What Just Happened


Eu que pergunto! O que está acontecendo??? Robert DeNiro mais uma vez se mete em roubada. E se não bastasse, levou com ele um super time de estrelas: Sean Penn, Catherine Kenner, John Turturro, Robin Wright Penn, Kristin Stewart e Bruce Willis. Porém, quem sai pior da experiência é o astro principal.

Baseado no livro de Art Linvin, a produção narra as peripécias reais de um produtor de cinema em Hollywood. DeNiro interpreta o charmoso protagonista e, incrivelmente, é um de seus melhores papéis nos últimos anos. O entrave do projeto é a chatisse do roteiro, que não faz a crítica que tanto alarde e muito menos diverte.

A consequência é um entretenimento praticamente vazio – triste para o diretor de pérolas como “Bugsy”, “Rain Men” e “Mera Coincidência”. Ainda mais prejudicado é o ator que encabeça o longa, já que aos poucos vai perdendoa confiança do público ao demonstrar ser péssimo em escolher novos projetos.

Nota: 5,0

Modelos Nada Corretos


O modelo de comédia norte-americana parece que não muda. Todo ano estréiam dezenas de exemplares do gênero no mesmo formato, com piadas grosseiras e programadas, de tom humilhante ou de personagens bizarros. O mesmo acontece com esta aqui, só que temos alguns diferenciais.

A dupla Sean William Scott e Paul Rudd está numa ótima sintonia e suas tentativas de fazer rir são bem sucedidas. Os dois são vendedores de uma marca de energético e trabalham percorrendo escolas para apresentar o produto e fazer campanha contra o consumo prejudicial de álcool. Enquanto um se fantasia de minotouro, o símbolo da bebida, o outro ensina a gurizada. A reviravolta surge quando estragam o caminhão da empresa e, para não serem presos, são condenados a cumprir 150 horas de serviço comunitário como mentores de jovens. Cada um fica responsável por uma criança.

É um alívio assistir uma comédia que consegue prender o público e proporcionar um bom divertimento. A última safra (“Quase Irmãos”, “Ressaca de Amor”, “Pagando Bem, Que Mal Tem”, “O Guru do Amor”) deixou muito a desejar. “Modelos Nada Corretos” é aquela típica comédia que você já viu, sabe de cor o que vai acontecer, mas que ainda assim diverte. Além disso, no fundo, é um filme com coração, bonitinho mesmo.

Nota: 7,8

O Casamento de Rachel


Após os sucessos “O Silêncio dos Inocentes” e “Filadélfia”, o diretor Jonathan Demme passou uma boa fase de sua vida dedicando-se aos documentários. O retorno mais expressivo ao campo da ficção veio com este belo filme independente, no qual ele prova que não adianta tentar ser alternativo demais quando a base do roteiro são os relacionamentos e sentimentos amorosos. Filmes como “A Lula e a Baleia” ou “Margot e o Casamento” trabalham com temas do cotidiano, mas pecam quando criam diálogos e situações fora do comum, deixando o contato com o público em segundo plano.

Na trama, Kim (Anne Hathway) é liberada da reabilitação durante o final de semana para participar do casamento da irmã. Depois de permanecer um ano internada, essa é sua primeira chance de encarar a família novamente. Os conflitos não demoram a surgir, mas o hábil diretor e sua brilhante roteirista, Jenny Lumet, conduzem este drama sem nunca cair no lugar comum.

O ambiente do filme é totalmente acolhedor, gerando a empatia do público com os persongens e seus problemas. A gravação realizada em câmera de mão dá maior veracidade aos acontecimentos, enquanto as atuações de Hathway e Rosemarie DeWitt faíscam na tela. “O Casamento de Rachel” é, sobretudo, verdadeiro.

Nota: 9

Falsa Loura


A crítica superestimou esta grande porcaria e é muito difícil entender o porquê de tantos elogios rasgados ao cinema de Carlos Reichenbach. Depois do tenebroso “Garotas do ABC”, o diretor serve-se mais uma vez de um grupo de operárias de uma metalúrgica para discutir o cotiadiano destas mulheres cheias de sonhos e ilusões.

Percebe-se que o “clube da Luluzinha” se sacrifica durante o dia trabalhando pesado na fábrica, mas por mais que deixem toda vaidade na hora de vestir o macacão do uniforme, elas não dispensam de sair à noite todas emperequetadas. Silmara é uma delas, e acredita que sua “loirice” ajuda a seduzir os rapazes. Aos poucos, ela vai sendo usada e abusada pelos homens – uma “falsa loira” como diz o título.

O filme não consegue trabalhar nenhum dos temas que se propõe: o dia-a-dia na fábrica de mulheres comuns, trabalhadoras e jovens ou então a história de Silmara. O que fica em evidência é o amadorismo da produção, como as atuações sofríveis. Pra se ter uma noção, Maurício Mattar, Suzana Alves, a Tiazinha do extinto Programa H, e Léo Aquila, o transformista da Rede TV, são alguns dos atores do longa. Já perto do final, a trama recebe uma reviravolta surpreendente e acha que o espectador vai engolir a tentativa de ser “cult”. Tá de palhaçada!

O melhor do projeto é Rosane Mulholland (do interessante “A Concepção”). A atriz que interpreta a Silmara dá um show perante um filme perdido de intenções.

Nota: 4,0

A Duquesa


Eis aqui um legítimo filme de época! “A Duquesa” não se passa durante guerra alguma, nem tão pouco contém duelos ou a morte de um personagem importante para a trama. A calmaria do roteiro serve para ir a fundo nos costumes do periodo e, consequentemente, nas normas da sociedade conservadora. O papel da mulher no âmbito social é um de seus principais temas, e para isso, utiliza a figura verídica da Duquesa para abordar o assunto.

A bela e remediada Georgiana casa-se com o rico Duque de Devonshire (Ralph Fiennes), um dos homens mais importantes da Inglaterra. Mais do que natural seria a esposa dar um herdeiro homem para o poderoso marido, mas não é o que acontece com Georgiana. Ela acaba tendo somente meninas e o duque termina procurando alento em outros lugares.

A protagonista é uma mulher esperta e que não se conforma com o machismo vigente, diferente das submissas esposas. Uma curiosidade é que a verdadeira duquesa era parente direto da Princesa Diana e as duas possuem muitos pontos em comum. O carisma da atriz Kiera Knightley também ajuda na comparação.

De 2005 pra cá, Kiera lançou quatro filmes que se passam entre os séculos 16 e 18, são eles: “Orgulho e Preconceito”, “Desejo e Reparação”, “Paixão Proibida” e este aqui – sem contar os capítulos da saga “Piratas do Caribe”. Parece que a atriz nasceu para interpretar mulheres que viveram neste periodo, já que suas melhores interpretações foram nos filmes recém citados. Neste último, ela também se sai bem e ajuda a mostrar como a personagem era muito à frente de seu tempo.


Nota: 7,4

O Escafandro e a Borboleta


Jean-Dominique Bauby, apelidado de Jean-Do, foi editor da revista Elle e transitava pelo badalado mundo das celebridades francesas. Repentinamente, aos 43 anos, sofreu um derrame que o deixou em coma durante três semanas. Ao despertar, descobriu-se incapaz de mexer qualquer parte do corpo – exceto o olho esquerdo. Na tentativa de comunicar-se com os médicos e familiares mais próximos, ele pisca uma vez para significar “sim” e duas vezes para “não”.

O diretor Julian Schnabel retrata em “O Escafandro e a Borboleta” o processo de adaptação de um homem ativo e saudável a um estado de vida vegetativo e sem muitas perspectivas de melhora. Em uma das passagens do longa, o protagonista afirma em narração que além do olho, duas coisas não estão paralisadas: a sua imaginação e a sua memória. Embora esteja preso nessas limitadas condições, o cérebro funciona perfeitamente e não pára um segundo de maquinar.

Até os quarenta minutos iniciais o espectador enxerga somente através dos olhos do protagonista e a experiência é reproduzida de forma perfeita, trazendo o apreciador da película para o interior do personagem. Também presente no roteiro estão metáforas para exemplificar a situação dramática de Jean-Do, como quando o compara com uma borboleta presa nas garras de uma planta carnívora, ou ainda, quando faz o paralelo sutil entre o desmoronamento de falésias com o desmoronamento de sua vida.

O homem por trás do projeto, Julian Schnabel, foi premiado em Cannes como Melhor Diretor e o seu trabalho é realmente um primor. A obra é tão fantástica que supera com larga margem outra produção cuja temática é semelhante e além de tudo faturou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Mar Adentro”.

Em “O Escafandro e a Borboleta”, a irretocável edição alia-se com imagens explêndidas, principalmente quando os devaneios de Jean-Do são externados visualmente, como em sonhos ou lembranças – esta aí a imaginação e a memória novamente. Porém, tudo não faria sentido se não estivesse um brilhante ator no comando desta difícil transposição para as telas. Mathieu Amalric divide os méritos do projeto. É difícil mensurar o envolvimento e a dedicação com esta peça por parte de toda equipe, mas é fácil afirmar que o resultado obtido é um verdadeiro encanto, do início ao fim.

Nota: 9

Austrália


Após a obra-prima “Moulin Rouge”, a expectativa em torno do novo projeto de Baz Luhrmann aumentou e muito. O cineasta esteve envolvido na produção que contaria a história de Alexandre, o Grande mas, perdeu a batalha para o roteiro do drama de Oliver Stone. O projeto decorrente foi escrever e dirigir uma homenagem aos épicos do início do cinema, onde teria como pano de fundo o seu país de origem, a Austrália. Bom, infelizmente a tentativa não foi bem sucedida e o diretor saiu mais estropeado do que nunca.

“Austrália” tinha muito a seu favor: ótimos atores (Nicole Kidman e Hugh Jackman), uma equipe técnica de peso e um diretor cujo currículo é uma excelência. Pode-se apontar como o principal culpado deste imenso naufrágio o roteiro desequilibrado, que não se dá ao trabalho de resolver questões pendentes. O acúmulo de tramas tira a atenção do que primeiramente era o mais importante: aristocrata inglesa tem que assumir os negócios do marido que recém faleceu e, para isso, parte para uma fazenda no norte do país dos cangurus. Desde o princípio ela é ajudada por um boiadeiro, que acaba virando seu aliado na disputa por terra e gado na região. Soma-se ainda a presença de uma criança aborígene que conta a história.

O clima inicial de “Austrália” é de total empolgação. A aventura mistura-se com a comédia rasgada, nas quais as atuações são caricaturais e o que acontece na tela é propositalmente puro clichê. O caldo começa a desandar no momento que essa descontração e histerismo típico do diretor passa a ser levada a sério. A produção opta por estender-se demais em conflitos sem grande importância, como a misticismo, a Segunda Guerra Mundial e as crianças da “geração roubada” – temas mal desenvolvidos pelo roteiro.

O resultado pode ser irregular, mas a aposta em “Austrália” foi bastante alta, mais precisamente de 125 milhões de dólares, que não renderam nas bilheterias nem a metade. Para solucionar boa parte das contradições do longa, o ideal seria manter o timing cômico apresentado no início e deixar a cargo de outros atributos, como o deslumbramento gráfico e os toques inconfundíveis de Luhrmann, a contribuição para elevar o conceito do projeto. Talvez chegasse a ser um filme mais superficial, mas provavelmente, seria bem mais divertido.

Nota: 6,0

Queime Depois de Ler


Após o premiadíssimo “Onde os Fracos Não Tem Vez”, os irmãos Joel e Ethan Coen decidiram apostar em outro gênero que adoram: a comédia. Porém, suas investidas no formato são bastante diferentes do convencial, basta assistir “Fargo”, “Matadores de Velhinhas” e “O Amor Custa Caro”.

Com “Queime Depois de Ler” os irmãos diretores realizam um besteirol atípico, de piadas de canto de boca e trama curiosa. Na galeria de personagens, temos o analista da CIA despedido por alcoolismo, a personal trainer que sonha com cirurgias plásticas, um agente do Tesouro com mania de perseguição, e por aí vai. A situação non sense que se forma é hilária e quem brilha mais são os protagonistas: Brad Pitt é o melhor do projeto, seguido por uma histérica Frances McDormand.

O grande “senão” é que o filme nunca chega a decolar, ameaçando diversas vezes e por fim, não vai a lugar nenhum. Se for para entrar no humor dos Coen, este lançamento se resume a uma produção sofisticada sobre a estupidez humana, com boas atuações e personagens, mas que encontra dificuldade em dialogar com o grande público, principalmente, quando este está acostumado com tudo mais às claras.

Nota: 7,0

O Menino do Pijama Listrado


Por mais que pareça inocente em dados momentos, “O Menino do Pijama Listrado” demonstra em seu desfecho que a mensagem transmitida não tem nada de ingênua. A Segunda Guerra é observada pelo ponto de vista de duas crianças, uma que está dentro de um campo de concentração e outra que é filha de um comandante nazista. Um tema explorado em demasia, mas que ainda assombra o nosso passado.

Tão bom quanto a obra original, o filme é bem conduzido pelo diretor Mark Herman, que toma certas liberdades ao trabalhar o texto de John Boyne. O saldo bastante favorável pode ser creditado a forma modesta empregada que atinge em cheio o receptor. Pode ser considerado o “Caçador de Pipas” do ano.

Nota: 7,6

Bernard e Doris


Doris Duke foi uma influente filantropista, uma alcoólatra irrecuperável e considerada pela imprensa, durante muitos anos, a jovem mais rica do mundo. Na pele de Susan Sarandon, somos apresentados a uma protagonista excêntrica, herdeira da fortuna do pai empresário do ramo do tabaco e, que depois de tomar posse do dinheiro passou a ter plena convicção de que tudo tem seu preço. Essa teoria é posta a prova quando desenvolve uma forte amizade com o mordomo Bernand Lafferty (Ralph Fiennes).

As virtuosas performances de Sarandon e Fiennes elevam o caráter básico da história e são responsáveis pelo principal interesse na obra. Produzido pela HBO, foi indicado ao Globo de Ouro em três categorias: Melhor Filme Feito para a TV, Ator e Atriz em Telefilme. A produção faz questão de esclarecer que boa parte é baseada em fatos verdadeiros, sendo que algumas situações são fictícias.

Nota: 7,0

Dúvida


Muito mais que um filme sobre pedofilia, “Dúvida” levanta questões referentes ao posicionamento da igreja moderna e ainda faz uma análise sobre como surgem os boatos e as intrigas. O longa-metragem é baseado na peça de mesmo nome vencedora do prêmio Pulitzer.

A trama se passa em 1964, em um colégio católico americano quando uma freia acusa um popular padre de abuso infantil. O sucesso do filme deve-se a majestosa direção de John Patrick Shanley, que anteriormente foi responsável por “Joe e o Vulcão”. A contribuição do cineasta no projeto é essencial, dando um ritmo sério e de liberdades exatas para o tema. Os planos algumas vezes audaciosos, a edição seca e a bela fotografia também contribuem para a elegância visual.

Indicada ao Oscar pelo papel da irmã Aloysius, que rege a escola com mão de ferro, Meryl Streep encara mais um personagem icônico. Indescutivelmente, é uma das melhores performances da atriz. “Dúvida” completa seu elenco precioso com Phillip Seymor Hoffman, Amy Adams e Viola Davis – todos excelentes.

Nota: 8,0

Frost/Nixon


Logo após renunciar a presidência dos Estados Unidos, em 1974, Richard Nixon aceitou o convite feito por um apresentador de tv para uma série de entrevistas. A principal intenção do presidente era limpar a imagem negativa que havia deixado com o escândalo de Watergate. O episódio é retratado em “Frost/Nixon”, filme correto e surpreendentemente intrigante.

O diretor Ron Howard foge do padrão de que filme político tem que ser incompreensível e tedioso, e sendo assim, origina um conjunto harmonioso de dados históricos e entretenimento. A construção dos fatos é de fácil entendimento e rende muito mais do que a primeira vista aparenta.

O grande destaque vai para Frank Langella como o político controverso. Apesar de não ser parecido fisicamente com Nixon, o veterano ator demonstra uma entrega intensa a figura do presidente. A disputa fica interessante quando o entrevistador mostra-se bem mais astuto que o planejado.

Nota: 8,0

O Curioso Caso de Benjamin Button


Não há palavra melhor para definir o novo filme de David Fincher que “curioso”. Talvez seja por isso que ela está bem estampada no título da produção! A trajetória de um bebê com a aparência de um idoso que vai rejuvenecendo com o passar dos anos encantou o público e os críticos. Para completar, o filme foi recordista no Oscar 2009 com 13 indicações.

Ao ter como base um conto de poucas páginas de F. Scott Fitzgerald, o roteiro acabou obrigado a estender a narrativa, criando assim novas situações e desenvolvendo melhor a estranha faceta do protagonista. Por mais bizarro que possa parecer, o caso de Benjamin Button é muito bem explicado na tela e não deixa furos. As repostas que podem surgir antes de assistir o projeto são respondidas com êxito e, sem dificuldade, o espectador mergulha no universo singular da produção.

Dessa forma, assistimos a existência de um ser humano de trás para frente, e no caminho, muitos questionamentos são discutidos. O debate primordial é sobre a morte, seu fantasma sempre presente, explícito nos primeiros sinais do envelhecimento até a chegada inevitável. É por isso, que questionamos ser como Button: ao momento que vamos ficando mais jovens, ficamos também mais sábios. Não seria o ideal?

Há muito o que se aproveitar desta análise - também nos quesitos técnicos. David Fincher entrega uma obra mais acessível que seus projetos anteriores, como “Clube da Luta” e “Zodíaco”. A direção impecável mostra um diretor no auge da carreira e apaixonado pelo cinema. A direção de arte é fenomenal, assim como os fantásticos efeitos especiais, verdadeiras pérolas da tecnologia digital. Brad Pitt comprova mais uma vez seu talento e nos brinda com uma atuação fora do sério, principalmente quando encarna um velho de 80 anos.

Incrivelmente, o melhor momento do longa é seu início, quando observamos o nascimento de uma ser repleto de doenças que vai perdendo as rugas e ficando cada vez mais jovem. A parte da juventude não é de toda ruim, porém é mais fraca que as demais. Também não é nada que prejudique o andamento. Além de tudo, o filme é uma grande história de amor, sustentada pelo o que o cinema tem de mais rico. A paixão de Fincher pela obra transcende a tela e o resultado não poderia ser outro.

Nota: 8,5

O Leitor


Stephen Daldry acerta pela terceira vez consecutiva e engata mais uma obra de respeito. O filme recebeu uma série de indicações em festivais e arrecadou alguns prêmios, principalmente para Kate Winslet. O cineasta de “As Horas” conta uma história bastante interessante que mistura um romance “proibido” com questões referentes ao nazismo.

“O Leitor” pode ser dividido em três atos, sendo que o primeiro é, certamente, o melhor deles. O romance entre um jovem de quinze anos e uma mulher beirando os quarenta é tratado de forma sensual e sem preconceitos. A construção das imagens e da narrativa é de uma delicadeza sublime.

O segundo capítulo refere-se a grande revelação do longa, que por mais que tenha entregue o segredo muito longe do final, ainda reluta em deixar um clima de mistério. O último ato acontece na atualidade quando o protagonista é vivido por Ralph Fiennes e relembra sua infância e adolescência.

Não tem como negar que a força motriz do projeto é Kate Winslet, na interpretação de uma mulher amargurada e de atitudes duvidosas. O novato David Kross também surpreende com um carisma no ponto. “O Leitor” como produto é muito bem acabado, e como entretenimento é um filme sofrido.

Nota: 7,5

Quem Quer Ser Um Milionário?


O mais recente longa-metragem do diretor Danny Boyle difere bastante do que ele havia produzido anteriormente. Pode-se dizer que utilizou alguns elementos de “Trainspotting”, como o estilo videoclipe, e a doçura de “Caiu do Céu”, que surge como uma espécie de fábula. E “Quem Quer Ser Um Milionário?” é exatamente isso: uma fábula moderna. Acima de tudo, o filme é um romance avassalador que percorre muitos anos nas vidas dos protagonistas. Jamal é um garoto da periferia que participa de um ‘Jogo do Milhão’ indiano para conseguir o amor de Latika.

O inusitado é perceber que a direção do filme é muito semelhante aos trabalhos do brasileiro Fernando Meirelles. Um bom pedaço do projeto aborda temas do submundo da Indía, no qual a composição de cena é parecida com “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Os ângulos tortos, a saturação de cores, os closes nos atores, a trilha sonora marcante e a edição acelerada geram um mosaico convidativo e, por mais que lembre outros filmes, segue tendo personalidade.

Embora previsível, o roteiro conquista o público com o drama da infância e adolescência de Jamal e, em seguida, com sua história de amor. Boyle distancia-se da filmografia alternativa que exaltou em projetos anteriores e cria sua obra mais comercial, misturando açucar com violência. “Quem Quer Ser Um Milionário?” é tenso e emocionante, um trabalho que mexe mais com as emoções e é indicado para os românticos (ou não).

Nota: 8,5

Pagando Bem, Que Mal Tem?


Que decepção, Kevin Smith! O diretor mais nerd de todos os tempos – rótulo que ele próprio se deu - bem que poderia entregar um filme muito melhor. O maior acerto do projeto, sem dúvida, é a brincadeira com “Star Wars”, fora isso as referências a cultura pop mal aparecem. A campanha do longa-metragem investiu em destacar críticas que apontavam o produto como uma máquina de risos. Total enganação!

Vamos ao plot: Zack e Miri são dois amigos que dividem o aluguel e estão endividados até o último fio de cabelo. A solução encontrada para livrarem-se das dívidas é fazer um filme pornô caseiro (!). E, assim, acompanhamos o que deveria ser a divertida saga da dupla na tentativa de filmar o tal vídeo.

Contando com um Seth Rogen em alta e uma bela Elizabeth Banks, o cineasta não aproveita as qualidades da dupla e nem consegue o mínimo: obter uma química verdadeira entre os protagonistas. Boa parte das cenas que deveriam ser engraçadas geram mais constrangimento frente aos fatos do que levam as risadas. Para completar, ao final, a produção do material pornô é deixada de lado e entra no lugar um bobo romance.

Em “Rebobine Por Favor”, o diretor Michel Gondry tinha uma história parecida com e soube criar um ótimo filme. Kevin Smith erra feio e perde a boa idéia que tinha em mãos. A fita não é nada além do que ordinário, sendo assim, lamentável para um filme (e diretor) que tinha tanto a explorar.

Nota: 4,0

Vicky Cristina Barcelona


Há quem diga que Woody Allen não é mais o mesmo. O gênio de 73 anos é praticamente o único cineasta a escrever e dirigir um filme por ano – uma média seguida à risca e de forma invejável. Em 2005, ele já havia provado que continuava sagaz e trágico com “Match Point”, e se “Scoop” não demonstrou todas suas qualidades, pelo menos rendeu um filme divertidíssimo, uma comédia muito acima da média. No ano passado tivemos “O Sonho de Cassandra”, um drama policial irônico bem no estilo do diretor, que acabou subestimado pela crítica.

O projeto de 2008 foi “Vicky Cristina Barcelona”, que marca uma nova mudança de ares na carreira de Woody: após filmar três longas na capital inglesa, o diretor transformou a cidade espanhola em um coadjuvante de luxo do seu novo filme. O clima da produção é de total deleite: personagens boêmios, muita tensão sexual, belos diálogos, cenas verdadeiramente engraçadas e tomadas de uma Barcelona deslumbrante.

Logo no início, somos apresentados as duas personagens do título: Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson), duas amigas que pensam completamente diferente quando a questão é “amor”. Enquanto Cristina é uma mulher de se entregar e viver uma paixão, Vicky é mais racional e mantém uma relação estável com seu noivo. As duas partem para uma viagem de férias na Espanha e acabam sendo abaladas pela presença sedutora de um artista (Javier Barden), e posteriormente, de sua esposa desequilibrada (Penélope Cruz).

Como a maioria das obras que integram sua filmografia, “Vicky Cristina Barcelona” aborda temas simples de forma encantadora, valorizando o texto nas tradicionais sutilezas. O elenco afiadíssimo enaltece o resultado frente às câmeras, com destaque para uma Penélope Cruz fenomenal. Vale prestar atenção no desempenho da novata Rebecca Hall, que já recebeu uma indicação ao Globo de Ouro.

Nota: 8,5

Os Estranhos


Talvez o público adolescente acostumado com a série “Jogos Mortais” não esteja preparado para um filme de suspense como “Os Estranhos”. Classificado como “um terror à moda antiga”, a produção opta por gelar o sangue do espectador com sequências silenciosas e que geram muito mais tensão e medo do que os sustos fáceis.

A premissa é simples: Kristin e James estão passando uma temporada na remota casa de veraneio dos pais dele, no interior dos Estados Unidos. Certa noite, os dois chegam de uma festa na qual acabaram brigando e, logo em seguida, passam a ser aterrorizados por quatro mascarados que estão dispostos a levá-los ao limite do desespero.

A frase “baseado em fatos reais” que aparece logo no início do filme é totalmente ilusória. Basta assistir o filme até o fim e comprovar que era impossível saber exatamente o que aconteceu naquela noite de horror. Desconsiderando isto, o filme mostra-se um bom exemplar do gênero, sufocando o público com os jogos doentios dos psicopatas.

Nota: 7,0

2 Dias em Paris


Em seu segundo longa-metragem, Julie Delpy demonstra que as sombras das produções Antes do Amanhacer e Antes do Pôr-do-Sol ainda a perseguem. Com este drama contemporrâneo, a atriz e diretora alterna discussões banais relativas às bobagens do dia-a-dia com momentos típicos das comédias de erros.

O casal protagonista encontra o timing certo para a relação a dois. Na trama, os dois estão fazendo um tour pela Europa e, antes de retornarem aos Estados Unidos, decidem permanecer dois dias em Paris. É na capital francesa que a família dela vive, assim como seus antigos amores.

Justamente por ter seu nome associado aos filmes anteriormente citados, espera-se que essa produção fosse no mínimo parecida com aqueles que dividia a tela com Ethan Hawke (e esse fosse, teria obtido um resultado muito superior). Os momentos parecidos são os que mais valem a pena. As tramas possuem semelhanças, porém algumas confusões e questionamentos sobre a vida sexual da personagem de Delpy diferem os projetos entre si.

Os dez minutos iniciais ameaçam a apresentação de um filme muito diferente do que se assiste no decorrer da exibição. Tanto a abertura como o encerramento são de uma beleza cinematográfica que já garantem a sessão. Mesmo com momentos inspirados e alguns diálogos realmente bons, o produto é interessante, mas ainda assim razoável.

Nota: 6,0

[REC]


Levou quase uma década para Hollywood começar a explorar o cinema estilo “Bruxa de Blair”. A técnica foi repetida esse ano com bastante êxito em “Cloverfield”, porém um ano antes, o terror espanhol “[REC]” já havia utilizado esse formato para transmitir maior angústia e tensão ao espectador.

O filme concentra sua ação em praticamente um único ambiente: um prédio residencial na cidade de Barcelona, que repentinamente é lacrado pelo governo sem explicação aparente. Dentro do edifício estão os moradores, o corpo de bombeiros que recebeu uma chamada suspeita e uma equipe de reportagem que estava acompanhando o dia-a-dia desses profissionais. O que assistimos na tela são as imagens desse cinegrafista e a narração da repórter que acompanham a proliferação de um vírus mutante surgido no local.

O modesto longa-metragem adquire o tom realista imprescindível para esse tipo de projeto e ainda revela a talentosa Manuela Velasco. Alguns sustos e um final aterrador completam o pacote desse interessante filme de terror. O remake foi encomendado às presas por Hollywood e a versão americana estreou mês passado sob o título de “Quarentena”.


Nota: 7,6