Uma Semana
Projeto X - Uma Festa Fora de Controle
"Projeto X" convida o espectador a acompanhar a maior festa adolescente jamais imaginada. Mais de 1,5 mil estudantes divertiram-se durante uma noite em residência no subúrbio dos Estados Unidos. Música, drogas, jogos alcoólicos e putaria não poderiam faltar. Mas, esta balada sem limites tem muito mais surpresas. E os estragos serão catastróficos. Este novo projeto de Todd Phillips, diretor de Se beber, não case 1 e 2, oferece duas opções: se divertir e rir de toda confusão ou colocar-se no lugar do dono da casa e não curtir o filme direito.
Thomas (Thomas Mann) está de aniversário e seus pais foram viajar durante o final de semana. Com a casa liberada, ele e mais dois amigos organizam uma festa para comemorar a data e, de quebra, ganhar popularidade na escola. Os garotos convidam todos que encontram pelo caminho com medo de que ninguém compareça ao local. Ao contrário do que pensavam, as pessoas não param de chegar e a celebração perde o controle conforme os convidados vão ficando cada vez mais bêbados e inconsequentes.
Se não bastasse andar de skate no telhado, tomar banho de piscina sem camisa (inclusive as meninas), utilizar quartos da casa para fazer sexo e amarrar balões de gás hélio para fazer um cachorro literalmente voar, a festa chega ao extremo quando um anão furioso provoca o caos e um piromaníaco decide que tudo vai abaixo. A polícia chega ao local por reclamação dos vizinhos e os adolescentes tomam conta da rua, entrando em conflito com os policiais. O evento chega a ser transmitido pela televisão, ao vivo.
Tantos absurdos podem soar pura invenção do roteiro, mas a história de "Projeto X" é baseada em um fato real que ocorreu na Austrália, em 2008. O jovem de 16 anos, Corey Worthington, divulgou uma festa em sua casa no MySpace e atraiu mais de 500 pessoas. Os vizinhos assustados chamaram a polícia, que foi recebida com garrafadas, além de ter os carros destruídos. Os estragos chegaram a mais de 20 mil dólares.
O filme utilizou o acontecimento verídico como base para criar uma série de situações hilárias. A garotada assistiu o filme e aprovou as loucuras de "Projeto X", transformando-o em hit entre os adolescentes e influenciando a reproduzir na realidade festas naquelas proporções. Uma dessas baladas inspiradas no longa-metragem terminou na morte de um dos convidados, quando adolescentes brigaram e resolveram o conflito com tiros.
A partir desse caso, o filme recebeu críticas de que incita a irresponsabilidade dos jovens. O diretor estreante Nima Nourizadeh e o produtor Todd Phillips não acreditam que as acusações fazem justiça ao filme, já que cada um se inspira na produção de um jeito. Os adultos, principalmente os pais, torcerão o nariz para o filme, mas a Geração Y vibrará com cada excesso cometido em cena. Apesar da polêmica, "Projeto X" provavelmente será a festa mais insana que o espectador está convidado a participar.
Nota: 7
Branca de Neve e o Caçador
“Branca de Neve e o Caçador” é tudo que “Alice no país das maravilhas”, de Tim Burton, não conseguiu ser: uma releitura envolvente e interessante sobre um conto infantil. E este recente lançamento tem vantagens, como o tom sombrio, as imagens deslumbrantes (sem ser carnavalescas) e o clima épico do início ao fim. Porém, para curtir essa aventura, é preciso desprender-se do texto original e embarcar em adaptação livre sobre a fábula dos irmãos Grimm.
Martha Marcy May Marlene
Sabe aqueles filmes que são feitos para confundir e não explicar nada? É assim “Martha Marcy May Marlene”, produção americana lançada ano passado em circuito alternativo que tem como destaque a atuação de Elizabeth Olsen, a terceira irmã das gêmeas Mary-Kate e Ashley. Mistura de alucinação e realidade em uma trama que pode ou não estar invertida. Isso faz algum sentido? Não muito. O filme é um quebra-cabeças lento (leia-se muito lento), de momentos tensos e com uma história pesada.
O drama psicológico inicia quando a jovem Martha, interpretada por Olsen, foge de casa. Aos poucos descobrimos que essa residência é a sede de um culto abusivo, uma comunidade de pessoas perdidas que se sujeitam ao dominador Patrick (John Hawkes) – algo semelhante a seita de Charles Manson. A garota busca auxílio com a irmã Lucy (Sarah Paulson) e seu marido (Hugh Dancy). O casal acolhe Martha e passa a ter problemas com as atitudes pouco comuns da jovem.
Assombrada pelas recordações dolorosas dessa experiência anterior, Martha apresenta calmamente o que foi habitar uma comunidade que abdica dos valores contemporâneos para viver numa ideologia do passado. Homens e mulheres não dividem a mesa durante as refeições, os alimentos são cultivados em uma horta ou caçados na floresta, não há interferências tecnológicas, a única diversão é através de instrumentos musicais. A situação complica quando essas ações retrógradas ganham ares cada vez mais invasivos.
O líder Patrick comanda a comunidade de forma machista, aproveitando da ingenuidade de seus companheiros alienados. Ele pode, quando quiser, dormir com qualquer uma das mulheres do grupo. Se precisa de dinheiro, obriga que os habitantes solicitem o montante às suas famílias. E, junto com seus comparsas, realiza assaltos a casas luxuosas. Esse ambiente violento, tanto como físico como psicológico, torna-se cada vez mais sufocante para Martha.
Na casa da irmã, a garota deveria buscar a reintegração com a família após ter sumido por dois anos. Porém, na verdade, ela demonstra estar ali como hóspede. E o pior: comporta-se como uma selvagem, não sabendo o que é certo ou errado, demonstrando como a seita interferiu no inconsciente de Martha, deixando-a sem controle de suas atitudes. Ao na mesmo tempo, a narrativa começa a sugerir que os acontecimentos na comunidade podem ser alucinação da garota.
O roteiro não busca oferecer respostas. Ficamos sem saber porque Martha foi parar no culto, de que maneira esses hábitos bizarros foram desenvolvidos e muito menos o que acontece com ela ao término de sua estada na casa da irmã. Certas sequências colocam espaço e tempo em dúvida, como quando ela telefona para a casa do grupo. E, por fim, o filme ainda questiona a ordem dos fatos na narrativa. Certamente esses são exemplos de que a intenção é originar um quebra-cabeças a fim de confundir o espectador. Ou então conferir caráter cult à produção.
Se a confusão mental não é muito atrativa, o filme tem seu valor na qualidade técnica: brilhante direção (é do estreante Sean Durkin toda carga dramática e o tom melancólico da produção), fotografia (tons pastéis de uma beleza sublime), edição (fusões inteligentes entre passado/presente) e boas atuações de todo elenco, principalmente, de Elizabeth Olsen - surpreendente como a protagonista arisca e de poucas palavras. Apesar do aparato de produção funcionando, o roteiro perturbador e capaz de provocar um nó na cabeça deixa a sensação de vazio, de história incompleta. Assim, “Martha Marcy May Marlene” é uma experiência desconfortante.
Nota: 5,8
Hysteria
Paraísos Artificiais
“Uma história de amor e êxtase”. A frase do cartaz de "Paraísos Artificais" traduz duas das principais vertentes deste novo e ousado exemplar do cinema nacional. O drama ambientado nos anos 2000 é sobre o relacionamento do jovem casal Erika e Nando, que encontram-se no Rio de Janeiro, Pernambuco e Amsterdam, em meio ao universo de música eletrônica, drogas e muito sexo. É o conjunto desses novos elementos à produção cinematográfica brasileira que definem o fôlego e o caráter de novidade apresentada pelo filme de Marcos Prado.
Como Agarrar Meu Ex-namorado
Nota: 3,5
Jogos Vorazes
Nova franquia cinematográfica adolescente, “Jogos Vorazes” voa mais longe que seus antecessores “Percy Jackson”, “Crepúsculo” e, inclusive, “Harry Potter” porque foca no lado humano dos personagens e não nas peculiaridades de um universo fantástico. Dessa forma, suas chances em atingir o grande público, que desconhece a origem literária, são maiores. Somado a isso, a história extremamente atual captura o espectador em um mix de ação, violência, romance, política e ficção científica que provoca uma tensão progressiva incapaz de desgrudar um segundo do que está acontecendo no jogo de vida ou morte.
Nota: 8
À Beira do Abismo
Em "À Beira de um Abismo", tudo gira em torno de um homem prestes a se jogar do beiral de um enorme prédio no coração de Nova York. Sua atitude ganha proporções de mega evento quando a rua é evacuada, a televisão passa a transmitir ao vivo a situação e as equipes policiais reúnem-se para impedir que o sujeito pule lá de cima. No entanto, o que parecia ser uma tentativa de suicídio pode não ser bem isso.
Sam Worthington vive esse misterioso homem que em negociação com a policial Lydia Mercer (Elizabeth Banks) não quer revelar sua identidade. Em flashback, sabemos que ele é foragido da Justiça e saiu da prisão a poucos dias. No beiral do prédio, ele se comunica com alguém através de uma escuta. Tantos sinais mostram demonstram que ele não é apenas alguém desesperado querendo se matar. Então, o filme começa a mostrar a que veio.
"À Beira do Abismo" vira um thriller de ação e roubo mirabolante, que, apesar de basear-se em clichês, tem uma boa ideia. Pode não converser muito ao final, mas seu desenrolar é divertido. O time astros competentes (Ed Harris, Edward Burns, Kyra Sedgwick e Jamie Bell) também contribuem para este sofisticado e surpreendente exercício cinematográfico.
Nota: 7,5
Xingu
O diretor Cao Hamburger, de "Castelo Rá-Tim-Bum" e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", realiza longos intervalos de um filme a outro, mas a espera de até sete anos entre cada lançamento é recompensadora: sempre entrega uma obra caprichada sobre o tema que decidiu apresentar ao público. Desta vez, com “Xingu”, ele entra de cabeça na luta dos irmãos Villas-Bôas e, além de contar um pedaço da história brasileira, também promove a discussão sobre o papel do índio no contexto atual.
Weekend
Shame
Brandon é um executivo de 30 anos que mora sozinho em Nova York e cultiva uma vida secreta. Ele é viciado em sexo. Passa suas horas vagas - e até mesmo no trabalho - em busca de satisfazer sua compulsão. Por ser bonito e bem sucedido, consegue sexo fácil. Ao invés de mostrar essas aventuras eróticas como algo excitante, o filme apresenta como verdadeiramente são: uma doença.
A rotina de Brandon será transformada quando sua irmã Sissy (Carey Mulligan) decide morar com ele. Essa invasão em um terrotório anteriormente sob seu total controle provocará dois sentimentos contraditórios em Brandon: a intenção de levar uma vida normal, com um relacionamento saudável, e também a vontade de expulsar Sissy e seguir com seu ciclo masoquista.
Lidar com essa obsessão vai acabar levando Brandon ao fundo do poço, em uma procura por sexo cada vez mais degradante. Por vezes, ele tenta uma atitude "normal", como ter um encontro que não seja com uma prostituta ou que termine na cama. Ele sai para jantar com uma colega de trabalho, mas sua condição o impede de realizar tudo conforme os padrões aceitáveis pela sociedade. Não adianta, ele é diferente. Um homem atormentado por demônios que o impedem do convívio social. Nas cenas de sexo quase explícito, é possível observar Brandon em um misto de prazer e sofrimento.
Fassbender desnuda-se, literalmente, para encarar o complexo personagem. Seu desempenho não foi lembrado entre as categorias do Oscar, mas George Clooney fez questão de destacar o "grande" talento do ator durante a cerimônia do Globo de Ouro. Fassbender realizou cenas sem apelação de nudez frontal e de sexo não censurado. Uma atuação viceral que merecia maior reconhecimento.
"Shame" não chega a ser pornográfico, já que suas cenas provocantes são de completa importância para a história. Mesmo com sequências tidas como "quentes", o diretor McQueen realiza um filme de natureza fria e ao mesmo tempo estiloso. Uma fotografia elegante pontua as cenas com tons de azul e branco, comprovando a falta de emoções na vida de Brandon. A trilha sonora empregada nos momentos certos transmite a tensão e o desespero desse personagem que vive sempre no limite. Até mesmo o uso de poucos diálogos contribui para que quando estes apareçam sejam altamente valorizados, principalmente em interessantes conversas entre Brandon e Sissy.
Assim como em "Psicopata Americano", quando este retratou o vazio da geração yuppie dos anos 80, "Shame" consegue definir outra espécie de vazio nos anos 2000. É o peso de um cotidiano sem amor e sem encantos que assola os dias atuais. O sexo, também presente, é visto como algo mecânico. E, mesmo com uma diferente realidade, Nova York permanece como o mesmo pano de fundo, um símbolo da solidão, intensicado de forma brilhante pela canção "New York, New York", em interpretação carregada de emoção pela irmã do protagonista. "Shame" mostra como essa realidade pode ser um martírio.
Nota: 8,4
Para Sempre
Uma Vida Melhor
A produção de Chris Weitz (de "O Grande Garoto", "Bússola de Ouro", "Lua Nova") é sobre um homem latino de 40 e poucos anos que trabalha como jardineiro nas casas dos ricos de Los Angeles. Ganhando uma mixaria por inúmeras horas de trabalho, ele leva os dias desgastado pela dura rotina. Tudo isso para oferecer condições de que seu filho (José Julián) consiga ir ao colégio e obtenha melhores perspectivas de futuro. Sua possibilidade de mudar de vida vem com a compra de uma caminhonete, transformando-o em um profissional autônomo.
"Uma Vida Melhor" pode ser dividido em dois momentos: o drama inicial sobre o imigrante no país estrangeiro, explorando contrastes sociais e como a terra dos sonhos pode ser cruel, e o thriller que aproxima pai e filho na tentativa de recuperar algo roubado, com cenas de ação alternadas com ternura. Essa mudança na narrativa vem na hora exata. Quando espera-se que o filme se arraste pelos clichês do gênero, injeta-se um gás que o mantém interesse até o final.
A concepção do projeto é simples, mas ganha o espectador com o retrato sensível sobre a figura desse intruso em um lugar que não lhe pertence, potencializado com a relação construída entre os personagens de Bichir e Julián. São momentos delicados como o de uma música conhecida pelos dois ou quando conversam em tom de despedida, já perto do final, que comprovam a sintonia em cena, além de uma emoção genuína.
O principal responsável por essa carga emotiva é Damien Bichir, ator mexicano pouco conhecido que anteriormente só havia obtido destaque na série de televisão “Weeds” e como Fidel Castro nos filmes “Che” e “Che: A Guerrilha”. Sua indicação ao Oscar surpreendeu a todos, tirando a vaga dos cotados Ryan Gosling (“Drive”), Leonardo DiCaprio (“J. Edgar”) e Michael Fassbender (“Shame”). A representação de Bichir é tão poderosa que através de apenas um olhar ele transmite todo desespero de um homem em seu limite. É o papel de sua vida e certamente uma das melhores atuações de 2011.
A Mulher de Preto e O Despertar

"A Mulher de Preto" recebeu maior divulgação por ser estrelado pelo astro da saga Harry Potter, Daniel Radcliffe. Ele vive nas telas o advogado viúvo Arthur Kipps, que, em viagem de trabalho, precisa cuidar da documentação de um cliente que morreu em um vilarejo no interior da Inglaterra. Para isso, hospeda-se na casa do falecido, sem esperar que o local é assombrado por uma sinistra criatura.
A tal mansão é o ponto forte do filme. Afastada da cidade e cercada de recifes que são encobertos quando a maré sobe, a casa permanece por diversos momentos como uma ilha, deixando Arthur preso em um terreno pertencente ao sobrenatural. Essa situação confere o clima de terror ideal para trabalhar com tensão constante e sustos cada vez mais intensos. Em uma sequência de deixar os cabelos em pé, o advogado passa cerca de 15 minutos sendo atormentado continuamente pela habitante da casa. Sufoco total.
Por outro lado, "O Despertar" pontua a narrativa com sustos eficientes. Cada aparição do fantasma faz o espectador saltar da poltrona. E não são poucas vezes. A assombração responsável por todo esse nervosismo vive em um internato para meninos na Inglaterra do pós I Guerra Mundial. A escritora e especialista em desvendar fenômenos paranormais, Florence Cathcart (Rebecca Hall), é chamada por um dos funcionários da escola para investigar o espírito de uma criança que ronda o casarão.
Mais uma vez a ambientação soturna é a chave do bom funcionamento da produção. A casa gigantesca e distante de qualquer princípio de contato humano ganha tons assustadores quando as crianças deixam o local para passar as férias com suas famílias. A história, então, passa a utilizar mais e mais os ambientes mergulhados na escuridão, a fim de colocar à prova o ceticismo da protagonista perante fatos sem explicação científica. Um exemplo é a desesperadora cena da casa das bonecas.
Bebendo na fonte de filmes com "Os Outros" e "O Orfanato", os novos projetos utilizam como figura central imponentes casas vitorianas. Além disso, por se ambientar por volta de 1920, as cenas ocorrem muitas vezes à luz de velas, o que aumenta a tensão na tela. Toda essa atmosfera pesada contribui para uma narrativa lenta, mas bem construída por ambos roteiros.
O que deixa a desejar é a forma como as duas histórias se encerram. São explicações fajutas para mistérios tão bem elaborados e desenvolvidos. O clima de suspense e as boas atuações (Radcliffe e Hall dedicados) quase são deixadas de lado perante a derrapada na conclusão. Mas, o que fica ao final é o gênero do terror recebendo maiores cuidados, sem apelar para sanguinolência ou sustos fáceis. "A Mulher de Preto" e "O Despertar" são entretenimentos arrepiantes e de qualidade.
"A Mulher de Preto" - nota: 7,0
"O Despertar" - nota: 7,5
Um Método Perigoso
Dois dos principais mestres da ciência moderna foram amigos durante anos, parceiros em longas discussões teóricas, inclusive trocando confidências íntimas a fim de contribuir com seus estudos. Esse diálogo se rompe quando uma paciente tratada por ambos coloca tudo a perder. Mostrar essa curiosa relação e principalmente o marco da rivalidade entre Jung e Freud é o trunfo do novo filme do diretor David Cronenberg, “Um Método Perigoso”. O longa-metragem coloca três astros do cinema atual em um jogo de desejo e manipulação que acabou definindo os rumos da psicanálise.
Para interpretar os gigantes da mente humana, Michael Fassbender, ator sensação de uma das melhores safras de 2011 ("Jane Eyre", "X-Men: Primeira Classe", "Shame"), e Viggo Mortensen, fetiche do diretor desde "Marcas da Violência" e "Senhores do Crime", interpretam respectivamente Jung e Freud. A reunião deles ocorre no momento em que o primeiro está iniciando seu projeto de “cura através de conversas” e o segundo está começando a ganhar notoriedade internacional. A empatia entre ambos é imediata. A primeira conversa dura nada menos que 13 horas.
Surgem, então, as divergências. Freud defende que toda neurose é exclusivamente de origem sexual, enquanto Jung acredita que a sexualidade é apenas um dos motivos a ser considerado. Essa oposição fará futuramente que um desenvolva a psicanálise e o outro a psicologia analítica. Até lá, Jung será testado em resistir, primeiramente, aos conselhos do perigoso paciente Otto Gross, interpretado pelo francês Vicent Cassel, que condena a monogamia, afirmando que não se deve negar aos instintos básicos do ser humano. E depois, em um segundo momento, quando subumbe aos encantos de Sabina Spielrein (Kiera Knightley), uma paciente viciada em humilhações, através da qual o psiquiatra precisará avaliar sua ética profissional e moralidade social.
O Freud descrito pelo roteiro é um ser manipulador, que brinca com Jung enquanto este lhe é útil. Fica subentendido que o médico enviou propositadamente o paciente Otto para provocar Jung. Na busca para provar que está com a razão, Freud levará o "amigo" a corromper todos seus valores. No meio deste jogo, Sabina destaca-se por receber tratamento inicialmente de Jung e depois de Freud, contribuindo para o rompimento da relação entre ambos.
Concentrando todas essa nuances, Cronenberg realiza um filme no formato clássico, linear e sem riscos - diferente dos violentos "Marca da Violência" e "Senhores do Crime" ou dos complexos "Existenz" e "Spider - Desafie Sua Mente". O roteiro do dramaturgo inglês Christopher Hampton, o mesmo de "Ligações Perigosas", contribui ao adicionar tensão sexual em cada cena. Porém, tanto falatório sobre sexo não acaba se concretizando visualmente. Prefere deixar na sugestão, que, por sinal, resulta em uma boa escolha.
"Um Método Perigoso" traça um rápido perfil sobre Jung e Freud, deixando registrado os encontros e a separação da dupla. O papel de Kiera muitas vezes rouba a cena, mas sua interpretação exagerada beira o artificial. Já Fassbender e Mortensen demonstram confiança em seus personagens e fazem valer a reunião esses dois grandes nomes da Psicologia.
Medianeras
Martin mal sai de casa. É criador de sites e passa horas em frente ao computador. Suas interações com outras pessoas são, praticamente, mediadas pelo virtual. Após alguns ataques de pânico, seu médico recomenda caminhar pela cidade e fotografar o que achar interessante. Uma receita para aliviar o estresse e também para conviver além do seu universo de quatro paredes.
No prédio ao lado, mora Mariana, arquiteta que não conseguiu tirar uma de suas plantas do papel. Em compensação, trabalha como decoradora de vitrines de lojas. Ela recém terminou um relacionamento de quatro anos e está se adaptando a viver sozinha em seu antigo apartamento. Possui claustrofobia e sobe e desce diariamente oito andares de escada. Os dois formam um casal de personalidades e gostos similares que ainda não se conhece.
Como pano de fundo, temos Buenos Aires como uma cidade esmagadora, formada por uma infinidade de prédios de diversos tamanhos e formatos, habitados por pessoas cada vez mais individualistas e, consequentemente, sozinhas. Aquela imagem de capital turística e cultural não aparece em cena, oferecendo a oportunidade de representar qualquer outra metrópole mundial. A tal “medianeira” do título refere-se ao lado cego dos prédios, sem janelas, geralmente utilizado para propagandas. É assim como os personagens se sentem perante o mundo: uma pequena parte aprisionada.
As duas histórias correm em paralelo, ameaçando uma fusão que pode ou não ocorrer ao final. Nesse caminho, Martin mostra-se um personagem bem mais interessante. Ele procura alternativas de movimentar sua vida, chega a conhecer algumas garotas; enquanto Mariana sucumbe à depressão e permanece em um pseudo-luto.
O uso excessivo de narrações deixa à mostra sua origem em curta-metragem. O diretor Gustavo Taretto ganhou diversos prêmios em 2005 com a primeira versão. Agora, ao extendê-la, acaba se alongando demais em certos momentos e diminui o ritmo, mas em outros consegue criar fusões inteligentes que conectam a vida desses dois protagonistas de maneira criativa. E é nesse câmbio de informações que "Medianeras" captura com sensibilidade o que é morar em uma metrópole, sendo sempre verdadeiro com os Martins e as Marianas que existem por aí.
Nota: 8
Jovens Adultos

"Jovens Adultos" é sobre Mavis Gary (Charlize Theron), uma escritora/roteirista que atua como "ghost writer" de uma série de livros infantis. Quando a saga é cancelada, ela decide voltar para sua cidade natal, onde era a garota mais popular da escola, e tentar reconquistar seu ex-namorado que atualmente está casado e recém ganhou um filho.
O filme recheado de ironias e cinismos mostra o trágico retrato de uma ex-rainha de baile de escola americana. Mavis é amarga, malvada, alcoólatra e, acima de tudo, egoísta. Por ser bela e popular, desenvolveu uma superioridade que não se sustenta mais. Ela é uma pessoa problemática, insatisfeita com a vida, justamente porque esta não se transformou em um conto de fadas.
Charlize tem em Mavis uma de suas melhores interpretações. Abandona o glamour e encara uma personagem difícil. Sua indicação ao Globo de Ouro em Melhor Atriz – Comédia ou Musical foi mais que merecida. As melhores cenas da controversa escritora são com Matt, um nerd que ela zombava na escola. Também no elenco, como par romântico, o competente Patrick Wilson.
O principal mérito do roteiro de Diablo Cody é não trair seus personagens. Mavis não tem uma redenção por suas atitudes. Ela está buscando a sua felicidade, independente de qual maneira, e, por mais que ela procure mudar, vai seguir cometendo erros. Em compensação, o que falta em "Jovens Adultos" é mais relevância. Por vezes, esse discurso absurdo da protagonista chega a soar vazio.
Com um roteiro levemente frágil, a direção tenta compensar com tomadas divertidas, como a abertura com rock´n´roll e imagens de uma fita cassete. Jason tenta explorar a história, mas sem sucesso. O lamento, ao final, é de que o cineasta chegou ao topo com "Amor Sem Escalas" e depois caiu com este exemplar aqui. A dupla que se encontrou tão bem em "Juno" não correspondeu à altura dessa vez.
Nota: 7
O Preço do Amanhã

Chegar aos 25 anos e parar de envelhecer. Um desejo de praticamente todos mortais. Com essa premissa, “O Preço do Amanhã” apresenta um futuro em que a moeda é o tempo. Os humanos ao atingirem essa idade possuem apenas mais um ano de vida - a menos que paguem pelo tempo extra. A idéia remete aos contos de Phillip K. Dick (autor de “Minority Report”, “O Homem Duplo”, “O Vingador do Futuro”, dentre outras ficções científicas), o que é um bom sinal, mas perde o rumo quando vira um filme de ação descerebrado.
Justin Timberlake, que pelo jeito abandonou a carreira de cantor, interpreta Will Saalas, um típico funcionário do sistema até receber uma doação que lhe permite viver por um século. Acusado de matar para conseguir essa quantia, ele é perseguido pelos “guardiões do tempo”, a polícia do futuro. Na perseguição, sequestra a filha de um magnata (Amanda Seyfreid) e, juntos, tentarão mudar a realidade injusta.
Após construir com cuidado o primeiro ato, o diretor Andrew Niccol ("O Senhor das Armas") larga de mão a narrativa para investir nas cenas de fuga. O que resta da história nesse momento é a transformação do protagonista em um Robin Hood moderno. O potencial de uma ficção científica inteligente e de presença é desperdiçado em um acúmulo de cenas de explosão, deixando claro a intenção de ser uma peça de puro entretenimento.
Se o desenvolvimento seguisse na parte que deu mais certo, “O Preço do Amanhã” poderia se equivaler às adaptações de Phillip K. Dick para o cinema. Do jeito que termina, o filme demonstra ser uma criação completa de Niccol (também autor do roteiro), com uma idéia criativa apenas para alavancar um projeto de ação.
No meio da correria, a química entre Timberlake e Seyfreid não chega a pegar fogo. Enquanto ele está mais uma vez ótimo no personagem, ela permanece o filme todo com uma expressão blasé. Se a dupla não funciona tão bem junta é porque interage justamente nesta segunda parte pouco inspirada. Apesar da caída perto do final, “O Preço do Amanhã” ainda consegue se safar como uma aventura futurística interessante e em parte original.
Nota: 7
Gainsbourg

O roteiro de “Gainsbourg – O Homem Que Amava as Mulheres” é o principal culpado desse infeliz resultado. Tem como linha condutora a aparição de certos “fantoches humanos” que conversam com o protagonista, geralmente uma versão dele próprio representada por um ser com orelhas, mãos e nariz gigantes. A utilização desses “bonecos” não deixa de ser um artifício preguiçoso para expressar os sentimentos do personagem principal. São cenas que diminuem e enfraquecem a obra. Além disso, a narrativa é tão mal desenvolvida que atropela constantemente acontecimentos importantes e se estende em bobagens, como essas criaturas.
O problema da trama contamina até mesmo a atuação de Eric Elmosnino. Por mais que tente, o ator não consegue transmitir uma verve ao nível do ídolo da música, principalmente porque o roteiro estraga por inteiro o crescimento do personagem. Assim, o Gainsbourg não é nem ao menos carismático. “O Homem Que Amava as Mulheres” apenas ganha uma sobrevida quando aparece em cena Laetitia Casta como Brigette Bardot. Mas, com a saída dela de cena, o longa volta ao seu completo desastre.
Nota: 2













