Abraços Partidos


Após uma longa filmografia, o cinema de Almodóvar continua o mesmo: as cores berrantes se sobressaem, os personagens caricatos declamam suas barbaridades, os figurinos seguem extravagantes e as situações mesclam o exagero com a realidade. “Abraços Partidos” é definitivamente um filme do diretor. Considerado pelos críticos “uma obra menor de Almodóvar”, o longa-metragem pode ser comparado a um novelão, mas o importante é que somado a esse “drama mexicano” temos os elementos característicos (e tão adorados) do cineasta.

O filme inicia com duas narrativas, passado e presente, mostrando como o escritor Mateo Blanco ficou cego e perdeu Lena, o amor de sua vida. O roteiro escrito pelo próprio diretor é uma colcha de retalhos, que entrelaça vários personagens, e comprova o talento do realizador como um grande contador de histórias.

Almodóvar reuniu um time de atores com o qual já trabalhou diversas vezes (Penélope Cruz, Lluís Homar, Blanca Portillo e Rossy de Palma). Esses rostos já são referências marcantes ao universo criado pelo diretor. Dessa vez, quem se destaca no elenco é Penélope com uma adorável imitação de Audrey Hepburn. Além dessa homenagem ao cinema, temos a apresentação da metalinguagem como elemento fundamental do roteiro. É nos sets de filmagem de um filme dirigido por Mateo (Homar), que ele conhece Lena (Cruz), uma atriz estreante e esposa do empresário que está financiando o projeto. Os dois imediatamente se apaixonam.

“Garotas & Malas” é esse filme dentro do filme, e Almodóvar cria uma auto-referenciação quando confere a essa “película” um visual kitsch e o humor digno de suas produções de início de carreira – algo semelhante a “Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos”. O contraste entre a realidade da trama principal de “Abraços Partidos” e o colorido vibrante de “Garotas & Malas” é evidente.

Tão importante quanto o texto, as imagens nos filmes do diretor representam um artifício gráfico de muita expressão no seu cinema. Nesse novo exemplar, ele realiza belas cenas que traduzem, sem diálogo algum, os sentimentos dos personagens. É o que acontece quando Lena e Mateo fazem sexo pela primeira vez e a câmera se liberta dos planos estáticos delirando de prazer junto deles. O mesmo já não ocorre quando ela tem que se deitar com o marido. As transições de cena também são elegantes, como aquela em que a imagem de uma pessoa descendo as escadas é suavemente transposta para um rolo de filme em execução.

“Abraços Partidos” vai apresentando mais camadas do que se imagina e suas histórias não parecem ter fim. Essa profusão de conflitos pode sugerir uma relação com os dramas de telenovelas. Porém, a comparação não chega a se concretizar porque Almodóvar estabelece uma embalagem refinada para o produto, centrando a história naquele seu universo pessoal e único que é tão bem conhecido e admirado.

Nota: 8

2 comentários:

franciscolima disse...

faltou putaria, incestos, perversões sexuais ou coisas do gênero; tipicos de almodóvar.

mas gostei. e só.

Película Criativa disse...

Sou fã do cinema de Almodóvar, acho que essa parceria com Penelope Cruz vem rendendo ótimos filmes.

Não é um dos meus filmes preferidos do diretor, acho que faltou mais pimenta no roteiro, o que levou a um desfecho bem previsível.

Fora isso, o filme é muito bom!

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