A Caixa


A ficção científica permeia os filmes de Richard Kelly. Em “Donnie Darko” temos a influência de viagens no tempo e em “Southland Tales” quem dita as regras é o apocalipse que se aproxima. No mais recente longa-metragem do diretor, “A Caixa”, não poderia ser diferente. O filme apresenta fortes tendências ao sci-fi, começando com o personagem de James Marsden, que trabalha para a NASA e ajudou a criar uma câmera fotográfica espacial. No decorrer do projeto várias dicas são dadas para unir esses elementos futuristas com a “resolução” do caso.

Baseado no conto “Buttons, Buttons” de Richard Mathenson (que também já deu origem a um episódio do seriado “Além da Imaginação”), o roteiro adaptado pelo próprio diretor gira em torno de um casal do subúrbio que recebe uma caixa misteriosa. Se eles apertarem o botão do objeto, ganharão a quantia de um milhão de dólares, mas ao mesmo tempo serão responsáveis pela morte de uma pessoa que eles não conhecem.

Unindo o suspense psicológico com a ficção científica, “A Caixa” assume um ritmo de urgência e deixa o espectador em estado de alerta. O filme convida a desvendar o que está por trás do objeto enigmático e também propõe debates filosóficos, sugerindo que apertamos botões como esse diariamente, não matando pessoas, mas demonstrando que cada um de nossos atos geram consequências.

O diretor Richard Kelly inicia a narrativa de forma lenta - como em um filme antigo - para aos poucos aumentar a tensão e deixar a nossa curiosidade em um grau bastante elevado. Cameron Diaz e James Marsden contribuem ao projeto porque são bons atores e fazem com que o público se importe com o casal em desvantagem. Frank Langella (“Frost/Nixon”) está realmente ameaçador como o encarregado pela caixa. O rosto deformado do seu personagem foi criado em computador e causa arrepios. Assim como esse, os efeitos especiais da produção são extremamente eficientes e elegantes.

Após duas horas, “A Caixa” termina e muitas perguntas ficarão sem resposta. O mistério é revelado, mas questões importantes para a história são deixadas de lado e podem gerar irritação no público que gosta de tudo bem explicado. Mesmo com essa fragilidade, não se desmerece a façanha de ter assistido a um filme instigante, tenso e, quem diria, atual. “A Caixa” é um filme diferente, como os outros do diretor.

Nota: 8

Um Sonho Possível


Há dois anos sem lançar filme algum nos cinemas, Sandra Bullock volta com três produções em 2010 e termina o ano como a atriz mais rentável do período. Depois de algumas bombas (“Premonições”, “Miss Simpatia 2”, “A Casa do Lago”), a atriz apostou no seu terreno mais confiável – a comédia – e realizou “Maldita Paixão” e “A Proposta”, mas foi com o drama “Um Sonho Possível”, que ela confirmou seu carisma e entregou a melhor atuação de sua carreira.

No filme, Bullock interpreta Leigh Anne, uma dondoca que abriga o desamparado Michael em sua casa. Ele é um garoto negro, de quase dois metros de altura e com mais de 100kg. Sem casa ou família, ele é encontrado por Anne andando no acostamento da estrada em um dia de muito frio. Como todo filme sobre superação, o grandalhão é aceito pelo marido e os filhos da ricaça, melhora suas notas nas provas e passa a integrar o time de futebol americano da escola.

Baseado em uma história real, “Um Sonho Possível” ganha força por ser um filme verdadeiro. Caso contrário carregaria uma mensagem positiva exagerada, já que resolve os problemas do personagem marginalizado apenas lhe dando casa e amor. O roteiro utiliza um conflito banal (apresentado logo nas primeiras cenas quando retrocede no tempo) para tornar o projeto mais profundo. O ápice anunciado no início não faz jus ao mistério. O equilíbrio entre o sofrimento e as risadas torna a sessão descontraída, principalmente, pelas cenas envolvendo o Big Mike e seu irmão menor.

Sandra Bullock convence como uma socialite bonitona que realmente se importa com as minorias. Mesmo sendo uma atriz que leva mais jeito em comédias românticas, aqui ela se desvincula do gênero para entregar uma atuação interessante, pontuada por determinação e alguns sentimentos reprimidos – esses que nunca se revelam ao público. Sua personagem, Leigh Anne, aparece em diversos momentos evitando situações e saindo de cena abruptamente. A sensação é de que ela não suporta momentos de muita emoção. Por que? Apesar de ficarmos sem descobrir, essa característica torna a protagonista diferente e mais verdadeira.

Como todo “feel good movie”, a sessão termina em alto astral, com a platéia sentindo que também pode fazer a diferença. Na tela parece tão simples, mas na prática a situação não é bem assim.

Nota: 7,5

CinemaX: 4 anos

O CinemaX está de aniversário. Em março, o blog completa quatro anos em atividade. Durante esse tempo, ocupou-se de publicar críticas sobre os filmes mais recentes e buscar desenvolver o senso crítico de seus leitores.

A primeira casa do CinemaX foi um site hospedado no programa GooglePages, que ficou em funcionamento durante 2006 e 2007. No primeiro ano foram realizadas 24 postagens e no segundo o número subiu para 70. O endereço ainda está ativo, basta clicar no link para conferir a origem do primeiro CinemaX. De lá para cá, uma evolução. Ainda bem.


Esse primeiro projeto contava também com as sessões “Lançamentos em DVD” (resenha dos principais filmes do mês a chegarem nas locadoras), “Boletim dos Filmes” (lista mensal de todos os longas assistidos com sua devida ficha técnica e nota) e “Notícias de Cinema” (matérias jornalísticas sobre as novidades que em breve entrariam em cartaz).

Conforme algumas limitações (número restrito de postagens, interface complicada, endereço extenso), o CinemaX foi transferido para o Blogger e uma nova etapa iniciou. O “ambiente” possibilitava a realização de enquetes, envio de feeds, comentários dos leitores, contagem dos acessos e um layout mais organizado. Nesse formato, o blog seguiu por mais dois anos (2008 e 2009) e publicou - até o momento - 179 críticas.

Quatro anos depois da primeira publicação, o CinemaX comemora a data mudando o seu layout para um visual clean e moderno. Há pouco tempo, o blog tinha recebido um logotipo, agora conta também com uma identidade visual, marcada pelo azul, vermelho e branco.

Aproveitando o espaço de comemoração, quero agradecer aos leitores que acessam diariamente o blog e me dão motivo para seguir publicando. Peço que sigam comentando os posts. O espaço de discussão é aberto para todos que querem conversar sobre cinema. É com muita satisfação que vejo os comentários de publicações como “Sem Medo de Morrer”, nos quais foram travadas várias hipóteses para o final do filme.

Também não poderia deixar de citar algumas pessoas que me ajudaram na elaboração do CinemaX: primeiramente, à professora Raquel Recuero, uma grande incentivadora de projetos acadêmicos voltados ao jornalismo digital, à Gabriela Zago que me auxiliou no comando das ferramentas do GooglePages e, por fim, ao meu colega e amigo Marcos Leivas, que na época tinha um blog de crônicas bastante acessado (“Palavra de Guri”) e que me deu o empurrão que faltava para criar o meu.

Obrigado à todos e bons filmes.

Max Cirne

Uma Mãe em Apuros


Todos nós sabemos que as crianças são seres endiabrados e precisam de monitoramento 24 horas. Justamente pela intensa dedicação, as mães acabam abdicando do campo profissional e da vida social para poder cuidar de suas crias. “Uma Mãe em Apuros” aborda essa questão: Eliza abandona sua promissora carreira como escritora para cuidar da casa, do marido e dos dois filhos. Durante o longa, acompanhamos um dia na vida da protagonista, que tenta levar as crianças para a escola, passear com o cachorro, fazer compras, ajudar a vizinha idosa e organizar uma festa de aniversário para a filha no final da tarde.

Vendida como comédia, a produção engana quem está à procura de um passatempo divertido no estilo de “Um Tira no Jardim de Infância” ou “Operação Babá”. Praticamente um drama, o filme observa Uma Thurman sempre descabelada, suada e quase tendo um infarto orque tudo resolveu dar errado. É difícil acreditar que todos os dias de sua vida são assim. As situações são tão estressantes e fora do comum que a lei de Murphy certamente foi aplicada com rigor para sacanear a personagem.

“Uma Mãe em Apuros” ao invés de tratar o assunto de forma verdadeira ou com humor, prefere criar acontecimentos forçados para tentar afirmar que as mães urbanas são “heroínas”. O exagero está presente nas atitudes inconseqüentes de Eliza como, por exemplo, quando ela resolve colocar na internet que sua melhor amiga se masturba com os brinquedos do filho ou então quando ela discute com os vizinhos por não ter tempo de limpar da calçada as necessidades do seu cachorro ou ainda quando briga no trânsito porque ela está trancando a rua e não quer sair.

Seguindo nessa linha, as demais situações também são sofríveis e pouco reais. O roteiro utiliza o recurso da personagem ter um blog para poder desenvolver os seus conflitos de “jovem mamãe”. Essa técnica foi incorporada com êxito no seriado “Sex and the City” e até mesmo no recente filme “Julie & Julia” – porque são elementos vitais para o andamento da narrativa. Aqui, é uma preguiça do texto que prefere trabalhar os problemas através de narrações tediosas. Para completar o acúmulo de insatisfações, ao término, tudo se encaminha para o clássico “final feliz” renunciando os problemas que Eliza vivenciou pouco tempo antes. Tenha dó.

Nota: 2

Mary and Max


2009 foi um ótimo ano para as animações voltadas ao público adulto. Se não bastasse o adorável e familiar “Up – Altas Aventuras”, recebemos também a excelente surpresa “O Fantástico Sr. Raposo”, no qual Wes Anderson transportou seu universo particular para o formato animado. Entre os três, “Mary and Max” é o longa mais adulto.

Baseado em uma história real, o roteiro de Adam Elliot (também diretor) conta a história de uma menina de oito anos que se corresponde através de cartas com um homem de 44. Ambos solitários e com problemas de encarar o mundo, eles se identificam rapidamente, tornando-se amigos e mantendo essa relação por muito tempo.

Narrado praticamente do início ao fim, “Mary and Max” apresenta diálogos mínimos e consegue com o artifício pouco usual da narração ininterrupta deixar o filme interessante e ágil. A fotografia predominantemente ancorada no preto e branco (com leves toques de vermelho) traduz a visão que os personagens possuem do mundo. Ao contrário das formas fofinhas das demais animações, os personagens aqui possuem traços oblíquos e “gordurosos”, transformando-os em seres estranhos e feios.

O conteúdo "pesado” para um público infantil (autismo, suicídio, alcoolismo, diferença sexual, obesidade) coloca a animação em um patamar mais elevado. Os personagens do título são duas crianças (independente da idade) com problemas sociais graves e que encontram um no outro a força de seguir seus dias sem encontrar uma compreensão maior. “Mary and Max” realiza uma exaltação à amizade e encerra como uma linda história de vida. Apesar de bastante elogiado e vencedor de alguns prêmios, o filme foi ignorado pela Academia. O destino é virar “cult”.

Nota: 8

Nine


Rob Marshall retornou ao gênero que lhe consagrou em 2002 com o filme “Chicago”, vencedor de cinco Oscar. “Nine”, na verdade, é um musical da Broadway encenado desde 1982 e baseado no filme “8 ½” de Fellini. A missão do diretor era transpor para as telas a versão dos palcos com muito mais glamour, cortes, coreografias e astros do cinema.

Assim como na obra original, a trama gira em torno de Guido Contini, cineasta famoso que cometeu dois fracassos retumbantes nos últimos anos. O próximo filme é um épico sobre o seu país de origem, a Itália, e é com esse projeto que vem a chance de voltar aos holofotes. Conforme a produção técnica vai definindo os cenários, figurinos, casting e outros detalhes, o diretor que ainda não apresentou o roteiro a ninguém sofre com dificuldades de desenvolver a primeira linha do texto.

A crise de Guido reflete na sua carreira, nas mulheres de sua vida e, conseqüentemente, no roteiro do seu novo filme. Para realizar a obra cinematográfica, primeiro ele terá que lidar com as desconfianças da sua esposa (Marion Cotillard), o fogo incontrolável da amante (Penélope Cruz) e a sedução das fãs (Kate Hudson). Tentando sobreviver em meio ao caos, o personagem volta e meia conversa com o fantasma da mãe (Sophia Loren), relembra fatos determinantes para o seu crescimento, como a primeira experiência com a sensualidade feminina (Fergie) e escuta atentamente os conselhos de uma amiga de anos (Judi Dench).

Guido é estereótipo do homem italiano: másculo, sedutor, bem sucedido e de muitas mulheres. Seria essa a mensagem da música mais marcante do longa: “Be Italian” representada pela cantora do Black Eyed Peas. Tentando ser algo além de sua capacidade, o Guido de Rob Marshall vai mergulhando em um abismo, passando de mulher para mulher, e assim as perdendo. A redenção vai depender do que ele absorver dessa jornada.

Os números musicais pontuam a narrativa para que possamos compreender melhor a angústia de Guido e os desejos das representantes femininas. Na maior parte das vezes essas intervenções chegam através de sonhos, fantasias e alucinações, acrescentando ao desenrolar da história. As músicas enriquecem o drama dos personagens e completam as emoções de cada, sem apelar para transições bruscas entre o real e o fantasioso.

A quantidade elevada de personagens, em certos momentos, prejudica o andamento da trama, já que não encontra soluções para todos eles. Apesar de o foco ser em Guido, as figuras que passam por sua vida tornam-se mais interessantes que o próprio protagonista. O ritmo da produção também é enfraquecido com as mudanças de tramas, justamente porque umas são de presença vital e outras nem tanto assim.

Em contrapartida, o time de estrelas encanta a platéia: Daniel Day-Lewis incorpora o cineasta em crise com perfeição; Nicole Kidman está radiante como a estrela de “Itália”; Kate Hudson requebra e seduz tanto Guido como o espectador; Sophia Loren esbanja a elegância e o charme da mulher italiana; Judi Dench mostra que sabe encarar um número musical com muito esplendor; Penélope Cruz tem verve de sobra para ser o caso picante de Guido; Marion Cotillard emprega emoção e delicadeza à personagem mais bem construída e Fergie completa o time com uma interpretação intensa e extremamente sensual.

Acompanhando o poder hipnótico desse time de beldades, o figurino e os cenários deslumbrantes encaixam-se primorosamente com as seqüências musicais. A fotografia do filme também é um destaque à parte, abusando de tons de rosa e roxo, alterando colorido com preto e branco e realizando jogos de luz e sombras para dar um visual refinado e condizente ao glamour do mundo do cinema. O trabalho de edição, com muitos cortes e em sintonia com as batidas das músicas, merece ser salientado.

A direção de Rob Marshall e o estilo que conferiu ao projeto são semelhantes ao de “Chicago”. A nova produção, infelizmente, peca com o seu desenvolvimento irregular, mas possui atributos inegáveis – como todos aqueles já citados – que o tornam igualmente fascinante. Encarando assim, “Nine” pode ser sexy, contagiante, belo e emocionante. Um espetáculo do início ao fim. Basta deixar-se levar pelo ritmo da música.

Nota: 9

Simplesmente Complicado


A diretora Nancy Meyers, de “Alguém Tem Que Ceder”, retoma o amor na maturidade com um trio protagonista de peso: Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin. O triângulo amoroso rende uma comédia divertida que não foge da linha dos outros filmes da diretora: açúcar, risadas e drama.

Meryl interpreta Jane, uma mulher independente, dona de uma padaria, mãe de três filhos e divorciada. Após um longo período sem se envolver em relacionamentos amorosos, eis que surgem dois homens em sua vida: o charmoso arquiteto Adam (Martin) e o retorno do ex-marido Jake (Baldwin). Embora trabalhe com questões comuns entre as mulheres dessa idade, o terreno do jogo é a comédia e isso fica claro quando o roteiro introduz elementos artificiais justamente para provocar risadas.

A briga entre o real e o inverossímil acontece até o encerramento do filme. A cena em que o triângulo é descoberto, por exemplo, parece ter sido escrita para um filme de humor pastelão. O filme perde seu rumo perto do final quando deixa a balança pender para o lado do melodrama. Alguém consegue “engolir” que após dez anos os filhos de Jane e Jake ainda não superaram o divórcio dos pais?

Beneficiado pela presença da ótima Meryl Streep, “Simplesmente Complicado” deixa passar alguns deslizes que acabam mascarados pela competência da atriz. Ela e Alec Baldwin são responsáveis pela melhores cenas, já que apresentam uma boa química. Enquanto isso, Steve Martin parece perdido no projeto com uma constante expressão de “cachorro abandonado”. Ao término, a comédia romântica cumpre a proposta: agrada o público que possui a mesma faixa etária dos protagonistas, e de quebra, rende entretenimento leve e engraçado para as demais idades.

Nota: 7

O Fim da Escuridão


Depois de oito anos sem aparecer frente às câmeras, Mel Gibson volta a atuar em um filme de ação e mostra que, além das rugas e do cabelo grisalho, ainda tem força para “segurar” um filme sozinho. Nesse período afastado, o astro comandou dois longas polêmicos (“A Paixão de Cristo” e “Apocalypto”) e se envolveu em escândalos por ter realizado comentários anti-semitistas durante uma bebedeira. Com “O Fim da Escuridão”, o ator comprova que sua força continua inalterada na indústria do cinema.

Baseado em uma minissérie britânica de 1985, o roteiro é sobre um policial que vai ao seu próprio limite para vingar a morte da filha. A trama manjada segue a cartilha dos filmes do gênero, utilizando a mesma história de sempre com elementos variados – no caso, uma grande empresa está por trás de um esquema que envolve armas nucleares. O tema levemente complicado aproxima-se ainda de tramas políticas e deixa o espectador comum por oras distante. Para capturar a atenção do público, o diretor investe em cenas de ação violentas e chocantes – sempre bem-vindas.

Ao contrário do que promete, o filme não é recheado de tiroteios e lutas. O diretor Martin Campbell dá um ritmo lento para sua obra, carregando em diálogos e informação, que por vezes recebe intervenções de violência abrupta. O pai interpretado por Gibson entra para a galeria dos “homens vingadores” já construídos pelo ator, estes definidos pelo olhar penetrante, cara de mau e obsessão em descobrir os culpados.

Desconsiderando o encerramento “feliz” extremamente forçado, “O Fim da Escuridão” é um bom filme, que na maioria das vezes, soa realista principalmente pelo tom adotado na narrativa e pela presença de um ator que sabe captar a atenção do público - mesmo depois de quase uma década sem dar as caras.

Nota: 6,9

Amor Sem Escalas


Depois de explorar o universo adolescente em “Juno”, o diretor Jason Reitman explora o ser humano e suas relações sociais em filme adulto com roteiro brilhante. George Clooney interpreta Ryan Bingham, profissional contratado por firmas que precisam demitir seus funcionários e não tem coragem para isso. Assim, ele viaja por todo os Estados Unidos demitindo pessoas.

Ryan é experiente no assunto: possui técnicas para cada situação, teorias comprovadas, confiança em suas atitudes e lábia na medida certa. Ele demite qualquer pessoa dando um show de segurança e motivação. Eis que surge a jovem Natalie (Anna Kendrick) no seu caminho, uma funcionária queridinha do chefe que sugere o sistema de demissão por teleconferência. A novidade é recebida positivamente pela empresa e as passagens aéreas de Bingham parecem estar com os dias contados.

Procurando provar para o seu chefe que a proposta não funciona, o astuto “demitidor” deve realizar suas viagens padrões acompanhado de Natalie. A jornada pelas várias cidades revela muitas descobertas para ambos personagens, que também recebem como integrante do time uma bela executiva (Vera Farmiga) que, assim como Bingham, passa mais dentro de um avião do que em sua própria casa.

Baseado em um livro, o roteiro adaptado de Sheldon Turner e do próprio diretor fala sobre o individualismo da sociedade moderna e a inevitável solidão que esse meio propicia. Orgulhoso das intermináveis milhas de viagem, o personagem de Clooney passa a reavaliar esse hobby de colecionar horas de vôo e pensar que ao estar “up in the air” todo o tempo, ele não tem chance de conviver com sua família, de ter namoradas e, muito menos, poder casar um dia. O roteiro inteligente e de ironia mordaz trabalha com a rivalidade do amor x trabalho sem ser piegas.

O trio principal personifica esses personagens de forma verdadeira e, por conseqüência, entregam um entrosamento perfeito em cena. O diretor Jason demonstra que conhece cada detalhe da história que quer contar e seu perfeccionismo leva a construção do melhor filme de sua carreira até agora. Sorte dele, que revela-se um diretor maduro e de grande potencial, e do espectador que poderá assistir produções corajosas e espertas sobre incertezas que assombram todos nós.

Nota: 9

Julie & Julia


A gastronomia já foi bastante explorada no cinema e a continua dando bons frutos, como este “Julie & Julia”. O filme baseado em uma história real trabalha com duas linhas narrativas: no passado, conhecemos a fantástica revolução gastronômica proposta por Julia Child, americana residente em Paris que cria e importa receitas francesas para o cardápio das donas-de-casa de seu país de origem. No presente, Julie Powell é uma grande admiradora dos livros e programas televisivos de Child. Para fugir de uma crise depressiva que se anuncia, ela encara o desafio de cozinhar as 524 receitas do livro de sua grande inspiração no espaço de um ano - e relata estas experiências em um blog.

A produção representa uma biografia inusitada, uma vez que conta a vida de Julia e ainda trabalha com o conceito de “professora” e “aluna” em diferentes épocas, colocando lado a lado as duas figuras femininas, sem deixar de comparar suas semelhanças e detalhar as descobertas de cada. A forma como o roteiro equilibra as duas tramas torna o filme ainda mais fascinante e dá uma lição de vida em ambas partes.

A diretora Nora Ephron, consagrada em comédias românticas, consegue dar suavidade e ritmo a um filme dramático, deixando o tom leve e agradável. Quanto as atrizes, Meryl Streep (sempre impecável) vive magistralmente a adorável Julia Child e Amy Adams dá conta de dividir o papel de protagonista com o ícone do cinema. Bon appetite!

Nota: 8

Trama Internacional


Clive Owen pode não ter sido escalado para viver o James Bond dos anos 2000, mas certamente tem todos os requisitos necessários para interpretar agentes secretos de forma convincente. “Duplicidade”, “Mandando Bala” e “Vingança Final” estão aí para comprovar. Em “Trama Internacional”, ele assume mais um desses cargos e, junto de Naomi Watts, investiga as atividades ilegais de um dos mais poderosos bancos do mundo. A dupla percorre o globo, passando por Berlin, Milão, Nova York e Istanbul.

A câmera de Tom Tykwer valoriza a arquitetura das cidades modernas ao mesmo tempo que dá forma a um thriller à moda antiga, trocando a linguagem acelerada tão presente nos novos exemplares de ação por cenas mais pontuais e discursivas. A sequência de maior adrenalina do longa se passa no museu Guggenhein e já entrou na lista das melhores do gênero.

Nota: 7

Cold Souls


“Cold Souls” é a prova de que um belo cartaz vende um filme. As diversas faces de Paul Giamatti no pôster anunciavam um novo filme-cabeça, ao estilo de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Os primeiros minutos até condizem com a estratégia de marketing: ator depressivo recorre a um programa diferente para extrair sua alma e deixar de sofrer. Ele não se acostuma em viver praticamente sem emoções e quer sua alma de volta.

O plot é bastante curioso. A desvantagem é que a narrativa lenta não apresenta novos atrativos e passa a encontrar dificuldades na tentativa de sustentar o seu argumento principal. “Cold Souls” tinha uma idéia original, mas morre na praia porque não consegue ser tão ousado e inventivo quanto seu desenvolvimento inicial.

Nota: 3,5

Vício Frenético


Após ter praticamente destruído sua carreira com os projetos mais recentes (“Presságio”, “O Vidente”, “Perigo em Bangkok”, “O Sacrifício”, “Motoqueiro Fantasma”), o astro Nicolas Cage teve a chance de sair por cima com a refilmagem de um filme policial dos anos 90 que recebeu uma modernização pelo diretor Werner Herzog.

“Vício Frenético” inicia com o caso de uma família de angolanos assassinada em um bairro “barra pesada” de Nova Orleans. Tudo indica que o motivo esteja relacionado ao tráfico de drogas. Lentamente, a investigação é deixada de lado e quem ganha destaque são os conflitos do personagem de Cage.

O tira extremamente violento e drogado deveria ser um papel desafiador para o veterano ator, provocando sua capacidade inquestionável vista em filmes como “Despedida em Lãs Vegas” e “O Sol de Cada Manhã”. Cage realmente parece estar se esforçando em cena, mas o seu empenho apenas resulta em uma atuação razoável. Dificultando ainda mais, sua companheira na tela, Eva Mendes - além de atuar sempre o mesmo personagem (a gostosona) – faz o par romântico do protagonista deixando explícito que lhe faltam muitas aulas de interpretação.

A direção “quadrada” do diretor não investe em ousadias e o roteiro banal também não contribui. Dificilmente vai ser com esse filme que o astro receberá seu prestígio de volta.

Nota: 4,5

O Amor Acontece


Existe uma teoria de que a primeira frase de um livro ou filme define a obra. Pensando nessa linha de raciocínio, a primeira frase de “O Amor Acontece” traduz bem a sua experiência como entretenimento: “quando a vida te dá limões, você pode ficar chateado ou fazer uma limonada”. Não a interprete no sentido de tentar tirar algum proveito da sessão. A questão é que essa frase é tão batida e simplória que representa com exatidão o conteúdo do filme.

Aaron Eckhart interpreta um homem que perdeu a esposa em um acidente de carro e, para amenizar a sua dor, decidiu escrever um livro sobre o assunto. Ao contrário do que planejava, seu livro se torna um best-seller e ele começa a dar palestras motivacionais. Em um desses encontros, ele conhece a personagem de Jennifer Aniston, uma florista independente à procura de um novo amor.

O filme leva quase duas horas para chegar na cena que exemplifica justamente o que o título diz. Não é óbvio? O problema é que no caminho somos obrigados a aturar as insuportáveis palestras de superação dadas pelo personagem masculino e o seu trauma com a morte da esposa. Ainda pior são os conflitos sem sentimentos, os diálogos pobres, o romance sem química e alguns momentos forçados de emoção. Assim, é fácil certificar que, ao menos, “a diversão do espectador não acontece”.

Nota: 3

A Trilha


A busca por um desfecho surpreendente acaba sendo responsável por roteiros que traem seus elementos fundamentais e terminam gerando algumas aberrações cinematográficas. No caso de “A Trilha”, o filme não chega ao ponto de ser um espetáculo bizarro, mas está longe de ser decente.

Aparentemente é um filme comum: casal de turistas aproveita sua lua de mel em Honolulu justamente no período que uma onda de crimes anda acontecendo na região. O jogo inverte próximo do final com uma tradicional reviravolta. O que deveria “pegar” o espectador de surpresa realmente o faz, porque não dá para acreditar no rumo que a história toma.

O diretor David Twohy investe em belas imagens do Hawaii (ponto positivo) e cria cenas de ação que não funcionam ao realizá-las com cortes rápidos e divisão da tela em vários quadros (ponto negativo). O elenco levemente conhecido (Milla Jovovich e Timothy Olympat) embarca na “aventura” com gosto. O desperdício é assistir o ótimo Steve Zahn envolvido na produção.

Nota: 4

Educação


Nick Horny é escritor inglês cuja principal influência é a cultura pop e o humor sarcástico. Suas obras literárias mais conhecidas são: “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, ambas adaptadas para o cinema. “Educação” é o seu primeiro texto escrito especialmente para o cinema.

No subúrbio londrino de 1960 vive Jenny, uma garota reprimida pelos pais e educada desde criança para dedicar-se exclusivamente aos estudos e, assim, ser aceita na Universidade de Oxford. Os planos fogem do controle quando o sedutor David lhe dá uma simples carona de carro e, aos poucos, ele passa a mostrar uma vida boêmia com idas a restaurantes, concertos musicais, “nightclubs” e viagens ao exterior.

O roteiro oferece um caso específico para conversar sobre a formação dos adolescentes e a importante influência daqueles que os cercam. A diretora Lone Scherfig acompanha sua protagonista com segurança e consegue boas atuações do elenco. Pode faltar as principais características do autor (referências pop e ironia) – o que é uma pena - mas “Educação” segue sendo um bom e interessante entretenimento.

Nota: 7,5

Adam


Adam é portador da Síndrome de Asperger, uma doença semelhante ao autismo que pode causar dificuldade na interação social, falta de empatia, interpretação literal das coisas, e outros sintomas. Após perder o pai, ele se vê desamparado, sem alguém para ajudá-lo nas atividades diárias. Essa carência é preenchida com a presença de uma jovem e simpática vizinha que recentemente mudou-se para o prédio.

Apesar de abordar um tema interessante e pouco conhecido, o filme não discute a situação de Adam com a doença. O espectador testemunha apenas a representação de uma pessoa com dificuldades de se comunicar e termina não sabendo muito além disso. Adam está na frente da câmera, mas é difícil entender o que se passa com ele. A produção não aprofunda o assunto e deixa o motivo central do projeto esvair-se para camadas mais superficiais, direcionando o foco nos olhares vazios de Hugh Dancy (esforçando-se por prêmios) e na tentativa de romance do seu personagem.

O roteiro é tão pouco inspirado que cria tramas secundárias envolvendo os pais da namorada para aumentar a duração e gerar mais conflitos na trama. O conjunto desses elementos é tão insosso, que “Adam” não desperta sentimentos fortes, apenas indiferença.

Nota: 5,0

Sinédoque, Nova York


Assistir “Sinédoque, Nova York” não é tarefa fácil. Digo isso porque fui muito bem informado a respeito do filme e, já sabia de antemão que a realidade era distorcida conforme a visão do personagem de Phillip Seymor Hoffman. Assim, tinha conhecimento prévio da casa que está em chamas eternas (e qual era sua metáfora), sabia que o personagem central iria interagir com seu alter-ego personificado na figura de um idoso chamado Sammy, sabia também da passagem brusca do tempo, das várias mulheres na vida do protagonista e de sua obsessão sem limites com a idéia da morte. Mesmo com todas essas informações e outras mais, chegou um ponto em que perdi a direção do que estava vendo na tela.

O filme começa mostrando o relacionamento familiar de Caden com sua esposa e filha. Os diálogos e o desenvolvimento das cenas são originais e de um humor negro excelente, ganhando de imediato a confiança dos fãs do roteirista consagrado (e agora diretor) Charlie Kaufman. A narrativa avança cada vez mais interessante, porém, quando beira a metade do filme o espectador “normal” começa a ter dificuldades na tentiva de acompanhar os delírios do protagonista. Quanto mais se aproxima do final, mais confusa se torna a compreensão do que está sendo exibido.

Ao embarcar na proposta de “Sinédoque, Nova York” – assim como os demais filmes do roteirista – é preciso saber que não se trata de um filme convencional. Kauffman ganhou a admiração através dos ótimos “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação” e de sua obra-prima “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”. Nenhum deles é um longa-metragem padrão. Assim como essas criações, “Sinédoque” apresenta questões muito interessantes, como a eminência da morte, as realizações pessoais e o sentido da vida. O problema é a forma densa e confusa como esse conteúdo é compartilhado, afastando gradativamente o espectador de um contato maior com a película.

É difícil acreditar que no site IMDB a produção consta com nota 7,3 através de mais de 14 mil votos. Esse dado comprova que boa parte das pessoas gostaram do projeto (mesmo se tratando de um “filme-cabeça”). Será que realmente elas entenderam alguma coisa? Não quero fazer campanha para deixarem bem mastigado tudo que é apresentado na história (até porque sou contra), mas pelo menos peço que o roteiro seja ao menos compreensível. Por isso, ao término da sessão de “Sinédoque, Nova York” fiquei com a sensação de que perdi um grande filme. Talvez assistindo uma segunda vez seja mais elucidativo.

Nota: 6,5

Zumbilândia


Os zumbis estão comumente empapados pelo sangue de suas vítimas, perambulam famintos em busca de carne fresca, são capazes de transformar qualquer pessoa em um de seus semelhantes com apenas uma mordida e, além de tudo, são mortos-vivos devoradores de miolos. Com todas essas características, eles possuem requisitos suficientes para serem considerados assustadores.

A imagem dessas criaturas mudou quando, em 2004, foi lançado o filme “Todo Mundo Quase Morto”, que ridicularizava a classe zumbi, classificando-os como seres patéticos, lerdos e tão pouco ameaçadores. Na seqüência uma série de filmes aproveitou para inserir os monstrengos em comédias, vide “Fido – O Mascote”.

“Zumbilândia” utiliza os mortos-vivos para provocar o riso e aumentar a adrenalina do espectador. No filme, o planeta foi dominado por essas aberrações e as quatro únicas pessoas que parecem não ter sido infectadas se juntam para lutar pela sobrevivência. Essa mistura de comédia com ação proporciona um filme divertido, que satiriza com os clichês e os filmes de terror que não assustam ninguém. A linguagem da produção atrai pelo estilo acelerado e explícito, que pode ser comprovado logo no início com a explicação das regras de como se prevenir de um ataque de zumbi.

Destaque para o engraçado Tallahasse, matador “profissional” das criaturas e interpretado pelo doidão Woody Harrelson. A participação de Bill Murray também rende bons momentos.

Nota: 7,6

Avatar


Fã confesso de ficção científica, o diretor James Cameron vem tentando realizar sua obra mais grandiosa desde os meados da década de 90. Após o sucesso de “Titanic” parecia que “Avatar” finalmente ganharia a vida. O que atrasou a concretização foi o aprimoramento de uma tecnologia avançada suficiente para criar um ecossistema completo de plantas e animais, no qual um povo nativo com uma rica cultura e linguagem poderia soar verdadeiro.

A responsabilidade era grande para um dos filmes mais aguardados de todos os tempos, e o veredicto foi dado na estréia mundial da superprodução no dia 18 de dezembro de 2009. “Avatar” é uma experiência fantástica, de um visual deslumbrante e jamais visto na história do cinema. A tribo dos Navi´s, criada no sistema de captura de imagens semelhante ao de Gollum do “O Senhor dos Anéis”, imprime realidade absurda aos seres extraterrestres azuis e, quando os coloca interagindo com os humanos comprova sua perfeição.

O mundo criado por James Cameron é um universo impressionante, que mescla elementos gráficos de cair o queixo, como a variedade infinita de criaturas, com a densidade filosófica de crenças de um povo poderoso. O início do filme é justamente para apresentar essa civilização e seus costumes, e aos poucos, vão sendo introduzidas pinceladas da guerra que se anuncia.A longa duração do filme pode cansar o espectador, principalmente, pelos momentos arrastados no meio da produção. De tempos em tempos, as seqüências de ação movimentam a trama e retomam o ritmo acelerado. Essas cenas mais extasiantes remetem tranquilamente a um jogo de videogame e fica fácil imaginar como será o game baseado no longa-metragem.

Por mais que tente transmitir uma mensagem ambientalista e realizar um alerta sobre o futuro da Terra (podendo até gerar releituras para os dias atuais), “Avatar” é por essência um filme de aventura e sua intenção nada mais é do que proporcionar ao público uma experiência cinematográfica envolvente e de encher os olhos. O direcionamento ficou tanto na estética que o roteiro tornou-se apenas um subsídio para poder criar este mundo fantástico. Nesse sentido, precisaria de um leve tratamento no texto para torná-lo mais enxuto, deixando a adrenalina constante e elevando o projeto a um caráter mais poético.

“Avatar” é sem sombra de dúvidas uma evolução dentro das técnicas de efeitos especiais, porém ainda é cedo para considerar o filme revolucionário. Certamente, está longe de ser um novo “2001” ou “Star Wars”, como era a intenção do diretor. O custo de toda essa perfeição é tamanho que vai demorar bons anos para assistirmos uma produção como esta novamente. Por isso, compre seu ingresso e embarque na magia de James Cameron enquanto o filme está em cartaz. É difícil se arrepender.

Nota: 8