Apostas para o Oscar 2010

O bolão para acertar os vencedores de cada categoria da 82ª cerimônia do Oscar já começou. Seguindo o modelo criado pelo crítico Pablo Villaça, as minhas apostas estão separadas em quem deve vencer, a explicação dessa escolha, o meu voto pessoal e quem eu não gostaria que levasse o prêmio para casa. A entrega das estatuetas acontece no dia 7 de março. Vamos aos lances!

MELHOR FILME
Avatar
Um Sonho Possível
Distrito 9
Educação
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa
Um Homem Sério
Amor sem Escalas
Up – Altas Aventuras

Vai vencer: “Avatar”

Explicando a escolha: A disputa está tensa esse ano. “Avatar” ou “Guerra ao Terror”? Enquanto as opiniões variam, já me decidi faz tempos em apoiar a superprodução de James Cameron. “Guerra ao Terror” é um filme tão mediano que não se compara ao esplendor criado pelo filme dos Navis.

Qual seria o meu voto: entre os dez indicados ficaria com “Amor Sem Escalas”, o meu preferido. Seguido depois de “Distrito 9” e “Bastardos Inglórios”.

Se vencer, eu mato um: “Guerra ao Terror” e “Um Homem Sério”. Nem deveriam estar entre os indicados.

MELHOR DIRETOR
Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
James Cameron (Avatar)
Jason Reitman (Amor Sem Escalas)
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Lee Daniels (Preciosa)

Vai vencer: Kathryn Bigelow

Explicando a escolha: Bigelow realizou um bom trabalho e deve se tornar a primeira diretora a vencer o Oscar. O curioso é imaginar uma mulher por trás de um filme como “Guerra ao Terror”.

Qual seria o meu voto: Quentin Tarantino que ainda não venceu e realmente merece.

Se vencer, eu mato um: não gostaria que “Guerra ao Terror” levasse prêmio algum, mas essa categoria é, na minha opinião, o ponto mais forte do filme.

MELHOR ATOR
Jeff Bridges (Coração Louco)
Morgan Freeman (Invictus)
Jeremy Renner (Guerra ao Terror)
George Clooney (Amor Sem Escalas)
Colin Firth (Direito de Amar)

Vai vencer: Jeff Bridges

Explicando a escolha: não assisti a “Coração Louco”, “Invictus” e “Direito de Amar”. Pelos boatos, o grande favorito é Bridges com sua interpretação de um músico fracassado que recupera a carreira – algo semelhante à “O Lutador” no Oscar passado. Ajuda o fato dele já ter sido indicado outras vezes.

Qual seria o meu voto: entre “Amor Sem Escalas” e “Guerra ao Terror”? adivinhem.

Se vencer, eu mato um: Jeremy Renner está bem no filme. É melhor se contentar com a indicação.

MELHOR ATRIZ
Sandra Bullock (Um Sonho Possível)
Meryl Streep (Julie & Julia)
Carey Mulligan (Educação)
Helen Mirren (The Last Station)
Gaboury Sidibe (Preciosa)

Vai vencer: Meryl Streep

Explicando a escolha: depois de 16 indicações e apenas três prêmios, Meryl Streep deve ser novamente consagrada. Fazem mais de vinte anos que a atriz levou seu último Oscar para casa. Em “Julie & Julia” ela mostra que é a grande dama do cinema e que sua concorrente, Sandra Bullock, tem ainda muito caminho a trilhar.

Qual seria o meu voto: Meryl Streep.

Se vencer, eu mato um: Esperava mais da atuação da “preciosa” Gaboury Sidibe.

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)
Woody Harrelson (O Mensageiro)
Matt Damon (Invictus)
Stanley Tucci (Um Olhar do Paraíso)
Christopher Plummer (The Last Station)

Vai vencer: Christoph Waltz

Explicando a escolha: abocanhou praticamente todos os prêmios de 2010 e deve repetir no Oscar. Não há quem assista “Bastardos Inglórios” e não fique impressionado com a performance do Coronel Landa.

Qual seria o meu voto:
Heil, Hitler.

Se vencer, eu mato um: qualquer outro.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Mo’Nique (Preciosa)
Anna Kendrick (Amor Sem Escalas)
Vera Farmiga (Amor Sem Escalas)
Maggie Gyllenhaal (Coração Louco)
Penelope Cruz (Nine)

Vai vencer: Mo´Nique

Explicando a escolha: Assim como Waltz é unanimidade na categoria de Ator Coadjuvante, Mo`Nique é uma das maiores barbadas da noite de domingo. O desempenho impressionante da atriz vale todo o filme.

Qual seria o meu voto: Mo´Nique.

Se vencer, eu mato um: qualquer outra.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Quentin Tarantino (Bastardos Inglórios)
Mark Boal (Guerra ao Terror)
Joel e Ethan Coen (Um Homem Sério)
Alessandro Camon e Oren Moverman (O Mensageiro)
Bob Peterson e Pete Docter (Up – Altas Aventuras)

Vai vencer: “Bastardos Inglórios”.

Explicando a escolha: o filme de Tarantino deve ser recompensado na categoria de roteiro original. Os demais concorrentes aparecem mais fracos na disputa.

Qual seria o meu voto: “Bastardos Inglórios”.

Se vencer, eu mato um: “Guerra ao Terror”.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Jason Reitman e Sheldon Turner (Amor Sem Escalas)
Neill Blomkamp (Distrito 9″)
Nick Hornby (Educação)
Geoffrey Fletcher (Preciosa)
Jesse Armstrong, Samon Blackwell, Armando Iannucci e Tony Roche (In the Loop)

Vai vencer: “Amor Sem Escalas”

Explicando a escolha: o roteiro de “Amor Sem Escalas” é o ponto alto do filme e deve ser agraciado. Na briga, o excelente “Distrito 9” pode surpreender, porém a Academia é muito conservadora para premiar uma ficção científica.

Qual seria o meu voto: “Amor Sem Escalas”.

Se vencer, eu mato um: “Preciosa” é menor perante os demais candidatos.

MELHOR ANIMAÇÃO
Coraline e o Mundo Secreto
O Fantástico Sr. Raposo
A Princesa e o Sapo
The Secret of Kells
Up – Altas Aventuras

Vai vencer: “Up – Altas Aventuras”

Explicando a escolha: “Up” é mais uma das barbadas da noite. Foi indicado a Melhor Filme enquanto as demais animações não. Se perder é porque a Academia está ficando com Alzheimer.

Qual seria o meu voto: “O Fantástico Sr. Raposo”. Sou fã do Wes Anderson.

Se vencer, eu mato um: “Coraline” me decepcionou.

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Rick Carter, Robert Stromberg, Kim Sinclair (Avatar)
Dave Warren, Anastasia Masaro, Caroline Smith (O Mundo Imáginário do Dr. Parnassus)
John Myhre, Gordon Sim (Nine)
Sarah Greenwood, Katie Spencer (Sherlock Holmes)
Patrice Vermette, Maggie Gray (The Young Victoria)

Vai vencer: “Avatar”.

Explicando a escolha: o mundo criado por James Cameron é um universo impressionante, que mescla elementos gráficos de cair o queixo com a densidade filosófica de crenças de um povo poderoso. Só isso deixa os demais concorrentes bem longe.

Qual seria o meu voto: “Nine”.

Se vencer, eu mato um: “The Young Victoria”. O filme é muito bom e tem uma direção de arte eficiente. Pode ficar contente com a indicação.

MELHOR FOTOGRAFIA
Mauro Fiore (Avatar)
Bruno Delbonnel (Harry Potter e o Enigma do Príncipe)
Barry Ackroyd (Guerra ao Terror)
Robert Richardson (Bastardos Inglórios)
Christian Berger (A Fita Branca)

Vai vencer: “Avatar”.

Explicando a escolha: ganhando o Oscar de Melhor Filme, a produção deve receber os demais prêmios em categorias técnicas - já que não concorre com roteiro e atores.

Qual seria o meu voto: “Bastardos Inglórios”.

Se vencer, eu mato um: “Guerra ao Terror”?

MELHOR FIGURINO
Janet Patterson (O Brilho de uma Estrela)
Catherine Leterrier (Coco Antes de Chanel)
Monique Prudhomme (O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus)
Colleen Atwood (Nine)
Sandy Powell (The Young Victoria)

Vai vencer: O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus

Explicando a escolha: “Coco Antes de Chanel” decepciona tanto como filme como nos figurinos da protagonista. Espero que não ganhe. “Nine” foi massacrado pelos críticos e não deve levar nada. “The Young Victoria” é apenas correto. “O Brilho de Uma Paixão” não assisti. Deixo a aposta para o universo fantástico do filme de Terry Gilliam.

Qual seria meu voto: “Nine”.

Se vencer, eu mato um: “Coco Antes de Chanel”.

MELHOR EDIÇÃO
Stephen Rivkin, John Refoua e James Cameron (Avatar)
Julian Clarke (Distrito 9)
Bob Murawski e Chris Innis (Guerra ao Terror)
Sally Menke (Bastardos Inglórios)
Joe Klotz (Preciosa)

Vai vencer: “Guerra ao Terror”

Explicando a escolha: “Avatar” e “Bastardos Inglórios” por serem extensos acabam se tornando levemente irregulares na montagem. “Guerra ao Terror” deve vencer por ser mais coerente e criar cenas tensas graças à sua edição.

Qual seria o meu voto: “Distrito 9” é redondinho.

Se vencer, eu mato um: sem mortes aqui.

MELHOR MAQUIAGEM
Aldo Signoretti e Vittorio Sodano (Il Divo)
Barney Burman, Mindy Hall e Joel Harlow (Star Trek)
Jon Henry Gordon e Jenny Shircore (The Young Victoria)

Vai vencer: “Star Trek”.

Explicando a escolha: por eliminatória. Não assisti “Il Divo” e “The Young Victoria” não apresenta revoluções na técnica.

Qual seria o meu voto: “Star Trek”.

Se vencer, eu mato um: sem mortes aqui.

MELHOR TRILHA ORIGINAL
James Horner (Avatar)
Alexandre Desplat (O Fantástico Sr. Raposo)
Marco Beltrami e Buck Sanders (Guerra ao Terror)
Hans Zimmer (Sherlock Holmes)
Michael Giacchino (Up – Altas Aventuras)

Vai vencer: “Up – Altas Aventuras”.

Explicando a escolha: pela sequencia inicial.

Qual seria o meu voto: “O Fantástico Sr. Raposo”. Perfeita trilha.

Se vencer, eu mato um: sem mortes aqui.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
Almost There, de A Princesa e o Sapo (Música e Letra de Randy Newman
Down in New Orleans, de A Princesa e o Sapo (Música e Letra de Randy Newman
Loin de Paname, de Paris 36 (Música de Reinhardt Wagner; Letra de Frank Thomas)
Take It All, de Nine (Música e Letra de Maury Yeston)
The Weary Kind, de Coração Louco (Música e Letra de Ryan Bingham e T-Bone Burnett)

Vai vencer: “Coração Louco”.

Explicando a escolha: a música representa a superação do personagem de Bridges. Em relação aos demais, podemos descartar as músicas de “A Princesa e o Sapo”, enquanto “Take it All” é ótima, mas não o ápice de “Nine”.

Qual seria o meu voto: na falta de “Be Italian” ou “Cinema Italiano”, fico com a única representante do filme “Nine”.

Se vencer, eu mato um: sem mortes aqui.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM
Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle (Avatar)
Paul N.J. Ottosson (Guerra ao Terror)
Wylie Stateman (Bastardos Inglórios)
Mark Stoeckinger e Alan Rankin (Star Trek)
Michael Silvers and Tom Myers (Up – Altas Aventuras)

Vai vencer: “Avatar”.

Explicando a escolha: você assistiu no cinema?

MELHOR MIXAGEM DE SOM
Christopher Boyes, Gary Summers, Andy Nelson e Tony Johnson (Avatar)
Paul N.J. Ottosson e Ray Beckett (Guerra ao Terror)
Michael Minkler, Tony Lamberti e Mark Ulano (Bastardos Inglórios)
Anna Behlmer, Andy Nelson e Peter J. Devlin (Star Trek)
Greg P. Russell, Gary Summers e Geoffrey Patterson (Transformers: A Vingança dos Derrotados)

Vai vencer: “Avatar”

MELHORES EFEITOS VISUAIS
Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones (Avatar)
Dan Kaufman, Peter Muyzers, Robert Habros e Matt Aitken (Distrito 9)
Roger Guyett, Russell Earl, Paul Kavanagh e Burt Dalton (Star Trek)

Vai vencer: “Avatar”

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
Ajami (Israel)
El Secreto de Sus Ojos (Argentina)
A Teta Assustada (Peru)
O Profeta (France)
A Fita Branca (Alemanha)

Vai vencer: “A Fita Branca”.

Explicando a escolha: chegou a vez de premiar o cultuado diretor Michael Haneke.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
French Roast, de Fabrice O. Joubert
Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty, de Nicky Phelan e Darragh O’Connell
The Lady and the Reaper, de Javier Recio Gracia
Logorama, de Nicolas Schmerkin
A Matter of Loaf and Death, de Nick Park

Vai vencer: “French Roast”.

Explicando a escolha: A Academia gosta das histórias de Wallace & Gromit, mas espero que o fraquíssimo “A Matter of Loaf and Death” não ganhe. “Logorama” tem caráter cult e nerd. Duvido muito. “The Lady and the Reaper” tem animação e história no estilo "Looney Tunes". A dúvida é: “French Roast” ou “Granny O´Grimm´s Sleeping Beauty”. O primeiro é uma linda fábula. Fico com esse.

Qual seria o meu voto: “French Roast”, animação refinada e com moral.

Se vencer, eu mato um: “A Matter of Loaf and Death”.

MELHOR CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO
The Door, de Juanita Wilson e James Flynn
Instead of Abracadabra, de Patrik Eklund e Mathias Fjellström
Kavi, de Gregg Helvey
Miracle Fish, de Luke Doolan e Drew Bailey
The New Tenants, de Joachim Back e Tivi Magnusson
Melhor Documentário
Burma VJ, de Anders Østergaard and Lise Lense-Møller
The Cove
Food, Inc., de Robert Kenner and Elise Pearlstein
The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers, de Judith Ehrlich and Rick Goldsmith
Which Way Home, de Rebecca Cammisa

MELHOR DOCUMENTÁRIO DE CURTA-METRAGEM
China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province, de Jon Alpert e Matthew O’Neill
The Last Campaign of Governor Booth Gardner, de Daniel Junge e Henry Ansbacher
The Last Truck: Closing of a GM Plant, de Steven Bognar e Julia Reichert
Music by Prudence, de Roger Ross Williams e Elinor Burkett
Rabbit à la Berlin, de Bartek Konopka e Anna Wydr


Prefiro não opinar quanto as categorias de curta-metragem e documentários. Não assisti nenhum.

A Caixa


A ficção científica permeia os filmes de Richard Kelly. Em “Donnie Darko” temos a influência de viagens no tempo e em “Southland Tales” quem dita as regras é o apocalipse que se aproxima. No mais recente longa-metragem do diretor, “A Caixa”, não poderia ser diferente. O filme apresenta fortes tendências ao sci-fi, começando com o personagem de James Marsden, que trabalha para a NASA e ajudou a criar uma câmera fotográfica espacial. No decorrer do projeto várias dicas são dadas para unir esses elementos futuristas com a “resolução” do caso.

Baseado no conto “Buttons, Buttons” de Richard Mathenson (que também já deu origem a um episódio do seriado “Além da Imaginação”), o roteiro adaptado pelo próprio diretor gira em torno de um casal do subúrbio que recebe uma caixa misteriosa. Se eles apertarem o botão do objeto, ganharão a quantia de um milhão de dólares, mas ao mesmo tempo serão responsáveis pela morte de uma pessoa que eles não conhecem.

Unindo o suspense psicológico com a ficção científica, “A Caixa” assume um ritmo de urgência e deixa o espectador em estado de alerta. O filme convida a desvendar o que está por trás do objeto enigmático e também propõe debates filosóficos, sugerindo que apertamos botões como esse diariamente, não matando pessoas, mas demonstrando que cada um de nossos atos geram consequências.

O diretor Richard Kelly inicia a narrativa de forma lenta - como em um filme antigo - para aos poucos aumentar a tensão e deixar a nossa curiosidade em um grau bastante elevado. Cameron Diaz e James Marsden contribuem ao projeto porque são bons atores e fazem com que o público se importe com o casal em desvantagem. Frank Langella (“Frost/Nixon”) está realmente ameaçador como o encarregado pela caixa. O rosto deformado do seu personagem foi criado em computador e causa arrepios. Assim como esse, os efeitos especiais da produção são extremamente eficientes e elegantes.

Após duas horas, “A Caixa” termina e muitas perguntas ficarão sem resposta. O mistério é revelado, mas questões importantes para a história são deixadas de lado e podem gerar irritação no público que gosta de tudo bem explicado. Mesmo com essa fragilidade, não se desmerece a façanha de ter assistido a um filme instigante, tenso e, quem diria, atual. “A Caixa” é um filme diferente, como os outros do diretor.

Nota: 8

Um Sonho Possível


Há dois anos sem lançar filme algum nos cinemas, Sandra Bullock volta com três produções em 2010 e termina o ano como a atriz mais rentável do período. Depois de algumas bombas (“Premonições”, “Miss Simpatia 2”, “A Casa do Lago”), a atriz apostou no seu terreno mais confiável – a comédia – e realizou “Maldita Paixão” e “A Proposta”, mas foi com o drama “Um Sonho Possível”, que ela confirmou seu carisma e entregou a melhor atuação de sua carreira.

No filme, Bullock interpreta Leigh Anne, uma dondoca que abriga o desamparado Michael em sua casa. Ele é um garoto negro, de quase dois metros de altura e com mais de 100kg. Sem casa ou família, ele é encontrado por Anne andando no acostamento da estrada em um dia de muito frio. Como todo filme sobre superação, o grandalhão é aceito pelo marido e os filhos da ricaça, melhora suas notas nas provas e passa a integrar o time de futebol americano da escola.

Baseado em uma história real, “Um Sonho Possível” ganha força por ser um filme verdadeiro. Caso contrário carregaria uma mensagem positiva exagerada, já que resolve os problemas do personagem marginalizado apenas lhe dando casa e amor. O roteiro utiliza um conflito banal (apresentado logo nas primeiras cenas quando retrocede no tempo) para tornar o projeto mais profundo. O ápice anunciado no início não faz jus ao mistério. O equilíbrio entre o sofrimento e as risadas torna a sessão descontraída, principalmente, pelas cenas envolvendo o Big Mike e seu irmão menor.

Sandra Bullock convence como uma socialite bonitona que realmente se importa com as minorias. Mesmo sendo uma atriz que leva mais jeito em comédias românticas, aqui ela se desvincula do gênero para entregar uma atuação interessante, pontuada por determinação e alguns sentimentos reprimidos – esses que nunca se revelam ao público. Sua personagem, Leigh Anne, aparece em diversos momentos evitando situações e saindo de cena abruptamente. A sensação é de que ela não suporta momentos de muita emoção. Por que? Apesar de ficarmos sem descobrir, essa característica torna a protagonista diferente e mais verdadeira.

Como todo “feel good movie”, a sessão termina em alto astral, com a platéia sentindo que também pode fazer a diferença. Na tela parece tão simples, mas na prática a situação não é bem assim.

Nota: 7,5

CinemaX: 4 anos

O CinemaX está de aniversário. Em março, o blog completa quatro anos em atividade. Durante esse tempo, ocupou-se de publicar críticas sobre os filmes mais recentes e buscar desenvolver o senso crítico de seus leitores.

A primeira casa do CinemaX foi um site hospedado no programa GooglePages, que ficou em funcionamento durante 2006 e 2007. No primeiro ano foram realizadas 24 postagens e no segundo o número subiu para 70. O endereço ainda está ativo, basta clicar no link para conferir a origem do primeiro CinemaX. De lá para cá, uma evolução. Ainda bem.


Esse primeiro projeto contava também com as sessões “Lançamentos em DVD” (resenha dos principais filmes do mês a chegarem nas locadoras), “Boletim dos Filmes” (lista mensal de todos os longas assistidos com sua devida ficha técnica e nota) e “Notícias de Cinema” (matérias jornalísticas sobre as novidades que em breve entrariam em cartaz).

Conforme algumas limitações (número restrito de postagens, interface complicada, endereço extenso), o CinemaX foi transferido para o Blogger e uma nova etapa iniciou. O “ambiente” possibilitava a realização de enquetes, envio de feeds, comentários dos leitores, contagem dos acessos e um layout mais organizado. Nesse formato, o blog seguiu por mais dois anos (2008 e 2009) e publicou - até o momento - 179 críticas.

Quatro anos depois da primeira publicação, o CinemaX comemora a data mudando o seu layout para um visual clean e moderno. Há pouco tempo, o blog tinha recebido um logotipo, agora conta também com uma identidade visual, marcada pelo azul, vermelho e branco.

Aproveitando o espaço de comemoração, quero agradecer aos leitores que acessam diariamente o blog e me dão motivo para seguir publicando. Peço que sigam comentando os posts. O espaço de discussão é aberto para todos que querem conversar sobre cinema. É com muita satisfação que vejo os comentários de publicações como “Sem Medo de Morrer”, nos quais foram travadas várias hipóteses para o final do filme.

Também não poderia deixar de citar algumas pessoas que me ajudaram na elaboração do CinemaX: primeiramente, à professora Raquel Recuero, uma grande incentivadora de projetos acadêmicos voltados ao jornalismo digital, à Gabriela Zago que me auxiliou no comando das ferramentas do GooglePages e, por fim, ao meu colega e amigo Marcos Leivas, que na época tinha um blog de crônicas bastante acessado (“Palavra de Guri”) e que me deu o empurrão que faltava para criar o meu.

Obrigado à todos e bons filmes.

Max Cirne

Uma Mãe em Apuros


Todos nós sabemos que as crianças são seres endiabrados e precisam de monitoramento 24 horas. Justamente pela intensa dedicação, as mães acabam abdicando do campo profissional e da vida social para poder cuidar de suas crias. “Uma Mãe em Apuros” aborda essa questão: Eliza abandona sua promissora carreira como escritora para cuidar da casa, do marido e dos dois filhos. Durante o longa, acompanhamos um dia na vida da protagonista, que tenta levar as crianças para a escola, passear com o cachorro, fazer compras, ajudar a vizinha idosa e organizar uma festa de aniversário para a filha no final da tarde.

Vendida como comédia, a produção engana quem está à procura de um passatempo divertido no estilo de “Um Tira no Jardim de Infância” ou “Operação Babá”. Praticamente um drama, o filme observa Uma Thurman sempre descabelada, suada e quase tendo um infarto orque tudo resolveu dar errado. É difícil acreditar que todos os dias de sua vida são assim. As situações são tão estressantes e fora do comum que a lei de Murphy certamente foi aplicada com rigor para sacanear a personagem.

“Uma Mãe em Apuros” ao invés de tratar o assunto de forma verdadeira ou com humor, prefere criar acontecimentos forçados para tentar afirmar que as mães urbanas são “heroínas”. O exagero está presente nas atitudes inconseqüentes de Eliza como, por exemplo, quando ela resolve colocar na internet que sua melhor amiga se masturba com os brinquedos do filho ou então quando ela discute com os vizinhos por não ter tempo de limpar da calçada as necessidades do seu cachorro ou ainda quando briga no trânsito porque ela está trancando a rua e não quer sair.

Seguindo nessa linha, as demais situações também são sofríveis e pouco reais. O roteiro utiliza o recurso da personagem ter um blog para poder desenvolver os seus conflitos de “jovem mamãe”. Essa técnica foi incorporada com êxito no seriado “Sex and the City” e até mesmo no recente filme “Julie & Julia” – porque são elementos vitais para o andamento da narrativa. Aqui, é uma preguiça do texto que prefere trabalhar os problemas através de narrações tediosas. Para completar o acúmulo de insatisfações, ao término, tudo se encaminha para o clássico “final feliz” renunciando os problemas que Eliza vivenciou pouco tempo antes. Tenha dó.

Nota: 2

Mary and Max


2009 foi um ótimo ano para as animações voltadas ao público adulto. Se não bastasse o adorável e familiar “Up – Altas Aventuras”, recebemos também a excelente surpresa “O Fantástico Sr. Raposo”, no qual Wes Anderson transportou seu universo particular para o formato animado. Entre os três, “Mary and Max” é o longa mais adulto.

Baseado em uma história real, o roteiro de Adam Elliot (também diretor) conta a história de uma menina de oito anos que se corresponde através de cartas com um homem de 44. Ambos solitários e com problemas de encarar o mundo, eles se identificam rapidamente, tornando-se amigos e mantendo essa relação por muito tempo.

Narrado praticamente do início ao fim, “Mary and Max” apresenta diálogos mínimos e consegue com o artifício pouco usual da narração ininterrupta deixar o filme interessante e ágil. A fotografia predominantemente ancorada no preto e branco (com leves toques de vermelho) traduz a visão que os personagens possuem do mundo. Ao contrário das formas fofinhas das demais animações, os personagens aqui possuem traços oblíquos e “gordurosos”, transformando-os em seres estranhos e feios.

O conteúdo "pesado” para um público infantil (autismo, suicídio, alcoolismo, diferença sexual, obesidade) coloca a animação em um patamar mais elevado. Os personagens do título são duas crianças (independente da idade) com problemas sociais graves e que encontram um no outro a força de seguir seus dias sem encontrar uma compreensão maior. “Mary and Max” realiza uma exaltação à amizade e encerra como uma linda história de vida. Apesar de bastante elogiado e vencedor de alguns prêmios, o filme foi ignorado pela Academia. O destino é virar “cult”.

Nota: 8

Nine


Rob Marshall retornou ao gênero que lhe consagrou em 2002 com o filme “Chicago”, vencedor de cinco Oscar. “Nine”, na verdade, é um musical da Broadway encenado desde 1982 e baseado no filme “8 ½” de Fellini. A missão do diretor era transpor para as telas a versão dos palcos com muito mais glamour, cortes, coreografias e astros do cinema.

Assim como na obra original, a trama gira em torno de Guido Contini, cineasta famoso que cometeu dois fracassos retumbantes nos últimos anos. O próximo filme é um épico sobre o seu país de origem, a Itália, e é com esse projeto que vem a chance de voltar aos holofotes. Conforme a produção técnica vai definindo os cenários, figurinos, casting e outros detalhes, o diretor que ainda não apresentou o roteiro a ninguém sofre com dificuldades de desenvolver a primeira linha do texto.

A crise de Guido reflete na sua carreira, nas mulheres de sua vida e, conseqüentemente, no roteiro do seu novo filme. Para realizar a obra cinematográfica, primeiro ele terá que lidar com as desconfianças da sua esposa (Marion Cotillard), o fogo incontrolável da amante (Penélope Cruz) e a sedução das fãs (Kate Hudson). Tentando sobreviver em meio ao caos, o personagem volta e meia conversa com o fantasma da mãe (Sophia Loren), relembra fatos determinantes para o seu crescimento, como a primeira experiência com a sensualidade feminina (Fergie) e escuta atentamente os conselhos de uma amiga de anos (Judi Dench).

Guido é estereótipo do homem italiano: másculo, sedutor, bem sucedido e de muitas mulheres. Seria essa a mensagem da música mais marcante do longa: “Be Italian” representada pela cantora do Black Eyed Peas. Tentando ser algo além de sua capacidade, o Guido de Rob Marshall vai mergulhando em um abismo, passando de mulher para mulher, e assim as perdendo. A redenção vai depender do que ele absorver dessa jornada.

Os números musicais pontuam a narrativa para que possamos compreender melhor a angústia de Guido e os desejos das representantes femininas. Na maior parte das vezes essas intervenções chegam através de sonhos, fantasias e alucinações, acrescentando ao desenrolar da história. As músicas enriquecem o drama dos personagens e completam as emoções de cada, sem apelar para transições bruscas entre o real e o fantasioso.

A quantidade elevada de personagens, em certos momentos, prejudica o andamento da trama, já que não encontra soluções para todos eles. Apesar de o foco ser em Guido, as figuras que passam por sua vida tornam-se mais interessantes que o próprio protagonista. O ritmo da produção também é enfraquecido com as mudanças de tramas, justamente porque umas são de presença vital e outras nem tanto assim.

Em contrapartida, o time de estrelas encanta a platéia: Daniel Day-Lewis incorpora o cineasta em crise com perfeição; Nicole Kidman está radiante como a estrela de “Itália”; Kate Hudson requebra e seduz tanto Guido como o espectador; Sophia Loren esbanja a elegância e o charme da mulher italiana; Judi Dench mostra que sabe encarar um número musical com muito esplendor; Penélope Cruz tem verve de sobra para ser o caso picante de Guido; Marion Cotillard emprega emoção e delicadeza à personagem mais bem construída e Fergie completa o time com uma interpretação intensa e extremamente sensual.

Acompanhando o poder hipnótico desse time de beldades, o figurino e os cenários deslumbrantes encaixam-se primorosamente com as seqüências musicais. A fotografia do filme também é um destaque à parte, abusando de tons de rosa e roxo, alterando colorido com preto e branco e realizando jogos de luz e sombras para dar um visual refinado e condizente ao glamour do mundo do cinema. O trabalho de edição, com muitos cortes e em sintonia com as batidas das músicas, merece ser salientado.

A direção de Rob Marshall e o estilo que conferiu ao projeto são semelhantes ao de “Chicago”. A nova produção, infelizmente, peca com o seu desenvolvimento irregular, mas possui atributos inegáveis – como todos aqueles já citados – que o tornam igualmente fascinante. Encarando assim, “Nine” pode ser sexy, contagiante, belo e emocionante. Um espetáculo do início ao fim. Basta deixar-se levar pelo ritmo da música.

Nota: 9

Simplesmente Complicado


A diretora Nancy Meyers, de “Alguém Tem Que Ceder”, retoma o amor na maturidade com um trio protagonista de peso: Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin. O triângulo amoroso rende uma comédia divertida que não foge da linha dos outros filmes da diretora: açúcar, risadas e drama.

Meryl interpreta Jane, uma mulher independente, dona de uma padaria, mãe de três filhos e divorciada. Após um longo período sem se envolver em relacionamentos amorosos, eis que surgem dois homens em sua vida: o charmoso arquiteto Adam (Martin) e o retorno do ex-marido Jake (Baldwin). Embora trabalhe com questões comuns entre as mulheres dessa idade, o terreno do jogo é a comédia e isso fica claro quando o roteiro introduz elementos artificiais justamente para provocar risadas.

A briga entre o real e o inverossímil acontece até o encerramento do filme. A cena em que o triângulo é descoberto, por exemplo, parece ter sido escrita para um filme de humor pastelão. O filme perde seu rumo perto do final quando deixa a balança pender para o lado do melodrama. Alguém consegue “engolir” que após dez anos os filhos de Jane e Jake ainda não superaram o divórcio dos pais?

Beneficiado pela presença da ótima Meryl Streep, “Simplesmente Complicado” deixa passar alguns deslizes que acabam mascarados pela competência da atriz. Ela e Alec Baldwin são responsáveis pela melhores cenas, já que apresentam uma boa química. Enquanto isso, Steve Martin parece perdido no projeto com uma constante expressão de “cachorro abandonado”. Ao término, a comédia romântica cumpre a proposta: agrada o público que possui a mesma faixa etária dos protagonistas, e de quebra, rende entretenimento leve e engraçado para as demais idades.

Nota: 7

O Fim da Escuridão


Depois de oito anos sem aparecer frente às câmeras, Mel Gibson volta a atuar em um filme de ação e mostra que, além das rugas e do cabelo grisalho, ainda tem força para “segurar” um filme sozinho. Nesse período afastado, o astro comandou dois longas polêmicos (“A Paixão de Cristo” e “Apocalypto”) e se envolveu em escândalos por ter realizado comentários anti-semitistas durante uma bebedeira. Com “O Fim da Escuridão”, o ator comprova que sua força continua inalterada na indústria do cinema.

Baseado em uma minissérie britânica de 1985, o roteiro é sobre um policial que vai ao seu próprio limite para vingar a morte da filha. A trama manjada segue a cartilha dos filmes do gênero, utilizando a mesma história de sempre com elementos variados – no caso, uma grande empresa está por trás de um esquema que envolve armas nucleares. O tema levemente complicado aproxima-se ainda de tramas políticas e deixa o espectador comum por oras distante. Para capturar a atenção do público, o diretor investe em cenas de ação violentas e chocantes – sempre bem-vindas.

Ao contrário do que promete, o filme não é recheado de tiroteios e lutas. O diretor Martin Campbell dá um ritmo lento para sua obra, carregando em diálogos e informação, que por vezes recebe intervenções de violência abrupta. O pai interpretado por Gibson entra para a galeria dos “homens vingadores” já construídos pelo ator, estes definidos pelo olhar penetrante, cara de mau e obsessão em descobrir os culpados.

Desconsiderando o encerramento “feliz” extremamente forçado, “O Fim da Escuridão” é um bom filme, que na maioria das vezes, soa realista principalmente pelo tom adotado na narrativa e pela presença de um ator que sabe captar a atenção do público - mesmo depois de quase uma década sem dar as caras.

Nota: 6,9

Amor Sem Escalas


Depois de explorar o universo adolescente em “Juno”, o diretor Jason Reitman explora o ser humano e suas relações sociais em filme adulto com roteiro brilhante. George Clooney interpreta Ryan Bingham, profissional contratado por firmas que precisam demitir seus funcionários e não tem coragem para isso. Assim, ele viaja por todo os Estados Unidos demitindo pessoas.

Ryan é experiente no assunto: possui técnicas para cada situação, teorias comprovadas, confiança em suas atitudes e lábia na medida certa. Ele demite qualquer pessoa dando um show de segurança e motivação. Eis que surge a jovem Natalie (Anna Kendrick) no seu caminho, uma funcionária queridinha do chefe que sugere o sistema de demissão por teleconferência. A novidade é recebida positivamente pela empresa e as passagens aéreas de Bingham parecem estar com os dias contados.

Procurando provar para o seu chefe que a proposta não funciona, o astuto “demitidor” deve realizar suas viagens padrões acompanhado de Natalie. A jornada pelas várias cidades revela muitas descobertas para ambos personagens, que também recebem como integrante do time uma bela executiva (Vera Farmiga) que, assim como Bingham, passa mais dentro de um avião do que em sua própria casa.

Baseado em um livro, o roteiro adaptado de Sheldon Turner e do próprio diretor fala sobre o individualismo da sociedade moderna e a inevitável solidão que esse meio propicia. Orgulhoso das intermináveis milhas de viagem, o personagem de Clooney passa a reavaliar esse hobby de colecionar horas de vôo e pensar que ao estar “up in the air” todo o tempo, ele não tem chance de conviver com sua família, de ter namoradas e, muito menos, poder casar um dia. O roteiro inteligente e de ironia mordaz trabalha com a rivalidade do amor x trabalho sem ser piegas.

O trio principal personifica esses personagens de forma verdadeira e, por conseqüência, entregam um entrosamento perfeito em cena. O diretor Jason demonstra que conhece cada detalhe da história que quer contar e seu perfeccionismo leva a construção do melhor filme de sua carreira até agora. Sorte dele, que revela-se um diretor maduro e de grande potencial, e do espectador que poderá assistir produções corajosas e espertas sobre incertezas que assombram todos nós.

Nota: 9

Julie & Julia


A gastronomia já foi bastante explorada no cinema e a continua dando bons frutos, como este “Julie & Julia”. O filme baseado em uma história real trabalha com duas linhas narrativas: no passado, conhecemos a fantástica revolução gastronômica proposta por Julia Child, americana residente em Paris que cria e importa receitas francesas para o cardápio das donas-de-casa de seu país de origem. No presente, Julie Powell é uma grande admiradora dos livros e programas televisivos de Child. Para fugir de uma crise depressiva que se anuncia, ela encara o desafio de cozinhar as 524 receitas do livro de sua grande inspiração no espaço de um ano - e relata estas experiências em um blog.

A produção representa uma biografia inusitada, uma vez que conta a vida de Julia e ainda trabalha com o conceito de “professora” e “aluna” em diferentes épocas, colocando lado a lado as duas figuras femininas, sem deixar de comparar suas semelhanças e detalhar as descobertas de cada. A forma como o roteiro equilibra as duas tramas torna o filme ainda mais fascinante e dá uma lição de vida em ambas partes.

A diretora Nora Ephron, consagrada em comédias românticas, consegue dar suavidade e ritmo a um filme dramático, deixando o tom leve e agradável. Quanto as atrizes, Meryl Streep (sempre impecável) vive magistralmente a adorável Julia Child e Amy Adams dá conta de dividir o papel de protagonista com o ícone do cinema. Bon appetite!

Nota: 8

Trama Internacional


Clive Owen pode não ter sido escalado para viver o James Bond dos anos 2000, mas certamente tem todos os requisitos necessários para interpretar agentes secretos de forma convincente. “Duplicidade”, “Mandando Bala” e “Vingança Final” estão aí para comprovar. Em “Trama Internacional”, ele assume mais um desses cargos e, junto de Naomi Watts, investiga as atividades ilegais de um dos mais poderosos bancos do mundo. A dupla percorre o globo, passando por Berlin, Milão, Nova York e Istanbul.

A câmera de Tom Tykwer valoriza a arquitetura das cidades modernas ao mesmo tempo que dá forma a um thriller à moda antiga, trocando a linguagem acelerada tão presente nos novos exemplares de ação por cenas mais pontuais e discursivas. A sequência de maior adrenalina do longa se passa no museu Guggenhein e já entrou na lista das melhores do gênero.

Nota: 7

Cold Souls


“Cold Souls” é a prova de que um belo cartaz vende um filme. As diversas faces de Paul Giamatti no pôster anunciavam um novo filme-cabeça, ao estilo de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Os primeiros minutos até condizem com a estratégia de marketing: ator depressivo recorre a um programa diferente para extrair sua alma e deixar de sofrer. Ele não se acostuma em viver praticamente sem emoções e quer sua alma de volta.

O plot é bastante curioso. A desvantagem é que a narrativa lenta não apresenta novos atrativos e passa a encontrar dificuldades na tentativa de sustentar o seu argumento principal. “Cold Souls” tinha uma idéia original, mas morre na praia porque não consegue ser tão ousado e inventivo quanto seu desenvolvimento inicial.

Nota: 3,5

Vício Frenético


Após ter praticamente destruído sua carreira com os projetos mais recentes (“Presságio”, “O Vidente”, “Perigo em Bangkok”, “O Sacrifício”, “Motoqueiro Fantasma”), o astro Nicolas Cage teve a chance de sair por cima com a refilmagem de um filme policial dos anos 90 que recebeu uma modernização pelo diretor Werner Herzog.

“Vício Frenético” inicia com o caso de uma família de angolanos assassinada em um bairro “barra pesada” de Nova Orleans. Tudo indica que o motivo esteja relacionado ao tráfico de drogas. Lentamente, a investigação é deixada de lado e quem ganha destaque são os conflitos do personagem de Cage.

O tira extremamente violento e drogado deveria ser um papel desafiador para o veterano ator, provocando sua capacidade inquestionável vista em filmes como “Despedida em Lãs Vegas” e “O Sol de Cada Manhã”. Cage realmente parece estar se esforçando em cena, mas o seu empenho apenas resulta em uma atuação razoável. Dificultando ainda mais, sua companheira na tela, Eva Mendes - além de atuar sempre o mesmo personagem (a gostosona) – faz o par romântico do protagonista deixando explícito que lhe faltam muitas aulas de interpretação.

A direção “quadrada” do diretor não investe em ousadias e o roteiro banal também não contribui. Dificilmente vai ser com esse filme que o astro receberá seu prestígio de volta.

Nota: 4,5

O Amor Acontece


Existe uma teoria de que a primeira frase de um livro ou filme define a obra. Pensando nessa linha de raciocínio, a primeira frase de “O Amor Acontece” traduz bem a sua experiência como entretenimento: “quando a vida te dá limões, você pode ficar chateado ou fazer uma limonada”. Não a interprete no sentido de tentar tirar algum proveito da sessão. A questão é que essa frase é tão batida e simplória que representa com exatidão o conteúdo do filme.

Aaron Eckhart interpreta um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro e, para amenizar a sua dor, decidiu escrever um livro sobre o assunto. Ao contrário do que planejava, seu livro se torna um best-seller e ele começa a dar palestras motivacionais. Em um desses encontros, ele conhece a personagem de Jennifer Aniston, uma florista independente à procura de um novo amor.

O filme leva quase duas horas para chegar na cena que exemplifica justamente o que o título diz. Não é óbvio? O problema é que no caminho somos obrigados a aturar as insuportáveis palestras de superação dadas pelo personagem masculino e o seu trauma com a morte da esposa. Ainda pior são os conflitos sem sentimentos, os diálogos pobres, o romance sem química e alguns momentos forçados de emoção. Assim, é fácil certificar que, ao menos, “a diversão do espectador não acontece”.

Nota: 3

A Trilha


A busca por um desfecho surpreendente acaba sendo responsável por roteiros que traem seus elementos fundamentais e terminam gerando algumas aberrações cinematográficas. No caso de “A Trilha”, o filme não chega ao ponto de ser um espetáculo bizarro, mas está longe de ser decente.

Aparentemente é um filme comum: casal de turistas aproveita sua lua de mel em Honolulu justamente no período que uma onda de crimes anda acontecendo na região. O jogo inverte próximo do final com uma tradicional reviravolta. O que deveria “pegar” o espectador de surpresa realmente o faz, porque não dá para acreditar no rumo que a história toma.

O diretor David Twohy investe em belas imagens do Hawaii (ponto positivo) e cria cenas de ação que não funcionam ao realizá-las com cortes rápidos e divisão da tela em vários quadros (ponto negativo). O elenco levemente conhecido (Milla Jovovich e Timothy Olympat) embarca na “aventura” com gosto. O desperdício é assistir o ótimo Steve Zahn envolvido na produção.

Nota: 4

Educação


Nick Horny é escritor inglês cuja principal influência é a cultura pop e o humor sarcástico. Suas obras literárias mais conhecidas são: “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, ambas adaptadas para o cinema. “Educação” é o seu primeiro texto escrito especialmente para o cinema.

No subúrbio londrino de 1960 vive Jenny, uma garota reprimida pelos pais e educada desde criança para dedicar-se exclusivamente aos estudos e, assim, ser aceita na Universidade de Oxford. Os planos fogem do controle quando o sedutor David lhe dá uma simples carona de carro e, aos poucos, ele passa a mostrar uma vida boêmia com idas a restaurantes, concertos musicais, “nightclubs” e viagens ao exterior.

O roteiro oferece um caso específico para conversar sobre a formação dos adolescentes e a importante influência daqueles que os cercam. A diretora Lone Scherfig acompanha sua protagonista com segurança e consegue boas atuações do elenco. Pode faltar as principais características do autor (referências pop e ironia) – o que é uma pena - mas “Educação” segue sendo um bom e interessante entretenimento.

Nota: 7,5

Adam


Adam é portador da Síndrome de Asperger, uma doença semelhante ao autismo que pode causar dificuldade na interação social, falta de empatia, interpretação literal das coisas, e outros sintomas. Após perder o pai, ele se vê desamparado, sem alguém para ajudá-lo nas atividades diárias. Essa carência é preenchida com a presença de uma jovem e simpática vizinha que recentemente mudou-se para o prédio.

Apesar de abordar um tema interessante e pouco conhecido, o filme não discute a situação de Adam com a doença. O espectador testemunha apenas a representação de uma pessoa com dificuldades de se comunicar e termina não sabendo muito além disso. Adam está na frente da câmera, mas é difícil entender o que se passa com ele. A produção não aprofunda o assunto e deixa o motivo central do projeto esvair-se para camadas mais superficiais, direcionando o foco nos olhares vazios de Hugh Dancy (esforçando-se por prêmios) e na tentativa de romance do seu personagem.

O roteiro é tão pouco inspirado que cria tramas secundárias envolvendo os pais da namorada para aumentar a duração e gerar mais conflitos na trama. O conjunto desses elementos é tão insosso, que “Adam” não desperta sentimentos fortes, apenas indiferença.

Nota: 5,0

Sinédoque, Nova York


Assistir “Sinédoque, Nova York” não é tarefa fácil. Digo isso porque fui muito bem informado a respeito do filme e, já sabia de antemão que a realidade era distorcida conforme a visão do personagem de Phillip Seymor Hoffman. Assim, tinha conhecimento prévio da casa que está em chamas eternas (e qual era sua metáfora), sabia que o personagem central iria interagir com seu alter-ego personificado na figura de um idoso chamado Sammy, sabia também da passagem brusca do tempo, das várias mulheres na vida do protagonista e de sua obsessão sem limites com a idéia da morte. Mesmo com todas essas informações e outras mais, chegou um ponto em que perdi a direção do que estava vendo na tela.

O filme começa mostrando o relacionamento familiar de Caden com sua esposa e filha. Os diálogos e o desenvolvimento das cenas são originais e de um humor negro excelente, ganhando de imediato a confiança dos fãs do roteirista consagrado (e agora diretor) Charlie Kaufman. A narrativa avança cada vez mais interessante, porém, quando beira a metade do filme o espectador “normal” começa a ter dificuldades na tentiva de acompanhar os delírios do protagonista. Quanto mais se aproxima do final, mais confusa se torna a compreensão do que está sendo exibido.

Ao embarcar na proposta de “Sinédoque, Nova York” – assim como os demais filmes do roteirista – é preciso saber que não se trata de um filme convencional. Kauffman ganhou a admiração através dos ótimos “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação” e de sua obra-prima “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Nenhum deles é um longa-metragem padrão. Assim como essas criações, “Sinédoque” apresenta questões muito interessantes, como a eminência da morte, as realizações pessoais e o sentido da vida. O problema é a forma densa e confusa como esse conteúdo é compartilhado, afastando gradativamente o espectador de um contato maior com a película.

É difícil acreditar que no site IMDB a produção consta com nota 7,3 através de mais de 14 mil votos. Esse dado comprova que boa parte das pessoas gostaram do projeto (mesmo se tratando de um “filme-cabeça”). Será que realmente elas entenderam alguma coisa? Não quero fazer campanha para deixarem bem mastigado tudo que é apresentado na história (até porque sou contra), mas pelo menos peço que o roteiro seja ao menos compreensível. Por isso, ao término da sessão de “Sinédoque, Nova York” fiquei com a sensação de que perdi um grande filme. Talvez assistindo uma segunda vez seja mais elucidativo.

Nota: 6,5

Zumbilândia


Os zumbis estão comumente empapados pelo sangue de suas vítimas, perambulam famintos em busca de carne fresca, são capazes de transformar qualquer pessoa em um de seus semelhantes com apenas uma mordida e, além de tudo, são mortos-vivos devoradores de miolos. Com todas essas características, eles possuem requisitos suficientes para serem considerados assustadores.

A imagem dessas criaturas mudou quando, em 2004, foi lançado o filme “Todo Mundo Quase Morto”, que ridicularizava a classe zumbi, classificando-os como seres patéticos, lerdos e tão pouco ameaçadores. Na seqüência uma série de filmes aproveitou para inserir os monstrengos em comédias, vide “Fido – O Mascote”.

“Zumbilândia” utiliza os mortos-vivos para provocar o riso e aumentar a adrenalina do espectador. No filme, o planeta foi dominado por essas aberrações e as quatro únicas pessoas que parecem não ter sido infectadas se juntam para lutar pela sobrevivência. Essa mistura de comédia com ação proporciona um filme divertido, que satiriza com os clichês e os filmes de terror que não assustam ninguém. A linguagem da produção atrai pelo estilo acelerado e explícito, que pode ser comprovado logo no início com a explicação das regras de como se prevenir de um ataque de zumbi.

Destaque para o engraçado Tallahasse, matador “profissional” das criaturas e interpretado pelo doidão Woody Harrelson. A participação de Bill Murray também rende bons momentos.

Nota: 7,6

Avatar


Fã confesso de ficção científica, o diretor James Cameron vem tentando realizar sua obra mais grandiosa desde os meados da década de 90. Após o sucesso de “Titanic” parecia que “Avatar” finalmente ganharia a vida. O que atrasou a concretização foi o aprimoramento de uma tecnologia avançada suficiente para criar um ecossistema completo de plantas e animais, no qual um povo nativo com uma rica cultura e linguagem poderia soar verdadeiro.

A responsabilidade era grande para um dos filmes mais aguardados de todos os tempos, e o veredicto foi dado na estréia mundial da superprodução no dia 18 de dezembro de 2009. “Avatar” é uma experiência fantástica, de um visual deslumbrante e jamais visto na história do cinema. A tribo dos Navi´s, criada no sistema de captura de imagens semelhante ao de Gollum do “O Senhor dos Anéis”, imprime realidade absurda aos seres extraterrestres azuis e, quando os coloca interagindo com os humanos comprova sua perfeição.

O mundo criado por James Cameron é um universo impressionante, que mescla elementos gráficos de cair o queixo, como a variedade infinita de criaturas, com a densidade filosófica de crenças de um povo poderoso. O início do filme é justamente para apresentar essa civilização e seus costumes, e aos poucos, vão sendo introduzidas pinceladas da guerra que se anuncia.A longa duração do filme pode cansar o espectador, principalmente, pelos momentos arrastados no meio da produção. De tempos em tempos, as seqüências de ação movimentam a trama e retomam o ritmo acelerado. Essas cenas mais extasiantes remetem tranquilamente a um jogo de videogame e fica fácil imaginar como será o game baseado no longa-metragem.

Por mais que tente transmitir uma mensagem ambientalista e realizar um alerta sobre o futuro da Terra (podendo até gerar releituras para os dias atuais), “Avatar” é por essência um filme de aventura e sua intenção nada mais é do que proporcionar ao público uma experiência cinematográfica envolvente e de encher os olhos. O direcionamento ficou tanto na estética que o roteiro tornou-se apenas um subsídio para poder criar este mundo fantástico. Nesse sentido, precisaria de um leve tratamento no texto para torná-lo mais enxuto, deixando a adrenalina constante e elevando o projeto a um caráter mais poético.

“Avatar” é sem sombra de dúvidas uma evolução dentro das técnicas de efeitos especiais, porém ainda é cedo para considerar o filme revolucionário. Certamente, está longe de ser um novo “2001” ou “Star Wars”, como era a intenção do diretor. O custo de toda essa perfeição é tamanho que vai demorar bons anos para assistirmos uma produção como esta novamente. Por isso, compre seu ingresso e embarque na magia de James Cameron enquanto o filme está em cartaz. É difícil se arrepender.

Nota: 8

Lua Nova


Mais inexplicável que o sucesso da saga “Crepúsculo” é a existência de um filme/romance como “Lua Nova”. A estupidez da obra é tão grande que ofende qualquer espectador que tenha um pouco de massa cinzenta. A trama consegue estabelecer como base a clássica situação: “eu te amo mas vou te deixar”. Stephenie Mayer deve ter realizado uma pesquisa dos maiores clichês de todos os tempos e escolhido o vencedor para desenvolver esse livro.

Mesmo tentando superar a banal relação entre Bella e Edward, o filme também não consegue apresentar cenas que sequer sejam interessantes. Salvam-se apenas três sequencias entre as mais de duas horas de exibição: a primeira é o sonho de Bella logo depois dos créditos iniciais quando a própria se imagina envelhecida; a próxima cena é a passagem das estações do ano através das mudanças observadas na janela do quarto da protagonista e, por fim, a transformação de Jake em um lobisomem. O restante é uma perda de tempo total – e não vá achando que essas cenas salvam o filme, porque não salvam. Nem sequer valem o ingresso.

Com Edward afastado da jogada (ele mal aparece no filme), Jake serve de consolo para a jovem Bella, que passa a enxergar mais atrativos no garoto a partir do momento que ele corta o cabelo (!). Divida entre um vampiro e um lobisomem, Bella irrita a paciência do espectador com gritos de depressão sem fim ou crises existenciais intoleráveis.

Para movimentar a trama, surgem novos vampiros e uma trupe de lobisomens sem camisa. Talvez seja por isso o sucesso entre o público feminino: dois galãs (ambos aparecem praticamente despidos o filme todo) e esse time de lobisomens. A tentativa desesperada comprova a falta de atrativos da produção e deixa a platéia masculina ainda mais distante.

Assim como em “Crepúsculo”, as cenas de ação não empolgam – apesar do dobro do orçamento do primeiro filme. A afirmativa se comprova quando temos a aparição de Laurent (o vampiro de dreadlocks) que ao invés de deixar o público tenso, acaba apenas evitando que o sono tome conta do espectador. Sem falar nas sequencias de luta nas quais os vampiros viram fumaça durante os golpes. Haja paciência. Ou então, as cenas rodadas na Itália, que deveriam ser o ápice do projeto, terminam como o exemplo perfeito de anticlímax com locações filmadas em plena tarde com a luz do sol chegando a iluminar toda a sala do cinema. Espera aí... estamos falando mesmo de um filme de vampiros? Onde está o universo sombrio e apavorante?

O segundo filme segue deixando de lado as questões sobre os seres fantásticos (vampiros e agora os lobisomens) e opta por focar no mais simplório: o amor da insuportável Bella. Com tantas questões pendentes, a produção novamente ausenta-se das presas dos sanguessugas, da sede por sangue e do caráter sexual das criaturas da noite. Assim, os vampiros de “Crepúsculo” não chegam a ser ameaças em nenhum momento, são mortos-vivos totalmente desinteressantes. Deve ser por isso que Bella e Edward combinam tanto.

No término dos sofríveis 130 minutos, chega-se a conclusão que esse segundo capítulo é completamente dispensável para a saga, já que não apresenta nada de significante. Pode-se tranquilamente pular de “Crepúsculo” para “Eclipse” sem grandes perdas. “Lua Nova” deve agradar os fãs completamente cegos de amor pela saga, porque do resto é o pior filme do ano.

Nota: 2,0

Por favor, assistam “True Blood”.

Atividade Paranormal


A tentativa é repetir o que aconteceu dez anos atrás, quando um filme modesto chamado “Bruxa de Blair” pegou todos de surpresa aparentando ser real. Depois da “pegadinha” de 1999, ninguém mais cai em lances como esse - ainda por cima quando é distribuído pela Paramont Pictures.

“Atividade Paranormal” mostra a rotina de um casal que tem um espírito do mal vivendo em sua casa. O lance dos sustos é através de sombras, barulhos estranhos, pegadas, luzes que acendem e apagam. Fica até difícil imaginar onde foram gastos os 15 mil dólares de produção. Em cena, só temos o casal protagonista e duas aparições de um especialista em entidades e os “efeitos”, como fazer uma porta abrir ou se fechar sozinha, não chegam a custar um centavo.

O “buzz” deve-se aos fãs que assistiram o longa-metragem em festivais independentes e divulgaram nas redes sociais. A campanha de promoção foi justamente através do hotsite onde era possível solicitar a exibição do filme na sua cidade. O trailer sugestivo mostrando os sustos da platéia no cinema e os argumentos críticos estampados no cartaz anunciavam um dos filmes mais apavorantes da década. Uma bela jogada de marketing. Aguçar a curiosidade do público sempre dá certo: a bilheteria nos Estados Unidos foi assustadoramente alta.

Pensando no espectador, somente aqueles que nunca assistiram um bom filme do gênero vão se empolgar com o falso documentário. Além de uma produção caseira, com imagem tremidas, é preciso acompanhar a rotina de um casal chato, que ainda por cima é interpretado por fraquíssimas atuações. “Atividade Paranormal” é uma cópia fajuta de “Bruxa de Blair” que não ganha em "cenas de ação”, clima tenso ou final chocante. Praticamente nada acontece no filme; então ao invés de não assistir sozinho (como o pôster oficial indica), o melhor é não assistir mesmo.

Nota: 4

(500) Dias com Ela


“Esta é uma história ‘garoto encontra uma garota’”. As primeiras oito palavras do narrador tentam definir o filme. O que poderia, no entanto, ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero. “500 Dias com Ela” aproxima-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

O garoto é Tom, um redator de cartões comemorativos, que se apaixona a primeira vista pela nova secretária do chefe, Summer. A moça é tudo o que ele sempre sonhou: bonita, inteligente e, ainda por cima, gosta das mesmas músicas, livros e filmes que ele. A garota Summer é uma mulher independente, livre de escolhas e com pensamentos tipicamente masculinos. Não acredita no amor, julga-o um “conto de fadas” e, por isso, possui uma facilidade tremenda em cortar as pessoas de sua vida – assim como corta seus cabelos que tanto adora.

Essa diferença de personalidade faz com que ele idealize um romance mais profundo do que a relação que está se desenvolvendo. Os 500 dias de Tom, iluminados pela presença de Summer, são contados fora de cronologia, intercalando os perfeitos e conturbados momentos do casal. Esse dinamismo torna-se essencial para o ritmo da trama, mantendo um clima agradável, que caso fosse relatado na ordem dos fatos jamais existiria.

A passagem do tempo é realizada através de uma animação introdutória, na qual os dias felizes do casal são apresentados com um céu limpo, as árvores floridas e um sol intenso. É verão para Tom! Quando o relacionamento está ruindo, vemos um dia cinzento e a falta de folhas nas árvores. Assim, já sabemos de antemão o que o personagem está sentindo e quais cenas virão a seguir. Os encontros do rapaz apaixonado com a cética garota fará com que os dois reflitam sobre o devastador sentimento do amor, colocando em xeque se é o destino que conspira ou se são as coincidências que norteiam as suas vidas.

O tema relativamente denso para um filme “adolescente” rende comparações à Woody Allen e sua visão menos poética do universo. Semelhanças com os filmes do diretor, como “Crimes e Pecados”, “Match Point” e especialmente “Igual a Tudo na Vida”, que coloca dois jovens conversando sobre o relacionamento, são muito claras. Em certo momento, a tela se divide em “realidade” e “expectativa” mostrando que nem sempre o que desejamos realmente acontece. Homenagem captada.

A menção à Nick Hornby é justificada pela presença de inúmeras referências a cultura pop, em diálogos sobre Beatles, The Smiths, Sex Pistols, o seriado televisivo “Night Rider”, o filme “A Primeira Noite de Um Homem”, Bruce Springsteen, entre tantos outros. Talvez sejam esses gostos similares que tenham aproximado o casal, porém isso definitivamente não é tudo em um relacionamento. Como diz um dos personagens para Tom: “não é só porque ela curte as mesmas bizarrices que tu que ela é a mulher da tua vida”.

Também não seria possível um filme tão completo se não fosse a presença do ótimo Joseph Gordon-Levitt e da encantadora Zooey Deschanel. A sintonia perfeita entre o casal ganha o público no primeiro instante em que é demonstrada em cena. Joseph já havia provado que pode carregar um filme nas costas com “O Vigia” e o brilhante “Mistérios da Carne”; já Zooey, que sempre demonstrou ter mais dotes físicos do que artísticos – vide a péssima atuação em “Fim dos Tempos” – tem em Summer o papel de sua carreira.

Como acréscimo nessa fantástica composição, tem-se ainda uma trilha sonora em conexão quase sobrenatural com a história. As faixas são de extrema importância para a construção das cenas e, em sua maioria, reverenciam artistas indie como Regina Spektor, Doves, Feist, Smiths e She & Him – excelente banda de Zooey Deschanel (se você nunca ouviu falar, baixe o cd imediatamente).

O responsável pela originalidade do produto é o diretor estreante Marc Webb, que tem no seu currículo uma série de videoclipes. A bagagem do cineasta é reproduzida na consecutiva utilização de mini-cenas que compõem o painel dos vários dias ao lado da amada. Após o sucesso do filme, o nome de Webb está em alta e uma nova adaptação do musical “Jesus Cristo Superstar” ganhou o seu comando.

Para o público que aguardou tanto por esse filme, “500 Dias com Ela” supera as expectativas e faz o retrato dessa nova geração “cult” na busca pelo amor. Mas não adianta tentar se enganar ao esperar pelo convencional. As intenções do filme estão explícitas nos primeiros minutos. Pode ser que Summer não tenha sido a mulher que Tom tanto procurou, mas os dias em sua companhia certamente foram inesquecíveis –assim como serão as quase duas horas dedicadas pelo espectador com o filme.

Nota: 9,5

Estômago


“Estômago” pode até sugerir, mas não é uma comédia romântica sobre culinária e afins. A produção nacional dirigida por Marcos Jorge está mais para um suspense dramático com clima bem pesado.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um nordestino que chega na cidade grande sem ter o que comer e onde dormir. Consegue emprego em um boteco fritando pastéis e coxinhas de galinha. O sucesso de suas coxinhas faz o movimento do bar aumentar, e logo ele é chamado para trabalhar como chef de um restaurante italiano. Nessa transição, conhece a prostituta Iria (Fabíula Nascimento) e imediatamente se apaixona.

O desenrolar do roteiro transforma “Estômago” em um filme original, único no cinema brasileiro, permeado por um humor negro chocante e com um resultado que retrata o Brasil sem piedade. Curiosamente, a gastronomia, ao invés de despertar paixões nos personagens, é tratada como sinônimo de poder.

O diretor Marcos Jorge e sua equipe criam um filme requintado e essencialmente brasileiro, valorizado também pelas fortes referências ao cinema de Fellini. Engrossando o caldo, João Miguel cria um personagem tão real que é difícil dissociar o ator de sua representação. Na mesma linha, Fabíula Nascimento rouba todas as cenas em que aparece, transformando sua puta em um ser fascinante.

Assistir ao filme é como degustar um prato caprichado e saboroso, feito com tudo que há de melhor, mas que vai se tornando indigesto depois das primeiras garfadas. Portanto, já aviso, acompanhar a tortuosa saga de Raimundo Nonato não é para quem tem estômago fraco.

Nota: 7,5

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas


O propósito do seriado televisivo “Os Normais” era apresentar situações comuns do dia-a-dia que levassem as pessoas à loucura. O texto inteligente e afiado de Fernanda Young e Alexandre Machado dificilmente decepcionava e a dupla Luis Fernando Guimarrães e Fernanda Torres interpretaram os personagens de suas vidas: Rui e Vani, um casal neurótico e completamente maluco que não tinha como não cair no gosto do público.

Três temporadas depois e um filme no currículo, eis que chega um novo longa-metragem: “Os Normais 2”. Após o estrondoso sucesso da primeira incursão no cinema, a expectativa com essa seqüência era das mais altas. Inicialmente o filme ficou conhecido pela subtítulo “Ménage a trois”, e bem que poderia seguir com ele, já que a produção gira em torno da aventura do casal em busca de uma terceira para pessoa para fazer sexo.

A sensação é de que “Os Normais 2” é um episódio estendido. Seus míseros 75 minutos logo terminam e a superficialidade da trama fica evidente, ressaltando a fraca história que não merecia ser levada às telas. Também não existe uma linguagem cinematográfica eficiente, é muito semelhante à da série. Os atores principais e nem mesmo os coadjuvantes demonstram empolgação com o projeto. Apesar de toda essa carência, Rui e Vani seguem sendo personagens muito queridos do público e somente pelo retorno deles que a sessão tem seu valor.

Nota; 5,0

Era Uma Vez...


Os contos de fantasia teimam em começar com o tradicional “Era Uma Vez…”. Essa escolha tem o intuito salientar o conteúdo lúdico da história, fruto da imaginação do autor e de sua liberdade poética. A mesma expressão é utilizada como título para o novo filme de Breno Silveira (diretor de “Dois Filhos de Francisco”) justamente para demarcar que o romance do pobretão D com a patricinha Nina é um conto de fadas repetido e previsível.

Ele mora na favela do Cantagalo e trabalha diariamente em um quiosque na praia do Rio de Janeiro. De seu recanto, observa a bela Nina entrar e sair do prédio da frente, até o dia em que a salva de um assalto. A aproximação deles é inevitável e logo os dois se apaixonam, porém a relação não demora para ser abalada pelas gritantes diferenças sociais e o mascarado preconceito.

Quem já não ouviu essa história? Realmente, “Era Uma Vez…” é um filme do qual todos sabem o que vai acontecer na tela, só que ainda assim, a história acaba surpreendendo o público e revelando ser uma das melhores produções nacionais dos últimos anos. O feito está relacionado com a atualização da trama, romantizada em seus núcleos para sensibilizar o espectador, injetando gás para temas tão discutidos e desgastados no dia-a-dia, como a violência no morro, o caos urbano e a falsa moralidade.

Também não se deve tirar o mérito do entrosamento perfeito entre os atores Thiago Martins e Vítria Frate, que dão sustentação vital ao romance desafiador e quase impossível de um garoto pobre com uma menina rica. Os dois juntos emocionam e levam às mais intençãs emoções, sendo ainda mais tocante que o filme anterior do diretor.

Breno Silveira demonstra em seu segundo longa-metragem que tem domínio completo pela sua obra, criando um estilo evidente e próprio de humanização dos personagens. “Era Uma Vez….” pode ser considerado uma espécie de Romeu e Julieta à brasileira, com doses cavalares de realidade e amor. A intensidade do projeto leva o público ao total comprometimento com a trama, fazendo-o sair da sessão inchado de tanto derramar lágrimas. E talvez essa troca de sensações e cumplicidades faça com que algumas percepções de mundo sejam transformadas. Por isso, e por tudo mais que você só irá descobrir ao assistir o filme, é que “Era Uma Vez…” não pode ficar nem mais um segundo parado na estante da locadora.

Nota: 9

Duplicidade


Julia Roberts e Clive Owen voltam a contracenar juntos quatro anos depois do excelente “Closer – Perto Demais” e a sintonia permanece intacta. Neste thriller sobre agentes duplos que planejam passar a perna em todo mundo, não existe mocinhos nem bandidos. O importante é se dar bem e, para transmitir esse clima de trapaça e jogo de interesses, o diretor Tony Gilroy imprime seu estilo elegante ao dividir a tela em várias cenas, transmitindo dinamismo para a trama.

O grande mote do roteiro é brincar com a duplicidade dos agentes e abordar a relação de eterna desconfiança entre eles. Embora apaixonados, o casal não consegue por um único instante relaxar e, assim, seguem maquinando estratégias para o funcionamento perfeito do plano - sempre com um pé atrás quanto a fidelidade de seu parceiro.

O filme foi considerado bastante complicado, conforme sua narrativa não linear e a linguagem específica a respeito dos trâmites entre os serviços secretos. “Duplicidade” exige mesmo a atenção do espectador (nada fora do normal), e termina por revelar-se um entretenimento esperto e charmoso, assim como seus protagonistas. Destaque também para a interessante trilha sonora de James Newton Howard com muitos batuques e swing.

Nota: 8

Shortbus


“Hedwig – Rock, Amor e Traição” foi um marco na carreira de John Cameron Mitchell, tanto como diretor quanto ator. A produção hiper cultuada é uma falsa biografia sobre um popstar do glamrock e conta com deliciosas músicas próprias. Depois de ser catapultado para o sucesso, o astro repentino levou cinco anos para lançar este “Shorbus”, um filme sem pudores sobre a vida sexual de um grupo de jovens.

Para realizar o projeto, o diretor buscou suporte nas relações sexuais para falar sobre aceitação pessoal – em todos os sentidos. A polêmica dessa vez foi com o conjunto de cenas de sexo explícito hetero e homossexual. Embora nada gratuitas, as sequencias não impedem a imediata repulsa dos espectadores mais puritanos.

“Shortbus” é um filme pesado e muito longe de um cinema adolescente pipoca. As cenas são perfeitas de forma independente, quando somadas ao contexto podem não justificar a sua importância. Por isso, a fita não deve ser avaliada como um roteiro linear, a graça está nas sensações que transmite, nos temas que aborda e na experiência total proporcionada. É um grande exercício de linguagem cinematográfica sobre a sexualidade sem ser de mau gosto ou grosseiro.

Nota: 7,7

Arraste-me para o Inferno


Antes de comandar a franquia “Homem Aranha”, o diretor Sam Raimi ficou conhecido por um de seus primeiros filmes, uma produção de horror chamada “Evil Dead” que ganhou continuação e se tornou cultuada com o passar dos anos. Agora, famoso e com três blockbusters no currículo, ele decidiu relembrar o período em que trabalhou com o gênero prestando uma esperta homenagem aos clássicos do terror.

Na interessante trama, atendente de um banco é amaldiçoada após negar empréstimo para uma senhora. Sentindo-se humilhada, a velha invoca o demônio chamado Lâmia, que durante três dias diverte-se torturando sua vítima para depois levar a alma da pessoa diretamente para o inferno. O roteiro de Raimi e seu irmão Ivan faz uma salada com os mais conhecidos clichês: demônios, videntes, sacrifícios de animais, pragas, pesadelos, espíritos, larvas, vômitos e muito mais.


A proposta é ser trash, com direito a cenas muito escrachadas e até cômicas, mas o que dá maior força ao projeto é a forma como a história é levada a sério, envolvendo o público e tornando-o cúmplice dos absurdos. A homenagem pode ser conferida já nos créditos iniciais, quando o título salta na tela - bem como os primeiros longas de horror.


O filme de orçamento modesto para padrões hollywoodianos foi bastante elogiado pela crítica e bem recebido pelo público. Mais um ponto para Sam Raimi. Se dá sustos? Sim, alguns bons sustos estão no conjunto.

Nota: 8