfeita, trazendo o apreciador da película para o interior do personagem. Também presente no roteiro estão metáforas para exemplificar a situação dramática de Jean-Do, como quando o compara com uma borboleta presa nas garras de uma planta carnívora, ou ainda, quando faz o paralelo sutil entre o desmoronamento de falésias com o desmoronamento de sua vida.

O homem por trás do projeto, Julian Schnabel, foi premiado em Cannes como Melhor Diretor e o seu trabalho é realmente um primor. A obra é tão fantástica que supera com larga margem outra produção cuja temática é semelhante e além de tudo faturou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Mar Adentro”.

Em “O Escafandro e a Borboleta”, a irretocável edição alia-se com imagens explêndidas, principalmente quando os devaneios de Jean-Do são externados visualmente, como em sonhos ou lembranças – esta aí a imaginação e a memória novamente. Porém, tudo não faria sentido se não estivesse um brilhante ator no comando desta difícil transposição para as telas. Mathieu Amalric divide os méritos do projeto. É difícil mensurar o envolvimento e a dedicação com esta peça por parte de toda equipe, mas é fácil afirmar que o resultado obtido é um verdadeiro encanto, do início ao fim.

Nota: 9

O Nevoeiro


Após ser adiado diversas vezes, O Nevoeiro chega ao Brasil no final de agosto – quase um ano depois de seu lançamento oficial nos Estados Unidos. Tido como mais um filme de terror, o longa-metragem deve acabar tomando o mesmo caminho do primeiro Jogos Mortais, que sofreu imenso atraso, teve mínima divulgação, ganhou poucas cópias no país e conseguiu dentro dessas limitações um ótimo público nas salas de cinema.

Talvez O Nevoeiro não seja tão influente para originar uma série de filmes como o terror pornográfico de 2004, mas sem dúvida, é revolucionário no gênero. São filmes como esse que elevam o conceito de entretenimento do medo a verdadeiras obras-primas.

Em uma cidade do interior dos EUA, um grupo de moradores fica ilhado no supermercado quando um forte nevoeiro trás consigo criaturas sanguinárias. Foi justamente essa história de Stephen King que o diretor Frank Darabont, de Um Sonho de Liberdade e À Espera de Um Milagre, decidiu adaptar após seus sucessos anteriores.

O longa-metragem é um brilhante exercício de como contar uma história. Mesmo com a trama de monstros, são trabalhadas questões relevantes como a luta pela sobrevivência e o fanatismo religioso, este último personificado pela ótima atuação de Márcia Gay Harden. Outro mérito do projeto é o clima sufocante de tensão. O Nevoeiro é, como poucos filmes conseguem, de deixar o espectador roendo as unhas do início ao fim.

As criaturas surgem em forma de insetos, aranhas, monstros voadores e outros repletos de tentáculos. Por vezes os efeitos são perfeitos, já em alguns momentos parecem um pouco computadorizados – ainda assim, não é nada que interfira no andamento do filme. Vale lembrar que existe outra produção com nome parecedo: o terrível A Névoa, de 2005. Não confunda!

Os fãs de suspense e terror podem respirar aliviados! Frank Darabont trouxe um filme que mistura essas características de forma crível e inteligente, fazendo juz ao conto do mestre Stephen King. Feito raro no cinema! A ameaça de lidar com o desconhecido não é só sentida pelas pessoas acuadas no supermercado, o espectador do outro lado da tela sente o mesmo desespero daqueles que estão frente a frente com a morte.

Nota: 9

Desejo e Reparação


Depois de adaptar brilhantemente Orgulho e Preconceito, Joe Wright assina a direção deste drama de época impecável. Mais uma vez, Wright transporta para a linguagem cinematográfica uma obra literária, no caso, o romance Reparação, de Ian McEwan.

A musa do diretor, Keira Knightley, retoma a parceria e faz par romântico com James McAvoy (O Último Rei da Escócio). No filme, a relação dos dois é posta em risco quando uma carta é enviada por engano e com ela, uma série de fatos mal explicados terminam contribuindo para que a desgraça do casal.

O novo trabalho do diretor consegue ser superior ao de sua estréia - o que transforma Desejo e Reparação em um dos filmes obrigatórios de 2007. O longa-metragem venceu o Globo de Ouro como Melhor Filme Drama e foi indicado a 7 Oscars.

Fora a badalação em volta do projeto, a produção conduz o espectador pelo universo de McEwan numa mistura de emoções, passando por várias décadas e linhas narrativas. Conta ainda com desempenhos super-competentes da nova geração de atores (Kiera, James McAvoy e da mocinha Saoirse Ronan) e uma fotografia e direção de arte deslumbrantes, ressaltadas cores intensas.

Desejo e Reparação é um passatempo de luxo e o mérito é todo de Joe Wright! Ele consegue construir um filme de época moderno, fazendo com que a trama situada na Inglaterra de 1935 seja atemporal. O tema pesado sobre culpa e arrependimento ganha fácil identificação e aposta em um desfecho coerente ao demonstrar que a redenção nem sempre é possível.

Nota: 9

Piaf - Um Hino ao Amor


Um dos maiores ícones da música francesa, Edith Piaf, é homenagiada no longa-metragem Piaf – Um Hino ao Amor. Essa superprodução realiza um panorama pelas inúmeras fases da vida sofrida e repleta de antagonismos da cantora. Abrilhantando o projeto, o desempenho impressionante de Marion Cotillard no papel-título torna a obra ainda mais completa. Não foi por menos que a atriz venceu o Globo de Ouro 2008 como Melhor Atriz – Comédia ou Musical.

Como se ainda não faltasse atrativos para assisti-lo, o filme é embalado com canções fantásticas, selecionadas a dedo entre aquelas que se tornaram clássicos na voz da pequena Piaf. Recomendado ao extremo, a produção é cinema de primeira. Para comprovar, basta conferir e tentar não se emocionar quando, próximo ao final, Edith declama os versos de “Non, Je Ne Regrette Rien”.


Nota: 9

Senhores do Crime


David Cronenberg supera a violência e o realismo de Marcas da Violência com o ótimo Senhores do Crime. Ao entrar no submundo da máfia russa em Londres, o diretor aposta em uma atmosfera sombria, um bom roteiro e seqüências ainda mais surpreendentes. Certamente, a mais ousada é aquela em que o protagonista luta peladão contra dois matadores. Tudo muito seco e brutal. Grande parte do sucesso do filme é a atuação brilhante de Viggo Mortensen como o motorista Nicolai, que aos poucos vai crescendo na organização. Não é por menos que é um dos favoritos ao prêmio de Melhor Ator no Oscar. A produção não deixa de ser um filme-irmão do longa anterior de Cronenberg. Ainda no elenco Naomi Watts e Vincent Cassel. Pacote perfeito para os fãs de ação e filmes de máfia.

Nota: 9