Shame


São poucos os filmes que conseguem retratar tão bem um período ou uma época. "Shame" é um filme que aborda sem pudores algumas feridas da sociedade moderna, como a solidão, o individualismo, a busca pelo prazer e os vícios que chegam a provocar vergonha. O diretor e artista plástico Steve McQueen coloca seu ator fetiche, Michael Fassbender, com o qual já havia trabalhado em "Hunger", em um jogo de sexo e sofrimento ao extremo.

Brandon é um executivo de 30 anos que mora sozinho em Nova York e cultiva uma vida secreta. Ele é viciado em sexo. Passa suas horas vagas - e até mesmo no trabalho - em busca de satisfazer sua compulsão. Por ser bonito e bem sucedido, consegue sexo fácil. Ao invés de mostrar essas aventuras eróticas como algo excitante, o filme apresenta como verdadeiramente são: uma doença.

A rotina de Brandon será transformada quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan) decide morar com ele. Essa invasão em um terrotório anteriormente sob seu total controle provocará dois sentimentos contraditórios em Brandon: a intenção de levar uma vida normal, com um relacionamento saudável, e também a vontade de expulsar Sissy e seguir com seu ciclo masoquista.

Lidar com essa obsessão vai acabar levando Brandon ao fundo do poço, em uma procura por sexo cada vez mais degradante. Por vezes, ele tenta uma atitude "normal", como ter um encontro que não seja com uma prostituta ou que termine na cama. Ele sai para jantar com uma colega de trabalho, mas sua condição o impede de realizar tudo conforme os padrões aceitáveis pela sociedade. Não adianta, ele é diferente. Um homem atormentado por demônios que o impedem do convívio social. Nas cenas de sexo quase explícito, é possível observar Brandon em um misto de prazer e sofrimento.

Fassbender desnuda-se, literalmente, para encarar o complexo personagem. Seu desempenho não foi lembrado entre as categorias do Oscar, mas George Clooney fez questão de destacar o "grande" talento do ator durante a cerimônia do Globo de Ouro. Fassbender realizou cenas sem apelação de nudez frontal e de sexo não censurado. Uma atuação viceral que merecia maior reconhecimento.

"Shame" não chega a ser pornográfico, já que suas cenas provocantes são de completa importância para a história. Mesmo com sequências tidas como "quentes", o diretor McQueen realiza um filme de natureza fria e ao mesmo tempo estiloso. Uma fotografia elegante pontua as cenas com tons de azul e branco, comprovando a falta de emoções na vida de Brandon. A trilha sonora empregada nos momentos certos transmite a tensão e o desespero desse personagem que vive sempre no limite. Até mesmo o uso de poucos diálogos contribui para que quando estes apareçam sejam altamente valorizados, principalmente em interessantes conversas entre Brandon e Sissy.

Assim como em "Psicopata Americano", quando este retratou o vazio da geração yuppie dos anos 80, "Shame" consegue definir outra espécie de vazio nos anos 2000. É o peso de um cotidiano sem amor e sem encantos que assola os dias atuais. O sexo, também presente, é visto como algo mecânico. E, mesmo com uma diferente realidade, Nova York permanece como o mesmo pano de fundo, um símbolo da solidão, intensicado de forma brilhante pela canção "New York, New York", em interpretação carregada de emoção pela irmã do protagonista. "Shame" mostra como essa realidade pode ser um martírio.

Nota: 8,4

Para Sempre


Henry (Adam Sandler), em "Como se Fosse a Primeira Vez", precisava reconquistar diariamente a namorada que sofria da falta de memória de curto prazo, doença que faz esquecer fatos que acabaram de acontecer. Comparado à ele, Leo (Channng Tatum), no drama "Para Sempre", tem uma tarefa mais fácil: sua esposa perdeu a memória após um acidente de carro e ele precisa conquistá-la novamente. Como o gênero aqui não é comédia, esse único desafio será complicado o suficiente.

Paige (Rachel McAdams) e Leo viviam uma linda história de amor, porém, por travessura do destino, ela perde a memória dos últimos cinco anos. Paige não lembra que brigou com os pais, abandonou a faculdade de Direito para cursar Artes Visuais e muito menos que casou-se com Leo. Aquele homem agora é um completo desconhecido. O rapaz, então, precisará fazer com que sua esposa se apaixone mais uma vez por ele.

A história apresenta outro impasse interessante. As memórias de Paige são de um período em que ainda vivia na casa dos pais e namorava Jeremy (Scott Speedman). Ela fica dividida entre o passado ainda nítido em sua cabeça e a vida atual que construiu ao lado de Leo, mas que não se recorda. Enquanto ele esforça-se para recuperar o amor perdido, os pais de Paige, interpretados pelos vetaranos Sam Niel e Jessica Lange, pressionam a filha a voltar para casa. Todo drama vivido pelos personagens ganha ainda mais força por ser baseado em uma história real.

"Para Sempre" alterna romance e drama em uma mistura gostosa de assistir. A química entre McAdams e Tatum funciona tão bem que, mesmo sem ela reconhecer o amado, pode-se sentir a conexão entre os dois. O filme é meloso na medida e não exagera nos clichês. Um passatempo perfeito para os românticos, que devem se emocionar com a história desse homem apaixonado que não mede esforços para ter o amor de sua esposa de volta.

Nota: 7,5



Uma Vida Melhor



Vida de imigrante nos Estados Unidos já foi abordada por inúmeros filmes. O que “Uma Vida Melhor” propõe é um olhar sincero sobre essas pessoas que apostam todas suas fichas em uma chance que pode ou não dar certo. Damien Bichir é a alma do projeto como o pai mexicano que busca oportunidades para seu filho adolescente no país vizinho.

A produção de Chris Weitz (de "O Grande Garoto", "Bússola de Ouro", "Lua Nova") é sobre um homem latino de 40 e poucos anos que trabalha como jardineiro nas casas dos ricos de Los Angeles. Ganhando uma mixaria por inúmeras horas de trabalho, ele leva os dias desgastado pela dura rotina. Tudo isso para oferecer condições de que seu filho (José Julián) consiga ir ao colégio e obtenha melhores perspectivas de futuro. Sua possibilidade de mudar de vida vem com a compra de uma caminhonete, transformando-o em um profissional autônomo.

"Uma Vida Melhor" pode ser dividido em dois momentos: o drama inicial sobre o imigrante no país estrangeiro, explorando contrastes sociais e como a terra dos sonhos pode ser cruel, e o thriller que aproxima pai e filho na tentativa de recuperar algo roubado, com cenas de ação alternadas com ternura. Essa mudança na narrativa vem na hora exata. Quando espera-se que o filme se arraste pelos clichês do gênero, injeta-se um gás que o mantém interesse até o final.

A concepção do projeto é simples, mas ganha o espectador com o retrato sensível sobre a figura desse intruso em um lugar que não lhe pertence, potencializado com a relação construída entre os personagens de Bichir e Julián. São momentos delicados como o de uma música conhecida pelos dois ou quando conversam em tom de despedida, já perto do final, que comprovam a sintonia em cena, além de uma emoção genuína.

O principal responsável por essa carga emotiva é Damien Bichir, ator mexicano pouco conhecido que anteriormente só havia obtido destaque na série de televisão “Weeds” e como Fidel Castro nos filmes “Che” e “Che: A Guerrilha”. Sua indicação ao Oscar surpreendeu a todos, tirando a vaga dos cotados Ryan Gosling (“Drive”), Leonardo DiCaprio (“J. Edgar”) e Michael Fassbender (“Shame”). A representação de Bichir é tão poderosa que através de apenas um olhar ele transmite todo desespero de um homem em seu limite. É o papel de sua vida e certamente uma das melhores atuações de 2011.

Nota: 8


A Mulher de Preto e O Despertar



O terror à moda antiga está de volta aos cinemas. Dois longas-metragens lançados este ano apostam numa fórmula que a indústria cinematográfica volta e meia retoma as telas: a da mansão mal-assombrada. Os filmes adentram o universo de casarões isolados, longe da civilização, habitados por fantasmas nada amigáveis. "A Mulher de Preto" e "O Despertar" são exemplos de que uma ambientação assustadora pode provocar mais calafrios do que uma cena de mutilação na linha de "Jogos Mortais".

"A Mulher de Preto" recebeu maior divulgação por ser estrelado pelo astro da saga Harry Potter, Daniel Radcliffe. Ele vive nas telas o advogado viúvo Arthur Kipps, que, em viagem de trabalho, precisa cuidar da documentação de um cliente que morreu em um vilarejo no interior da Inglaterra. Para isso, hospeda-se na casa do falecido, sem esperar que o local é assombrado por uma sinistra criatura.

A tal mansão é o ponto forte do filme. Afastada da cidade e cercada de recifes que são encobertos quando a maré sobe, a casa permanece por diversos momentos como uma ilha, deixando Arthur preso em um terreno pertencente ao sobrenatural. Essa situação confere o clima de terror ideal para trabalhar com tensão constante e sustos cada vez mais intensos. Em uma sequência de deixar os cabelos em pé, o advogado passa cerca de 15 minutos sendo atormentado continuamente pela habitante da casa. Sufoco total.

Por outro lado, "O Despertar" pontua a narrativa com sustos eficientes. Cada aparição do fantasma faz o espectador saltar da poltrona. E não são poucas vezes. A assombração responsável por todo esse nervosismo vive em um internato para meninos na Inglaterra do pós I Guerra Mundial. A escritora e especialista em desvendar fenômenos paranormais, Florence Cathcart (Rebecca Hall), é chamada por um dos funcionários da escola para investigar o espírito de uma criança que ronda o casarão.

Mais uma vez a ambientação soturna é a chave do bom funcionamento da produção. A casa gigantesca e distante de qualquer princípio de contato humano ganha tons assustadores quando as crianças deixam o local para passar as férias com suas famílias. A história, então, passa a utilizar mais e mais os ambientes mergulhados na escuridão, a fim de colocar à prova o ceticismo da protagonista perante fatos sem explicação científica. Um exemplo é a desesperadora cena da casa das bonecas.

Bebendo na fonte de filmes com "Os Outros" e "O Orfanato", os novos projetos utilizam como figura central imponentes casas vitorianas. Além disso, por se ambientar por volta de 1920, as cenas ocorrem muitas vezes à luz de velas, o que aumenta a tensão na tela. Toda essa atmosfera pesada contribui para uma narrativa lenta, mas bem construída por ambos roteiros.

O que deixa a desejar é a forma como as duas histórias se encerram. São explicações fajutas para mistérios tão bem elaborados e desenvolvidos. O clima de suspense e as boas atuações (Radcliffe e Hall dedicados) quase são deixadas de lado perante a derrapada na conclusão. Mas, o que fica ao final é o gênero do terror recebendo maiores cuidados, sem apelar para sanguinolência ou sustos fáceis. "A Mulher de Preto" e "O Despertar" são entretenimentos arrepiantes e de qualidade.

"A Mulher de Preto" - nota: 7,0
"O Despertar" - nota: 7,5

Um Método Perigoso


Dois dos principais mestres da ciência moderna foram amigos durante anos, parceiros em longas discussões teóricas, inclusive trocando confidências íntimas a fim de contribuir com seus estudos. Esse diálogo se rompe quando uma paciente tratada por ambos coloca tudo a perder. Mostrar essa curiosa relação e principalmente o marco da rivalidade entre Jung e Freud é o trunfo do novo filme do diretor David Cronenberg, “Um Método Perigoso”. O longa-metragem coloca três astros do cinema atual em um jogo de desejo e manipulação que acabou definindo os rumos da psicanálise.

Para interpretar os gigantes da mente humana, Michael Fassbender, ator sensação de uma das melhores safras de 2011 ("Jane Eyre", "X-Men: Primeira Classe", "Shame"), e Viggo Mortensen, fetiche do diretor desde "Marcas da Violência" e "Senhores do Crime", interpretam respectivamente Jung e Freud. A reunião deles ocorre no momento em que o primeiro está iniciando seu projeto de “cura através de conversas” e o segundo está começando a ganhar notoriedade internacional. A empatia entre ambos é imediata. A primeira conversa dura nada menos que 13 horas.

Surgem, então, as divergências. Freud defende que toda neurose é exclusivamente de origem sexual, enquanto Jung acredita que a sexualidade é apenas um dos motivos a ser considerado. Essa oposição fará futuramente que um desenvolva a psicanálise e o outro a psicologia analítica. Até lá, Jung será testado em resistir, primeiramente, aos conselhos do perigoso paciente Otto Gross, interpretado pelo francês Vicent Cassel, que condena a monogamia, afirmando que não se deve negar aos instintos básicos do ser humano. E depois, em um segundo momento, quando subumbe aos encantos de Sabina Spielrein (Kiera Knightley), uma paciente viciada em humilhações, através da qual o psiquiatra precisará avaliar sua ética profissional e moralidade social.

O Freud descrito pelo roteiro é um ser manipulador, que brinca com Jung enquanto este lhe é útil. Fica subentendido que o médico enviou propositadamente o paciente Otto para provocar Jung. Na busca para provar que está com a razão, Freud levará o "amigo" a corromper todos seus valores. No meio deste jogo, Sabina destaca-se por receber tratamento inicialmente de Jung e depois de Freud, contribuindo para o rompimento da relação entre ambos.

Concentrando todas essa nuances, Cronenberg realiza um filme no formato clássico, linear e sem riscos - diferente dos violentos "Marca da Violência" e "Senhores do Crime" ou dos complexos "Existenz" e "Spider - Desafie Sua Mente". O roteiro do dramaturgo inglês Christopher Hampton, o mesmo de "Ligações Perigosas", contribui ao adicionar tensão sexual em cada cena. Porém, tanto falatório sobre sexo não acaba se concretizando visualmente. Prefere deixar na sugestão, que, por sinal, resulta em uma boa escolha.

"Um Método Perigoso" traça um rápido perfil sobre Jung e Freud, deixando registrado os encontros e a separação da dupla. O papel de Kiera muitas vezes rouba a cena, mas sua interpretação exagerada beira o artificial. Já Fassbender e Mortensen demonstram confiança em seus personagens e fazem valer a reunião esses dois grandes nomes da Psicologia.

Nota: 7,9

Medianeras


Uma boa surpresa chega do cinema argentino. O filme "Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual" mostra dois jovens solitários, vizinhos de prédio, aparentemente tão próximos, porém, separados por uma grande metrópole. Ambos vivem trancafiados em seus apartamentos; presos em espaços minúsculos, de apenas uma janela e isolados do que acontece fora de suas zonas de conforto. Frustrações e expectativas de vida são desenhadas pelos personagens durante o filme, tornando o retrato desses jovens adultos tão fiel à realidade.

Martin mal sai de casa. É criador de sites e passa horas em frente ao computador. Suas interações com outras pessoas são, praticamente, mediadas pelo virtual. Após alguns ataques de pânico, seu médico recomenda caminhar pela cidade e fotografar o que achar interessante. Uma receita para aliviar o estresse e também para conviver além do seu universo de quatro paredes.

No prédio ao lado, mora Mariana, arquiteta que não conseguiu tirar uma de suas plantas do papel. Em compensação, trabalha como decoradora de vitrines de lojas. Ela recém terminou um relacionamento de quatro anos e está se adaptando a viver sozinha em seu antigo apartamento. Possui claustrofobia e sobe e desce diariamente oito andares de escada. Os dois formam um casal de personalidades e gostos similares que ainda não se conhece.

Como pano de fundo, temos Buenos Aires como uma cidade esmagadora, formada por uma infinidade de prédios de diversos tamanhos e formatos, habitados por pessoas cada vez mais individualistas e, consequentemente, sozinhas. Aquela imagem de capital turística e cultural não aparece em cena, oferecendo a oportunidade de representar qualquer outra metrópole mundial. A tal “medianeira” do título refere-se ao lado cego dos prédios, sem janelas, geralmente utilizado para propagandas. É assim como os personagens se sentem perante o mundo: uma pequena parte aprisionada.

As duas histórias correm em paralelo, ameaçando uma fusão que pode ou não ocorrer ao final. Nesse caminho, Martin mostra-se um personagem bem mais interessante. Ele procura alternativas de movimentar sua vida, chega a conhecer algumas garotas; enquanto Mariana sucumbe à depressão e permanece em um pseudo-luto.

O uso excessivo de narrações deixa à mostra sua origem em curta-metragem. O diretor Gustavo Taretto ganhou diversos prêmios em 2005 com a primeira versão. Agora, ao extendê-la, acaba se alongando demais em certos momentos e diminui o ritmo, mas em outros consegue criar fusões inteligentes que conectam a vida desses dois protagonistas de maneira criativa. E é nesse câmbio de informações que "Medianeras" captura com sensibilidade o que é morar em uma metrópole, sendo sempre verdadeiro com os Martins e as Marianas que existem por aí.

Nota: 8

Jovens Adultos

O diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody, a dupla responsável pelo sucesso indie "Juno", voltam a trabalhar juntos na comédia de humor negro "Jovens Adultos". Se o resultado do primeiro foi surpreendentemente positivo – levou o Oscar de Melhor Roteiro Original –, desta vez a parceira soa um pouco desconexa. Embora, não deixe de ser um filme de momentos interessantes.

"Jovens Adultos" é sobre Mavis Gary (Charlize Theron), uma escritora/roteirista que atua como "ghost writer" de uma série de livros infantis. Quando a saga é cancelada, ela decide voltar para sua cidade natal, onde era a garota mais popular da escola, e tentar reconquistar seu ex-namorado que atualmente está casado e recém ganhou um filho.

O filme recheado de ironias e cinismos mostra o trágico retrato de uma ex-rainha de baile de escola americana. Mavis é amarga, malvada, alcoólatra e, acima de tudo, egoísta. Por ser bela e popular, desenvolveu uma superioridade que não se sustenta mais. Ela é uma pessoa problemática, insatisfeita com a vida, justamente porque esta não se transformou em um conto de fadas.

Charlize tem em Mavis uma de suas melhores interpretações. Abandona o glamour e encara uma personagem difícil. Sua indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz – Comédia ou Musical foi mais que merecida. As melhores cenas da controversa escritora são com Matt, um nerd que ela zombava na escola. Também no elenco, como par romântico, o competente Patrick Wilson.

O principal mérito do roteiro de Diablo Cody é não trair seus personagens. Mavis não tem uma redenção por suas atitudes. Ela está buscando a sua felicidade, independente de qual maneira, e, por mais que ela procure mudar, vai seguir cometendo erros. Em compensação, o que falta em "Jovens Adultos" é mais relevância. Por vezes, esse discurso absurdo da protagonista chega a soar vazio.

Com um roteiro levemente frágil, a direção tenta compensar com tomadas divertidas, como a abertura com rock´n´roll e imagens de uma fita cassete. Jason tenta explorar a história, mas sem sucesso. O lamento, ao final, é de que o cineasta chegou ao topo com "Amor Sem Escalas" e depois caiu com este exemplar aqui. A dupla que se encontrou tão bem em "Juno" não correspondeu à altura dessa vez.

Nota: 7

O Preço do Amanhã

Chegar aos 25 anos e parar de envelhecer. Um desejo de praticamente todos mortais. Com essa premissa, “O Preço do Amanhã” apresenta um futuro em que a moeda é o tempo. Os humanos ao atingirem essa idade possuem apenas mais um ano de vida - a menos que paguem pelo tempo extra. A idéia remete aos contos de Phillip K. Dick (autor de “Minority Report”, “O Homem Duplo”, “O Vingador do Futuro”, dentre outras ficções científicas), o que é um bom sinal, mas perde o rumo quando vira um filme de ação descerebrado.

Justin Timberlake, que pelo jeito abandonou a carreira de cantor, interpreta Will Saalas, um típico funcionário do sistema até receber uma doação que lhe permite viver por um século. Acusado de matar para conseguir essa quantia, ele é perseguido pelos “guardiões do tempo”, a polícia do futuro. Na perseguição, sequestra a filha de um magnata (Amanda Seyfreid) e, juntos, tentarão mudar a realidade injusta.

Após construir com cuidado o primeiro ato, o diretor Andrew Niccol ("O Senhor das Armas") larga de mão a narrativa para investir nas cenas de fuga. O que resta da história nesse momento é a transformação do protagonista em um Robin Hood moderno. O potencial de uma ficção científica inteligente e de presença é desperdiçado em um acúmulo de cenas de explosão, deixando claro a intenção de ser uma peça de puro entretenimento.

Se o desenvolvimento seguisse na parte que deu mais certo, “O Preço do Amanhã” poderia se equivaler às adaptações de Phillip K. Dick para o cinema. Do jeito que termina, o filme demonstra ser uma criação completa de Niccol (também autor do roteiro), com uma idéia criativa apenas para alavancar um projeto de ação.

No meio da correria, a química entre Timberlake e Seyfreid não chega a pegar fogo. Enquanto ele está mais uma vez ótimo no personagem, ela permanece o filme todo com uma expressão blasé. Se a dupla não funciona tão bem junta é porque interage justamente nesta segunda parte pouco inspirada. Apesar da caída perto do final, “O Preço do Amanhã” ainda consegue se safar como uma aventura futurística interessante e em parte original.

Nota: 7

Gainsbourg


A figura de Serge Gainsbourg por si só é fascinante. Ele era um boêmio irrecuperável, viciado em cigarros, bebidas e mulheres. Apesar de feio, atraia as amantes mais lindas, inclusive a belíssima atriz Brigitte Bardot. Durante sua trajetória colecionou escândalos e compôs músicas para inúmeros artistas. Em 2010, o cantor ganhou uma cinebiografia a fim de capturar a história de sua vida desde a infância durante a guerra até sua morte em 1991. Infelizmente, o filme tem um roteiro relapso e não faz jus a um dos maiores nomes da música francesa.

O roteiro de “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” é o principal culpado desse infeliz resultado. Tem como linha condutora a aparição de certos “fantoches humanos” que conversam com o protagonista, geralmente uma versão dele próprio representada por um ser com orelhas, mãos e nariz gigantes. A utilização desses “bonecos” não deixa de ser um artifício preguiçoso para expressar os sentimentos do personagem principal. São cenas que diminuem e enfraquecem a obra. Além disso, a narrativa é tão mal desenvolvida que atropela constantemente acontecimentos importantes e se estende em bobagens, como essas criaturas.

O problema da trama contamina até mesmo a atuação de Eric Elmosnino. Por mais que tente, o ator não consegue transmitir uma verve ao nível do ídolo da música, principalmente porque o roteiro estraga por inteiro o crescimento do personagem. Assim, o Gainsbourg não é nem ao menos carismático. “O Homem Que Amava as Mulheres” apenas ganha uma sobrevida quando aparece em cena Laetitia Casta como Brigette Bardot. Mas, com a saída dela de cena, o longa volta ao seu completo desastre.

Nota: 2

Melhores Filmes de 2011

O Blog CinemaX escolheu os cinco melhores filmes lançados em 2011 - todos imperdíveis, é claro. De diretores consagrados, como Allen e Almodóvar, passando por filmes cult e crítica política produzida por Hollywood, até uma comédia romântica deliciosa. Ao final, alguns destaques do ano que mercem a sua locação e, também, aqueles que você deve evitar. Anote as dicas e uma boa sessão de cinema!

1°) MEIA-NOITE EM PARIS



Subestimado na última década, o gênio Woody Allen entregou uma obra-prima para calar a boca de todos que duvidavam do seu retorno ao topo. Se filmes brilhantes, como “Match Point”, “Vicky Cristina Barcelona” e “Tudo Pode Dar Certo”, não chegaram a convencer parcela do público e crítica, “Meia-noite em Paris” foi implacável em arrecadar elogios. Recebeu 12 prêmios, incluindo Melhor Roteiro no Oscar e Globo de Ouro, e tornou-se uma das maiores bilheterias do diretor. A trama sobre um escritor fracassado que “viaja no tempo” para uma Paris dos anos 20, de encontros com grandes artistas do passado, encantou gerações saudosistas.

2°) A PELE QUE HABITO


Quando Almodóvar anunciou que seu próximo filme seria baseado em um livro de terror, a possibilidade de que errasse a mão era grande. Ao fugir de sua zona de conforto, um thriller não parecia um terreno confiável a se aventurar. Ao contrário do que aparentava, o diretor imprimiu seu gosto pelo melodrama na adaptação dessa surpreendente história e transformou “A Pele Que Habito” em um de seus filmes obrigatórios. Polêmico, belo e chocante, é Almodóvar em grande estilo – apenas mais tenso que o habitual.

3°) AMORES IMAGINÁRIOS


Xavier Dolan é invejado por qualquer aspirante a cineasta. O ator e diretor canadense lançou seu primeiro longa-metragem, “Eu Matei a Minha Mãe”, com apenas 20 anos. O filme levou 27 prêmios mundo à fora. Um ano depois, filmou “Amores Imaginários”, uma pequena obra-prima, de uma beleza estética absurda, respirando o significado de “cool” em cada frame. A trama é um pouco batida, sobre dois jovens – um homem e uma mulher – disputando o amor de um rapaz. Mesmo assim, é puro deleite apreciar cada vez que toca em cena a interpretação de Dalila para o clássico “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”.

4°) TUDO PELO PODER


O drama político “Tudo Pelo Poder” foi esquecido pelo Oscar, provavelmente por não ser tão pró-Estados Unidos, mas merece devido destaque entre os melhores do ano. Filmes com forte teor político tendem a ser chatos para o grande público - geralmente leigo no assunto -, mas este aqui empolga desde o início, sem criar um nó na cabeça do espectador. Dirigido e estrelado por George Clooney, o longa aprofunda-se nos podres de uma campanha eleitoral. Conta ainda com um elenco repleto de astros, alavancado pelo ator do momento, Ryan Gosling (ótimo). “Tudo Pelo Poder” é, acima de tudo, poderoso.

5°) AMIZADE COLORIDA


“Amizade Colorida” estar entre os cinco melhores pode ser uma surpresa para muitos. Porém, o motivo é que esta é a melhor comédia romântica produzida por Hollywood em anos. Os diálogos inteligentes e a química da dupla protagonista criam a empatia imediata. A trama não aposta em clichês e procura se reinventar, criar referências e ser atual ao mesmo tempo. É diversão de qualidade pouco assistida nas telas.

Destaques: Guerreiro, Drive, 50%, Missão Madrinha de Casamento, Hanna, Uma Noite Mais Que Louca, Um Novo Despertar, Cavalo de Guerra, O Homem Que Mudou o Jogo

Piores do ano: Hesher, Amor, Felicidade ou Casamento, Quero Matar Meu Chefe, Se Beber, Não Case – Parte II, Um Dia

Sete Dias com Marilyn


Juntamente com “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”, o biográfico “Sete Dias com Marilyn” é mais um concorrente do Oscar 2012 que aborda o cinema do passado. Desta vez, não chega a ser uma homenagem, mas funciona como um retrato de uma estrela problemática no auge de sua carreira. Michelle Williams, que não é nada parecida com a atriz, convence como uma Marilyn frágil, deslumbrante, insegura, encantadora e de um talento natural para os filmes.

A história de “Sete Dias com Marilyn” é baseada no livro de Colin Clark, um dos personagens do filme. Na época, ele era um jovem de 24 anos que consegue a oportunidade de trabalhar como terceiro assistente de produção em um projeto no qual Marilyn é a atriz principal. O que seria uma experiência profissional, termina como uma catarse de sentimentos, já que, ao contrário do esperado, o rapaz acaba se envolvendo com uma das maiores estrelas do mundo .

O longa-metragem de Simon Curtis, diretor conhecido por filmes britânicos, acompanha principalmente os bastidores da produção. Apenas peca por um recheio levemente cansativo, mas inicia e arremata sua obra com precisão. Além dos elogios a Michille Williams e suas caras e bocas idênticas à Marilyn, o elenco de apoio também é excepcional: Kenneth Branagh, Judi Dench, Julia Ormond, Toby Jones, Dominic Cooper e Emma Watson – sem falar em Eddie Redmayne, que demonstra amadurecimento na sua atuação como o protagonista apaixonado.

Nota: 7,7

A Invenção de Hugo Cabret


Difícil imaginar Martin Scorsese à frente de uma adaptação infanto-juvenil. As dúvidas sobre qual seria a contribuição do diretor famoso por seus filmes violentos ao universo das crianças pipocavam até o lançamento do novo projeto. E de forma positiva, Scorsese correspondeu com um comando interessante, valorizando o tom de fábula da história e apostando em uma direção de arte impecável, que lembra a atmosfera dos contos natalinos. O único entrave de “A Invenção de Hugo Cabret” é toda parte que não realiza uma homenagem ao cinema.

O filme pode ser dividido em dois atos ou duas tramas. Temos a narrativa principal sobre um órfão que mora em uma estação de trem em Paris e tenta desvendar um mistério deixado por seu pai; e, em paralelo, temos a história verídica do cineasta Geórge Méliès. Enquanto a primeira é uma trama bonitinha, mas banal, a segunda é tão poderosa que praticamente carrega o filme nas costas.

As duas tramas ao invés de encontrarem uma sintonia acabam por rivalizar, deixando visível o abismo existente entre elas. Parecem dois filmes separados. A primeira hora de duração foca-se na história do garoto, por isso é tão tediosa. Quando inicia o relato sobre Méliès, o filme ganha um novo fôlego e melhora consideravelmente. Esse novo contexto faz referência a uma série de produções do início do cinema e ainda recria de forma fascinante os sets do clássico “Viagem à Lua”.

“A Invenção de Hugo Cabret” não chega a ser um filme para crianças. Pode até ser assistido e desfrutado por elas, mas guarda em seu segundo momento a essência do projeto: uma homenagem à sétima arte deliciada principalmente pelos adultos. E nesse conjunto ainda introduz um discurso importante sobre a preservação das obras cinematográficas. Embora esteticamente perfeito e com uma trama geral bonitinha, o filme deixa aquele gosto de que poderia ter sido bem mais proveitoso se o foco desde o início tivesse naquele que enxergou potencial nos filmes. “Hugo”, em seu melhor, é uma exaltação ao homem que transformou o que era documental em fantasia! Viva Méliès!

Nota: 7,9

O Abrigo


Curtis é um homem comum. Trabalha para uma empresa de extração de areia em uma cidade do interior de Ohio. Tem uma bela esposa e uma filha com problemas de audição. A vida pacata começa a apresentar tons de mudança quando ele começa a ter sonhos cada vez mais perturbadores. Como se isso não bastasse, Curtis passa a acreditar que uma tempestade de proporções gigantes está se aproximando e, para se prevenir, decide reativar o abrigo de sua casa. Estaria ele ficando louco ou suas previsões de um final apocalíptico irão se confirmar? Com essa pergunta inquietante sobre o que acontece na tela, “O Abrigo” conduz sua curiosa história até um desfecho de muitos significados.

O diretor Jeff Nichols, que também assina o roteiro, imprime um ritmo lento para esse thriller psicológico independente. Sua narrativa bem construída aprofunda as relações de Curtis com a família e o trabalho, ao mesmo tempo que demonstra sua obsessão com a construção do espaço subterrâneo no quintal. As boas atuações do casal principal, Michael Shannon e Jessica Chastain, contribuem com a situação ao qual o casal será exposto. Dessa forma, intrigante e coeso, “O Abrigo” termina como um filme bastante interessante sobre um homem atormentado.

Nota: 7


Interpretação quanto ao final de “O Abrigo”: Se você não quer saber spoilers, não leia a seguir. São muitas versões sobre o final do filme, mas minha interpretação descarta qualquer cunho apocalíptico da trama. Considero verdadeiro apenas o suporte psicológico. A começar com Curtis apresentando os primeiros sinais da esquizofrenia. São ilusões e alucinações, personificadas pela tal tempestade gigante. Ela nada mais é que a representação de sua doença. Para fugir dela, ele constrói um abrigo, tendo-o como um lugar seguro, longe da loucura. Quando ele sai do abrigo, após ficar horas com sua esposa e filha lá dentro, Curtis acredita estar curado. Assim como sua esposa faz esforços para ele superar a doença e acredita que ele conseguiu. Mas, o decreto vem mesmo do médico, que aconselha tratamento exclusivo devido a gravidade da situação. Antes de ingressar nesse processo, ele vai com a família para praia. E é justamente aí que vem uma tempestade forte. E ele não tem o seu abrigo. Isso significa que a doença veio para ficar, é real e ele vai ter que enfrentá-la de qualquer jeito.

Tão Forte e Tão Perto


A indicação de “Tão Forte e Tão Perto” como Melhor Filme no Oscar só pode ser resultado do amor da Academia pelo diretor Stephen Daldry. Todos os seus filmes (“Billy Elliot”, “As Horas” e “O Leitor”) foram indicados na categoria. Todos merecidamente, é claro. Com exceção deste último. “Tão Forte e Tão Perto” é de longe o pior filme do cineasta, não tanto pela direção pouco inspirada desta vez, mas principalmente por um roteiro absurdamente irregular.

O filme conta a história de um garoto de 11 anos, Oskar (Thomas Horn, precisando de umas aulas de atuação), que perde o pai no atentado de 11 de setembro. Sua única motivação é uma misteriosa chave encontrada nos pertences do falecido. O menino é o protagonista do filme, está em cena praticamente 90% do tempo. Porém, seu personagem é irritante. Tem atitudes infantis demais, não possui carisma e por muitos momentos esquece da sua síndrome de Asperger e pega tranquilamente um metrô ou passa por uma porta eletrônica sem problemas . Fora que para um rapaz tímido e com problemas de comunicação, ele não cala a boca um segundo.

As visitas de Oskar aos possíveis detentores da fechadura aberta pela chave são passadas na tela sem emoção alguma. São pouco aproveitadas pela história. Ao invés de fazer uma visão geral sobre o sofrimento do mundo, como chega a insinuar em um diálogo da mãe (Sandra Bullock, tentando ser atriz séria) no final, o roteiro opta por explorar mensagens em uma secretária eletrônica ou o fato do vizinho poder ser avó do garoto. Ambas situações sem tanto propósito com a trama. Até mesmo o fato da morte do pai ocorrer durante um ataque terrorista não apresenta um motivo significativo ou que contribua ao contexto narrativo.

Assim, inconstante e sem uma linha condutora forte, o novo filme de Stephen Daldry naufraga em intenções. Por ser adaptação de um livro, talvez o original consiga nas páginas suprir o que na tela ficou tão irregular. Mesmo com pequenas (e inspiradas) participações de Viola Davis e Max Von Sydon, o filme não decola. Ganha certo fôlego somente nos 10 minutos finais. “Tão Forte e Tão Perto” soa como uma tentativa infeliz de levar o público às lágrimas.

Nota: 4

Oscar 2012: uma análise

Um olhar nostálgico ao passado deu o tom da 84ª cerimônia do Academy Awards, ocorrida neste domingo, no Kodak Theatre, em Los Angeles. A noite do maior prêmio do cinema foi marcada por homenagens à sétima arte, principalmente à era de ouro de Hollywood, nas décadas de 1930 e 1940. Tudo bem no clima dos dois favoritos, “A Invenção de Hugo Cabret”, de Martin Scorsese, e “O Artista”, do francês Michael Hazanavicius. Este último consagrou-se com cinco prêmios: Figurino, Trilha Sonora Original, Diretor, Ator e Filme.

A cerimônia desta vez teve um tema bem definido, visível todo tempo nos cenários em estilo retrô. Os vídeos com depoimentos de astros sobre seus filmes favoritos também contribuíram para uma noite de repleta de lembranças. Sem falar na impactante performance do Cirque Du Soleil em referência ao cinema como um grande espetáculo para as massas.

Depois de anos, o comediante Billy Crystal voltou a apresentar o Oscar – pela sexta vez - e saiu-se bem melhor que os simpáticos, porém não convincentes, James Franco e Anne Hathaway, na edição anterior. Crystal fez boas piadas e soube conduzir a premiação sem apelar. E, por incrível que possa parecer, as três horas não chegaram a cansar. A entrega dos prêmios foi a mais rápida dos últimos anos.

O ponto alto da noite ocorreu com a vitória da veterana Meryl Streep, que levou seu terceiro Oscar pelo desempenho no filme “A Dama de Ferro”. A atriz ganhou dois prêmios no início da carreira por “A Escolha de Sofia” e “Kramer x Kramer” e passou mais de 30 anos acumulando indicações, esta era a sua 17ª. Outro tido com injustiçado pela Academia, o diretor Woody Allen, venceu em Roteiro Original por “Meia-noite em Paris”, mas não compareceu na cerimônia.

A maior barbada da noite foi “A Separação”, filme iraniano vencedor de praticamente todos os prêmios em festivais, levar como Melhor Filme Estrangeiro. Se por um lado esta batalha foi fácil, por outro, o Brasil mais uma vez deixou sua estatueta escapar. Mesmo com 50% de chance, já que disputava apenas com um concorrente no prêmio de Melhor Canção Original, deixou a música do filme “Rio”, de Sergio Mendes e Carlinhos Brown, perder para a música e letra de Bret McKenzie em “Os Muppets – O Filme”. Quem sabe na próxima.

As 11 indicações de “A Invenção de Hugo Cabret” resultaram em cinco estatuetas: Direção de Arte, Efeitos visuais, Edição de Som, Mixagem de Som e Fotografia. O restante foi abocanhado pelo grande vencedor da cerimônia, “O Artista”, um filme sem diálogos e em preto e branco que retrata a transição do cinema mudo para o falado, prestando uma homenagem a Hollywood de antigamente. Bem semelhante ao clássico “Cantando na Chuva”, porém com a vantagem de resgatar essa época dourada no momento que o cinema atual está cada vez mais distante da inocência e das boas idéias daquele formato inicial.

Prejudicado pela onda do “Artista”, George Clooney, em uma de suas melhores interpretações em “Os Descendentes” perdeu o Oscar para o protagonista do filme francês, Jean Dujardin. Agora o estrangeiro terá que mostrar, assim como seu personagem, se consegue emplacar na indústria do cinema falado. “Os Descendentes” levou apenas o prêmio de Roteiro Adaptado. Mais uma injustiça quando se tinha o drama político “Tudo Pelo Poder” na disputa.

No ramo dos coadjuvantes, Octávia Spencer confirmou o favoritismo por sua atuação em “Histórias Cruzadas” e Christopher Plummer tornou-se o ator mais velho a ganhar um Oscar pelo filme “Toda Forma de Amor”. Ambos foram os protagonistas dos discursos mais emocionantes da noite. Emoção faltou em “A Árvore da Vida”, “Cavalo de Guerra” e “O Homem Que Mudou o Jogo”, todos com uma série de indicações, mas ignorados na premiação.


A cerimônia foi mesmo do saudosismo aos astros do passado, desde John Gilert a Gene Kelly, e até mesmo de um dos fundadores do cinema, Georges Méliès – vide “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”. Com essa linha de pensamento anunciada em cada ato, o Academy Awards neste ano confirmou sua predileção por aqueles que valorizaram a magia da sétima arte.

Carnage

Roman Polanski já havia se aventurados por muitos gêneros do cinema, mas um ainda faltava para completar seu talento multifacetado na direção: a comédia. Embora "Carnage", seu mais recente filme, não seja um entretenimento de fazer o espectador dar gargalhadas, a produção cumpre seu papel com um belo exemplar do gênero ao criar situações cômicas entre dois casais de classe média/alta, que retratam a atual sociedade ocidental.

A narrativa se passa em apenas uma locação: o apartamento de Penelope (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), cujo filho brigou com um colega de classe e teve dois dentes quebrados. Os pais do agressor, Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz), encontram-se com os pais da "vítima" para conversar sobre como lidar com a situação. A reunião aos poucos foge do controle, transitando do civilizado para a baixaria.

Os personagens passam por uma catarse durante o processo, revelando suas intimidades e visões de mundo. Os posicionamentos ganham mais intensidade pelo elenco afiadíssimo, com atuações no timing perfeito do time feminino, principalmente, de Jodie Foster. Aliás, as duas protagonistas foram indicadas ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Comédia ou Musical.

O estilo e até mesmo o desenrolar da história, construído praticamente no diálogo, assemelha-se muito ao clássico "Quem Tem Medo de Virginia Wolf?" (1966), de Mike Nichols. Porém, Polanski imprime uma identidade própria ao seu projeto, através de tons mais urbanos e realistas, com uma crítica à sociedade norte-americana (país que baniu sua entrada) e também fazendo com que o público possa rir de si mesmo. O diretor apenas não conseguiu fugir da estrutura teatral - o que seria muito difícil nesta adaptação da peça de Yasmina Reza, mas mesmo assim saiu-se muito bem em mais um gênero cinematográfico.

Nota: 8

Like Crazy


Qualquer encanto que “Like Crazy” possa provocar deve-se consideravelmente a Felicity Jones. A atriz de 28 anos está hipnotizante como Anna, uma estudante britânica de passagem pelos Estados Unidos que se apaixona por seu colega de faculdade. É ela que traz emoção e autenticidade a um amor que, em um segundo momento, deverá sobreviver à distância: Anna é banida do país porque não renovou seu visto.

“Like Crazy” explora o relacionamento de um jovem casal com um olhar romântico e intenso, valorizando momentos íntimos que são essenciais para desenvolver a intimidade dessas duas pessoas que acabaram de se conhecer e, seja pelo destino ou não, terminam se apaixonando. Enquanto Feliciy confere toda essa paixão ao projeto, o seu par, Anton Yelchin, em alta por filmes como “Star Trek”, “Um Novo Despertar” e “A Hora do Espanto”, não demonstra tanto envolvimento com o personagem e fica no campo da apatia.

Contornando esse detalhe, o diretor Drake Doremus confere um ponto de vista quase documental para a história, como se uma câmera estivesse escondida gravando um acontecimento real. Porém, se por vezes o cineasta investe na simplicidade, o que deixa o ritmo lento, por outras, utiliza truques para não deixar o interesse diminuir, como passagens de tempo em cortes acelerados. É o caso da bela sequencia dos vários dias em que o casal não sai da cama.

Essa jogada com a trama de certa maneira funciona e até confere uma personalidade ao projeto. “Like Crazy” torna-se uma mistura de romance adolescente com drama alternativo. O ponto negativo disso tudo é que seu desenrolar vem a ser cansativo e não atinge com tanta força a mensagem final que busca transmitir. O fôlego apresentado no início fica mais escasso quando aproxima-se do encerramento. Mas, isso não chega a ser um problema para o trabalho de Doremus e, principalmente, de sua musa Felicity Jones, que, mesmo com essa suposta decaída, consegue até o último segundo deixar o espectador vidrado na tela. Like crazy.

Nota: 7,5

Ganhar ou Ganhar - A Vida é Um Jogo

Paul Giamatti é o cara mais chato do planeta. Disso não há dúvidas. Salvo “Anti Herói Americano” e “Sideways”, em que ele ainda era “fresh” no mercado, os seus filmes são tão apáticos como ele. Basta assistir “A Dama da Água”, “Almas à Venda”, “A Minha Versão do Amor” e este “Ganhar ou Ganhar – A Vida é Um Jogo”.

Para não variar nem um pouco, Giamatti interpreta o mesmo personagem de sempre: um homem fracassado e sem esperanças. Dessa vez, ele é Mike Flaherty, um advogado que vê seus clientes diminuírem semanalmente e, para não entrar no vermelho, solicita ser tutor de um vizinho com problemas mentais. Ao invés de deixar o velho em sua própria casa, despacha- o para um asilo. Em seguida, o neto, um rapaz de uns 15 anos, vem procurar auxílio com o avó depois que sua mãe é internada em uma clínica de reabilitação.

A partir desse momento, o filme ganha fôlego. O garoto é amparado pelo advogado e sua esposa Jackie (Amy Ryan) e revela-se um promissor lutador de wrestling, motivando a equipe do colégio onde Mike tira um ganho extra como treinador. E, assim, quando a narrativa parece estar tomando um rumo interessante, surge a mãe do jovem para complicar a situação e tornar tudo banal.

“Ganhar ou Ganhar” encerra sem chegar a lugar algum. Fica bem longe desenvolver uma mensagem válida sobre o jogo da vida. Pior que isso, não apresenta nada de novo para o gênero drama/indie/alternativo. O que o filme tem de bom é a presença de Amy Ryan, que, apesar de ter sido indicada ao Oscar por “Medo da Verdade, ainda não ganhou um papel à sua altura. As melhores cenas são dela com o garoto.

Nota: 5,5

30 Minutos ou Menos

Depois de “Zumbilândia” emplacar como uma comédia divertida e inteligente no universo dos filmes de zumbi, o novato diretor Ruben Fleischer apostou em uma trama curiosa para o seu próximo projeto: filhinho de papai e seu amigo seqüestram um entregador de pizza, colocam na vítima um colete explosivo e mandam o garoto roubar um banco. Se ele não conseguir a grana em dez horas, a dupla aciona a bomba.

O “pizza boy” é Jesse Eisenberg, que trabalhou com o cineasta em “Zumbilândia” e recentemente foi indicado ao Oscar por “A Rede Social”. Ele tem como melhor amigo Chet, interpretado por Aziz Ansari, que segue no automático tal qual seu hilariante Tom Haverford de “Parks and Recreation”. Os dois até possuem certa química como parceiros, mas os personagens são unidimensionais e não despertam a esperada torcida do público.

O argumento interessante que chama a atenção no início não sustenta o filme por completo. As piadas raramente funcionam e o emaranhado da trama (à todo momento alguém está em vantagem) torna-se cansativo já nos 50 minutos de duração – e olha que são apenas 83 minutos ao todo. Sem risos e uma ação capenga, “30 Minutos ou Menos” não engrena como deveria e termina como um filme apenas “ok”.

Nota: 6,5

Sucker Punch - Mundo Surreal


Reunir uma porção de referências à cultura pop, às vezes, pode dar certo, vide os filmes de Quentin Tarantino e Robert Rodrigues, porém, em outros casos o resultado pode repercutir de forma insatisfatória, como uma junção bagunçada e sem sentido, conforme o que aconteceu com o ambicioso projeto de Richard Kelly, “Southland Tales – O Fim do Mundo”. Em “Sucker Punch – Mundo Surreal”, o diretor Zack Snyder consegue ficar no meio termo. Mistura samurais, dançarinas de cabaré, robôs e um dragão medieval com destreza, mas, por outro lado, peca em um terceiro ato cansativo e com encerramento simplório.

O caldeirão pop de Snyder tem um motivo. “Sucker Punch” é um projeto pessoal. Depois de remakes (“Madrugada dos Mortos”) e adaptações de quadrinhos (“300”,“Watchmen”) e livros (“A Lenda dos Guardiões”), o cineasta optou por embarcar em uma história integralmente de sua autoria. Essa viagem inicia com a jovem Babydoll, que após a morte da mãe, passa a ser assediada pelo padrasto e, em uma das investidas dele, termina acidentalmente matando a irmã. O padrasto convence a polícia de que a menina enlouqueceu e a mandam para um hospício fazer uma lobotomia. Até a chegada do médico responsável pelo procedimento, que deve ser em cinco dias, ela cria um universo fantasioso para sobreviver aos horrores do local.

Nesta nova realidade, Baby Doll se junta as demais paciente para bolar um plano de fuga: precisam conseguir cinco elementos (uma chave, uma faca, um isqueiro, um mapa e um item não revelado). A partir de então ocorrem cinco cenas de ação na tentativa de obter tais “objetos”, cada batalha em um cenário diferente: Japão feudal, Primeira Guerra Mundial, castelos medievais e um futuro tecnológico. Todas com tomadas surpreendentes e repletas de efeitos especiais fantásticos, em um estilo semelhante ao videogame. Dá vontade de pegar um controle e sair jogando.

O problema é que, apesar de serem sequencias visualmente deslumbrantes, não são tão interessantes quanto o restante da narrativa, ambientada no hospício (mundo real)/cabaré (surreal). As cenas de batalha não possuem adrenalina e emoção suficientes para provocar torcida e envolvimento do público, o que acarreta em um terceiro ato cansativo. Se no início a ação era impactante, passa a ser tediosa (e até previsível).

Ao contrário, tem-se afinidade com o que acontece fora das batalhas, nas aulas de dança de Madame Gorski (Carla Gugino), nas ameaças do vilão Blue Jones (Oscar Isaac) e nas discussões sobre como escapar do centro psicológico. Uma das cenas mais belas da produção acontece logo no início, quando o trágico caminho que leva Baby Doll à internação é mostrado sem diálogos, apenas ao som de uma versão alternativa de “Sweet Dreams”. Quase como em um videoclipe. São nesses detalhes que Snyder acerta.

O pacote de referências certamente é melhor apreciado pelos viciados em cultura pop, mas o longa também contempla os fãs de filmes de ação e ficção científica. Além do mais, mostra as beldades de seu elenco (Abbie Conish, Jenna Malone, Vanessa Hudgens e Jamie Chung) como guerreiras duronas, vestindo roupas curtas e lutando de salto alto. É com esse girl power que elas enfrentam os orcs, robôs, dragões e monstros. E convencem. Com exceção da protagonista, Emily Browning, que no papel de Baby Doll está tão expressiva que um pires.

Mesmo com o frágil terceiro ato, arrematado ainda com a revelação de auto-ajuda do quinto item, “Sucker Punch” é um filme que explora a linguagem visual, utilizando paletas inspiradas no soturno de “Edward Mãos de Tessoura” ao colorido futurístico de “AI – Inteligência Artificial”, e assim, demonstra uma pluralidade de conteúdo bastante interessante. E, apesar de leves tropeços, também é muito divertido.

Nota: 8