(500) Dias com Ela


“Esta é uma história ‘garoto encontra uma garota’”. As primeiras oito palavras do narrador tentam definir o filme. O que poderia, no entanto, ser uma comédia romântica comum não atinge esse nível de obviedade porque subverte os clichês do gênero. “500 Dias com Ela” aproxima-se dos dramas realistas de Woody Allen somados ao universo pop do autor inglês Nick Hornby.

O garoto é Tom, um redator de cartões comemorativos, que se apaixona a primeira vista pela nova secretária do chefe, Summer. A moça é tudo o que ele sempre sonhou: bonita, inteligente e, ainda por cima, gosta das mesmas músicas, livros e filmes que ele. A garota Summer é uma mulher independente, livre de escolhas e com pensamentos tipicamente masculinos. Não acredita no amor, julga-o um “conto de fadas” e, por isso, possui uma facilidade tremenda em cortar as pessoas de sua vida – assim como corta seus cabelos que tanto adora.

Essa diferença de personalidade faz com que ele idealize um romance mais profundo do que a relação que está se desenvolvendo. Os 500 dias de Tom, iluminados pela presença de Summer, são contados fora de cronologia, intercalando os perfeitos e conturbados momentos do casal. Esse dinamismo torna-se essencial para o ritmo da trama, mantendo um clima agradável, que caso fosse relatado na ordem dos fatos jamais existiria.

A passagem do tempo é realizada através de uma animação introdutória, na qual os dias felizes do casal são apresentados com um céu limpo, as árvores floridas e um sol intenso. É verão para Tom! Quando o relacionamento está ruindo, vemos um dia cinzento e a falta de folhas nas árvores. Assim, já sabemos de antemão o que o personagem está sentindo e quais cenas virão a seguir. Os encontros do rapaz apaixonado com a cética garota fará com que os dois reflitam sobre o devastador sentimento do amor, colocando em xeque se é o destino que conspira ou se são as coincidências que norteiam as suas vidas.

O tema relativamente denso para um filme “adolescente” rende comparações à Woody Allen e sua visão menos poética do universo. Semelhanças com os filmes do diretor, como “Crimes e Pecados”, “Match Point” e especialmente “Igual a Tudo na Vida”, que coloca dois jovens conversando sobre o relacionamento, são muito claras. Em certo momento, a tela se divide em “realidade” e “expectativa” mostrando que nem sempre o que desejamos realmente acontece. Homenagem captada.

A menção à Nick Hornby é justificada pela presença de inúmeras referências a cultura pop, em diálogos sobre Beatles, The Smiths, Sex Pistols, o seriado televisivo “Night Rider”, o filme “A Primeira Noite de Um Homem”, Bruce Springsteen, entre tantos outros. Talvez sejam esses gostos similares que tenham aproximado o casal, porém isso definitivamente não é tudo em um relacionamento. Como diz um dos personagens para Tom: “não é só porque ela curte as mesmas bizarrices que tu que ela é a mulher da tua vida”.

Também não seria possível um filme tão completo se não fosse a presença do ótimo Joseph Gordon-Levitt e da encantadora Zooey Deschanel. A sintonia perfeita entre o casal ganha o público no primeiro instante em que é demonstrada em cena. Joseph já havia provado que pode carregar um filme nas costas com “O Vigia” e o brilhante “Mistérios da Carne”; já Zooey, que sempre demonstrou ter mais dotes físicos do que artísticos – vide a péssima atuação em “Fim dos Tempos” – tem em Summer o papel de sua carreira.

Como acréscimo nessa fantástica composição, tem-se ainda uma trilha sonora em conexão quase sobrenatural com a história. As faixas são de extrema importância para a construção das cenas e, em sua maioria, reverenciam artistas indie como Regina Spektor, Doves, Feist, Smiths e She & Him – excelente banda de Zooey Deschanel (se você nunca ouviu falar, baixe o cd imediatamente).

O responsável pela originalidade do produto é o diretor estreante Marc Webb, que tem no seu currículo uma série de videoclipes. A bagagem do cineasta é reproduzida na consecutiva utilização de mini-cenas que compõem o painel dos vários dias ao lado da amada. Após o sucesso do filme, o nome de Webb está em alta e uma nova adaptação do musical “Jesus Cristo Superstar” ganhou o seu comando.

Para o público que aguardou tanto por esse filme, “500 Dias com Ela” supera as expectativas e faz o retrato dessa nova geração “cult” na busca pelo amor. Mas não adianta tentar se enganar ao esperar pelo convencional. As intenções do filme estão explícitas nos primeiros minutos. Pode ser que Summer não tenha sido a mulher que Tom tanto procurou, mas os dias em sua companhia certamente foram inesquecíveis –assim como serão as quase duas horas dedicadas pelo espectador com o filme.

Nota: 9,5

Estômago


“Estômago” pode até sugerir, mas não é uma comédia romântica sobre culinária e afins. A produção nacional dirigida por Marcos Jorge está mais para um suspense dramático com clima bem pesado.

Raimundo Nonato (João Miguel) é um nordestino que chega na cidade grande sem ter o que comer e onde dormir. Consegue emprego em um boteco fritando pastéis e coxinhas de galinha. O sucesso de suas coxinhas faz o movimento do bar aumentar, e logo ele é chamado para trabalhar como chef de um restaurante italiano. Nessa transição, conhece a prostituta Iria (Fabíula Nascimento) e imediatamente se apaixona.

O desenrolar do roteiro transforma “Estômago” em um filme original, único no cinema brasileiro, permeado por um humor negro chocante e com um resultado que retrata o Brasil sem piedade. Curiosamente, a gastronomia, ao invés de despertar paixões nos personagens, é tratada como sinônimo de poder.

O diretor Marcos Jorge e sua equipe criam um filme requintado e essencialmente brasileiro, valorizado também pelas fortes referências ao cinema de Fellini. Engrossando o caldo, João Miguel cria um personagem tão real que é difícil dissociar o ator de sua representação. Na mesma linha, Fabíula Nascimento rouba todas as cenas em que aparece, transformando sua puta em um ser fascinante.

Assistir ao filme é como degustar um prato caprichado e saboroso, feito com tudo que há de melhor, mas que vai se tornando indigesto depois das primeiras garfadas. Portanto, já aviso, acompanhar a tortuosa saga de Raimundo Nonato não é para quem tem estômago fraco.

Nota: 7,5

Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas


O propósito do seriado televisivo “Os Normais” era apresentar situações comuns do dia-a-dia que levassem as pessoas à loucura. O texto inteligente e afiado de Fernanda Young e Alexandre Machado dificilmente decepcionava e a dupla Luis Fernando Guimarrães e Fernanda Torres interpretaram os personagens de suas vidas: Rui e Vani, um casal neurótico e completamente maluco que não tinha como não cair no gosto do público.

Três temporadas depois e um filme no currículo, eis que chega um novo longa-metragem: “Os Normais 2”. Após o estrondoso sucesso da primeira incursão no cinema, a expectativa com essa seqüência era das mais altas. Inicialmente o filme ficou conhecido pela subtítulo “Ménage a trois”, e bem que poderia seguir com ele, já que a produção gira em torno da aventura do casal em busca de uma terceira para pessoa para fazer sexo.

A sensação é de que “Os Normais 2” é um episódio estendido. Seus míseros 75 minutos logo terminam e a superficialidade da trama fica evidente, ressaltando a fraca história que não merecia ser levada às telas. Também não existe uma linguagem cinematográfica eficiente, é muito semelhante à da série. Os atores principais e nem mesmo os coadjuvantes demonstram empolgação com o projeto. Apesar de toda essa carência, Rui e Vani seguem sendo personagens muito queridos do público e somente pelo retorno deles que a sessão tem seu valor.

Nota; 5,0

Era Uma Vez...


Os contos de fantasia teimam em começar com o tradicional “Era Uma Vez…”. Essa escolha tem o intuito salientar o conteúdo lúdico da história, fruto da imaginação do autor e de sua liberdade poética. A mesma expressão é utilizada como título para o novo filme de Breno Silveira (diretor de “Dois Filhos de Francisco”) justamente para demarcar que o romance do pobretão D com a patricinha Nina é um conto de fadas repetido e previsível.

Ele mora na favela do Cantagalo e trabalha diariamente em um quiosque na praia do Rio de Janeiro. De seu recanto, observa a bela Nina entrar e sair do prédio da frente, até o dia em que a salva de um assalto. A aproximação deles é inevitável e logo os dois se apaixonam, porém a relação não demora para ser abalada pelas gritantes diferenças sociais e o mascarado preconceito.

Quem já não ouviu essa história? Realmente, “Era Uma Vez…” é um filme do qual todos sabem o que vai acontecer na tela, só que ainda assim, a história acaba surpreendendo o público e revelando ser uma das melhores produções nacionais dos últimos anos. O feito está relacionado com a atualização da trama, romantizada em seus núcleos para sensibilizar o espectador, injetando gás para temas tão discutidos e desgastados no dia-a-dia, como a violência no morro, o caos urbano e a falsa moralidade.

Também não se deve tirar o mérito do entrosamento perfeito entre os atores Thiago Martins e Vítria Frate, que dão sustentação vital ao romance desafiador e quase impossível de um garoto pobre com uma menina rica. Os dois juntos emocionam e levam às mais intençãs emoções, sendo ainda mais tocante que o filme anterior do diretor.

Breno Silveira demonstra em seu segundo longa-metragem que tem domínio completo pela sua obra, criando um estilo evidente e próprio de humanização dos personagens. “Era Uma Vez….” pode ser considerado uma espécie de Romeu e Julieta à brasileira, com doses cavalares de realidade e amor. A intensidade do projeto leva o público ao total comprometimento com a trama, fazendo-o sair da sessão inchado de tanto derramar lágrimas. E talvez essa troca de sensações e cumplicidades faça com que algumas percepções de mundo sejam transformadas. Por isso, e por tudo mais que você só irá descobrir ao assistir o filme, é que “Era Uma Vez…” não pode ficar nem mais um segundo parado na estante da locadora.

Nota: 9

Duplicidade


Julia Roberts e Clive Owen voltam a contracenar juntos quatro anos depois do excelente “Closer – Perto Demais” e a sintonia permanece intacta. Neste thriller sobre agentes duplos que planejam passar a perna em todo mundo, não existe mocinhos nem bandidos. O importante é se dar bem e, para transmitir esse clima de trapaça e jogo de interesses, o diretor Tony Gilroy imprime seu estilo elegante ao dividir a tela em várias cenas, transmitindo dinamismo para a trama.

O grande mote do roteiro é brincar com a duplicidade dos agentes e abordar a relação de eterna desconfiança entre eles. Embora apaixonados, o casal não consegue por um único instante relaxar e, assim, seguem maquinando estratégias para o funcionamento perfeito do plano - sempre com um pé atrás quanto a fidelidade de seu parceiro.

O filme foi considerado bastante complicado, conforme sua narrativa não linear e a linguagem específica a respeito dos trâmites entre os serviços secretos. “Duplicidade” exige mesmo a atenção do espectador (nada fora do normal), e termina por revelar-se um entretenimento esperto e charmoso, assim como seus protagonistas. Destaque também para a interessante trilha sonora de James Newton Howard com muitos batuques e swing.

Nota: 8

Shortbus


“Hedwig – Rock, Amor e Traição” foi um marco na carreira de John Cameron Mitchell, tanto como diretor quanto ator. A produção hiper cultuada é uma falsa biografia sobre um popstar do glamrock e conta com deliciosas músicas próprias. Depois de ser catapultado para o sucesso, o astro repentino levou cinco anos para lançar este “Shorbus”, um filme sem pudores sobre a vida sexual de um grupo de jovens.

Para realizar o projeto, o diretor buscou suporte nas relações sexuais para falar sobre aceitação pessoal – em todos os sentidos. A polêmica dessa vez foi com o conjunto de cenas de sexo explícito hetero e homossexual. Embora nada gratuitas, as sequencias não impedem a imediata repulsa dos espectadores mais puritanos.

“Shortbus” é um filme pesado e muito longe de um cinema adolescente pipoca. As cenas são perfeitas de forma independente, quando somadas ao contexto podem não justificar a sua importância. Por isso, a fita não deve ser avaliada como um roteiro linear, a graça está nas sensações que transmite, nos temas que aborda e na experiência total proporcionada. É um grande exercício de linguagem cinematográfica sobre a sexualidade sem ser de mau gosto ou grosseiro.

Nota: 7,7

Arraste-me para o Inferno


Antes de comandar a franquia “Homem Aranha”, o diretor Sam Raimi ficou conhecido por um de seus primeiros filmes, uma produção de horror chamada “Evil Dead” que ganhou continuação e se tornou cultuada com o passar dos anos. Agora, famoso e com três blockbusters no currículo, ele decidiu relembrar o período em que trabalhou com o gênero prestando uma esperta homenagem aos clássicos do terror.

Na interessante trama, atendente de um banco é amaldiçoada após negar empréstimo para uma senhora. Sentindo-se humilhada, a velha invoca o demônio chamado Lâmia, que durante três dias diverte-se torturando sua vítima para depois levar a alma da pessoa diretamente para o inferno. O roteiro de Raimi e seu irmão Ivan faz uma salada com os mais conhecidos clichês: demônios, videntes, sacrifícios de animais, pragas, pesadelos, espíritos, larvas, vômitos e muito mais.


A proposta é ser trash, com direito a cenas muito escrachadas e até cômicas, mas o que dá maior força ao projeto é a forma como a história é levada a sério, envolvendo o público e tornando-o cúmplice dos absurdos. A homenagem pode ser conferida já nos créditos iniciais, quando o título salta na tela - bem como os primeiros longas de horror.


O filme de orçamento modesto para padrões hollywoodianos foi bastante elogiado pela crítica e bem recebido pelo público. Mais um ponto para Sam Raimi. Se dá sustos? Sim, alguns bons sustos estão no conjunto.

Nota: 8


Inimigos Públicos


Era de John Dillenger o primeiro lugar na lista dos mais procurados pela polícia dos Estados Unidos em 1930. O ladrão de bancos conseguia realizar cada operação em menos de dois minutos e, por estes incríveis roubos despertou uma aura de fascinação ao seu redor. Contrariando a entusiástica população, o detetive Charles Makley trabalhava obsessivamente para capturá-lo.

O thriller lotado de sequências de tiroteios não nega que é dirigido por Michael Mann. Sua concepção de cenas de ação segue com o inconfundível formato: câmera nervosa + barulheira de pistolas e/ou metralhadoras + som ambiente sem trilha sonora. A extrema valorização dessas tomadas tirou o foco da construção do personagem icônico e deixou o retrato de Dillenger enfraquecido.

Com muitos tiros e poucas falas, Johnny Deep alia o lado durão do personagem com sua face mais sensível e romântica, personificada pela bela Marion Cottilard. Embora a trama histórica não seja bem desenvolvida, o filme rende um entretenimento de boas atuações, ótimas cenas de ação e muito jazz.

Nota: 8,0

O Visitante


“O Visitante” é mais um filme sobre imigrantes clandestinos que disputou algumas categorias no Oscar 2009 e figurou na lista de indicações com Richard Jenkins ao prêmio de Melhor Ator. A estatueta acabou nas mãos de Sean Penn por “Milk” – por sinal, mais merecido.

O filme escrito e dirigido por Thomas McCartney é sobre um professor universitário que retorna a Nova York para apresentar um artigo científico em um congresso e decide passar esses dias no apartamento do qual dono. Chegando lá, descobre que está sendo habitado ilegalmente por um casal de imigrantes da Síria e do Senegal. Sua primeira atitude é esperar que os “invasores” deixem o local – e eles o fazem. Mas, o professor fica mobilizado com a situação do casal e dá abrigo para ambos.

A convivência com os dois (e futuramente com a mãe de um deles) fará o protagonista rever a forma patética como estava levando sua vida, anulada por uma rotina tediosa e sem objetivos. Essa nova relação se torna benéfica tanto para “o visitante” do título como também para os mais recentes amigos. O “twist” do roteiro acontece quando a polícia descobre a ilegalidade dos imigrantes.

Além da atuação bastante elogiada de Jenkins, o desconhecido Haaz Sleiman mostra-se muito competente e carismático na pele do músico sírio Tarek. Tristemente belo e nada clichê, “O Visitante” é um drama envolvente e terno sobre a vontade de viver (embora que em uma injusta realidade).

Nota: 8

A Mulher Invisível


Um dos filmes mais lucrativos do cinema nacional em 2009 foi “A Mulher Invisível”, do diretor Cláudio Torres. Nele, Selton Mello vive um cara extremamente romântico que de tanto mimar acaba sufocando suas namoradas. Após sofrer diversas desilusões amorosas, ele passa a acreditar que a vizinha gostosona (Luana Piovanni) está a fim dele. O grande senão é que ele não sabe que a sua nova amada é fruto de sua imaginação.

O principal objetivo de um filme como esse é levar o público as risadas – proporcionando também entretenimento de qualidade. “A Mulher Invisível” pode até gerar alguma graça com suas situações cômicas, mas apresenta no desenvolver vários obstáculos. O primeiro, certamente, é a atuação forçadíssima de Selton Mello – um dos melhores atores brasileiros que dessa vez exagera nos trejeitos do personagem e faz uma voz fina (irritante e inverossímel) que mal dá para entender.

Ainda no conjunto de defeitos, temos o ritmo quebrado da produção, que intercala a levemente interessante trama da mulher invisível com a história chata da outra vizinha (a morena). O filme extende-se demais justamente por isso e, sem a menor necessidade. Com 75 minutos, poderia ser mais objetivo, concentraria melhor seus momentos engraçados e terminaria como um entretenimento bobo, porém funcional. No final, quem sai ganhando mesmo é Luana, que brilha em todas as cenas (até mesmo como atriz).

Nota: 4,5

Os Informantes


Os livros de Bret Easton Ellis apresentam como temas centrais drogas, sexo, violência, rock e muita grana. Adaptação de um livro de contos do autor, “Os Informantes” aborda justamente esses tópicos para retratar o hedonismo dos anos 80 em Hollywood, que até hoje ainda vigora mas de forma disfarçada. Esse culto ao lazer é destrinchado pelas diversas narrativas, demonstrando que essa vida deslumbrada leva a auto-destruição.

O pacote inclui uma equipe de atores totalmente empenhados em convencer na pele de seus personagens e muitos realizam uma de suas melhores interpretações. Os novatos Jon Foster e Amber Heard representam perfeitamente os jovens perdidos na cidade do pecado – o que pode ser analisado em diferentes esferas.

Ao compará-la com o livro, a versão cinematográfica ganha pontos por conseguir unir as histórias e transformá-las em uma única. Os encaixes desse quebra-cabeça proporcionam uma adaptação justa – embora que não consiga transpor toda a acidez da escrita de Ellis, que só será inteiramente compreendida ao ter o livro em mãos. O longa-metragem cria desfechos novos para alguns personagens e torna o filme mais completo, deixando às claras a discussão sobre aproveitar o brilho efêmero desta vida de luxo ou reduzir-se a mediocridade e pequenez dos demais. O lance é a futilidade de quem está no topo, que só vai perceber o que está realmente fazendo quando as luzes que ofuscam a sua visão forem embora, deixando a realidade exposta.

“Os Informantes” é um filme para poucos – assim como os livros do autor – e a crítica a esse mundo vazio fica para quem conseguir captar a essência por trás das tortuosas tramas. Se você acabar odiando a produção, pelo menos terá assistido Amber em cenas deliciosas na qual comprova toda sua estúpida beleza e só por isso o filme já terá valido a pena.

Nota: 8,5

Trabalho Sujo


Os produtores de “Pequena Miss Sunshine” chegam com uma nova comédia dramática, só que desta vez é sobre duas irmãs “fracassadas” que resolvem ter um negócio próprio para subir na vida. A empresa até que se torna bem lucrativa, porém é algo fora do comum e nada agradável. Elas trabalham com o serviço de remoção de indícios após as cenas de crime, ou seja, limpam todo o sangue e derivados dos locais.

A personagem de Amy Adams não quer mais trabalhar como faxineira em casas de pessoas bem sucedidas que foram suas colegas no tempo de escola. Quando decide mudar de situação econômica, ela dá a cara para bater e chama sua irmã na realização da primeira limpeza. Essa purificação reverte-se também na alma dos personagens, que aos poucos vão ganhando mais confiança e passam a se livrar de pesos que os prendem ao passado.

“Trabalho Sujo” é um filme modesto, que ganha a simpatia do público logo nos créditos iniciais quando exprime toda a angústia vivida pelas duas irmãs - em poucos segundos já conhecemos quem são aquelas pessoas. O trio Adams, Emily Blunt e Alan Arkin ajudam (e muito) para a consistência desses seres transgressores, que representam a vida ordinária a qual os norte-americanos não querem levar de jeito nenhum.

Os míseros 80 minutos de duração tornam-se o maior empecilho do projeto, já que poderiam ter abordado mais assuntos e com maior profundidade do que encerrar de forma abrupta. Como curiosidade, o filme ainda demonstra a facilidade de subir na vida na “América”, bastante diferente do que acontece no terceiro mundo onde o fator pobreza possui uma conotação totalmente díspar.

Nota: 7,4

Rio Congelado


O filme da estreante Courtney Hunt não é apenas sobre duas mulheres que se unem para introduzir imigrantes ilegais a partir da fronteira canadense. “Rio Congelado” aborda, principalmente, os motivos pelos quais estas personagens são levadas a esse tipo de atitude. No foco central temos Ray Eddie, uma mãe que vive em um trailer com os dois filhos e foi abandona pelo marido. A situação financeira chega a um nível insustentável e a chance de mudar de vida, comprando uma casa nova e pré-moldada, é mais tentadora que os argumentos contra a prática do crime. Assim, ela e uma contrabandista realizam o esquema ilegal através de uma reserva indígena Mohawk, tida como território neutro.

Melissa Leo transborda sensibilidade e emoção como uma mulher judiada pela vida e que não consegue um futuro melhor para sua família. Mais do que merecido, a atriz foi lembrada (ao menos em indicações) em diversas premiações do ano passado. Também tremendamente elogiada foi a diretora e roteirista Hunt, que dá um enfoque humano – e tenso - para a história, privilegiando essencialmente suas crias.

Nota: 7,8

Amantes


Faz quatro meses que Leonard voltou a morar com os pais. Apesar de ter mais de trinta anos, estes ainda o tratam como criança - isso porque ele recentemente foi abandonado por sua noiva, tentou se suicidar duas vezes e ainda descobriu que possui transtorno bi-polar, precisando de medicação constante. Durante o processo de recuperação ele conhece a filha do sócio de seu pai, Sandra, que revela estar interessada em um futuro amoroso com Leonard. Ao mesmo tempo, ele também passa a se relacionar com a vizinha do andar de cima, Michelle, e imediatamente se apaixona por ela. Sem poder firmar essa paixão, já que ela está envolvida com um homem casado, ele começa a namorar Sandra.

“Amantes” dialoga com o público sobre essas barreiras que impossibilitam o teste da felicidade idealizada, frustrando ou levando a atitudes extremas. A dor do personagem de Joaquim Phoenix contagia de forma crescente e a medida que seu personagem “sangra” na tela é possível sentir com maior intensidade as suas angústias. O clima pesado presente desde o início anuncia um final trágico, como em “Match Point” – aliás, ambos apresentam diversas semelhanças – mas é não bem o que acontece. O desfecho realista conclui a obra com maestria, provando ser uma história de amor adulta e que provavelmente deixará um gosto bastante amargo no espectador.

Nota: 8,0

O Segurança Fora de Controle


No cartaz original do filme está escrito: “Right now, the world needs a hero (agora mesmo, o mundo precisa de um herói)”. É chocante constatar que o suposto herói proposto é Ronnie Barnhardt, um segurança de shopping completamente maluco – digno de cadeia. O cara é um ser desprezível: racista ao extremo, utiliza drogas em pleno trabalho, bate em crianças e toma as atitudes mais estúpidas. A frase do pôster pode estar brincando com a situação, sendo até mesmo irônica, mas a narrativa abraça essa figura e enaltece o personagem revoltante.

O ponto de partida é bastante interessante e seu desenvolvimento inicial comprova isso. O dia-a-dia mesquinho de Ronnie muda quando um pervertido passa a atacar no shopping expondo para os clientes suas partes íntimas. O segurança enxerga nessa ação a chance de mostrar que é capaz de prender um criminoso, conquistar o amor da sua vida, a atendente na de uma loja feminina, e ainda ingressar na polícia. Seus sonhos encontram um obstáculo na figura do detetive Harrison que assume o caso e tira Ronnie da jogada.

O filme começa divertido, por vezes, soando grosseiro – mas algo ainda esperado numa comédia. Porém, aos poucos as situações tornam-se cada vez mais ofensivas, de um humor negro desconfortável e o personagem que deveria gerar no mínimo um pouco de simpatia torna-se detestável. A salvação do projeto são os bons atores: Seth Rogen é convincente até demais no papel principal e Anna Faris e Ray Liotta são ótimos coadjuvantes.

Ao término do filme é normal questionar o estado mental de uma criatura que escreve um roteiro desses, que só pode ser alguém doente da cabeça. Mesmo assim, apesar das brincadeiras de mau gosto, “Observe and Report” tem seus momentos engraçados.

Nota: 5,0

The Young Victoria


De forma rápida e objetiva esta cinebiografia sobre a Rainha Vitória origina uma espécie de esboço sobre uma das figuras mais importantes que governaram a Inglaterra. Com baixa duração, o filme transcorre pela vida da personagem com certo pique e retrata melhor o seu lado humano, desnundado o ícone real ao mostrá-la como uma jovem influenciada por vários conselheiros. Apesar dessa questionável característica, a rainha é determinada, rebelde e preocupada com o seu povo.

Felizmente, “The Young Victoria” não é um filme essencialmente político. O casal Emily Blunt e Rupert Friend encontra química como protagonista da trama e o seu romance toma conta da tela. Também é interessante o jeito que apresentam a importância do Príncipe Albert na histórial – altamente relevante. Vale muito a pena assistir o filme para conhecer a história da Rainha Victória, e o melhor é que não causa bocejos em nenhum instante.

Nota: 7,9

What Goes Up


Repórter obcecado por heróis locais viaja para cidade do interior em busca de mais um desses casos. Ao invés de investigar o episódio que lhe foi destinado, fica fascinado pela história de um professor suicida que deixou um grupo de alunos inconformados. Aos poucos o repórter se envolve com os estudantes e passa a servir como um nada convencional modelo para os jovens.

“What Goes Up” possui aquele estilo de filme alternativo típico dos Estados Unidos – explicando melhor, possui como característica principal uma galeria de personagens que são por natureza bizarros (comprovando isso temos como destaque a dupla de “gêmeas” que só realiza ações estranhas). O projeto ainda apresenta um Steve Coogan extremamente confiante à frente do elenco e a bela e simpática Hillary Duff em um papel mais sério e dramático. Desprezando a curiosidade inicial com o longa, temos por fim um filme chato, que engatinha durante duas horas para não significar muita coisa. Que azar!

Nota: 4,9

Férias Frustradas de Verão


Após “Superbad”, o mega hit do verão norte-americano em 2008, o diretor Greg Motolla lança com altas expectativas sua mais nova comédia. “Adventureland” foi vendido como um mais um exemplar do riso – algo semelhante ao filme anterior de Motolla. O que vemos aqui é um drama simpático sobre inseguranças e relacionamentos na adolescência.

James recém se formou no colégio e seu plano imediato é cursar jornalismo em uma faculdade de Nova York. Logo de cara recebe a notícia que seu pai foi rebaixado de cargo na empresa, e a situação financeira não está das melhores. Para ajudar nas despesas e realizar seu sonho, ele decide procurar um emprego temporário durante o verão. Acaba sendo admitido apenas no parque de diversões como instrutor de jogos. Dessa forma ele conhece boa parte dos personagens do filme: seu interesse amoroso, a garoto gostosona, o mal-caráter, o amigo nerd, o proprietário psicopata e outras figuras estereotipadas.

As aventuras amorosas de James integram o principal direcionamento da produção, deixando de lado a “clássica” comédia. Essa escolha não repercute de forma negativa, até pelo contrário. Raramente se assiste um drama honesto (e descontraído) sobre adolescentes dentro da indústria hollywoodiana. “Adventureland” poderia ter alçado voos maiores em sua narrativa, explorando melhor o ótimo cenário do parque de diversões para introduzir elementos diferentes na estrutura. Já que não o faz, torna-se um filme agradável, porém inofensivo.

Nota: 7,0

Nossa Vida Não Cabe Num Opala


Decididamente não entendo como produzem filmes como este aqui. “Nossa Vida Não Cabe Num Opala” me chamou a atenção inicialmente pelo curioso título e pelo cartaz em forma de animação. Ao assistí-lo constatei estar frente a frente a um dos piores filmes nacionais dos últimos anos.

O longa-metragem inicia com a morte do patriarca de uma família humilde, que deixa desemparados quatro filhos. Estas criaturas são deprimentes, consideradas vítimas da sociedade por um roteiro grosseiro que não encontra justificavas para as cenas grotestas que revela. A crítica social que julga fazer não chega a ter força suficiente, e convenhamos, poderia ser realizada de outras formas muito mais eficazes.

Me admira bons atores como Leonardo Medeiros, Maria Luisa Mendonça e Marília Pera estarem envolvidos nesta produção – também fiquei surpreso ao descobrir que é baseado em uma peça teatral. Tenho convicção que o público não possui intenções de assistir um espetáculo como este, já que em nenhum momento chega a ser um entretenimento de qualidade. A nota que consta ao final desta crítica só vai para os créditos iniciais e alguns momentos interessantes nas interpretações, como a figura do fantasma do pai dos quatro irmãos.

Nota: 2,0

Tinha Que Ser Você


O encontro de dois atores prestigiados, Emma Thompson e Dustin Hoffman, são o principal atrativo deste delicado filme adulto. De um lado temos Kate, uma desiludida quarentona que só pensa no seu trabalho e nos cuidados com a mãe. No outra ponta, Harvey é também quarentão e viaja de Nova York para Londres somente para prestigiar o casamento da filha. Ele é um sujeito amargurado, que sofre pela influência cada vez mais intensa do novo marido da ex-esposa, agindo agora como se fosse o verdadeiro pai de sua filha. A situação piora quando recebe a notícia de que não precisa voltar tão cedo para os Estados Unidos porque seu emprego foi pelos ares. Esses dois seres insatisfeitos se conhecem por acaso em um dia comum na cidade grande e a oportunidade de mudança mexe com o cotidiano habitual que antes compartilhavam.

“Tinha Que Ser Você” leva tempo para desenvolver seus personagens e quando os coloca cara a cara transforma-se em uma espécie de “Antes do Amanhecer” em que os dois conversam como velhos conhecidos sobre diversos temas. A dupla não só encontra afinidade, como também serve de ajuda um para o outro. A chance do título original acaba servindo não só para Harvey como também para Kate, e juntos eles ganham um novo incentivo para suas vidas desistimulantes.

O romance adulto é um tema que vem sendo explorado com certa frequencia no cinema atual e encontrando bom público para o mesmo. Este exemplar é bastante simplista, sem diferenciais perante as demais histórias já vistas. O que o qualifica são pequenos tons na narrativa que elevam o tradicional enfoque e, somado a isso estão as impecáveis atuações dos protagonistas.

Nota: 7,0