Julie & Julia


A gastronomia já foi bastante explorada no cinema e a continua dando bons frutos, como este “Julie & Julia”. O filme baseado em uma história real trabalha com duas linhas narrativas: no passado, conhecemos a fantástica revolução gastronômica proposta por Julia Child, americana residente em Paris que cria e importa receitas francesas para o cardápio das donas-de-casa de seu país de origem. No presente, Julie Powell é uma grande admiradora dos livros e programas televisivos de Child. Para fugir de uma crise depressiva que se anuncia, ela encara o desafio de cozinhar as 524 receitas do livro de sua grande inspiração no espaço de um ano - e relata estas experiências em um blog.

A produção representa uma biografia inusitada, uma vez que conta a vida de Julia e ainda trabalha com o conceito de “professora” e “aluna” em diferentes épocas, colocando lado a lado as duas figuras femininas, sem deixar de comparar suas semelhanças e detalhar as descobertas de cada. A forma como o roteiro equilibra as duas tramas torna o filme ainda mais fascinante e dá uma lição de vida em ambas partes.

A diretora Nora Ephron, consagrada em comédias românticas, consegue dar suavidade e ritmo a um filme dramático, deixando o tom leve e agradável. Quanto as atrizes, Meryl Streep (sempre impecável) vive magistralmente a adorável Julia Child e Amy Adams dá conta de dividir o papel de protagonista com o ícone do cinema. Bon appetite!

Nota: 8

Trama Internacional


Clive Owen pode não ter sido escalado para viver o James Bond dos anos 2000, mas certamente tem todos os requisitos necessários para interpretar agentes secretos de forma convincente. “Duplicidade”, “Mandando Bala” e “Vingança Final” estão aí para comprovar. Em “Trama Internacional”, ele assume mais um desses cargos e, junto de Naomi Watts, investiga as atividades ilegais de um dos mais poderosos bancos do mundo. A dupla percorre o globo, passando por Berlin, Milão, Nova York e Istanbul.

A câmera de Tom Tykwer valoriza a arquitetura das cidades modernas ao mesmo tempo que dá forma a um thriller à moda antiga, trocando a linguagem acelerada tão presente nos novos exemplares de ação por cenas mais pontuais e discursivas. A sequência de maior adrenalina do longa se passa no museu Guggenhein e já entrou na lista das melhores do gênero.

Nota: 7

Cold Souls


“Cold Souls” é a prova de que um belo cartaz vende um filme. As diversas faces de Paul Giamatti no pôster anunciavam um novo filme-cabeça, ao estilo de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Os primeiros minutos até condizem com a estratégia de marketing: ator depressivo recorre a um programa diferente para extrair sua alma e deixar de sofrer. Ele não se acostuma em viver praticamente sem emoções e quer sua alma de volta.

O plot é bastante curioso. A desvantagem é que a narrativa lenta não apresenta novos atrativos e passa a encontrar dificuldades na tentativa de sustentar o seu argumento principal. “Cold Souls” tinha uma idéia original, mas morre na praia porque não consegue ser tão ousado e inventivo quanto seu desenvolvimento inicial.

Nota: 3,5

Vício Frenético


Após ter praticamente destruído sua carreira com os projetos mais recentes (“Presságio”, “O Vidente”, “Perigo em Bangkok”, “O Sacrifício”, “Motoqueiro Fantasma”), o astro Nicolas Cage teve a chance de sair por cima com a refilmagem de um filme policial dos anos 90 que recebeu uma modernização pelo diretor Werner Herzog.

“Vício Frenético” inicia com o caso de uma família de angolanos assassinada em um bairro “barra pesada” de Nova Orleans. Tudo indica que o motivo esteja relacionado ao tráfico de drogas. Lentamente, a investigação é deixada de lado e quem ganha destaque são os conflitos do personagem de Cage.

O tira extremamente violento e drogado deveria ser um papel desafiador para o veterano ator, provocando sua capacidade inquestionável vista em filmes como “Despedida em Lãs Vegas” e “O Sol de Cada Manhã”. Cage realmente parece estar se esforçando em cena, mas o seu empenho apenas resulta em uma atuação razoável. Dificultando ainda mais, sua companheira na tela, Eva Mendes - além de atuar sempre o mesmo personagem (a gostosona) – faz o par romântico do protagonista deixando explícito que lhe faltam muitas aulas de interpretação.

A direção “quadrada” do diretor não investe em ousadias e o roteiro banal também não contribui. Dificilmente vai ser com esse filme que o astro receberá seu prestígio de volta.

Nota: 4,5

O Amor Acontece


Existe uma teoria de que a primeira frase de um livro ou filme define a obra. Pensando nessa linha de raciocínio, a primeira frase de “O Amor Acontece” traduz bem a sua experiência como entretenimento: “quando a vida te dá limões, você pode ficar chateado ou fazer uma limonada”. Não a interprete no sentido de tentar tirar algum proveito da sessão. A questão é que essa frase é tão batida e simplória que representa com exatidão o conteúdo do filme.

Aaron Eckhart interpreta um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro e, para amenizar a sua dor, decidiu escrever um livro sobre o assunto. Ao contrário do que planejava, seu livro se torna um best-seller e ele começa a dar palestras motivacionais. Em um desses encontros, ele conhece a personagem de Jennifer Aniston, uma florista independente à procura de um novo amor.

O filme leva quase duas horas para chegar na cena que exemplifica justamente o que o título diz. Não é óbvio? O problema é que no caminho somos obrigados a aturar as insuportáveis palestras de superação dadas pelo personagem masculino e o seu trauma com a morte da esposa. Ainda pior são os conflitos sem sentimentos, os diálogos pobres, o romance sem química e alguns momentos forçados de emoção. Assim, é fácil certificar que, ao menos, “a diversão do espectador não acontece”.

Nota: 3

A Trilha


A busca por um desfecho surpreendente acaba sendo responsável por roteiros que traem seus elementos fundamentais e terminam gerando algumas aberrações cinematográficas. No caso de “A Trilha”, o filme não chega ao ponto de ser um espetáculo bizarro, mas está longe de ser decente.

Aparentemente é um filme comum: casal de turistas aproveita sua lua de mel em Honolulu justamente no período que uma onda de crimes anda acontecendo na região. O jogo inverte próximo do final com uma tradicional reviravolta. O que deveria “pegar” o espectador de surpresa realmente o faz, porque não dá para acreditar no rumo que a história toma.

O diretor David Twohy investe em belas imagens do Hawaii (ponto positivo) e cria cenas de ação que não funcionam ao realizá-las com cortes rápidos e divisão da tela em vários quadros (ponto negativo). O elenco levemente conhecido (Milla Jovovich e Timothy Olympat) embarca na “aventura” com gosto. O desperdício é assistir o ótimo Steve Zahn envolvido na produção.

Nota: 4

Educação


Nick Horny é escritor inglês cuja principal influência é a cultura pop e o humor sarcástico. Suas obras literárias mais conhecidas são: “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, ambas adaptadas para o cinema. “Educação” é o seu primeiro texto escrito especialmente para o cinema.

No subúrbio londrino de 1960 vive Jenny, uma garota reprimida pelos pais e educada desde criança para dedicar-se exclusivamente aos estudos e, assim, ser aceita na Universidade de Oxford. Os planos fogem do controle quando o sedutor David lhe dá uma simples carona de carro e, aos poucos, ele passa a mostrar uma vida boêmia com idas a restaurantes, concertos musicais, “nightclubs” e viagens ao exterior.

O roteiro oferece um caso específico para conversar sobre a formação dos adolescentes e a importante influência daqueles que os cercam. A diretora Lone Scherfig acompanha sua protagonista com segurança e consegue boas atuações do elenco. Pode faltar as principais características do autor (referências pop e ironia) – o que é uma pena - mas “Educação” segue sendo um bom e interessante entretenimento.

Nota: 7,5

Adam


Adam é portador da Síndrome de Asperger, uma doença semelhante ao autismo que pode causar dificuldade na interação social, falta de empatia, interpretação literal das coisas, e outros sintomas. Após perder o pai, ele se vê desamparado, sem alguém para ajudá-lo nas atividades diárias. Essa carência é preenchida com a presença de uma jovem e simpática vizinha que recentemente mudou-se para o prédio.

Apesar de abordar um tema interessante e pouco conhecido, o filme não discute a situação de Adam com a doença. O espectador testemunha apenas a representação de uma pessoa com dificuldades de se comunicar e termina não sabendo muito além disso. Adam está na frente da câmera, mas é difícil entender o que se passa com ele. A produção não aprofunda o assunto e deixa o motivo central do projeto esvair-se para camadas mais superficiais, direcionando o foco nos olhares vazios de Hugh Dancy (esforçando-se por prêmios) e na tentativa de romance do seu personagem.

O roteiro é tão pouco inspirado que cria tramas secundárias envolvendo os pais da namorada para aumentar a duração e gerar mais conflitos na trama. O conjunto desses elementos é tão insosso, que “Adam” não desperta sentimentos fortes, apenas indiferença.

Nota: 5,0

Sinédoque, Nova York


Assistir “Sinédoque, Nova York” não é tarefa fácil. Digo isso porque fui muito bem informado a respeito do filme e, já sabia de antemão que a realidade era distorcida conforme a visão do personagem de Phillip Seymor Hoffman. Assim, tinha conhecimento prévio da casa que está em chamas eternas (e qual era sua metáfora), sabia que o personagem central iria interagir com seu alter-ego personificado na figura de um idoso chamado Sammy, sabia também da passagem brusca do tempo, das várias mulheres na vida do protagonista e de sua obsessão sem limites com a idéia da morte. Mesmo com todas essas informações e outras mais, chegou um ponto em que perdi a direção do que estava vendo na tela.

O filme começa mostrando o relacionamento familiar de Caden com sua esposa e filha. Os diálogos e o desenvolvimento das cenas são originais e de um humor negro excelente, ganhando de imediato a confiança dos fãs do roteirista consagrado (e agora diretor) Charlie Kaufman. A narrativa avança cada vez mais interessante, porém, quando beira a metade do filme o espectador “normal” começa a ter dificuldades na tentiva de acompanhar os delírios do protagonista. Quanto mais se aproxima do final, mais confusa se torna a compreensão do que está sendo exibido.

Ao embarcar na proposta de “Sinédoque, Nova York” – assim como os demais filmes do roteirista – é preciso saber que não se trata de um filme convencional. Kauffman ganhou a admiração através dos ótimos “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação” e de sua obra-prima “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Nenhum deles é um longa-metragem padrão. Assim como essas criações, “Sinédoque” apresenta questões muito interessantes, como a eminência da morte, as realizações pessoais e o sentido da vida. O problema é a forma densa e confusa como esse conteúdo é compartilhado, afastando gradativamente o espectador de um contato maior com a película.

É difícil acreditar que no site IMDB a produção consta com nota 7,3 através de mais de 14 mil votos. Esse dado comprova que boa parte das pessoas gostaram do projeto (mesmo se tratando de um “filme-cabeça”). Será que realmente elas entenderam alguma coisa? Não quero fazer campanha para deixarem bem mastigado tudo que é apresentado na história (até porque sou contra), mas pelo menos peço que o roteiro seja ao menos compreensível. Por isso, ao término da sessão de “Sinédoque, Nova York” fiquei com a sensação de que perdi um grande filme. Talvez assistindo uma segunda vez seja mais elucidativo.

Nota: 6,5

Zumbilândia


Os zumbis estão comumente empapados pelo sangue de suas vítimas, perambulam famintos em busca de carne fresca, são capazes de transformar qualquer pessoa em um de seus semelhantes com apenas uma mordida e, além de tudo, são mortos-vivos devoradores de miolos. Com todas essas características, eles possuem requisitos suficientes para serem considerados assustadores.

A imagem dessas criaturas mudou quando, em 2004, foi lançado o filme “Todo Mundo Quase Morto”, que ridicularizava a classe zumbi, classificando-os como seres patéticos, lerdos e tão pouco ameaçadores. Na seqüência uma série de filmes aproveitou para inserir os monstrengos em comédias, vide “Fido – O Mascote”.

“Zumbilândia” utiliza os mortos-vivos para provocar o riso e aumentar a adrenalina do espectador. No filme, o planeta foi dominado por essas aberrações e as quatro únicas pessoas que parecem não ter sido infectadas se juntam para lutar pela sobrevivência. Essa mistura de comédia com ação proporciona um filme divertido, que satiriza com os clichês e os filmes de terror que não assustam ninguém. A linguagem da produção atrai pelo estilo acelerado e explícito, que pode ser comprovado logo no início com a explicação das regras de como se prevenir de um ataque de zumbi.

Destaque para o engraçado Tallahasse, matador “profissional” das criaturas e interpretado pelo doidão Woody Harrelson. A participação de Bill Murray também rende bons momentos.

Nota: 7,6

Avatar


Fã confesso de ficção científica, o diretor James Cameron vem tentando realizar sua obra mais grandiosa desde os meados da década de 90. Após o sucesso de “Titanic” parecia que “Avatar” finalmente ganharia a vida. O que atrasou a concretização foi o aprimoramento de uma tecnologia avançada suficiente para criar um ecossistema completo de plantas e animais, no qual um povo nativo com uma rica cultura e linguagem poderia soar verdadeiro.

A responsabilidade era grande para um dos filmes mais aguardados de todos os tempos, e o veredicto foi dado na estréia mundial da superprodução no dia 18 de dezembro de 2009. “Avatar” é uma experiência fantástica, de um visual deslumbrante e jamais visto na história do cinema. A tribo dos Navi´s, criada no sistema de captura de imagens semelhante ao de Gollum do “O Senhor dos Anéis”, imprime realidade absurda aos seres extraterrestres azuis e, quando os coloca interagindo com os humanos comprova sua perfeição.

O mundo criado por James Cameron é um universo impressionante, que mescla elementos gráficos de cair o queixo, como a variedade infinita de criaturas, com a densidade filosófica de crenças de um povo poderoso. O início do filme é justamente para apresentar essa civilização e seus costumes, e aos poucos, vão sendo introduzidas pinceladas da guerra que se anuncia.A longa duração do filme pode cansar o espectador, principalmente, pelos momentos arrastados no meio da produção. De tempos em tempos, as seqüências de ação movimentam a trama e retomam o ritmo acelerado. Essas cenas mais extasiantes remetem tranquilamente a um jogo de videogame e fica fácil imaginar como será o game baseado no longa-metragem.

Por mais que tente transmitir uma mensagem ambientalista e realizar um alerta sobre o futuro da Terra (podendo até gerar releituras para os dias atuais), “Avatar” é por essência um filme de aventura e sua intenção nada mais é do que proporcionar ao público uma experiência cinematográfica envolvente e de encher os olhos. O direcionamento ficou tanto na estética que o roteiro tornou-se apenas um subsídio para poder criar este mundo fantástico. Nesse sentido, precisaria de um leve tratamento no texto para torná-lo mais enxuto, deixando a adrenalina constante e elevando o projeto a um caráter mais poético.

“Avatar” é sem sombra de dúvidas uma evolução dentro das técnicas de efeitos especiais, porém ainda é cedo para considerar o filme revolucionário. Certamente, está longe de ser um novo “2001” ou “Star Wars”, como era a intenção do diretor. O custo de toda essa perfeição é tamanho que vai demorar bons anos para assistirmos uma produção como esta novamente. Por isso, compre seu ingresso e embarque na magia de James Cameron enquanto o filme está em cartaz. É difícil se arrepender.

Nota: 8

Lua Nova


Mais inexplicável que o sucesso da saga “Crepúsculo” é a existência de um filme/romance como “Lua Nova”. A estupidez da obra é tão grande que ofende qualquer espectador que tenha um pouco de massa cinzenta. A trama consegue estabelecer como base a clássica situação: “eu te amo mas vou te deixar”. Stephenie Mayer deve ter realizado uma pesquisa dos maiores clichês de todos os tempos e escolhido o vencedor para desenvolver esse livro.

Mesmo tentando superar a banal relação entre Bella e Edward, o filme também não consegue apresentar cenas que sequer sejam interessantes. Salvam-se apenas três sequencias entre as mais de duas horas de exibição: a primeira é o sonho de Bella logo depois dos créditos iniciais quando a própria se imagina envelhecida; a próxima cena é a passagem das estações do ano através das mudanças observadas na janela do quarto da protagonista e, por fim, a transformação de Jake em um lobisomem. O restante é uma perda de tempo total – e não vá achando que essas cenas salvam o filme, porque não salvam. Nem sequer valem o ingresso.

Com Edward afastado da jogada (ele mal aparece no filme), Jake serve de consolo para a jovem Bella, que passa a enxergar mais atrativos no garoto a partir do momento que ele corta o cabelo (!). Divida entre um vampiro e um lobisomem, Bella irrita a paciência do espectador com gritos de depressão sem fim ou crises existenciais intoleráveis.

Para movimentar a trama, surgem novos vampiros e uma trupe de lobisomens sem camisa. Talvez seja por isso o sucesso entre o público feminino: dois galãs (ambos aparecem praticamente despidos o filme todo) e esse time de lobisomens. A tentativa desesperada comprova a falta de atrativos da produção e deixa a platéia masculina ainda mais distante.

Assim como em “Crepúsculo”, as cenas de ação não empolgam – apesar do dobro do orçamento do primeiro filme. A afirmativa se comprova quando temos a aparição de Laurent (o vampiro de dreadlocks) que ao invés de deixar o público tenso, acaba apenas evitando que o sono tome conta do espectador. Sem falar nas sequencias de luta nas quais os vampiros viram fumaça durante os golpes. Haja paciência. Ou então, as cenas rodadas na Itália, que deveriam ser o ápice do projeto, terminam como o exemplo perfeito de anticlímax com locações filmadas em plena tarde com a luz do sol chegando a iluminar toda a sala do cinema. Espera aí... estamos falando mesmo de um filme de vampiros? Onde está o universo sombrio e apavorante?

O segundo filme segue deixando de lado as questões sobre os seres fantásticos (vampiros e agora os lobisomens) e opta por focar no mais simplório: o amor da insuportável Bella. Com tantas questões pendentes, a produção novamente ausenta-se das presas dos sanguessugas, da sede por sangue e do caráter sexual das criaturas da noite. Assim, os vampiros de “Crepúsculo” não chegam a ser ameaças em nenhum momento, são mortos-vivos totalmente desinteressantes. Deve ser por isso que Bella e Edward combinam tanto.

No término dos sofríveis 130 minutos, chega-se a conclusão que esse segundo capítulo é completamente dispensável para a saga, já que não apresenta nada de significante. Pode-se tranquilamente pular de “Crepúsculo” para “Eclipse” sem grandes perdas. “Lua Nova” deve agradar os fãs completamente cegos de amor pela saga, porque do resto é o pior filme do ano.

Nota: 2,0

Por favor, assistam “True Blood”.

Atividade Paranormal


A tentativa é repetir o que aconteceu dez anos atrás, quando um filme modesto chamado “Bruxa de Blair” pegou todos de surpresa aparentando ser real. Depois da “pegadinha” de 1999, ninguém mais cai em lances como esse - ainda por cima quando é distribuído pela Paramont Pictures.

“Atividade Paranormal” mostra a rotina de um casal que tem um espírito do mal vivendo em sua casa. O lance dos sustos é através de sombras, barulhos estranhos, pegadas, luzes que acendem e apagam. Fica até difícil imaginar onde foram gastos os 15 mil dólares de produção. Em cena, só temos o casal protagonista e duas aparições de um especialista em entidades e os “efeitos”, como fazer uma porta abrir ou se fechar sozinha, não chegam a custar um centavo.

O “buzz” deve-se aos fãs que assistiram o longa-metragem em festivais independentes e divulgaram nas redes sociais. A campanha de promoção foi justamente através do hotsite onde era possível solicitar a exibição do filme na sua cidade. O trailer sugestivo mostrando os sustos da platéia no cinema e os argumentos críticos estampados no cartaz anunciavam um dos filmes mais apavorantes da década. Uma bela jogada de marketing. Aguçar a curiosidade do público sempre dá certo: a bilheteria nos Estados Unidos foi assustadoramente alta.

Pensando no espectador, somente aqueles que nunca assistiram um bom filme do gênero vão se empolgar com o falso documentário. Além de uma produção caseira, com imagem tremidas, é preciso acompanhar a rotina de um casal chato, que ainda por cima é interpretado por fraquíssimas atuações. “Atividade Paranormal” é uma cópia fajuta de “Bruxa de Blair” que não ganha em "cenas de ação”, clima tenso ou final chocante. Praticamente nada acontece no filme; então ao invés de não assistir sozinho (como o pôster oficial indica), o melhor é não assistir mesmo.

Nota: 4

(500) Dias com Ela


“Esta é uma história ‘garoto encontra uma garota’”. As primeiras oito palavras do narrador tentam definir o filme. O que poderia, no entanto, ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero. “500 Dias com Ela” aproxima-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

O garoto é Tom, um redator de cartões comemorativos, que se apaixona a primeira vista pela nova secretária do chefe, Summer. A moça é tudo o que ele sempre sonhou: bonita, inteligente e, ainda por cima, gosta das mesmas músicas, livros e filmes que ele. A garota Summer é uma mulher independente, livre de escolhas e com pensamentos tipicamente masculinos. Não acredita no amor, julga-o um “conto de fadas” e, por isso, possui uma facilidade tremenda em cortar as pessoas de sua vida – assim como corta seus cabelos que tanto adora.

Essa diferença de personalidade faz com que ele idealize um romance mais profundo do que a relação que está se desenvolvendo. Os 500 dias de Tom, iluminados pela presença de Summer, são contados fora de cronologia, intercalando os perfeitos e conturbados momentos do casal. Esse dinamismo torna-se essencial para o ritmo da trama, mantendo um clima agradável, que caso fosse relatado na ordem dos fatos jamais existiria.

A passagem do tempo é realizada através de uma animação introdutória, na qual os dias felizes do casal são apresentados com um céu limpo, as árvores floridas e um sol intenso. É verão para Tom! Quando o relacionamento está ruindo, vemos um dia cinzento e a falta de folhas nas árvores. Assim, já sabemos de antemão o que o personagem está sentindo e quais cenas virão a seguir. Os encontros do rapaz apaixonado com a cética garota fará com que os dois reflitam sobre o devastador sentimento do amor, colocando em xeque se é o destino que conspira ou se são as coincidências que norteiam as suas vidas.

O tema relativamente denso para um filme “adolescente” rende comparações à Woody Allen e sua visão menos poética do universo. Semelhanças com os filmes do diretor, como “Crimes e Pecados”, “Match Point” e especialmente “Igual a Tudo na Vida”, que coloca dois jovens conversando sobre o relacionamento, são muito claras. Em certo momento, a tela se divide em “realidade” e “expectativa” mostrando que nem sempre o que desejamos realmente acontece. Homenagem captada.

A menção à Nick Hornby é justificada pela presença de inúmeras referências a cultura pop, em diálogos sobre Beatles, The Smiths, Sex Pistols, o seriado televisivo “Night Rider”, o filme “A Primeira Noite de Um Homem”, Bruce Springsteen, entre tantos outros. Talvez sejam esses gostos similares que tenham aproximado o casal, porém isso definitivamente não é tudo em um relacionamento. Como diz um dos personagens para Tom: “não é só porque ela curte as mesmas bizarrices que tu que ela é a mulher da tua vida”.

Também não seria possível um filme tão completo se não fosse a presença do ótimo Joseph Gordon-Levitt e da encantadora Zooey Deschanel. A sintonia perfeita entre o casal ganha o público no primeiro instante em que é demonstrada em cena. Joseph já havia provado que pode carregar um filme nas costas com “O Vigia” e o brilhante “Mistérios da Carne”; já Zooey, que sempre demonstrou ter mais dotes físicos do que artísticos – vide a péssima atuação em “Fim dos Tempos” – tem em Summer o papel de sua carreira.

Como acréscimo nessa fantástica composição, tem-se ainda uma trilha sonora em conexão quase sobrenatural com a história. As faixas são de extrema importância para a construção das cenas e, em sua maioria, reverenciam artistas indie como Regina Spektor, Doves, Feist, Smiths e She & Him – excelente banda de Zooey Deschanel (se você nunca ouviu falar, baixe o cd imediatamente).

O responsável pela originalidade do produto é o diretor estreante Marc Webb, que tem no seu currículo uma série de videoclipes. A bagagem do cineasta é reproduzida na consecutiva utilização de mini-cenas que compõem o painel dos vários dias ao lado da amada. Após o sucesso do filme, o nome de Webb está em alta e uma nova adaptação do musical “Jesus Cristo Superstar” ganhou o seu comando.

Para o público que aguardou tanto por esse filme, “500 Dias com Ela” supera as expectativas e faz o retrato dessa nova geração “cult” na busca pelo amor. Mas não adianta tentar se enganar ao esperar pelo convencional. As intenções do filme estão explícitas nos primeiros minutos. Pode ser que Summer não tenha sido a mulher que Tom tanto procurou, mas os dias em sua companhia certamente foram inesquecíveis –assim como serão as quase duas horas dedicadas pelo espectador com o filme.

Nota: 9,5

Estômago


“Estômago” pode até sugerir, mas não é uma comédia romântica sobre culinária e afins. A produção nacional dirigida por Marcos Jorge está mais para um suspense dramático com clima bem pesado.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um nordestino que chega na cidade grande sem ter o que comer e onde dormir. Consegue emprego em um boteco fritando pastéis e coxinhas de galinha. O sucesso de suas coxinhas faz o movimento do bar aumentar, e logo ele é chamado para trabalhar como chef de um restaurante italiano. Nessa transição, conhece a prostituta Iria (Fabíula Nascimento) e imediatamente se apaixona.

O desenrolar do roteiro transforma “Estômago” em um filme original, único no cinema brasileiro, permeado por um humor negro chocante e com um resultado que retrata o Brasil sem piedade. Curiosamente, a gastronomia, ao invés de despertar paixões nos personagens, é tratada como sinônimo de poder.

O diretor Marcos Jorge e sua equipe criam um filme requintado e essencialmente brasileiro, valorizado também pelas fortes referências ao cinema de Fellini. Engrossando o caldo, João Miguel cria um personagem tão real que é difícil dissociar o ator de sua representação. Na mesma linha, Fabíula Nascimento rouba todas as cenas em que aparece, transformando sua puta em um ser fascinante.

Assistir ao filme é como degustar um prato caprichado e saboroso, feito com tudo que há de melhor, mas que vai se tornando indigesto depois das primeiras garfadas. Portanto, já aviso, acompanhar a tortuosa saga de Raimundo Nonato não é para quem tem estômago fraco.

Nota: 7,5

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas


O propósito do seriado televisivo “Os Normais” era apresentar situações comuns do dia-a-dia que levassem as pessoas à loucura. O texto inteligente e afiado de Fernanda Young e Alexandre Machado dificilmente decepcionava e a dupla Luis Fernando Guimarrães e Fernanda Torres interpretaram os personagens de suas vidas: Rui e Vani, um casal neurótico e completamente maluco que não tinha como não cair no gosto do público.

Três temporadas depois e um filme no currículo, eis que chega um novo longa-metragem: “Os Normais 2”. Após o estrondoso sucesso da primeira incursão no cinema, a expectativa com essa seqüência era das mais altas. Inicialmente o filme ficou conhecido pela subtítulo “Ménage a trois”, e bem que poderia seguir com ele, já que a produção gira em torno da aventura do casal em busca de uma terceira para pessoa para fazer sexo.

A sensação é de que “Os Normais 2” é um episódio estendido. Seus míseros 75 minutos logo terminam e a superficialidade da trama fica evidente, ressaltando a fraca história que não merecia ser levada às telas. Também não existe uma linguagem cinematográfica eficiente, é muito semelhante à da série. Os atores principais e nem mesmo os coadjuvantes demonstram empolgação com o projeto. Apesar de toda essa carência, Rui e Vani seguem sendo personagens muito queridos do público e somente pelo retorno deles que a sessão tem seu valor.

Nota; 5,0

Era Uma Vez...


Os contos de fantasia teimam em começar com o tradicional “Era Uma Vez…”. Essa escolha tem o intuito salientar o conteúdo lúdico da história, fruto da imaginação do autor e de sua liberdade poética. A mesma expressão é utilizada como título para o novo filme de Breno Silveira (diretor de “Dois Filhos de Francisco”) justamente para demarcar que o romance do pobretão D com a patricinha Nina é um conto de fadas repetido e previsível.

Ele mora na favela do Cantagalo e trabalha diariamente em um quiosque na praia do Rio de Janeiro. De seu recanto, observa a bela Nina entrar e sair do prédio da frente, até o dia em que a salva de um assalto. A aproximação deles é inevitável e logo os dois se apaixonam, porém a relação não demora para ser abalada pelas gritantes diferenças sociais e o mascarado preconceito.

Quem já não ouviu essa história? Realmente, “Era Uma Vez…” é um filme do qual todos sabem o que vai acontecer na tela, só que ainda assim, a história acaba surpreendendo o público e revelando ser uma das melhores produções nacionais dos últimos anos. O feito está relacionado com a atualização da trama, romantizada em seus núcleos para sensibilizar o espectador, injetando gás para temas tão discutidos e desgastados no dia-a-dia, como a violência no morro, o caos urbano e a falsa moralidade.

Também não se deve tirar o mérito do entrosamento perfeito entre os atores Thiago Martins e Vítria Frate, que dão sustentação vital ao romance desafiador e quase impossível de um garoto pobre com uma menina rica. Os dois juntos emocionam e levam às mais intençãs emoções, sendo ainda mais tocante que o filme anterior do diretor.

Breno Silveira demonstra em seu segundo longa-metragem que tem domínio completo pela sua obra, criando um estilo evidente e próprio de humanização dos personagens. “Era Uma Vez….” pode ser considerado uma espécie de Romeu e Julieta à brasileira, com doses cavalares de realidade e amor. A intensidade do projeto leva o público ao total comprometimento com a trama, fazendo-o sair da sessão inchado de tanto derramar lágrimas. E talvez essa troca de sensações e cumplicidades faça com que algumas percepções de mundo sejam transformadas. Por isso, e por tudo mais que você só irá descobrir ao assistir o filme, é que “Era Uma Vez…” não pode ficar nem mais um segundo parado na estante da locadora.

Nota: 9

Duplicidade


Julia Roberts e Clive Owen voltam a contracenar juntos quatro anos depois do excelente “Closer – Perto Demais” e a sintonia permanece intacta. Neste thriller sobre agentes duplos que planejam passar a perna em todo mundo, não existe mocinhos nem bandidos. O importante é se dar bem e, para transmitir esse clima de trapaça e jogo de interesses, o diretor Tony Gilroy imprime seu estilo elegante ao dividir a tela em várias cenas, transmitindo dinamismo para a trama.

O grande mote do roteiro é brincar com a duplicidade dos agentes e abordar a relação de eterna desconfiança entre eles. Embora apaixonados, o casal não consegue por um único instante relaxar e, assim, seguem maquinando estratégias para o funcionamento perfeito do plano - sempre com um pé atrás quanto a fidelidade de seu parceiro.

O filme foi considerado bastante complicado, conforme sua narrativa não linear e a linguagem específica a respeito dos trâmites entre os serviços secretos. “Duplicidade” exige mesmo a atenção do espectador (nada fora do normal), e termina por revelar-se um entretenimento esperto e charmoso, assim como seus protagonistas. Destaque também para a interessante trilha sonora de James Newton Howard com muitos batuques e swing.

Nota: 8

Shortbus


“Hedwig – Rock, Amor e Traição” foi um marco na carreira de John Cameron Mitchell, tanto como diretor quanto ator. A produção hiper cultuada é uma falsa biografia sobre um popstar do glamrock e conta com deliciosas músicas próprias. Depois de ser catapultado para o sucesso, o astro repentino levou cinco anos para lançar este “Shorbus”, um filme sem pudores sobre a vida sexual de um grupo de jovens.

Para realizar o projeto, o diretor buscou suporte nas relações sexuais para falar sobre aceitação pessoal – em todos os sentidos. A polêmica dessa vez foi com o conjunto de cenas de sexo explícito hetero e homossexual. Embora nada gratuitas, as sequencias não impedem a imediata repulsa dos espectadores mais puritanos.

“Shortbus” é um filme pesado e muito longe de um cinema adolescente pipoca. As cenas são perfeitas de forma independente, quando somadas ao contexto podem não justificar a sua importância. Por isso, a fita não deve ser avaliada como um roteiro linear, a graça está nas sensações que transmite, nos temas que aborda e na experiência total proporcionada. É um grande exercício de linguagem cinematográfica sobre a sexualidade sem ser de mau gosto ou grosseiro.

Nota: 7,7

Arraste-me para o Inferno


Antes de comandar a franquia “Homem Aranha”, o diretor Sam Raimi ficou conhecido por um de seus primeiros filmes, uma produção de horror chamada “Evil Dead” que ganhou continuação e se tornou cultuada com o passar dos anos. Agora, famoso e com três blockbusters no currículo, ele decidiu relembrar o período em que trabalhou com o gênero prestando uma esperta homenagem aos clássicos do terror.

Na interessante trama, atendente de um banco é amaldiçoada após negar empréstimo para uma senhora. Sentindo-se humilhada, a velha invoca o demônio chamado Lâmia, que durante três dias diverte-se torturando sua vítima para depois levar a alma da pessoa diretamente para o inferno. O roteiro de Raimi e seu irmão Ivan faz uma salada com os mais conhecidos clichês: demônios, videntes, sacrifícios de animais, pragas, pesadelos, espíritos, larvas, vômitos e muito mais.


A proposta é ser trash, com direito a cenas muito escrachadas e até cômicas, mas o que dá maior força ao projeto é a forma como a história é levada a sério, envolvendo o público e tornando-o cúmplice dos absurdos. A homenagem pode ser conferida já nos créditos iniciais, quando o título salta na tela - bem como os primeiros longas de horror.


O filme de orçamento modesto para padrões hollywoodianos foi bastante elogiado pela crítica e bem recebido pelo público. Mais um ponto para Sam Raimi. Se dá sustos? Sim, alguns bons sustos estão no conjunto.

Nota: 8