Medianeras


Uma boa surpresa chega do cinema argentino. O filme "Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual" mostra dois jovens solitários, vizinhos de prédio, aparentemente tão próximos, porém, separados por uma grande metrópole. Ambos vivem trancafiados em seus apartamentos; presos em espaços minúsculos, de apenas uma janela e isolados do que acontece fora de suas zonas de conforto. Frustrações e expectativas de vida são desenhadas pelos personagens durante o filme, tornando o retrato desses jovens adultos tão fiel à realidade.

Martin mal sai de casa. É criador de sites e passa horas em frente ao computador. Suas interações com outras pessoas são, praticamente, mediadas pelo virtual. Após alguns ataques de pânico, seu médico recomenda caminhar pela cidade e fotografar o que achar interessante. Uma receita para aliviar o estresse e também para conviver além do seu universo de quatro paredes.

No prédio ao lado, mora Mariana, arquiteta que não conseguiu tirar uma de suas plantas do papel. Em compensação, trabalha como decoradora de vitrines de lojas. Ela recém terminou um relacionamento de quatro anos e está se adaptando a viver sozinha em seu antigo apartamento. Possui claustrofobia e sobe e desce diariamente oito andares de escada. Os dois formam um casal de personalidades e gostos similares que ainda não se conhece.

Como pano de fundo, temos Buenos Aires como uma cidade esmagadora, formada por uma infinidade de prédios de diversos tamanhos e formatos, habitados por pessoas cada vez mais individualistas e, consequentemente, sozinhas. Aquela imagem de capital turística e cultural não aparece em cena, oferecendo a oportunidade de representar qualquer outra metrópole mundial. A tal “medianeira” do título refere-se ao lado cego dos prédios, sem janelas, geralmente utilizado para propagandas. É assim como os personagens se sentem perante o mundo: uma pequena parte aprisionada.

As duas histórias correm em paralelo, ameaçando uma fusão que pode ou não ocorrer ao final. Nesse caminho, Martin mostra-se um personagem bem mais interessante. Ele procura alternativas de movimentar sua vida, chega a conhecer algumas garotas; enquanto Mariana sucumbe à depressão e permanece em um pseudo-luto.

O uso excessivo de narrações deixa à mostra sua origem em curta-metragem. O diretor Gustavo Taretto ganhou diversos prêmios em 2005 com a primeira versão. Agora, ao extendê-la, acaba se alongando demais em certos momentos e diminui o ritmo, mas em outros consegue criar fusões inteligentes que conectam a vida desses dois protagonistas de maneira criativa. E é nesse câmbio de informações que "Medianeras" captura com sensibilidade o que é morar em uma metrópole, sendo sempre verdadeiro com os Martins e as Marianas que existem por aí.

Nota: 8

Jovens Adultos

O diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody, a dupla responsável pelo sucesso indie "Juno", voltam a trabalhar juntos na comédia de humor negro "Jovens Adultos". Se o resultado do primeiro foi surpreendentemente positivo – levou o Oscar de Melhor Roteiro Original –, desta vez a parceira soa um pouco desconexa. Embora, não deixe de ser um filme de momentos interessantes.

"Jovens Adultos" é sobre Mavis Gary (Charlize Theron), uma escritora/roteirista que atua como "ghost writer" de uma série de livros infantis. Quando a saga é cancelada, ela decide voltar para sua cidade natal, onde era a garota mais popular da escola, e tentar reconquistar seu ex-namorado que atualmente está casado e recém ganhou um filho.

O filme recheado de ironias e cinismos mostra o trágico retrato de uma ex-rainha de baile de escola americana. Mavis é amarga, malvada, alcoólatra e, acima de tudo, egoísta. Por ser bela e popular, desenvolveu uma superioridade que não se sustenta mais. Ela é uma pessoa problemática, insatisfeita com a vida, justamente porque esta não se transformou em um conto de fadas.

Charlize tem em Mavis uma de suas melhores interpretações. Abandona o glamour e encara uma personagem difícil. Sua indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz – Comédia ou Musical foi mais que merecida. As melhores cenas da controversa escritora são com Matt, um nerd que ela zombava na escola. Também no elenco, como par romântico, o competente Patrick Wilson.

O principal mérito do roteiro de Diablo Cody é não trair seus personagens. Mavis não tem uma redenção por suas atitudes. Ela está buscando a sua felicidade, independente de qual maneira, e, por mais que ela procure mudar, vai seguir cometendo erros. Em compensação, o que falta em "Jovens Adultos" é mais relevância. Por vezes, esse discurso absurdo da protagonista chega a soar vazio.

Com um roteiro levemente frágil, a direção tenta compensar com tomadas divertidas, como a abertura com rock´n´roll e imagens de uma fita cassete. Jason tenta explorar a história, mas sem sucesso. O lamento, ao final, é de que o cineasta chegou ao topo com "Amor Sem Escalas" e depois caiu com este exemplar aqui. A dupla que se encontrou tão bem em "Juno" não correspondeu à altura dessa vez.

Nota: 7

O Preço do Amanhã

Chegar aos 25 anos e parar de envelhecer. Um desejo de praticamente todos mortais. Com essa premissa, “O Preço do Amanhã” apresenta um futuro em que a moeda é o tempo. Os humanos ao atingirem essa idade possuem apenas mais um ano de vida - a menos que paguem pelo tempo extra. A idéia remete aos contos de Phillip K. Dick (autor de “Minority Report”, “O Homem Duplo”, “O Vingador do Futuro”, dentre outras ficções científicas), o que é um bom sinal, mas perde o rumo quando vira um filme de ação descerebrado.

Justin Timberlake, que pelo jeito abandonou a carreira de cantor, interpreta Will Saalas, um típico funcionário do sistema até receber uma doação que lhe permite viver por um século. Acusado de matar para conseguir essa quantia, ele é perseguido pelos “guardiões do tempo”, a polícia do futuro. Na perseguição, sequestra a filha de um magnata (Amanda Seyfreid) e, juntos, tentarão mudar a realidade injusta.

Após construir com cuidado o primeiro ato, o diretor Andrew Niccol ("O Senhor das Armas") larga de mão a narrativa para investir nas cenas de fuga. O que resta da história nesse momento é a transformação do protagonista em um Robin Hood moderno. O potencial de uma ficção científica inteligente e de presença é desperdiçado em um acúmulo de cenas de explosão, deixando claro a intenção de ser uma peça de puro entretenimento.

Se o desenvolvimento seguisse na parte que deu mais certo, “O Preço do Amanhã” poderia se equivaler às adaptações de Phillip K. Dick para o cinema. Do jeito que termina, o filme demonstra ser uma criação completa de Niccol (também autor do roteiro), com uma idéia criativa apenas para alavancar um projeto de ação.

No meio da correria, a química entre Timberlake e Seyfreid não chega a pegar fogo. Enquanto ele está mais uma vez ótimo no personagem, ela permanece o filme todo com uma expressão blasé. Se a dupla não funciona tão bem junta é porque interage justamente nesta segunda parte pouco inspirada. Apesar da caída perto do final, “O Preço do Amanhã” ainda consegue se safar como uma aventura futurística interessante e em parte original.

Nota: 7

Gainsbourg


A figura de Serge Gainsbourg por si só é fascinante. Ele era um boêmio irrecuperável, viciado em cigarros, bebidas e mulheres. Apesar de feio, atraia as amantes mais lindas, inclusive a belíssima atriz Brigitte Bardot. Durante sua trajetória colecionou escândalos e compôs músicas para inúmeros artistas. Em 2010, o cantor ganhou uma cinebiografia a fim de capturar a história de sua vida desde a infância durante a guerra até sua morte em 1991. Infelizmente, o filme tem um roteiro relapso e não faz jus a um dos maiores nomes da música francesa.

O roteiro de “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” é o principal culpado desse infeliz resultado. Tem como linha condutora a aparição de certos “fantoches humanos” que conversam com o protagonista, geralmente uma versão dele próprio representada por um ser com orelhas, mãos e nariz gigantes. A utilização desses “bonecos” não deixa de ser um artifício preguiçoso para expressar os sentimentos do personagem principal. São cenas que diminuem e enfraquecem a obra. Além disso, a narrativa é tão mal desenvolvida que atropela constantemente acontecimentos importantes e se estende em bobagens, como essas criaturas.

O problema da trama contamina até mesmo a atuação de Eric Elmosnino. Por mais que tente, o ator não consegue transmitir uma verve ao nível do ídolo da música, principalmente porque o roteiro estraga por inteiro o crescimento do personagem. Assim, o Gainsbourg não é nem ao menos carismático. “O Homem Que Amava as Mulheres” apenas ganha uma sobrevida quando aparece em cena Laetitia Casta como Brigette Bardot. Mas, com a saída dela de cena, o longa volta ao seu completo desastre.

Nota: 2

Melhores Filmes de 2011

O Blog CinemaX escolheu os cinco melhores filmes lançados em 2011 - todos imperdíveis, é claro. De diretores consagrados, como Allen e Almodóvar, passando por filmes cult e crítica política produzida por Hollywood, até uma comédia romântica deliciosa. Ao final, alguns destaques do ano que mercem a sua locação e, também, aqueles que você deve evitar. Anote as dicas e uma boa sessão de cinema!

1°) MEIA-NOITE EM PARIS



Subestimado na última década, o gênio Woody Allen entregou uma obra-prima para calar a boca de todos que duvidavam do seu retorno ao topo. Se filmes brilhantes, como “Match Point”, “Vicky Cristina Barcelona” e “Tudo Pode Dar Certo”, não chegaram a convencer parcela do público e crítica, “Meia-noite em Paris” foi implacável em arrecadar elogios. Recebeu 12 prêmios, incluindo Melhor Roteiro no Oscar e Globo de Ouro, e tornou-se uma das maiores bilheterias do diretor. A trama sobre um escritor fracassado que “viaja no tempo” para uma Paris dos anos 20, de encontros com grandes artistas do passado, encantou gerações saudosistas.

2°) A PELE QUE HABITO


Quando Almodóvar anunciou que seu próximo filme seria baseado em um livro de terror, a possibilidade de que errasse a mão era grande. Ao fugir de sua zona de conforto, um thriller não parecia um terreno confiável a se aventurar. Ao contrário do que aparentava, o diretor imprimiu seu gosto pelo melodrama na adaptação dessa surpreendente história e transformou “A Pele Que Habito” em um de seus filmes obrigatórios. Polêmico, belo e chocante, é Almodóvar em grande estilo – apenas mais tenso que o habitual.

3°) AMORES IMAGINÁRIOS


Xavier Dolan é invejado por qualquer aspirante a cineasta. O ator e diretor canadense lançou seu primeiro longa-metragem, “Eu Matei a Minha Mãe”, com apenas 20 anos. O filme levou 27 prêmios mundo à fora. Um ano depois, filmou “Amores Imaginários”, uma pequena obra-prima, de uma beleza estética absurda, respirando o significado de “cool” em cada frame. A trama é um pouco batida, sobre dois jovens – um homem e uma mulher – disputando o amor de um rapaz. Mesmo assim, é puro deleite apreciar cada vez que toca em cena a interpretação de Dalila para o clássico “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”.

4°) TUDO PELO PODER


O drama político “Tudo Pelo Poder” foi esquecido pelo Oscar, provavelmente por não ser tão pró-Estados Unidos, mas merece devido destaque entre os melhores do ano. Filmes com forte teor político tendem a ser chatos para o grande público - geralmente leigo no assunto -, mas este aqui empolga desde o início, sem criar um nó na cabeça do espectador. Dirigido e estrelado por George Clooney, o longa aprofunda-se nos podres de uma campanha eleitoral. Conta ainda com um elenco repleto de astros, alavancado pelo ator do momento, Ryan Gosling (ótimo). “Tudo Pelo Poder” é, acima de tudo, poderoso.

5°) AMIZADE COLORIDA


“Amizade Colorida” estar entre os cinco melhores pode ser uma surpresa para muitos. Porém, o motivo é que esta é a melhor comédia romântica produzida por Hollywood em anos. Os diálogos inteligentes e a química da dupla protagonista criam a empatia imediata. A trama não aposta em clichês e procura se reinventar, criar referências e ser atual ao mesmo tempo. É diversão de qualidade pouco assistida nas telas.

Destaques: Guerreiro, Drive, 50%, Missão Madrinha de Casamento, Hanna, Uma Noite Mais Que Louca, Um Novo Despertar, Cavalo de Guerra, O Homem Que Mudou o Jogo

Piores do ano: Hesher, Amor, Felicidade ou Casamento, Quero Matar Meu Chefe, Se Beber, Não Case – Parte II, Um Dia

Sete Dias com Marilyn


Juntamente com “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”, o biográfico “Sete Dias com Marilyn” é mais um concorrente do Oscar 2012 que aborda o cinema do passado. Desta vez, não chega a ser uma homenagem, mas funciona como um retrato de uma estrela problemática no auge de sua carreira. Michelle Williams, que não é nada parecida com a atriz, convence como uma Marilyn frágil, deslumbrante, insegura, encantadora e de um talento natural para os filmes.

A história de “Sete Dias com Marilyn” é baseada no livro de Colin Clark, um dos personagens do filme. Na época, ele era um jovem de 24 anos que consegue a oportunidade de trabalhar como terceiro assistente de produção em um projeto no qual Marilyn é a atriz principal. O que seria uma experiência profissional, termina como uma catarse de sentimentos, já que, ao contrário do esperado, o rapaz acaba se envolvendo com uma das maiores estrelas do mundo .

O longa-metragem de Simon Curtis, diretor conhecido por filmes britânicos, acompanha principalmente os bastidores da produção. Apenas peca por um recheio levemente cansativo, mas inicia e arremata sua obra com precisão. Além dos elogios a Michille Williams e suas caras e bocas idênticas à Marilyn, o elenco de apoio também é excepcional: Kenneth Branagh, Judi Dench, Julia Ormond, Toby Jones, Dominic Cooper e Emma Watson – sem falar em Eddie Redmayne, que demonstra amadurecimento na sua atuação como o protagonista apaixonado.

Nota: 7,7

A Invenção de Hugo Cabret


Difícil imaginar Martin Scorsese à frente de uma adaptação infanto-juvenil. As dúvidas sobre qual seria a contribuição do diretor famoso por seus filmes violentos ao universo das crianças pipocavam até o lançamento do novo projeto. E de forma positiva, Scorsese correspondeu com um comando interessante, valorizando o tom de fábula da história e apostando em uma direção de arte impecável, que lembra a atmosfera dos contos natalinos. O único entrave de “A Invenção de Hugo Cabret” é toda parte que não realiza uma homenagem ao cinema.

O filme pode ser dividido em dois atos ou duas tramas. Temos a narrativa principal sobre um órfão que mora em uma estação de trem em Paris e tenta desvendar um mistério deixado por seu pai; e, em paralelo, temos a história verídica do cineasta Geórge Méliès. Enquanto a primeira é uma trama bonitinha, mas banal, a segunda é tão poderosa que praticamente carrega o filme nas costas.

As duas tramas ao invés de encontrarem uma sintonia acabam por rivalizar, deixando visível o abismo existente entre elas. Parecem dois filmes separados. A primeira hora de duração foca-se na história do garoto, por isso é tão tediosa. Quando inicia o relato sobre Méliès, o filme ganha um novo fôlego e melhora consideravelmente. Esse novo contexto faz referência a uma série de produções do início do cinema e ainda recria de forma fascinante os sets do clássico “Viagem à Lua”.

“A Invenção de Hugo Cabret” não chega a ser um filme para crianças. Pode até ser assistido e desfrutado por elas, mas guarda em seu segundo momento a essência do projeto: uma homenagem à sétima arte deliciada principalmente pelos adultos. E nesse conjunto ainda introduz um discurso importante sobre a preservação das obras cinematográficas. Embora esteticamente perfeito e com uma trama geral bonitinha, o filme deixa aquele gosto de que poderia ter sido bem mais proveitoso se o foco desde o início tivesse naquele que enxergou potencial nos filmes. “Hugo”, em seu melhor, é uma exaltação ao homem que transformou o que era documental em fantasia! Viva Méliès!

Nota: 7,9

O Abrigo


Curtis é um homem comum. Trabalha para uma empresa de extração de areia em uma cidade do interior de Ohio. Tem uma bela esposa e uma filha com problemas de audição. A vida pacata começa a apresentar tons de mudança quando ele começa a ter sonhos cada vez mais perturbadores. Como se isso não bastasse, Curtis passa a acreditar que uma tempestade de proporções gigantes está se aproximando e, para se prevenir, decide reativar o abrigo de sua casa. Estaria ele ficando louco ou suas previsões de um final apocalíptico irão se confirmar? Com essa pergunta inquietante sobre o que acontece na tela, “O Abrigo” conduz sua curiosa história até um desfecho de muitos significados.

O diretor Jeff Nichols, que também assina o roteiro, imprime um ritmo lento para esse thriller psicológico independente. Sua narrativa bem construída aprofunda as relações de Curtis com a família e o trabalho, ao mesmo tempo que demonstra sua obsessão com a construção do espaço subterrâneo no quintal. As boas atuações do casal principal, Michael Shannon e Jessica Chastain, contribuem com a situação ao qual o casal será exposto. Dessa forma, intrigante e coeso, “O Abrigo” termina como um filme bastante interessante sobre um homem atormentado.

Nota: 7


Interpretação quanto ao final de “O Abrigo”: Se você não quer saber spoilers, não leia a seguir. São muitas versões sobre o final do filme, mas minha interpretação descarta qualquer cunho apocalíptico da trama. Considero verdadeiro apenas o suporte psicológico. A começar com Curtis apresentando os primeiros sinais da esquizofrenia. São ilusões e alucinações, personificadas pela tal tempestade gigante. Ela nada mais é que a representação de sua doença. Para fugir dela, ele constrói um abrigo, tendo-o como um lugar seguro, longe da loucura. Quando ele sai do abrigo, após ficar horas com sua esposa e filha lá dentro, Curtis acredita estar curado. Assim como sua esposa faz esforços para ele superar a doença e acredita que ele conseguiu. Mas, o decreto vem mesmo do médico, que aconselha tratamento exclusivo devido a gravidade da situação. Antes de ingressar nesse processo, ele vai com a família para praia. E é justamente aí que vem uma tempestade forte. E ele não tem o seu abrigo. Isso significa que a doença veio para ficar, é real e ele vai ter que enfrentá-la de qualquer jeito.

Tão Forte e Tão Perto


A indicação de “Tão Forte e Tão Perto” como Melhor Filme no Oscar só pode ser resultado do amor da Academia pelo diretor Stephen Daldry. Todos os seus filmes (“Billy Elliot”, “As Horas” e “O Leitor”) foram indicados na categoria. Todos merecidamente, é claro. Com exceção deste último. “Tão Forte e Tão Perto” é de longe o pior filme do cineasta, não tanto pela direção pouco inspirada desta vez, mas principalmente por um roteiro absurdamente irregular.

O filme conta a história de um garoto de 11 anos, Oskar (Thomas Horn, precisando de umas aulas de atuação), que perde o pai no atentado de 11 de setembro. Sua única motivação é uma misteriosa chave encontrada nos pertences do falecido. O menino é o protagonista do filme, está em cena praticamente 90% do tempo. Porém, seu personagem é irritante. Tem atitudes infantis demais, não possui carisma e por muitos momentos esquece da sua síndrome de Asperger e pega tranquilamente um metrô ou passa por uma porta eletrônica sem problemas . Fora que para um rapaz tímido e com problemas de comunicação, ele não cala a boca um segundo.

As visitas de Oskar aos possíveis detentores da fechadura aberta pela chave são passadas na tela sem emoção alguma. São pouco aproveitadas pela história. Ao invés de fazer uma visão geral sobre o sofrimento do mundo, como chega a insinuar em um diálogo da mãe (Sandra Bullock, tentando ser atriz séria) no final, o roteiro opta por explorar mensagens em uma secretária eletrônica ou o fato do vizinho poder ser avó do garoto. Ambas situações sem tanto propósito com a trama. Até mesmo o fato da morte do pai ocorrer durante um ataque terrorista não apresenta um motivo significativo ou que contribua ao contexto narrativo.

Assim, inconstante e sem uma linha condutora forte, o novo filme de Stephen Daldry naufraga em intenções. Por ser adaptação de um livro, talvez o original consiga nas páginas suprir o que na tela ficou tão irregular. Mesmo com pequenas (e inspiradas) participações de Viola Davis e Max Von Sydon, o filme não decola. Ganha certo fôlego somente nos 10 minutos finais. “Tão Forte e Tão Perto” soa como uma tentativa infeliz de levar o público às lágrimas.

Nota: 4

Oscar 2012: uma análise

Um olhar nostálgico ao passado deu o tom da 84ª cerimônia do Academy Awards, ocorrida neste domingo, no Kodak Theatre, em Los Angeles. A noite do maior prêmio do cinema foi marcada por homenagens à sétima arte, principalmente à era de ouro de Hollywood, nas décadas de 1930 e 1940. Tudo bem no clima dos dois favoritos, “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, e “O Artista”, do francês Michael Hazanavicius. Este último consagrou-se com cinco prêmios: Figurino, Trilha Sonora Original, Diretor, Ator e Filme.

A cerimônia desta vez teve um tema bem definido, visível todo tempo nos cenários em estilo retrô. Os vídeos com depoimentos de astros sobre seus filmes favoritos também contribuíram para uma noite de repleta de lembranças. Sem falar na impactante performance do Cirque Du Soleil em referência ao cinema como um grande espetáculo para as massas.

Depois de anos, o comediante Billy Crystal voltou a apresentar o Oscar – pela sexta vez - e saiu-se bem melhor que os simpáticos, porém não convincentes, James Franco e Anne Hathaway, na edição anterior. Crystal fez boas piadas e soube conduzir a premiação sem apelar. E, por incrível que possa parecer, as três horas não chegaram a cansar. A entrega dos prêmios foi a mais rápida dos últimos anos.

O ponto alto da noite ocorreu com a vitória da veterana Meryl Streep, que levou seu terceiro Oscar pelo desempenho no filme “A Dama de Ferro”. A atriz ganhou dois prêmios no início da carreira por “A Escolha de Sofia” e “Kramer x Kramer” e passou mais de 30 anos acumulando indicações, esta era a sua 17ª. Outro tido com injustiçado pela Academia, o diretor Woody Allen, venceu em Roteiro Original por “Meia-noite em Paris”, mas não compareceu na cerimônia.

A maior barbada da noite foi “A Separação”, filme iraniano vencedor de praticamente todos os prêmios em festivais, levar como Melhor Filme Estrangeiro. Se por um lado esta batalha foi fácil, por outro, o Brasil mais uma vez deixou sua estatueta escapar. Mesmo com 50% de chance, já que disputava apenas com um concorrente no prêmio de Melhor Canção Original, deixou a música do filme “Rio”, de Sergio Mendes e Carlinhos Brown, perder para a música e letra de Bret McKenzie em “Os Muppets – O Filme”. Quem sabe na próxima.

As 11 indicações de “A Invenção de Hugo Cabret” resultaram em cinco estatuetas: Direção de Arte, Efeitos visuais, Edição de Som, Mixagem de Som e Fotografia. O restante foi abocanhado pelo grande vencedor da cerimônia, “O Artista”, um filme sem diálogos e em preto e branco que retrata a transição do cinema mudo para o falado, prestando uma homenagem a Hollywood de antigamente. Bem semelhante ao clássico “Cantando na Chuva”, porém com a vantagem de resgatar essa época dourada no momento que o cinema atual está cada vez mais distante da inocência e das boas idéias daquele formato inicial.

Prejudicado pela onda do “Artista”, George Clooney, em uma de suas melhores interpretações em “Os Descendentes” perdeu o Oscar para o protagonista do filme francês, Jean Dujardin. Agora o estrangeiro terá que mostrar, assim como seu personagem, se consegue emplacar na indústria do cinema falado. “Os Descendentes” levou apenas o prêmio de Roteiro Adaptado. Mais uma injustiça quando se tinha o drama político “Tudo Pelo Poder” na disputa.

No ramo dos coadjuvantes, Octávia Spencer confirmou o favoritismo por sua atuação em “Histórias Cruzadas” e Christopher Plummer tornou-se o ator mais velho a ganhar um Oscar pelo filme “Toda Forma de Amor”. Ambos foram os protagonistas dos discursos mais emocionantes da noite. Emoção faltou em “A Árvore da Vida”, “Cavalo de Guerra” e “O Homem Que Mudou o Jogo”, todos com uma série de indicações, mas ignorados na premiação.


A cerimônia foi mesmo do saudosismo aos astros do passado, desde John Gilert a Gene Kelly, e até mesmo de um dos fundadores do cinema, Georges Méliès – vide “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”. Com essa linha de pensamento anunciada em cada ato, o Academy Awards neste ano confirmou sua predileção por aqueles que valorizaram a magia da sétima arte.

Carnage

Roman Polanski já havia se aventurados por muitos gêneros do cinema, mas um ainda faltava para completar seu talento multifacetado na direção: a comédia. Embora "Carnage", seu mais recente filme, não seja um entretenimento de fazer o espectador dar gargalhadas, a produção cumpre seu papel com um belo exemplar do gênero ao criar situações cômicas entre dois casais de classe média/alta, que retratam a atual sociedade ocidental.

A narrativa se passa em apenas uma locação: o apartamento de Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), cujo filho brigou com um colega de classe e teve dois dentes quebrados. Os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), encontram-se com os pais da "vítima" para conversar sobre como lidar com a situação. A reunião aos poucos foge do controle, transitando do civilizado para a baixaria.

Os personagens passam por uma catarse durante o processo, revelando suas intimidades e visões de mundo. Os posicionamentos ganham mais intensidade pelo elenco afiadíssimo, com atuações no timing perfeito do time feminino, principalmente, de Jodie Foster. Aliás, as duas protagonistas foram indicadas ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Comédia ou Musical.

O estilo e até mesmo o desenrolar da história, construído praticamente no diálogo, assemelha-se muito ao clássico "Quem Tem Medo de Virginia Wolf?" (1966), de Mike Nichols. Porém, Polanski imprime uma identidade própria ao seu projeto, através de tons mais urbanos e realistas, com uma crítica à sociedade norte-americana (país que baniu sua entrada) e também fazendo com que o público possa rir de si mesmo. O diretor apenas não conseguiu fugir da estrutura teatral - o que seria muito difícil nesta adaptação da peça de Yasmina Reza, mas mesmo assim saiu-se muito bem em mais um gênero cinematográfico.

Nota: 8

Like Crazy


Qualquer encanto que “Like Crazy” possa provocar deve-se consideravelmente a Felicity Jones. A atriz de 28 anos está hipnotizante como Anna, uma estudante britânica de passagem pelos Estados Unidos que se apaixona por seu colega de faculdade. É ela que traz emoção e autenticidade a um amor que, em um segundo momento, deverá sobreviver à distância: Anna é banida do país porque não renovou seu visto.

“Like Crazy” explora o relacionamento de um jovem casal com um olhar romântico e intenso, valorizando momentos íntimos que são essenciais para desenvolver a intimidade dessas duas pessoas que acabaram de se conhecer e, seja pelo destino ou não, terminam se apaixonando. Enquanto Feliciy confere toda essa paixão ao projeto, o seu par, Anton Yelchin, em alta por filmes como “Star Trek”, “Um Novo Despertar” e “A Hora do Espanto”, não demonstra tanto envolvimento com o personagem e fica no campo da apatia.

Contornando esse detalhe, o diretor Drake Doremus confere um ponto de vista quase documental para a história, como se uma câmera estivesse escondida gravando um acontecimento real. Porém, se por vezes o cineasta investe na simplicidade, o que deixa o ritmo lento, por outras, utiliza truques para não deixar o interesse diminuir, como passagens de tempo em cortes acelerados. É o caso da bela sequencia dos vários dias em que o casal não sai da cama.

Essa jogada com a trama de certa maneira funciona e até confere uma personalidade ao projeto. “Like Crazy” torna-se uma mistura de romance adolescente com drama alternativo. O ponto negativo disso tudo é que seu desenrolar vem a ser cansativo e não atinge com tanta força a mensagem final que busca transmitir. O fôlego apresentado no início fica mais escasso quando aproxima-se do encerramento. Mas, isso não chega a ser um problema para o trabalho de Doremus e, principalmente, de sua musa Felicity Jones, que, mesmo com essa suposta decaída, consegue até o último segundo deixar o espectador vidrado na tela. Like crazy.

Nota: 7,5

Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo

Paul Giamatti é o cara mais chato do planeta. Disso não há dúvidas. Salvo “Anti Herói Americano” e “Sideways”, em que ele ainda era “fresh” no mercado, os seus filmes são tão apáticos como ele. Basta assistir “A Dama da Água”, “Almas à Venda”, “A Minha Versão do Amor” e este “Ganhar ou Ganhar – A Vida é Um Jogo”.

Para não variar nem um pouco, Giamatti interpreta o mesmo personagem de sempre: um homem fracassado e sem esperanças. Dessa vez, ele é Mike Flaherty, um advogado que vê seus clientes diminuírem semanalmente e, para não entrar no vermelho, solicita ser tutor de um vizinho com problemas mentais. Ao invés de deixar o velho em sua própria casa, despacha- o para um asilo. Em seguida, o neto, um rapaz de uns 15 anos, vem procurar auxílio com o avó depois que sua mãe é internada em uma clínica de reabilitação.

A partir desse momento, o filme ganha fôlego. O garoto é amparado pelo advogado e sua esposa Jackie (Amy Ryan) e revela-se um promissor lutador de wrestling, motivando a equipe do colégio onde Mike tira um ganho extra como treinador. E, assim, quando a narrativa parece estar tomando um rumo interessante, surge a mãe do jovem para complicar a situação e tornar tudo banal.

“Ganhar ou Ganhar” encerra sem chegar a lugar algum. Fica bem longe desenvolver uma mensagem válida sobre o jogo da vida. Pior que isso, não apresenta nada de novo para o gênero drama/indie/alternativo. O que o filme tem de bom é a presença de Amy Ryan, que, apesar de ter sido indicada ao Oscar por “Medo da Verdade, ainda não ganhou um papel à sua altura. As melhores cenas são dela com o garoto.

Nota: 5,5

30 Minutos ou Menos

Depois de “Zumbilândia” emplacar como uma comédia divertida e inteligente no universo dos filmes de zumbi, o novato diretor Ruben Fleischer apostou em uma trama curiosa para o seu próximo projeto: filhinho de papai e seu amigo seqüestram um entregador de pizza, colocam na vítima um colete explosivo e mandam o garoto roubar um banco. Se ele não conseguir a grana em dez horas, a dupla aciona a bomba.

O “pizza boy” é Jesse Eisenberg, que trabalhou com o cineasta em “Zumbilândia” e recentemente foi indicado ao Oscar por “A Rede Social”. Ele tem como melhor amigo Chet, interpretado por Aziz Ansari, que segue no automático tal qual seu hilariante Tom Haverford de “Parks and Recreation”. Os dois até possuem certa química como parceiros, mas os personagens são unidimensionais e não despertam a esperada torcida do público.

O argumento interessante que chama a atenção no início não sustenta o filme por completo. As piadas raramente funcionam e o emaranhado da trama (à todo momento alguém está em vantagem) torna-se cansativo já nos 50 minutos de duração – e olha que são apenas 83 minutos ao todo. Sem risos e uma ação capenga, “30 Minutos ou Menos” não engrena como deveria e termina como um filme apenas “ok”.

Nota: 6,5

Sucker Punch - Mundo Surreal


Reunir uma porção de referências à cultura pop, às vezes, pode dar certo, vide os filmes de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues, porém, em outros casos o resultado pode repercutir de forma insatisfatória, como uma junção bagunçada e sem sentido, conforme o que aconteceu com o ambicioso projeto de Richard Kelly, “Southland Tales – O Fim do Mundo”. Em “Sucker Punch – Mundo Surreal”, o diretor Zack Snyder consegue ficar no meio termo. Mistura samurais, dançarinas de cabaré, robôs e um dragão medieval com destreza, mas, por outro lado, peca em um terceiro ato cansativo e com encerramento simplório.

O caldeirão pop de Snyder tem um motivo. “Sucker Punch” é um projeto pessoal. Depois de remakes (“Madrugada dos Mortos”) e adaptações de quadrinhos (“300”,“Watchmen”) e livros (“A Lenda dos Guardiões”), o cineasta optou por embarcar em uma história integralmente de sua autoria. Essa viagem inicia com a jovem Babydoll, que após a morte da mãe, passa a ser assediada pelo padrasto e, em uma das investidas dele, termina acidentalmente matando a irmã. O padrasto convence a polícia de que a menina enlouqueceu e a mandam para um hospício fazer uma lobotomia. Até a chegada do médico responsável pelo procedimento, que deve ser em cinco dias, ela cria um universo fantasioso para sobreviver aos horrores do local.

Nesta nova realidade, Baby Doll se junta as demais paciente para bolar um plano de fuga: precisam conseguir cinco elementos (uma chave, uma faca, um isqueiro, um mapa e um item não revelado). A partir de então ocorrem cinco cenas de ação na tentativa de obter tais “objetos”, cada batalha em um cenário diferente: Japão feudal, Primeira Guerra Mundial, castelos medievais e um futuro tecnológico. Todas com tomadas surpreendentes e repletas de efeitos especiais fantásticos, em um estilo semelhante ao videogame. Dá vontade de pegar um controle e sair jogando.

O problema é que, apesar de serem sequencias visualmente deslumbrantes, não são tão interessantes quanto o restante da narrativa, ambientada no hospício (mundo real)/cabaré (surreal). As cenas de batalha não possuem adrenalina e emoção suficientes para provocar torcida e envolvimento do público, o que acarreta em um terceiro ato cansativo. Se no início a ação era impactante, passa a ser tediosa (e até previsível).

Ao contrário, tem-se afinidade com o que acontece fora das batalhas, nas aulas de dança de Madame Gorski (Carla Gugino), nas ameaças do vilão Blue Jones (Oscar Isaac) e nas discussões sobre como escapar do centro psicológico. Uma das cenas mais belas da produção acontece logo no início, quando o trágico caminho que leva Baby Doll à internação é mostrado sem diálogos, apenas ao som de uma versão alternativa de “Sweet Dreams”. Quase como em um videoclipe. São nesses detalhes que Snyder acerta.

O pacote de referências certamente é melhor apreciado pelos viciados em cultura pop, mas o longa também contempla os fãs de filmes de ação e ficção científica. Além do mais, mostra as beldades de seu elenco (Abbie Conish, Jenna Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung) como guerreiras duronas, vestindo roupas curtas e lutando de salto alto. É com esse girl power que elas enfrentam os orcs, robôs, dragões e monstros. E convencem. Com exceção da protagonista, Emily Browning, que no papel de Baby Doll está tão expressiva que um pires.

Mesmo com o frágil terceiro ato, arrematado ainda com a revelação de auto-ajuda do quinto item, “Sucker Punch” é um filme que explora a linguagem visual, utilizando paletas inspiradas no soturno de “Edward Mãos de Tessoura” ao colorido futurístico de “AI – Inteligência Artificial”, e assim, demonstra uma pluralidade de conteúdo bastante interessante. E, apesar de leves tropeços, também é muito divertido.

Nota: 8

O Vencedor


“O Vencedor” veio para David O. Russel conquistar o respeito na indústria cinematográfica. O diretor de comédias como “Procurando Encrenca” e “Três Reis” estava parado desde 2004, quando lançou divertidíssimo “Huckabees – A Vida É Uma Comédia”. O hiato de seis anos serviu para produzir o filme que iria colocá-lo entre os diretores do primeiro time. Após o lançamento de “O Vencedor”, indicado a sete Oscars, o cineasta adquire maior confiança para seus próximos projetos e contribui a fortalecer o poder de astros como Mark Walhberg, Christian Bale, Amy Adams e Melissa Leo.


O desenrolar deste drama é centrado na disfuncional família do boxeador Micky Ward (Wahlberg). Para chegar à consagração com o título mundial de peso levo, ele terá que passar por inúmeras lutas sob o controle do irmão drogado (Bale), da mãe interesseira (Leo) e da namorada pulso firme (Adams). Mais que um filme sobre o esporte, “O Vencedor” aborda os conflitos dos personagens e as aspirações de cada um deles sob o aspirante lutador.


A trajetória de Ward é real e muito curiosa, mas ganha força graças as assombrosas interpretações do quarteto. Christian Bale e Melissa Leo, principalmente, estão possuídos pelas figuras controversas de seus papéis. Os dois utilizam o boxeador como um trampolim para se autopromover e lucrar em cima das lutas. Amy Adams como a namorada é quem vai contra essa “exploração” e provoca a fúria da matriarca. O protagonista, Wahlberg, é o mais prejudicado, com um personagem linear e sem tantas nuanças – deve ser por isso sua lamentável ausência na disputa pelo Oscar.


Nota: 7,8

Reencontrando a Felicidade

Um trágico acidente tira a vida do filho de quatro anos do casal Becca (Nicole Kidman) e Howie Corbett (Aaaron Eckhart). O sofrimento da morte é sentido de diferentes formas pelos pais: enquanto ele permanece assistindo vídeos do garoto e decide integrar um grupo de ajuda para pessoas que perderam seus familiares, ela prefere doar o cachorro do filho e mudar de casa, desfazendo-se de tudo que lembre a existência do pequeno. No desenrolar deste drama, o roteiro busca ir a fundo nas dores dos personagens, definindo como fio condutor um tom de veracidade e melancolia impressionantes.

O diretor John Cameron Mitchell opta por iniciar sua narrativa após o incidente, desprezando a “vida feliz” da família antes da tragédia. Assim, abre-se as cortinas e o espectador é arremessado diretamente no olho do furacão, imerso em um turbilhão de sentimentos - todos altamente expressados em desempenhos viscerais do casal protagonista. O destaque é para Kidman, que mais uma vez encara uma personagem de maneira intensa, expondo gradativamente a complexidade de Becca.

No mais, “Reencontrando a Felicidade” (tradução desprezível) é uma história linear, sem surpresas, com uma abordagem sensível que dá razão para as atitudes de quem foi abalado por uma perda. O impacto da trama vem ao final, quando percebe-se que o tom de tristeza sem fim realmente não irá acabar.

O inusitado do projeto é o envolvimento de um diretor tão irreverente como Mitchell (“Hedwig”, “Shortbus”) realizando um drama convencional. O cara se saiu bem.

Nota: 7,9

Um Lugar Qualquer


Um carro andando em círculos. O novo filme de Sofia Coppola abre com esta cena simples para definir a atual etapa da vida de seu protagonista: Johnny Marco (Stephen Dorff), um astro de cinema cuja rotina é sexo casual, cigarro e bebida. Os três elementos de solidão são acompanhados durante a exibição de “Um Lugar Qualquer” até o momento que surge a encantadora filha de 11 anos do bem sucedido ator (Elle Fanning), exercendo na trama a força motivadora para a transformação do jovem e perdido milionário.

O pequeno conto, como pode ser reconhecido este projeto de Coppola, vem depois do pretensioso “Maria Antonieta” justamente para mostrar o retorno às raízes da diretora. “Um Lugar Qualquer” é um filme lento, de poucas falas, com fotografia sutil e uma filmagem certas vezes amadora. Aqui, o transcorrer da narrativa não tem pressa, concentrado em explicitar como a vida de Johnny é vazia, apesar de possuir tudo ao seu alcance. O caminho é conhecer o personagem até ele realmente se enxergar como aquela figura sem forma, vista na cena em que utiliza maquiagem para ficar envelhecido.

O filme é indicado para os apreciadores da filmografia da diretora. Caso contrário, provavelmente não passarão dos dez minutos iniciais da projeção. Em meio às críticas controversas, a produção vem recebendo alguns elogios e foi melhor no 67° Festival de Cinema de Veneza, onde levou o Leão de Ouro de Melhor Filme. O quarto filme de Sofia Coppola também tem sido acusado por ser praticamente uma releitura de “Encontros e Desencontros”, a obra-prima da cineasta. Algumas semelhanças são inegáveis.

Nota: 7,4

Uma Noite Fora de Série


O encontro dos astros das séries mais engraçadas da televisão só poderia render um filme divertido. Tina Fey, protagonista e criadora de “30 Rock”, e Steve Carell, de “The Office”, formam um casal comum do subúrbio que de tanto que trabalham e cuidam dos filhos, acabam não tendo tempo para realizar programas românticos. A solução é marcar um dia por semana no qual contratam uma babá e saem para ir ao cinema e jantar em restaurantes chiques. Cansados da rotina, tomam a atitude de roubar uma reserva em um dos bares mais badalados de Nova York e acabam sendo confundidos com outro casal que está chantageando um chefão do crime organizado.

A história pode não apresentar muitas novidades, mas a química entre Tina e Steve funciona - não como um par romântico, mas como um time de comediantes em sintonia. A dupla reinterpreta os personagens dos seriados que estrelam e conseguem, ainda assim, render boas risadas. O clima leve de comédia misturado com aventura mantém o interesse pela trama manjada, que se fortalece pelo timing característico dos atores. Por vezes é possível ter a sensação é de que estamos assistindo um episódio estendido de “30 Rock”, só que sem a trupe do Rockfeller Center.

Nota: 7,5

Fúria de Titãs


Zeus, Medusa, Perseu, Hades. Até poucos meses atrás, os personagens da mitologia grega pareciam ter sido esquecidos pelo cinema. O retorno começou com o juvenil “Percy Jackson e o Ladrão de Raios”, que deu uma nova roupagem para as histórias dos deuses do Olimpo. Ao invés de renovar, a superprodução seguinte, “Fúria de Titãs”, utilizou do clássico de 1981 – de mesmo nome – e injetou muitos efeitos especiais, doses de ação e elenco estelar para atrair as platéias mais jovens.

Começa a refilmagem com Perseu, o filho de Zeus, tendo a missão de salvar a princesa Andrômeda para proteger a cidade de Argos, que está sob ameaça de destruição por parte de Hades, deus do inferno. O vilão pretende libertar o monstro Kraken para punir os humanos que deixaram de adorar os deuses. A saga de Perseu segue por diversas conquistas e leva o espectador a uma aventura empolgante com direito a cavalos voadores, escorpiões gigantes, bruxas, deuses e monstros.

Em comparação com o original, a mitologia deixa de ser a base do roteiro e se transforma em suporte para uma produção típica do verão norte-americano. Sam Worthington visto recentemente em “O Exterminador do Futuro: A Salvação” e “Avatar”, convence como o filho dos deuses, transmitindo suas motivações e firmeza nas batalhas. O filme apenas peca na representação computadorizada da Medusa, que na verdade é uma mulher e não uma cobra, e na recriação dos deuses, principalmente Liam Neeson, que aparece prateado e brilhante.

Nota: 7,5

Daybreakers


Numa época em que os vampiros são classificados como seres sem presas, que brilham na luz e não se alimentam de sangue humano, a produção “Daybreakers” surge, ao menos, para tentar honrar a originária fama dos sanguessugas. A história se desenrola a partir de uma situação nova no gênero: quase totalidade da raça humana se transformou vampiro. Os poucos que sobraram vivem escondidos e sob a constante ameaça de servirem como alimento para a população dos dentuços. Na escassez de sangue puro, a expectativa de vida torna-se mínima, reduzindo os morto-vivos em subespécies horrendas, que, desesperadas matam os demais vampiros para se alimentar.

A situação é de caos e medo na cidade em que se passa a trama. Cartazes com figuras das Forças Armadas promovem a captura dos humanos. O governo prevê que o estoque de sangue deve terminar em menos de um mês. Essa atmosfera é retratada com imagens azuladas e escuras, pouca utilização de trilha sonora e alguns sustos. A produção inicia com a tensão necessária para se tornar um ótimo exemplar dos filmes de vampiros.

“Daybreakers” não sustenta o argumento inicial porque decide transitar através de desdobramentos comuns, sem aproveitar o diferencial do projeto e direcionando a narrativa até uma matança de vampiros chata que ao invés de assustar dá sono. Ethan Hawke e Sam Neil – sem comentar a péssima Isabel Lucas - estão ali para pagar o aluguel, já que não se esforçam para aparentar que são sugadores de sangue. O reduto do filme é aproveitar que o gênero está em alta e tentar descolar um espaço ao lado de “Anjos da Noite” na locadora. Até porque as diferenças entre os dois não são muitas.

Nota: 5

Alice no País das Maravilhas


“Alice” foi apenas o primeiro. Pode ir se preparando para uma enxurrada de produções cinematográficas em 3D que irão recontar as clássicas histórias infantis. Os anúncios começaram a ser divulgados após a confirmação do novo recorde do filme: em três meses da estreia mundial, ultrapassou a marca de 1 bilhão de dólares e está atrás apenas de “Avatar” e “Titanic”. Descartando as arrecadações de bilheteria, o longa-metragem é indiscutivelmente um banquete visual, reproduzindo exatamente o que foi proposto pela extasiante divulgação. Assim, a experiência de assistir no cinema, aliado com a tecnologia 3D, é para deixar o público maravilhado com o universo grandioso criado por Tim Burton.

A história homônima de Lewis Caroll é recontada e transformada em uma aventura fantástica, com a introdução de uma guerra entre dois reinos, monstros, cavaleiros do mal, dilemas amorosos e muito mais. Não dá para esperar fidelidade ao original – até porque o roteiro condensa o livro do título e sua continuação, “Através do Espelho”. As primeiras cenas exibindo uma Alice adolescente sendo pedida em casamento já demonstram que estamos frente a frente a uma nova proposta. Para aproveitar a viagem, é preciso mergulhar no universo lisérgico do conto e não se preocupar com suas origens.

O chapeleiro maluco, a lagarta que fuma narguilé, o coelho serelepe e o gato risonho estão no filme, cada um com suas excentricidades adoráveis. A produção consegue valorizar esse punhado de personagens bacanas, embora sempre tenha alguns que se destacam mais, como é o caso dos gêmeos gordinhos com suas façanhas humorísticas e a Rainha Vermelha, de uma maldade divertida – mérito da perfeita atuação de Helena Broham Carter. Já a jovem Mia Wasikowska, que tem o perfil ideal para interpretar a protagonista, fica apagada perante os seres de Wonderland, que são infinitamente mais atrativos.

A base do filme pode ser “Alice no País das Maravilhas”, mas definitivamente essa não é a história contada na tela. Tim Burton utilizou o ponto forte do conto original - a situação atípica de uma menina cair em um buraco, diminuir de tamanho e conviver com seres bizarros em uma terra desconhecida - e esculpiu para a sua musa um universo novo com maior desenvolvimento dentro e fora do mundo fantástico, sem deixar de lado o seu toque gótico inconfundível. A tradução rendeu uma aventura deslumbrante, que, assim como o original, encanta em suas particularidades.

Nota: 8

Tudo Pode Dar Certo


O som do jazz começa a tocar antes mesmo do início dos créditos. A tela permanece escura e as primeiras palavras são apresentadas em branco. Segue o nome do filme e logo depois a lista de atores em ordem alfabética. O modelo continua até o encerramento com o nome do diretor, que certamente também será atribuído ao cargo de roteirista. Essa sequencia é uma marca registrada dos filmes de Woody Allen, que desde o início da carreira utiliza como abertura de seus projetos o mesmo padrão. Aquele espectador bem informado já reconhece o artifício e pode ter uma ideia do que virá a seguir: essencialmente dramas cômicos e adultos sobre o sentido da vida.

Nesse ano, a novidade é que depois de bandas pela Europa, o cultuado cineasta retornou aos Estados Unidos - mais precisamente à sua querida Nova York - para contar uma de suas típicas comédias. Em “Tudo Pode Dar Certo”, Boris (Larry David) é um senhor arrogante e pessimista que dá abrigo a uma garota do interior (Evan Rachel Wood) que estava vivendo nas ruas da cidade como um mendigo. A afinidade entre eles não demora para acontecer e, aos poucos, a menina se torna pupila dos ensinamentos distorcidos do velho.

A história dessa vez é levemente previsível, mas não deixa de ser curiosa. O sabor de seus filmes, como sempre, está nas sutilezas do roteiro, que opta por altas doses de sarcasmo e ironia muito bem articuladas. O protagonista que profere a maior parte desses desaforos é Larry David, o comediante de “Crub Your Enthusiasm”, que encara com perfeição o alterego do diretor. São dele os melhores e mais engraçados momentos da produção. A neura característica dos personagens de Allen encaixa-se na trama com maestria e é explicitada através das reclamações e teorias particulares de Boris.

Woody retoma temas abordados em trabalhos anteriores como “Crimes e Pecados”, quando refere-se ao universo indiferente ao qual estamos inseridos ou à “Manhattan”, no momento em que aborda o relacionamento entre uma jovem menor de idade e um homem maduro. A visão cética do diretor está refletida no próprio título do filme, “Wathever Works”, uma clara menção à teoria defendida por Boris sobre o amor. Para ele, esse sentimento não é tão puro: o amor é reduzido a “qualquer coisa que funcione” e que seja boa para ambas as partes. E de certa forma, como observamos no longa, ele tem razão.

Como muitos diretores, Allen segue o seu estilo de forma fiel e apresenta mais do mesmo. O inusitado é que esse repeteco é muito mais gostoso do que a lista de produções descerebradas lançadas ultimamente. Embora seu novo exemplar não apresente tanto frescor, o roteiro inteligente já rende um entretenimento muito acima da média. De “defeitos”, pode-se queixar do desfecho conferido ao pai da menina e o tratamento raso e artificial dado ao seu possível namorado. E mais detalhe: não seria nada ruim se tivesse menos entradas de coadjuvantes. Assim, o melhor do filme, Boris (ou Woody personificado), comandaria o projeto do início ao fim. Nada mais justo.

Nota: 8,2

Lembranças


O burburinho em volta de “Lembranças” deve-se apenas pela presença de Robert Patinsson. Se não fosse por ele, essa produção batida estaria sendo lançada e esquecida nas prateleiras da locadora.

O jovem astro realmente atua nesse filme – ao contrário da saga “Crepúsculo” - e até manda bem no papel de um adolescente atormentado que perdeu o irmão e passou a culpar o pai pelo ocorrido. Através de uma aposta, ele conhece uma garota igualmente revoltada que também sofreu uma perda familiar: a mãe foi assassinada na sua frente quando era menor.

O drama romântico investe na química do casal, que ao menos funciona, mas deixa de lado o aperfeiçoamento do roteiro. A relação entre os personagens é tão enrolada que pouco se desenvolve. Alguns diálogos são vergonhosos, como aquele presenciado no primeiro jantar da dupla. O clímax do filme é de uma obviedade incrível, podendo ser previsto no momento que se descobre que a garota é filha do policial – não teve spoiler. Fora o encerramento, que os roteiristas introduzem um fato histórico perdido e sem contexto algum apostando que os espectadores iriam achar original. Bem longe disso.

“Lembranças” acaba se importando mais com as fãs do galã vampiro, ao tentar provocar as lágrimas das “crepusculetes” com um final supostamente surpreendente e termina perdendo o foco. Com a direção voltada para questões menos relevantes, a trama não chega a ganhar a profundidade pretendida, e deixa o resultado não mais que insosso.

Nota: 4

A Estrada


“Está tudo bem. É apenas mais um terremoto”. Assim, com a face calma e serena, que o personagem de Viggo Mortensen acalma o seu filho nas primeiras cenas de “A Estrada”. Em um mundo devastado pela tragédia, onde a comida é escassa, a gasolina um bem precioso e o canibalismo algo normal, os terremotos representam ameaças mínimas. Afinal, nessa situação, a morte não é o pior dos males.

Acompanhamos a narrativa através do olhar desse pai, que luta para proteger o filho e sobreviver em uma terra sem humanidade. “A Estrada” não explica o real motivo do cenário de destruição – até porque este não é seu propósito. A realidade vista na tela mostra um ser humano primitivo, que sem as normas da sociedade se vê matando por comida e estuprando para satisfazer necessidades. A forma crua como encara os temas lembra “Ensaio Sobre a Cegueira”, que, por sinal, apresenta muitas outras semelhanças.

A visão apocalíptica proposta por Cormac McCarthy, autor do livro do qual o filme se baseou, é de total desolação. Os dias são cada vez mais frios, os incêndios se alastram com rapidez e as árvores enfraquecidas se desprendem e vão ao chão. A luta pela sobrevivência levou a formação de gangues armadas, que invadem as casas em busca de comida, matando as famílias que esperam pelo pior. Os suicídios em massa já se tornaram comuns.

O tema pesado é intensificado pela abordagem tensa do diretor John Hillcoat, que mostra-se bem sucedido em trabalhar com uma trilha sonora angustiante e sem apelar para cenas de ação. Como de costume, Viggo Mortensen entrega uma performance firme e competente. Mesmo aparecendo em pequenos (e elucidativos) flashbacks como a esposa e mãe nos primeiros momentos pós-catástrofe, Charlize Theron contribui para sensibilizar de maneira pontual na história.

Em uma realidade como essa, com o mundo definhando e sem qualquer perspectiva de um futuro decente, a razão de existência daquele pai se torna treinar o filho para que este possa sobreviver sozinho. A luta dos refugiados é corajosa e triste. Uma proposta de ‘apocalipse’ como essa não pode ser comparada aos espetáculos vistos em produções como “2012”. O que “A Estrada” oferece é muito mais crítico e relevante.

Nota: 8

Preciosa - Uma História de Esperança


Claireece “Precious” Jones é uma adolescente de 16 anos, negra, pobre, obesa, violentada pelo pai e maltratada pela mãe. Ela também tem um filho portador de síndrome de Down e foi suspensa da escola porque está novamente grávida de seu pai. Na primeira cena do filme, Preciosa aparece fora de foco, caminhando no meio de uma multidão. Apesar de ser um artifício comum no cinema, essa imagem desfocada descreve exatamente a personagem: uma garota como qualquer outra, diluída nesse mar de gente que luta diariamente por dignidade.

Mesmo com todos esses problemas, ela não deixa de ter sonhos típicos da adolescência: quer ser famosa, ter um namorado e ganhar bastante dinheiro. As fantasias de Preciosa são apresentadas em cenas quentes, coloridas e exageradas, que quebram o dramalhão que o filme poderia atingir. Esse intercâmbio de sonho e realidade rivaliza com a direção pesada de Lee Daniels, contribuindo para uma maior agilidade no andamento da história.

Gabourey Sidibe, cujo perfil é perfeito para interpretar a sofrida Preciosa, perde espaço quando entra em cena Mo´Nique como sua mãe. O desempenho poderoso da atriz é um dos trabalhos mais impressionantes de atuação dos últimos anos – não por menos, venceu os principais prêmios na categoria. A relação entre as duas se torna o grande conflito da produção, logo após a garota ser aceita em uma nova escola e receber a ajuda da professora e de uma funcionária do serviço social.

“Precisa” não é tão deprimente como sugere. O filme retrata a existência penosa de uma jovem, que aos poucos, vai conseguir lidar com as desventuras que aparecem em seu caminho. E, ao contrário do subtítulo nacional, “Preciosa” se descobre um filme sobre mudança e determinação.

Nota: 7,4

Os Melhores Filmes de 2009

Como já é tradição no CinemaX, chegou a vez de divulgar os melhores filmes do ano que passou. 2009 foi marcado por muitas promessas e poucos resultados satisfatórios. As produções investiram bastante em marketing, tentando promover o retorno das massas ao cinema, e esqueceram de valorizar o mais importante: um bom roteiro. Foram poucos os filmes que se destacaram durante o ano. Geralmente, a lista dos melhores engloba cerca de 40 longa-metragens, dos quais é feita uma triagem para selecionar os top top. Dessa vez foram menos de 20 na disputa. É, a situação não foi das melhores em 2009.

Veja abaixo os filmes que mereceram integrar o ranking:

500 DIAS COM ELA
O que poderia ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero, aproximando-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

ABRAÇOS PARTIDOS
Almodóvar estabelece uma embalagem refinada para o seu cinema, centrando a história naquele universo pessoal e único que é tão bem conhecido e admirado.

AMOR SEM ESCALAS
Jason Reitman explora o ser humano e suas relações sociais em um filme adulto com roteiro brilhante e atuações no ponto.

AVATAR
O mundo criado por James Cameron é um universo impressionante, que mescla elementos gráficos de cair o queixo com a densidade filosófica de crenças de um povo poderoso.

BASTARDOS INGLÓRIOS
Quentin Tarantino reinventa a história da Segunda Guerra com muita violência, humor negro e, obviamente, uma infinidade de cultura pop. O Coronel Landa nunca vai ser esquecido, assim como Brad Pitt e seu ‘buongiorno’.

DISTRITO 9

‘Distrito 9’ é uma ficção científica adulta, tremendamente atual e eletrizante. A angústia do protagonista após a contaminação ainda ecoa na mente do espectador por muito tempo.

JULIE & JULIA
A gastronomia continua dando bons frutos no cinema. A diretora Nora Ephron concilia duas linhas narrativas, passado e presente, dando consonância para as histórias das Julias - além da majestosa presença de Meryl Streep.

MARY AND MAX
Baseado em uma história real, ‘Mary and Max’ é sobre dois seres solitários, uma menina de oito anos e um homem de 44, que se correspondem à distância e se tornam amigos. A animação exalta a amizade e termina como uma linda história de vida.

NINE
Mesmo com um ritmo irregular, ‘Nine’ consegue ser sexy, contagiante, belo e emocionante. Um espetáculo do início ao fim. Basta deixar-se levar pelo ritmo da música.

O SOLISTA
O diretor Joe Wright já se tornou sinônimo de qualidade. Com ‘O Solista’, ele realiza um filme humano, que não insiste no modelo básico da história de superação. Ao todo, representa uma lição de aprendizado e amizade.

UP – ALTAS AVENTURAS
Mais um acerto da Pixar. ‘Up’ é uma aventura infantil que consegue ser divertida e tocante. Os dez minutos iniciais já valem todo o filme. Um primor de entretenimento para toda família.

WATCHMEN – O FILME
Adaptação considerada impossível, ‘Watchmen’ revelou-se um longa-metragem feito de um fã para outros fãs. O filme de super-heróis é mais profundo do que do que se espera, apresentando camadas interessantes que elevam o teor do projeto.

Menções honrosas: O Fantástico Sr. Raposo; Preciosa; Zumbilândia; Arraste-me Para o Inferno; Amantes; Duplicidade e Inimigos Públicos

Cadê os Morgans?


Esta é terceira parceria de Hugh Grant com diretor Marc Lawrence. Os dois já trabalharam juntos em “Amor à Segunda Vista” e “Letra e Música”. Nesse sentido, “Cadê os Morgans?”, assim como os demais filmes do cineasta, é uma comédia romântica previsível que vale apenas pelos atores coadjuvantes e pelo humor britânico do personagem de Hugh Grant.

No filme, Meryl e Paul Morgan são um casal bem-sucedido que está separado após a traição dele. Na busca de uma reconciliação, os dois marcam de se encontrar e, na saída do restaurante, acabam presenciando um assassinato. Com suas vidas em risco, são mandados para a cidade de Ray, no interior dos Estados Unidos.

A jogada aqui é assistir os novaiorquinos limitados à uma vida sem tecnologia e distante da cidade grande. Sem alternativas, a dupla é obrigada a conviver e redescobrir um sentimento que ainda existia em ambos. Sarah e Hugh não apresentam o carisma necessário para alavancar o filme. Ela aparece sem muita expressão com sua estética plastificada e ele apático e desmotivado com as situações que enfrenta.

Na falta de química dos protagonistas, quem se destaca são os coadjuvantes Sam Elliot e Mary Steenburgen, como o casal caipira que abriga as testemunhas em sua casa. Os veteranos aproveitam o tempo em cena e tornam seus personagens mais interessantes que os astros. Também ganham a simpatia, a dupla de assessores que cuidam das agendas lotadas dos Morgans.

Apesar dos clichês recorrentes do gênero, “Cadê os Morgans?” apresenta um humor irônico que salva a produção – graças ao personagem de Grant. Quanto ao resto, é mais do mesmo.

Nota: 5,5

Invictus


“Invictus” retrata um período decisivo na história da África do Sul. Em 1994, o recém presidente Nelson Mandela utilizou de um esporte tipicamente inglês, o rugby, para terminar com as diferenças raciais no país. Esse episódio verdadeiro e inspirador foi registrado com certa deficiência pelo competente diretor Clint Eastwood.

A produção apresenta um conjunto de cenas truncadas, orquestradas por um roteiro com pouca direção, que confere ênfase em certos momentos para questões políticas, depois passa para as partidas de rugby e termina com sentimentalismo duvidoso. A tentativa de abordar com profundidade várias esferas do fato proporciona quebras de ritmo constantes, sem conseguir fluir com êxito na história. Perdidas no roteiro também estão cenas que procuram gerar suspense, como aquela em que um furgão misterioso se aproxima de Mandela, ou então quando vários planos focam um avião prestes a colidir com o estádio.

No meio do furacão, Morgan Freeman desempenha uma boa interpretação como o ídolo do povo e tem no personagem a atuação pela qual sempre será lembrado. Em contraponto, Matt Damon não encontra chances de se destacar como o capitão do time de rugby. O único momento que conhecemos melhor a sua figura é quando ele se mostra inseguro perante o convite de conhecer o presidente.

“Invictus” sequer foi indicado aos principais prêmios (basicamente referentes a atuações) no Globo de Ouro e Oscar. Entre a nova e tão respeitada fase de produções dirigidas por Clint Eastwood, o filme mostra-se um projeto inferior do cineasta. Ironicamente o filme que poderia ser o mais fácil de realizar, conforme a fácil identificação do público com o episódio, acabou se revelando o mais falho de sua carreira. Apesar das ressalvas, o longa pode ser assistido com um olhar despreocupado e revelar-se um bom (e até emocionante) passatempo.

Nota: 7

Entre Irmãos


Sam e Tommy são irmãos. O primeiro é casado, tem duas filhas e desempenha uma ótima carreira como capitão do exército. O segundo é um malandro, que quando não está atrás de um rabo de saia fica aplicando golpes e se metendo em confusão. O filme inicia quando Sam está partindo para servir no Afeganistão e Tommy está voltando após um período na prisão. Um chega e o outro vai embora.

“Entre Irmãos” é uma refilmagem do filme dinamarquês, “Brodre”, dirigido por Susane Bier. Os direitos do original foram comprados logo após a exibição do longa no Festival de Sundance em 2004. Na versão americana quem protagoniza o triângulo amoroso é Tobey Maguire, Natalie Portman e Jake Gyllenhaal.

Essa situação à três se desenvolve a partir do momento em que Sam é dado com morto. A notícia abala a família e Tommy passa a consolar a viúva do irmão, Grace. Tempos depois, quando Sam aparece vivo - depois sofrer barbaridades na guerra - a situação inverte. O bom e mau irmão trocam de figura. Sam está amargurado e começa a desconfiar que sua esposa transou com o irmão. Estranho e violento, nem mesmo as filhas passam a gostar de sua companhia. Enquanto isso, Tommy que antes era largado acabou encontrando um lar e tomando para si a vida que o irmão levava.

O filme aborda principalmente as relações familiares e a inevitável comparação entre irmãos. O retorno de Sam vai direcionar a trama para um clímax que deixa questões ambíguas – o que é interessante – e outras solucionadas de forma apressada, que terminam comprometendo levemente o desenvolvimento narrativo.

“Entre Irmãos” concilia drama familiar com thriller de guerra, uma estratégia perigosa que termina dando certo. O forte apelo contra as barbáries da guerra constitui uma segunda trama, mostrada através do ocorrido com Sam durante o tempo em que foi tido como morto. Essa vertente ganha maior peso com a mensagem final do projeto. O diretor Jim Sheridan (“Em Nome do Pai”, “Meu Pé Esquerdo”) trabalhou com um dramalhão difícil – e assim como o original - conseguiu torná-lo bastante pertinente e, acima de tudo, real.

Nota: 7,5