Uma Semana


Chegam momentos na vida em que é preciso repensar sobre o caminho que trilhamos até aquele instante. Para Ben Tyler, protagonista de "Uma semana", esse confronto aparece após descobrir que sofre de um câncer terminal. A situação fará com que ele parta em uma viagem de autodescobrimento pelas estradas do Canadá. Uma semana é uma pequena joia entre as produções independentes, valorizada principalmente por apresentar uma das mensagens mais verdadeiras sobre o que realmente vale a pena na vida.

A história é sobre Ben (Joshua Jackson), um jovem professor de Ensino Fundamental que está noivo de Samantha (Liane Balaban). Ele vive uma rotina de acomodação, um dia depois do outro, sem previsão de mudanças. Insatisfeito com essa realidade, Ben só encontra motivação para realizar seus desejos quando recebe a notícia que possui no máximo dois anos de vida. Compra uma motocicleta e parte sem destino para inúmeras cidades do país, a fim de viver uma aventura. Uma história que, segundo ele, “valha uma vida”.

O filme é inteiramente narrado pelo ator Campbell Scott, que permeia a narrativa com belas e inspiradores frases sobre o sentido da vida. Ben, ao se afastar do trabalho e da família, começa a colocar em jogo o que construiu durante esse tempo, principalmente seu relacionamento com Samantha. A forma como a produção discute o amor é ao mesmo tempo melancólica e bonita. Enquanto isso, em sua jornada, o protagonista encontra diversas pessoas que o ajudarão nesse processo de tentar se encontrar.

Ben arrisca e vai em busca do que lhe faz feliz. Acompanhar essa trajetória faz com que o espectador também pense sobre a sua própria caminhada. Em certo trecho, o narrador diz: “O que você faria se soubesse que tem apenas mais um dia, uma semana ou um mês de vida? A que bote salva-vidas você se agarraria? Para qual pessoas declararia seu amor? Qual desejo realizaria?”. Questões que, mesmo sem ter a urgência de um prazo como Ben, acabam encontrando identificação geral.

Uma semana é um road movie que encanta por encontrar beleza na simplicidade. É honesto, poético e real. Conta ainda com boas atuações de Jackson e Balaban; além de conferir destaque para a trilha sonora carregada de emoção e formada apenas por bandas canadanses. O filme, lançado em 2008, não recebeu merecida atenção em seu lançamento e acabou restrito aos países da América do Norte, sem distribuição mundial. Se surgir a oportunidade, não deixe de assistir.

Nota: 8

Projeto X - Uma Festa Fora de Controle


"Projeto X" convida o espectador a acompanhar a maior festa adolescente jamais imaginada. Mais de 1,5 mil estudantes divertiram-se durante uma noite em residência no subúrbio dos Estados Unidos. Música, drogas, jogos alcoólicos e putaria não poderiam faltar. Mas, esta balada sem limites tem muito mais surpresas. E os estragos serão catastróficos. Este novo projeto de Todd Phillips, diretor de Se beber, não case 1 e 2, oferece duas opções: se divertir e rir de toda confusão ou colocar-se no lugar do dono da casa e não curtir o filme direito.

Thomas (Thomas Mann) está de aniversário e seus pais foram viajar durante o final de semana. Com a casa liberada, ele e mais dois amigos organizam uma festa para comemorar a data e, de quebra, ganhar popularidade na escola. Os garotos convidam todos que encontram pelo caminho com medo de que ninguém compareça ao local. Ao contrário do que pensavam, as pessoas não param de chegar e a celebração perde o controle conforme os convidados vão ficando cada vez mais bêbados e inconsequentes.

Se não bastasse andar de skate no telhado, tomar banho de piscina sem camisa (inclusive as meninas), utilizar quartos da casa para fazer sexo e amarrar balões de gás hélio para fazer um cachorro literalmente voar, a festa chega ao extremo quando um anão furioso provoca o caos e um piromaníaco decide que tudo vai abaixo. A polícia chega ao local por reclamação dos vizinhos e os adolescentes tomam conta da rua, entrando em conflito com os policiais. O evento chega a ser transmitido pela televisão, ao vivo.

Tantos absurdos podem soar pura invenção do roteiro, mas a história de "Projeto X" é baseada em um fato real que ocorreu na Austrália, em 2008. O jovem de 16 anos, Corey Worthington, divulgou uma festa em sua casa no MySpace e atraiu mais de 500 pessoas. Os vizinhos assustados chamaram a polícia, que foi recebida com garrafadas, além de ter os carros destruídos. Os estragos chegaram a mais de 20 mil dólares.

O filme utilizou o acontecimento verídico como base para criar uma série de situações hilárias. A garotada assistiu o filme e aprovou as loucuras de "Projeto X", transformando-o em hit entre os adolescentes e influenciando a reproduzir na realidade festas naquelas proporções. Uma dessas baladas inspiradas no longa-metragem terminou na morte de um dos convidados, quando adolescentes brigaram e resolveram o conflito com tiros.

A partir desse caso, o filme recebeu críticas de que incita a irresponsabilidade dos jovens. O diretor estreante Nima Nourizadeh e o produtor Todd Phillips não acreditam que as acusações fazem justiça ao filme, já que cada um se inspira na produção de um jeito. Os adultos, principalmente os pais, torcerão o nariz para o filme, mas a Geração Y vibrará com cada excesso cometido em cena. Apesar da polêmica, "Projeto X" provavelmente será a festa mais insana que o espectador está convidado a participar.

Nota: 7

Branca de Neve e o Caçador


“Branca de Neve e o Caçador” é tudo que “Alice no país das maravilhas”, de Tim Burton, não conseguiu ser: uma releitura envolvente e interessante sobre um conto infantil. E este recente lançamento tem vantagens, como o tom sombrio, as imagens deslumbrantes (sem ser carnavalescas) e o clima épico do início ao fim. Porém, para curtir essa aventura, é preciso desprender-se do texto original e embarcar em adaptação livre sobre a fábula dos irmãos Grimm.

A Branca de Neve veste armadura e lidera uma batalha, os anões ganham mais um companheiro e totalizam oito, a Floresta Negra é uma armadilha mutante e um trasgo (monstro parecido com um troll) aparecem na mistura proporcionada pelo filme. Tantos elementos novos surgem nesta versão, mas, por incrível que pareça, não a tornam forçada. O roteiro realiza milagre ao transformar o pequeno conto em uma história medieval de grandes porporções dramáticas.

Na trama, Banca de Neve (Kristen Stewart) completa 18 anos e se torna uma ameaça para sua madrasta, a rainha Ravenna (Charlize Theron), que até então era a mais bela de todas. Antes que o plano malígno da rainha se concretize, Branca foge do castelo em direção a Floresta Negra. Ravenna envia um caçador (Chris Hemsworth) para capturar e matar a jovem. O tom da narratica não é infantil. O clima soturno e a maldade da vilã mostram que o filme está bem longe de outra versão lançada este ano, Espelho, espelho meu.

Uma jogada interesse do roteiro é não comparar a beleza de Charlize Theron com a de Kristen Stewart. O roteiro apresenta Branca de Neve tão poderosa quanto a rainha porque possui duas virtudes: pureza e inocência. O que fica em desnível é a entrega de Theron a hipnotizante rainha com a apatia de Stuart como a heroína da produção. A mesma sem gracisse de Bella Swan na saga Crepúsculo persiste na atuação da atriz. O destaque vai também para Hemsworth, que consegue criar um personagem interessante, além de força e músculos.

Como é grandioso em tudo, o filme investe em inúmeras cenas de luta e batalha, deixando a história sempre movimentada. As imagens belíssimas de cada frame são tão impactantes visualmente que indicações ao Oscar já estão praticamente garantidas. A direção de arte e o figurino não são carregados, alegóricos, como o carnaval de “Alice no país das maravilhas”. O clima é obscuro, sujo e de elementos lúgrubres, como corvos, castelos imponentes e magia das trevas.

O diretor estreante Rupert Sanders, originário do mercado publicitário, acerta a mão com sua aventura épica e proporciona diversão para toda família. O blockbuster cumpre ser um bom passatempo pipoca e firma-se como a melhor adaptação adulta de um conto infantil para telonas. A resposta da crítica, público e bilheteria foi tão positiva que uma continuação está em negociação e uma franquia se projeta para os próximos anos. Tudo muito bonito, desde que a rainha má esteja presente.

Nota: 8

Martha Marcy May Marlene


Sabe aqueles filmes que são feitos para confundir e não explicar nada? É assim “Martha Marcy May Marlene”, produção americana lançada ano passado em circuito alternativo que tem como destaque a atuação de Elizabeth Olsen, a terceira irmã das gêmeas Mary-Kate e Ashley. Mistura de alucinação e realidade em uma trama que pode ou não estar invertida. Isso faz algum sentido? Não muito. O filme é um quebra-cabeças lento (leia-se muito lento), de momentos tensos e com uma história pesada.

O drama psicológico inicia quando a jovem Martha, interpretada por Olsen, foge de casa. Aos poucos descobrimos que essa residência é a sede de um culto abusivo, uma comunidade de pessoas perdidas que se sujeitam ao dominador Patrick (John Hawkes) – algo semelhante a seita de Charles Manson. A garota busca auxílio com a irmã Lucy (Sarah Paulson) e seu marido (Hugh Dancy). O casal acolhe Martha e passa a ter problemas com as atitudes pouco comuns da jovem.

Assombrada pelas recordações dolorosas dessa experiência anterior, Martha apresenta calmamente o que foi habitar uma comunidade que abdica dos valores contemporâneos para viver numa ideologia do passado. Homens e mulheres não dividem a mesa durante as refeições, os alimentos são cultivados em uma horta ou caçados na floresta, não há interferências tecnológicas, a única diversão é através de instrumentos musicais. A situação complica quando essas ações retrógradas ganham ares cada vez mais invasivos.

O líder Patrick comanda a comunidade de forma machista, aproveitando da ingenuidade de seus companheiros alienados. Ele pode, quando quiser, dormir com qualquer uma das mulheres do grupo. Se precisa de dinheiro, obriga que os habitantes solicitem o montante às suas famílias. E, junto com seus comparsas, realiza assaltos a casas luxuosas. Esse ambiente violento, tanto como físico como psicológico, torna-se cada vez mais sufocante para Martha.

Na casa da irmã, a garota deveria buscar a reintegração com a família após ter sumido por dois anos. Porém, na verdade, ela demonstra estar ali como hóspede. E o pior: comporta-se como uma selvagem, não sabendo o que é certo ou errado, demonstrando como a seita interferiu no inconsciente de Martha, deixando-a sem controle de suas atitudes. Ao na mesmo tempo, a narrativa começa a sugerir que os acontecimentos na comunidade podem ser alucinação da garota.

O roteiro não busca oferecer respostas. Ficamos sem saber porque Martha foi parar no culto, de que maneira esses hábitos bizarros foram desenvolvidos e muito menos o que acontece com ela ao término de sua estada na casa da irmã. Certas sequências colocam espaço e tempo em dúvida, como quando ela telefona para a casa do grupo. E, por fim, o filme ainda questiona a ordem dos fatos na narrativa. Certamente esses são exemplos de que a intenção é originar um quebra-cabeças a fim de confundir o espectador. Ou então conferir caráter cult à produção.

Se a confusão mental não é muito atrativa, o filme tem seu valor na qualidade técnica: brilhante direção (é do estreante Sean Durkin toda carga dramática e o tom melancólico da produção), fotografia (tons pastéis de uma beleza sublime), edição (fusões inteligentes entre passado/presente) e boas atuações de todo elenco, principalmente, de Elizabeth Olsen - surpreendente como a protagonista arisca e de poucas palavras. Apesar do aparato de produção funcionando, o roteiro perturbador e capaz de provocar um nó na cabeça deixa a sensação de vazio, de história incompleta. Assim, “Martha Marcy May Marlene” é uma experiência desconfortante.

Nota: 5,8

Hysteria


Esta comédia romântica inglesa conta a história do homem que criou o vibrador. Hugh Dancy (“Adam”, “Ao Entardecer”) é o jovem médico que começa a trabalhar como assistente do Dr. Robert Dalrymple (Jonathan Pryce), famoso por tratar casos de histeria. A doença era comum em donas de casa entendiadas que apresentavam sintomas de ansiedade, nervosismo e depressão. O tratamento era simples: masturbação.

Assim, uma fila de mulheres lotava o consultório do Dr. Dalrymple. Todas esperando que seus dedos milagrosos curassem as crises de histeria. O mais engraçado é que em 1880 essa técnica de tratamento era bem aceita pela sociedade machista – ou então as mulheres não contavam para seus maridos o que se passava na consulta.

Por utilizar constantemente seus dedos, o jovem médico começa a sentir dor e não consegue aplicar o tratamento da melhor maneira. Então, tem a ideia de usar um equipamento elétrico para reproduzir a mesma satisfação proporcionada por seus gentis toques. Surge então o vibrador, um aparelho rústico que iria evoluir durante as décadas e continuar fazendo sucesso até a atualidade.

A história real é bastante interessante, mas o tom de comédia, o acúmulo de clichês e o formato convencional não ajudam. Além disso, o roteiro acaba investindo mais nas dúvidas amorosas do protagonista, dividido entre as filhas do doutor, interpretadas por Felicity Jones e Maggie Gyllenhaal – os três extremamente competentes em seus papéis. Infelizmente, a atração principal do projeto, o vibrador, fica de lado e somente mostra a que veio nos 20 minutos finais da produção.

Nota: 6,5

Paraísos Artificiais


“Uma história de amor e êxtase”. A frase do cartaz de "Paraísos Artificais" traduz duas das principais vertentes deste novo e ousado exemplar do cinema nacional. O drama ambientado nos anos 2000 é sobre o relacionamento do jovem casal Erika e Nando, que encontram-se no Rio de Janeiro, Pernambuco e Amsterdam, em meio ao universo de música eletrônica, drogas e muito sexo. É o conjunto desses novos elementos à produção cinematográfica brasileira que definem o fôlego e o caráter de novidade apresentada pelo filme de Marcos Prado.

Em uma narrativa não linear, a produção se desenrola em três atos, cada um numa cidade. O primeiro ocorre em território europeu, onde Nando (Luca Bianchi) conhece a DJ Érika (Nathália Dill) em uma boate. O segundo se passa dois anos antes, em uma rave que acontece uma vez por ano em uma praia paradisíaca do nordeste do Brasil. Érika, acompanhada da amiga Laura (Lívia de Bueno), experimenta diversas substâncias na procura do auto-conhecimento. No terceiro ato, situado no Rio de Janeiro, Nando volta para casa e enfrenta problemas com seu irmão menor.

A dinâmica de alternar cada momento na vida dos personagens contribui para deixar a história mais atraente. O quebra-cabeças logo começa a ser formado na mente do espectador e, mesmo não sendo tão complexo, contribui ao tom de seriedade do projeto. O excelente trabalho de fotografia, de Lula Carvalho (filho de Walter Salles), aproveita essa trama multifacetada para imprimir plasticidades específicas em cada contexto narrativo. A frequente iluminação de festa também ajuda em belas imagens, saturadas em cores vibrantes.

"Paraísos Artificiais" não poderia ter título mais adequado. O universo das baladas de música eletrônica e drogas sintéticas experienciado pelos protagonistas comprova a ilusão criada pelas substâncias alucinógenas. Para alguns, essas descobertas não passam de uma fase, mas para outros traz consequências irreversíveis. É o caso do jovem trio que, em um período de indecisões, encontra a fuga nas drogas e quebra a cara. São garotos e garotas de 20 e poucos anos, de classe média, bonitos e com futuro cheio de possibilidades. Todos querendo se encontrar.

Aparentemente, o diretor Marcos Prado revencia esse mundo de prazer imediato, com suas longas sequências nas raves e constante uso de drogas durante o filme, mas aos poucos essa diversão sem limites acaba tornando-se vilã. E de forma declarada. Todos os personagens que se envolvem com drogas se dão mau. Uma lição moralista do projeto, que deixa um gosto amargo em cada desfecho. Érika, Nando e Laura não serão mais os mesmos após as aventuras arriscadas entre peiote, cocaína, êxatse e GHB.

O filme comprova ainda uma maturidade no cinema nacional, que vai além da qualidade técnica, ao investir em um roteiro sem pudores e preconceitos. Tem cenas de nudez e sexo aos montes, sem apelação. É moderno, jovem e de um vibe que refresca a produção brasileira atual. E, pelos temas contemporrâneos, apresenta apelo universal, podendo vislumbrar uma interessante carreira internacional - além de reforçar a ótima safra de filmes locais, junto a "2 Coelhos" e "Xingu".

Nota: 7,8

Como Agarrar Meu Ex-namorado



"Como Agarrar Meu Ex-namorado" é mais um comédia de ação no estilo "Par Perfeito" e "Caçador de Recompensas". Ou seja, pelas referências já dá para perceber que este lançamento tem tudo para ser uma bomba. E realmente é. Começando pela brilhante capacidade que os tradutores tem para esculhambar com os títulos nacionais. "Como Agarrar Meu Ex-namorado" não tem nada de comédia romântica. No original, "One For The Money" (algo como 'Nessa por dinheiro') é mais condizente com a proposta. Além de "enganar" espectadores ao cinema, o filme não convence nos gêneros de ação, comédia, romance e qualquer outro que talvez tivesse alguma intenção.

Baseado em uma série de sucesso com 20 livros lançados pela norte-americana Janet Evanovich, "Como Agarrar Meu Ex-namorado" conta a história de Stephanie Plum (Katherine Heigl), uma vendedora de lingerie que perde o emprego e vira caçadora de fugitivos da polícia. Seu primeiro caso: capturar Joe Morelli, policial acusado de assassinato, que, por acaso, também foi o responsável por tirar a virgindade de Stephanie e sumir do mapa.

Por não ter ligado no dia seguinte, a protagonista nutre uma raiva (ou paixão?) pelo suposto bandido. Recuperar o cara se torna algo pessoal. A partir desse instante, inicia uma investigação fajuta promovida por Stephanie, alguém que nunca teve treinamento ou preparo para encarar criminosos. Mas, isso não será problema para a mocinha. Ela não tem medo do perigo e passeia por bairros barra-pesada, torna-se amiga de prostitutas, invade casas de traficantes e fica boa de mira quando está brava. Tudo perfeitamente normal.

Com todas essas proezas, não tem como levar o filme a sério - nem mesmo ele se leva. Esse descompromisso com a veracidade não chega a ser um ponto negativo. O defeito maior é que nada funciona. O roteiro é enfadonho, principalmente porque a investida policial não empolga em nenhum momento. O romance é tão óbvio que qualquer um sabe que ela vai se apaixonar novamente por seu caso da juventude. Katherine Heigl e Morelli não apresentam a química necessária - ele, por exemplo, entrega uma atuação tão boa quanto qualquer modelo da Calvin Klein. Por tudo isso, "Como Agarrar Meu Ex-namorado" é um filme sem carisma e muito chato.

Nota: 3,5

Jogos Vorazes


Nova franquia cinematográfica adolescente, “Jogos Vorazes” voa mais longe que seus antecessores “Percy Jackson”, “Crepúsculo” e, inclusive, “Harry Potter” porque foca no lado humano dos personagens e não nas peculiaridades de um universo fantástico. Dessa forma, suas chances em atingir o grande público, que desconhece a origem literária, são maiores. Somado a isso, a história extremamente atual captura o espectador em um mix de ação, violência, romance, política e ficção científica que provoca uma tensão progressiva incapaz de desgrudar um segundo do que está acontecendo no jogo de vida ou morte.

Baseado em uma trilogia escrita por Suzanne Collins, a trama se passa em um futuro distante, na nação de Panem, após a destruição da América do Norte. Anualmente, o governo autoritário sorteia dois jovens entre 12 e 18 anos de cada distrito (a comunidade é dividida em 12 deles, sendo o primeiro o mais rico e o último o mais pobre) para participar de um reality show transmitido ao vivo. Os 24 selecionados são treinados para matar uns aos outros até sobrar apenas um vencedor.

A história é centrada na adolescente Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence), de 16 anos, que vive com a mãe e a irmã menor no distrito 12. No dia da colheita, sua irmã é selecionada para os tais Jogos Vorazes e Katniss se candidata para ir no lugar. Com ela, também do seu distrito, é escolhido o filho do padeiro, Peeta Mellark. Os dois passam a ser treinados por um ganhador do jogo, Haymitch Abernathy (Woody Harrelson). A partir desse instante, a 74ª edição do reality show inicia e a luta pela sobrevivência toma conta da tela.

Mesmo antes dos jogadores entrarem na "arena", a tensão é sufocante. O caminho de Katniss ao violento programa televisivo transcorre sem pressa - e esta revela ser a melhor parte da produção. Quando os jogos iniciam, percebe-se como o reality show é envolvente e fascinante, levando toda população de Panem a assisti-lo. Por se tratar de uma aventura juvenil, o filme não investe em cenas sangrentas. Portanto, apesar de ser um jogo de morte, são poucas vezes que o público pode ficar impressionado.

O triângulo amoroso formado por Katniss, Peeta e Gale (Liam Hemsworth), o namorado dela que ficou fora do jogo, em nenhum momento aproxima-se do que ocorre em Crepúsculo, por exemplo. O amor e as suas dúvidas não são o mais importante na história. Toda narrativa é em função da sobrevivência. E sua heroína não poderia ter sido melhor. Jennifer Lawrence é o símbolo da saga, com jeito de durona, hábil no arco e flecha, impetuosa em suas decisões e inocentemente sensual. Escolha perfeita para protagonista.

“Jogos Vorazes” pode não parecer original. Disputas transmitidas ao vivo já apareceram no livro “1984”, no programa “Big Brother Brasil” e nos filmes “Fahrenheit 451”, “Cubo” e “O Sobrevivente”. O êxito dessa nova versão é promover uma mistura de gêneros (ficção científica, ação, romance) com pano de fundo de crítica social em um ambiente juvenil. Realmente pode não ser original, mas a fórmula funcionou muito bem. O filme é entretenimento de muita adrenalina para qualquer público.

Nota: 8

À Beira do Abismo


Em "À Beira de um Abismo", tudo gira em torno de um homem prestes a se jogar do beiral de um enorme prédio no coração de Nova York. Sua atitude ganha proporções de mega evento quando a rua é evacuada, a televisão passa a transmitir ao vivo a situação e as equipes policiais reúnem-se para impedir que o sujeito pule lá de cima. No entanto, o que parecia ser uma tentativa de suicídio pode não ser bem isso.

Sam Worthington vive esse misterioso homem que em negociação com a policial Lydia Mercer (Elizabeth Banks) não quer revelar sua identidade. Em flashback, sabemos que ele é foragido da Justiça e saiu da prisão a poucos dias. No beiral do prédio, ele se comunica com alguém através de uma escuta. Tantos sinais mostram demonstram que ele não é apenas alguém desesperado querendo se matar. Então, o filme começa a mostrar a que veio.

"À Beira do Abismo" vira um thriller de ação e roubo mirabolante, que, apesar de basear-se em clichês, tem uma boa ideia. Pode não converser muito ao final, mas seu desenrolar é divertido. O time astros competentes (Ed Harris, Edward Burns, Kyra Sedgwick e Jamie Bell) também contribuem para este sofisticado e surpreendente exercício cinematográfico.

Nota: 7,5

Xingu


O diretor Cao Hamburger, de "Castelo Rá-Tim-Bum" e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", realiza longos intervalos de um filme a outro, mas a espera de até sete anos entre cada lançamento é recompensadora: sempre entrega uma obra caprichada sobre o tema que decidiu apresentar ao público. Desta vez, com “Xingu”, ele entra de cabeça na luta dos irmãos Villas-Bôas e, além de contar um pedaço da história brasileira, também promove a discussão sobre o papel do índio no contexto atual.

O filme acompanha os paulistas Cláudio (João Miguel), Orlando (Felipe Camargo) e Leonardo (Caio Blat), que inscrevem-se em um programa do governo Getúlio Vargas, a Expedição Roncador-Xingu, na década de 1940, para habitar terras consideradas desocupadas. Os três são levados para o norte do Mato Grosso com a missão de ser o intermédio entre os homens brancos dominantes e os índios que ali vivem.

A interação dos irmãos com os habitantes ocorre de forma natural. Mesmo sendo invasores, são recepcionados com cordialidade pelos índios e convivem em harmonia numa troca interessante de culturas. Os representantes do governo demonstram total descaso com essa população e aos poucos começam a pressionar uma colonização ou até extermínio.

Os Villas-Bôas então percebem que o melhor é deixar o índio isolado, sem contato com o branco, uma vez que toda vez que esse encontro não é benéfico aos locais. Após tentativas políticvas, os irmãos conseguem criar o Parque Indígena do Xingu, território do tamanho de um estado, com 2,8 milhões de hectares. Por este trabalho frente a maior reserva do mundo, os irmãos foram indicados ao prêmio Nobel da Paz.

Essa trajetória épica é contada por um diretor apaixonado pela transformação real promovida pelos Villas-Bôas, que assim como os índios viveram em isolamento. A qualidade técnica de "Xingu" é impressionante. Uma deslumbrante fotografia desvenda as paisagens naturais do Brasil central. O aúdio e efeitos sonoros são impecáveis. Boas atuações também complementam o projeto, com destaque para João Miguel ("Estômago"), que mais uma vez cria um personagem autêntico e verdadeiro.

A produção nacional veio na hora certa, justamente no ano em que o Parque Indígena do Xingu comemora o seu 50° aniversário. Assim, sugere o debate sobre o lugar do índio hoje, vivendo em uma comunidade que não evoluiu, preso ao passado e esmagado por uma sociedade tida como mais desenvolvida. Ao mesmo tempo, esse habitante dos primórdios ainda cultiva valores nobres como o senso de coletividade e a harmonia com a natureza, mostrando que temos muito o que aprender com eles.

Além de promover essa relevante discussão, “Xingu” tem uma tarefa de igual importância: apresentar e registrar uma realização recente pouco conhecida da nossa história. Os Villas-Bôas foram responsáveis por preservar a cultura indígena, evitando a devastação de aldeias pela construção da Transamazônica e a exploração por seringueiros e proprietários rurais. A área conquistada pelos irmãos em favor dos índios resultou no primeiro parque do país, em 1961. Cao Hamburger, em seu terceiro longa-metragem, comprova que a saga do Xingu é digna de filme – e também de inspiração.

Nota: 7,9

Weekend



Depois de "O Segredo de Brokeback Mountain" não houve um filme que retratasse o relacionamento gay de forma tão verdadeira como a produção inglesa "Weekend". Em uma história romântica e atual, o diretor Andrew Haigh mostra que o amor pode surgir quando menos se espera – e por que não entre pessoas do mesmo sexo? O filme virou cult de forma espontânea, divulgado principalmente pela internet, e ainda venceu mais de 15 prêmios em festivais pelo mundo - muitos deles sem temática gay. "Weekend" é um belo romance que pode atingir plateias universais. Basta não ter preconceito.

A trama se passa em Londres durante 48 horas, um final de semana, quando Russel e Glenn se conhecem em uma boate e a partir daí passam o tempo conversando, fazendo sexo, usando drogas e saindo para bares. Surge uma intimidade instantânea entre os dois. O problema é que Glenn embarcará para fazer um curso por dois anos nos Estados Unidos. A separação é iminente.

"Weekend" apresenta essa relação com calma, deixando que o público conheça os personagens conforme eles mesmos se apresentam um para o outro. Russel é salva-vidas em um clube, mora sozinho e apesar de assumido para os amigos não conversa com eles sobre sua orientação sexual. Glenn é o oposto. Artista, devasso e com um grupo de amigos festeiros. Também está desenvolvendo um projeto de gravar depoimentos das pessoas com quem se envolve sexualmente. Russel será o próximo. E, definitivamente, o mais marcante entre suas entrevistas.

Um relacionamento ser construído durante um final de semana não seria convincente com péssimos atores. Tom Cullen e Chris New são tão autênticos em seus personagens que fica difícil imaginá-los em uma vida diferente daquela assistida na tela. Cullen surpreende como o protagonista carente e solitário e oferece provas de que pode ter uma carreira de sucesso internacional. Também é bom ficar atento ao diretor Haigh, que ainda escreveu e editou "Weekend".

O filme revela-se praticamente um "Antes do Amanhecer" gay. O casal não visita pontos turísticos como no primeiro, mas se conhece e passa um final de semana junto, até um deles ter que partir. Os diálogos abordam com sinceridade os anseios do público que representa: aceitação pessoal e da família, casamento gay e também discriminação social. Como disse o diretor para o The Guardian, apesar de uma aceitação maior da sociedade, o peso de ser diferente continua. "As mudanças acontecem, mas você ainda tem que lutar contra um mundo heterossexual", falou para o jornal britânico.

Nota: 7,8

Shame


São poucos os filmes que conseguem retratar tão bem um período ou uma época. "Shame" é um filme que aborda sem pudores algumas feridas da sociedade moderna, como a solidão, o individualismo, a busca pelo prazer e os vícios que chegam a provocar vergonha. O diretor e artista plástico Steve McQueen coloca seu ator fetiche, Michael Fassbender, com o qual já havia trabalhado em "Hunger", em um jogo de sexo e sofrimento ao extremo.

Brandon é um executivo de 30 anos que mora sozinho em Nova York e cultiva uma vida secreta. Ele é viciado em sexo. Passa suas horas vagas - e até mesmo no trabalho - em busca de satisfazer sua compulsão. Por ser bonito e bem sucedido, consegue sexo fácil. Ao invés de mostrar essas aventuras eróticas como algo excitante, o filme apresenta como verdadeiramente são: uma doença.

A rotina de Brandon será transformada quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan) decide morar com ele. Essa invasão em um terrotório anteriormente sob seu total controle provocará dois sentimentos contraditórios em Brandon: a intenção de levar uma vida normal, com um relacionamento saudável, e também a vontade de expulsar Sissy e seguir com seu ciclo masoquista.

Lidar com essa obsessão vai acabar levando Brandon ao fundo do poço, em uma procura por sexo cada vez mais degradante. Por vezes, ele tenta uma atitude "normal", como ter um encontro que não seja com uma prostituta ou que termine na cama. Ele sai para jantar com uma colega de trabalho, mas sua condição o impede de realizar tudo conforme os padrões aceitáveis pela sociedade. Não adianta, ele é diferente. Um homem atormentado por demônios que o impedem do convívio social. Nas cenas de sexo quase explícito, é possível observar Brandon em um misto de prazer e sofrimento.

Fassbender desnuda-se, literalmente, para encarar o complexo personagem. Seu desempenho não foi lembrado entre as categorias do Oscar, mas George Clooney fez questão de destacar o "grande" talento do ator durante a cerimônia do Globo de Ouro. Fassbender realizou cenas sem apelação de nudez frontal e de sexo não censurado. Uma atuação viceral que merecia maior reconhecimento.

"Shame" não chega a ser pornográfico, já que suas cenas provocantes são de completa importância para a história. Mesmo com sequências tidas como "quentes", o diretor McQueen realiza um filme de natureza fria e ao mesmo tempo estiloso. Uma fotografia elegante pontua as cenas com tons de azul e branco, comprovando a falta de emoções na vida de Brandon. A trilha sonora empregada nos momentos certos transmite a tensão e o desespero desse personagem que vive sempre no limite. Até mesmo o uso de poucos diálogos contribui para que quando estes apareçam sejam altamente valorizados, principalmente em interessantes conversas entre Brandon e Sissy.

Assim como em "Psicopata Americano", quando este retratou o vazio da geração yuppie dos anos 80, "Shame" consegue definir outra espécie de vazio nos anos 2000. É o peso de um cotidiano sem amor e sem encantos que assola os dias atuais. O sexo, também presente, é visto como algo mecânico. E, mesmo com uma diferente realidade, Nova York permanece como o mesmo pano de fundo, um símbolo da solidão, intensicado de forma brilhante pela canção "New York, New York", em interpretação carregada de emoção pela irmã do protagonista. "Shame" mostra como essa realidade pode ser um martírio.

Nota: 8,4

Para Sempre


Henry (Adam Sandler), em "Como se Fosse a Primeira Vez", precisava reconquistar diariamente a namorada que sofria da falta de memória de curto prazo, doença que faz esquecer fatos que acabaram de acontecer. Comparado à ele, Leo (Channng Tatum), no drama "Para Sempre", tem uma tarefa mais fácil: sua esposa perdeu a memória após um acidente de carro e ele precisa conquistá-la novamente. Como o gênero aqui não é comédia, esse único desafio será complicado o suficiente.

Paige (Rachel McAdams) e Leo viviam uma linda história de amor, porém, por travessura do destino, ela perde a memória dos últimos cinco anos. Paige não lembra que brigou com os pais, abandonou a faculdade de Direito para cursar Artes Visuais e muito menos que casou-se com Leo. Aquele homem agora é um completo desconhecido. O rapaz, então, precisará fazer com que sua esposa se apaixone mais uma vez por ele.

A história apresenta outro impasse interessante. As memórias de Paige são de um período em que ainda vivia na casa dos pais e namorava Jeremy (Scott Speedman). Ela fica dividida entre o passado ainda nítido em sua cabeça e a vida atual que construiu ao lado de Leo, mas que não se recorda. Enquanto ele esforça-se para recuperar o amor perdido, os pais de Paige, interpretados pelos vetaranos Sam Niel e Jessica Lange, pressionam a filha a voltar para casa. Todo drama vivido pelos personagens ganha ainda mais força por ser baseado em uma história real.

"Para Sempre" alterna romance e drama em uma mistura gostosa de assistir. A química entre McAdams e Tatum funciona tão bem que, mesmo sem ela reconhecer o amado, pode-se sentir a conexão entre os dois. O filme é meloso na medida e não exagera nos clichês. Um passatempo perfeito para os românticos, que devem se emocionar com a história desse homem apaixonado que não mede esforços para ter o amor de sua esposa de volta.

Nota: 7,5



Uma Vida Melhor



Vida de imigrante nos Estados Unidos já foi abordada por inúmeros filmes. O que “Uma Vida Melhor” propõe é um olhar sincero sobre essas pessoas que apostam todas suas fichas em uma chance que pode ou não dar certo. Damien Bichir é a alma do projeto como o pai mexicano que busca oportunidades para seu filho adolescente no país vizinho.

A produção de Chris Weitz (de "O Grande Garoto", "Bússola de Ouro", "Lua Nova") é sobre um homem latino de 40 e poucos anos que trabalha como jardineiro nas casas dos ricos de Los Angeles. Ganhando uma mixaria por inúmeras horas de trabalho, ele leva os dias desgastado pela dura rotina. Tudo isso para oferecer condições de que seu filho (José Julián) consiga ir ao colégio e obtenha melhores perspectivas de futuro. Sua possibilidade de mudar de vida vem com a compra de uma caminhonete, transformando-o em um profissional autônomo.

"Uma Vida Melhor" pode ser dividido em dois momentos: o drama inicial sobre o imigrante no país estrangeiro, explorando contrastes sociais e como a terra dos sonhos pode ser cruel, e o thriller que aproxima pai e filho na tentativa de recuperar algo roubado, com cenas de ação alternadas com ternura. Essa mudança na narrativa vem na hora exata. Quando espera-se que o filme se arraste pelos clichês do gênero, injeta-se um gás que o mantém interesse até o final.

A concepção do projeto é simples, mas ganha o espectador com o retrato sensível sobre a figura desse intruso em um lugar que não lhe pertence, potencializado com a relação construída entre os personagens de Bichir e Julián. São momentos delicados como o de uma música conhecida pelos dois ou quando conversam em tom de despedida, já perto do final, que comprovam a sintonia em cena, além de uma emoção genuína.

O principal responsável por essa carga emotiva é Damien Bichir, ator mexicano pouco conhecido que anteriormente só havia obtido destaque na série de televisão “Weeds” e como Fidel Castro nos filmes “Che” e “Che: A Guerrilha”. Sua indicação ao Oscar surpreendeu a todos, tirando a vaga dos cotados Ryan Gosling (“Drive”), Leonardo DiCaprio (“J. Edgar”) e Michael Fassbender (“Shame”). A representação de Bichir é tão poderosa que através de apenas um olhar ele transmite todo desespero de um homem em seu limite. É o papel de sua vida e certamente uma das melhores atuações de 2011.

Nota: 8


A Mulher de Preto e O Despertar



O terror à moda antiga está de volta aos cinemas. Dois longas-metragens lançados este ano apostam numa fórmula que a indústria cinematográfica volta e meia retoma as telas: a da mansão mal-assombrada. Os filmes adentram o universo de casarões isolados, longe da civilização, habitados por fantasmas nada amigáveis. "A Mulher de Preto" e "O Despertar" são exemplos de que uma ambientação assustadora pode provocar mais calafrios do que uma cena de mutilação na linha de "Jogos Mortais".

"A Mulher de Preto" recebeu maior divulgação por ser estrelado pelo astro da saga Harry Potter, Daniel Radcliffe. Ele vive nas telas o advogado viúvo Arthur Kipps, que, em viagem de trabalho, precisa cuidar da documentação de um cliente que morreu em um vilarejo no interior da Inglaterra. Para isso, hospeda-se na casa do falecido, sem esperar que o local é assombrado por uma sinistra criatura.

A tal mansão é o ponto forte do filme. Afastada da cidade e cercada de recifes que são encobertos quando a maré sobe, a casa permanece por diversos momentos como uma ilha, deixando Arthur preso em um terreno pertencente ao sobrenatural. Essa situação confere o clima de terror ideal para trabalhar com tensão constante e sustos cada vez mais intensos. Em uma sequência de deixar os cabelos em pé, o advogado passa cerca de 15 minutos sendo atormentado continuamente pela habitante da casa. Sufoco total.

Por outro lado, "O Despertar" pontua a narrativa com sustos eficientes. Cada aparição do fantasma faz o espectador saltar da poltrona. E não são poucas vezes. A assombração responsável por todo esse nervosismo vive em um internato para meninos na Inglaterra do pós I Guerra Mundial. A escritora e especialista em desvendar fenômenos paranormais, Florence Cathcart (Rebecca Hall), é chamada por um dos funcionários da escola para investigar o espírito de uma criança que ronda o casarão.

Mais uma vez a ambientação soturna é a chave do bom funcionamento da produção. A casa gigantesca e distante de qualquer princípio de contato humano ganha tons assustadores quando as crianças deixam o local para passar as férias com suas famílias. A história, então, passa a utilizar mais e mais os ambientes mergulhados na escuridão, a fim de colocar à prova o ceticismo da protagonista perante fatos sem explicação científica. Um exemplo é a desesperadora cena da casa das bonecas.

Bebendo na fonte de filmes com "Os Outros" e "O Orfanato", os novos projetos utilizam como figura central imponentes casas vitorianas. Além disso, por se ambientar por volta de 1920, as cenas ocorrem muitas vezes à luz de velas, o que aumenta a tensão na tela. Toda essa atmosfera pesada contribui para uma narrativa lenta, mas bem construída por ambos roteiros.

O que deixa a desejar é a forma como as duas histórias se encerram. São explicações fajutas para mistérios tão bem elaborados e desenvolvidos. O clima de suspense e as boas atuações (Radcliffe e Hall dedicados) quase são deixadas de lado perante a derrapada na conclusão. Mas, o que fica ao final é o gênero do terror recebendo maiores cuidados, sem apelar para sanguinolência ou sustos fáceis. "A Mulher de Preto" e "O Despertar" são entretenimentos arrepiantes e de qualidade.

"A Mulher de Preto" - nota: 7,0
"O Despertar" - nota: 7,5

Um Método Perigoso


Dois dos principais mestres da ciência moderna foram amigos durante anos, parceiros em longas discussões teóricas, inclusive trocando confidências íntimas a fim de contribuir com seus estudos. Esse diálogo se rompe quando uma paciente tratada por ambos coloca tudo a perder. Mostrar essa curiosa relação e principalmente o marco da rivalidade entre Jung e Freud é o trunfo do novo filme do diretor David Cronenberg, “Um Método Perigoso”. O longa-metragem coloca três astros do cinema atual em um jogo de desejo e manipulação que acabou definindo os rumos da psicanálise.

Para interpretar os gigantes da mente humana, Michael Fassbender, ator sensação de uma das melhores safras de 2011 ("Jane Eyre", "X-Men: Primeira Classe", "Shame"), e Viggo Mortensen, fetiche do diretor desde "Marcas da Violência" e "Senhores do Crime", interpretam respectivamente Jung e Freud. A reunião deles ocorre no momento em que o primeiro está iniciando seu projeto de “cura através de conversas” e o segundo está começando a ganhar notoriedade internacional. A empatia entre ambos é imediata. A primeira conversa dura nada menos que 13 horas.

Surgem, então, as divergências. Freud defende que toda neurose é exclusivamente de origem sexual, enquanto Jung acredita que a sexualidade é apenas um dos motivos a ser considerado. Essa oposição fará futuramente que um desenvolva a psicanálise e o outro a psicologia analítica. Até lá, Jung será testado em resistir, primeiramente, aos conselhos do perigoso paciente Otto Gross, interpretado pelo francês Vicent Cassel, que condena a monogamia, afirmando que não se deve negar aos instintos básicos do ser humano. E depois, em um segundo momento, quando subumbe aos encantos de Sabina Spielrein (Kiera Knightley), uma paciente viciada em humilhações, através da qual o psiquiatra precisará avaliar sua ética profissional e moralidade social.

O Freud descrito pelo roteiro é um ser manipulador, que brinca com Jung enquanto este lhe é útil. Fica subentendido que o médico enviou propositadamente o paciente Otto para provocar Jung. Na busca para provar que está com a razão, Freud levará o "amigo" a corromper todos seus valores. No meio deste jogo, Sabina destaca-se por receber tratamento inicialmente de Jung e depois de Freud, contribuindo para o rompimento da relação entre ambos.

Concentrando todas essa nuances, Cronenberg realiza um filme no formato clássico, linear e sem riscos - diferente dos violentos "Marca da Violência" e "Senhores do Crime" ou dos complexos "Existenz" e "Spider - Desafie Sua Mente". O roteiro do dramaturgo inglês Christopher Hampton, o mesmo de "Ligações Perigosas", contribui ao adicionar tensão sexual em cada cena. Porém, tanto falatório sobre sexo não acaba se concretizando visualmente. Prefere deixar na sugestão, que, por sinal, resulta em uma boa escolha.

"Um Método Perigoso" traça um rápido perfil sobre Jung e Freud, deixando registrado os encontros e a separação da dupla. O papel de Kiera muitas vezes rouba a cena, mas sua interpretação exagerada beira o artificial. Já Fassbender e Mortensen demonstram confiança em seus personagens e fazem valer a reunião esses dois grandes nomes da Psicologia.

Nota: 7,9

Medianeras


Uma boa surpresa chega do cinema argentino. O filme "Medianeras - Buenos Aires na Era do Amor Virtual" mostra dois jovens solitários, vizinhos de prédio, aparentemente tão próximos, porém, separados por uma grande metrópole. Ambos vivem trancafiados em seus apartamentos; presos em espaços minúsculos, de apenas uma janela e isolados do que acontece fora de suas zonas de conforto. Frustrações e expectativas de vida são desenhadas pelos personagens durante o filme, tornando o retrato desses jovens adultos tão fiel à realidade.

Martin mal sai de casa. É criador de sites e passa horas em frente ao computador. Suas interações com outras pessoas são, praticamente, mediadas pelo virtual. Após alguns ataques de pânico, seu médico recomenda caminhar pela cidade e fotografar o que achar interessante. Uma receita para aliviar o estresse e também para conviver além do seu universo de quatro paredes.

No prédio ao lado, mora Mariana, arquiteta que não conseguiu tirar uma de suas plantas do papel. Em compensação, trabalha como decoradora de vitrines de lojas. Ela recém terminou um relacionamento de quatro anos e está se adaptando a viver sozinha em seu antigo apartamento. Possui claustrofobia e sobe e desce diariamente oito andares de escada. Os dois formam um casal de personalidades e gostos similares que ainda não se conhece.

Como pano de fundo, temos Buenos Aires como uma cidade esmagadora, formada por uma infinidade de prédios de diversos tamanhos e formatos, habitados por pessoas cada vez mais individualistas e, consequentemente, sozinhas. Aquela imagem de capital turística e cultural não aparece em cena, oferecendo a oportunidade de representar qualquer outra metrópole mundial. A tal “medianeira” do título refere-se ao lado cego dos prédios, sem janelas, geralmente utilizado para propagandas. É assim como os personagens se sentem perante o mundo: uma pequena parte aprisionada.

As duas histórias correm em paralelo, ameaçando uma fusão que pode ou não ocorrer ao final. Nesse caminho, Martin mostra-se um personagem bem mais interessante. Ele procura alternativas de movimentar sua vida, chega a conhecer algumas garotas; enquanto Mariana sucumbe à depressão e permanece em um pseudo-luto.

O uso excessivo de narrações deixa à mostra sua origem em curta-metragem. O diretor Gustavo Taretto ganhou diversos prêmios em 2005 com a primeira versão. Agora, ao extendê-la, acaba se alongando demais em certos momentos e diminui o ritmo, mas em outros consegue criar fusões inteligentes que conectam a vida desses dois protagonistas de maneira criativa. E é nesse câmbio de informações que "Medianeras" captura com sensibilidade o que é morar em uma metrópole, sendo sempre verdadeiro com os Martins e as Marianas que existem por aí.

Nota: 8

Jovens Adultos

O diretor Jason Reitman e a roteirista Diablo Cody, a dupla responsável pelo sucesso indie "Juno", voltam a trabalhar juntos na comédia de humor negro "Jovens Adultos". Se o resultado do primeiro foi surpreendentemente positivo – levou o Oscar de Melhor Roteiro Original –, desta vez a parceira soa um pouco desconexa. Embora, não deixe de ser um filme de momentos interessantes.

"Jovens Adultos" é sobre Mavis Gary (Charlize Theron), uma escritora/roteirista que atua como "ghost writer" de uma série de livros infantis. Quando a saga é cancelada, ela decide voltar para sua cidade natal, onde era a garota mais popular da escola, e tentar reconquistar seu ex-namorado que atualmente está casado e recém ganhou um filho.

O filme recheado de ironias e cinismos mostra o trágico retrato de uma ex-rainha de baile de escola americana. Mavis é amarga, malvada, alcoólatra e, acima de tudo, egoísta. Por ser bela e popular, desenvolveu uma superioridade que não se sustenta mais. Ela é uma pessoa problemática, insatisfeita com a vida, justamente porque esta não se transformou em um conto de fadas.

Charlize tem em Mavis uma de suas melhores interpretações. Abandona o glamour e encara uma personagem difícil. Sua indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz – Comédia ou Musical foi mais que merecida. As melhores cenas da controversa escritora são com Matt, um nerd que ela zombava na escola. Também no elenco, como par romântico, o competente Patrick Wilson.

O principal mérito do roteiro de Diablo Cody é não trair seus personagens. Mavis não tem uma redenção por suas atitudes. Ela está buscando a sua felicidade, independente de qual maneira, e, por mais que ela procure mudar, vai seguir cometendo erros. Em compensação, o que falta em "Jovens Adultos" é mais relevância. Por vezes, esse discurso absurdo da protagonista chega a soar vazio.

Com um roteiro levemente frágil, a direção tenta compensar com tomadas divertidas, como a abertura com rock´n´roll e imagens de uma fita cassete. Jason tenta explorar a história, mas sem sucesso. O lamento, ao final, é de que o cineasta chegou ao topo com "Amor Sem Escalas" e depois caiu com este exemplar aqui. A dupla que se encontrou tão bem em "Juno" não correspondeu à altura dessa vez.

Nota: 7

O Preço do Amanhã

Chegar aos 25 anos e parar de envelhecer. Um desejo de praticamente todos mortais. Com essa premissa, “O Preço do Amanhã” apresenta um futuro em que a moeda é o tempo. Os humanos ao atingirem essa idade possuem apenas mais um ano de vida - a menos que paguem pelo tempo extra. A idéia remete aos contos de Phillip K. Dick (autor de “Minority Report”, “O Homem Duplo”, “O Vingador do Futuro”, dentre outras ficções científicas), o que é um bom sinal, mas perde o rumo quando vira um filme de ação descerebrado.

Justin Timberlake, que pelo jeito abandonou a carreira de cantor, interpreta Will Saalas, um típico funcionário do sistema até receber uma doação que lhe permite viver por um século. Acusado de matar para conseguir essa quantia, ele é perseguido pelos “guardiões do tempo”, a polícia do futuro. Na perseguição, sequestra a filha de um magnata (Amanda Seyfreid) e, juntos, tentarão mudar a realidade injusta.

Após construir com cuidado o primeiro ato, o diretor Andrew Niccol ("O Senhor das Armas") larga de mão a narrativa para investir nas cenas de fuga. O que resta da história nesse momento é a transformação do protagonista em um Robin Hood moderno. O potencial de uma ficção científica inteligente e de presença é desperdiçado em um acúmulo de cenas de explosão, deixando claro a intenção de ser uma peça de puro entretenimento.

Se o desenvolvimento seguisse na parte que deu mais certo, “O Preço do Amanhã” poderia se equivaler às adaptações de Phillip K. Dick para o cinema. Do jeito que termina, o filme demonstra ser uma criação completa de Niccol (também autor do roteiro), com uma idéia criativa apenas para alavancar um projeto de ação.

No meio da correria, a química entre Timberlake e Seyfreid não chega a pegar fogo. Enquanto ele está mais uma vez ótimo no personagem, ela permanece o filme todo com uma expressão blasé. Se a dupla não funciona tão bem junta é porque interage justamente nesta segunda parte pouco inspirada. Apesar da caída perto do final, “O Preço do Amanhã” ainda consegue se safar como uma aventura futurística interessante e em parte original.

Nota: 7

Gainsbourg


A figura de Serge Gainsbourg por si só é fascinante. Ele era um boêmio irrecuperável, viciado em cigarros, bebidas e mulheres. Apesar de feio, atraia as amantes mais lindas, inclusive a belíssima atriz Brigitte Bardot. Durante sua trajetória colecionou escândalos e compôs músicas para inúmeros artistas. Em 2010, o cantor ganhou uma cinebiografia a fim de capturar a história de sua vida desde a infância durante a guerra até sua morte em 1991. Infelizmente, o filme tem um roteiro relapso e não faz jus a um dos maiores nomes da música francesa.

O roteiro de “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” é o principal culpado desse infeliz resultado. Tem como linha condutora a aparição de certos “fantoches humanos” que conversam com o protagonista, geralmente uma versão dele próprio representada por um ser com orelhas, mãos e nariz gigantes. A utilização desses “bonecos” não deixa de ser um artifício preguiçoso para expressar os sentimentos do personagem principal. São cenas que diminuem e enfraquecem a obra. Além disso, a narrativa é tão mal desenvolvida que atropela constantemente acontecimentos importantes e se estende em bobagens, como essas criaturas.

O problema da trama contamina até mesmo a atuação de Eric Elmosnino. Por mais que tente, o ator não consegue transmitir uma verve ao nível do ídolo da música, principalmente porque o roteiro estraga por inteiro o crescimento do personagem. Assim, o Gainsbourg não é nem ao menos carismático. “O Homem Que Amava as Mulheres” apenas ganha uma sobrevida quando aparece em cena Laetitia Casta como Brigette Bardot. Mas, com a saída dela de cena, o longa volta ao seu completo desastre.

Nota: 2