Oscar 2013: O ano de Argo



A noite em homenagem aos musicais colocou os atores para cantar e dançar, tirou sarro de cenas de nudez e reproduziu momentos marcantes de diversos filmes no palco do Dolby Theatre, durante a 85ª cerimônia do Academy Awards, ocorrida no último dia 24 de fevereiro. Com essa temática, a celebração ao gênero das danças e cantorias tentou induzir que o grande vencedor seria o seu único exemplar na disputa, "Os Miseráveis". Entretanto, a consagração terminou nas mãos de Ben Affleck, protagonista, diretor e produtor de “Argo”, thriller de ação que venceu nas principais categorias: Edição, Roteiro Adaptado e Filme. 


O comediante Seth McFarlane, criador de “Family Guy” e diretor da comédia sensação de 2012, “Ted”, estreou como apresentador do Oscar. Simpático e com bom timing, revigorou a premiação com seu humor  politicamente incorreto, além de demonstrar que sabe cantar muito bem, tanto em números solo quanto acompanhado de Daniel Radcliffe e Joseph Gordon-Levitt. Seu ápice foi logo nas boas-vindas, com uma série de comentários inspirados, como: “a história de ‘Argo’ é tão secreta que o diretor é desconhecido da Academia. Eles sabem que estragaram tudo. Ben, não é a sua culpa”, falando sobre a ausência de indicações para Affleck como Ator e Diretor.


Um dos melhores momentos da cerimônia foi a trinca de apresentações formada por Catherine Zeta-Jones cantando “All that jazz” ("Chicago"), Jennifer Hudson com “And I Am Telling You I’m Not Going” ("Dreamgirls") e o elenco de “Os Miseráveis” na interpretação de várias músicas do musical. Performances sensacionais, principalmente a última, de maneira tão grandiosa como o filme. Ainda na linha musical, Shirley Bassey deu voz ao clássico “Goldfinger” em homenagem aos 50 anos da série James Bond; Barbara Streisand subiu ao palco para um tributo, ao som de “The Way We Were”, em memória aos artistas que morreram no ano passado; Norah Jones não empolgou com “Everybody Needs a Best Friend” (Ted); e uma Adele apática cantou “Skyfall”, vencedora de Canção Original. 


Os filmes da edição
Com uma grande seleção fílmica concorrendo esse ano, o volume de estatuetas acabou se diluindo entre tantas produções indicadas. “As Aventuras de Pi” foi aclamado nas categorias técnicas, levando o maior número de prêmios: quatro. A surpresa da noite veio quando Ang Lee passou a perna em Steven Spielberg e levou como Diretor. O filme ainda arrecadou Fotografia, Efeitos Visuais e Trilha Sonora.


O vencedor da noite, “Argo”, totalizou três Oscars. Emocionado, Affleck falou sobre superação em seu discurso, lembrou que era apenas um garoto quando ganhou pelo roteiro de “Gênio Indomável” e não esperava reviver aquele momento. Em oposição, “Lincoln”, que era o favorito com 12 indicações, perdeu força e faturou apenas em Direção de Arte (imprudente perto do trabalho fantástico de “Os Miseráveis”) e Ator para Daniel Day Lewis.


Enquanto o astro inglês proferiu um dos melhores discursos da cerimônia, mostrando uma veia cômica inesperada, a colega Jennifer Lawrence (“O Lado Bom da Vida”), eleita Melhor Atriz, fez os agradecimentos sem o seu carisma habitual – o que deixou mais evidente a precipitada estatueta. A atual namoradinha da América é uma excelente atriz, levou o Oscar certamente por sua presença hipnótica no filme, mas frente ao desempenho assombroso de Emmanuelle Riva (“Amor”) ou a ora enérgica ora sensível performance de Jessica Chastain (“A Hora Mais Escura”), ela fica devendo. Riva perder resulta em mais uma das injustiças históricas do Academy Awards. 


Mesmo não sendo o melhor de Tarantino (até longe disso), “Django Livre” garantiu Melhor Roteiro Original e o segundo – e merecido – prêmio para Christoph Waltz. “Os Miseráveis” consagrou Anne Hawthaway como Atriz Coadjuvante e levou ainda Maquiagem e Mixagem de Som. Na lanterna, “A Hora Mais Escura”, o novo de Kathryn Bigelow e infinitamente superior ao oscarizado “Guerra ao Terror”, empatou com “007 – Operação Skyfall” em Edição de Som. O austríaco “Amor”, como previsto, venceu por Filme Estrangeiro. E, o mais fraco entre os concorrentes, “Indomável Sonhadora”, saiu de mãos vazias.  


O resultado dos selecionados ao Oscar 2013 é uma safra mediana, dividida entre ótimos filmes (“Argo”, “As Aventuras de Pi”, “A Hora Mais Escura”, “O Lado Bom da Vida” e “Amor”), e produções apenas interessantes (“Lincoln” e “Django Livre”) ou irregulares (“Os Miseráveis” e “Indomável Sonhadora”). Segundo a primeira-dama, Michelle Obama, que anunciou o prêmio máximo, são projetos inspiradores para os jovens e o que essas futuras gerações irão representar. Colocação que se faz verdadeira em alguns dos indicados. O melhor é que esses filmes, apesar de tratarem de temas tipicamente americanos, não apresentam-se patriotas. 


Soma satisfatória
A cerimônia deste ano, mais longa que a anterior, finalizou com um saldo extremamente positivo. O começo promissor de Seth McFarlane, repleto de piadas infames, deu o tom da noite - o que não o deixou imune a inúmeras críticas dos conservadores. No decorrer da premiação acabou reduzido a apenas a chamar os apresentadores de cada prêmio (censura?), mas, mesmo assim, revelou-se o melhor anfitrião dos últimos anos. Pode retornar em 2014! 


Se no ano passado, as homenagens à sétima arte e à era de ouro de Hollywood consagraram “O Artista”, desta vez, a cerimônia do Academy Awards elegeu “Argo”, que, mesmo com uma intensa trama política, comprova a força da indústria cinematográfica quando introduz em seu roteiro um plano mirabolante de resgate, executado com sucesso devido às possíveis gravações de um longa-metragem no Irã. 


“Argo” concretizou as expectativas de ser o filme do ano, até porque venceu todas as demais premiações, provando a incoerência de excluir Affleck ao menos como Diretor. O restante da lista dos agraciados também foi previsível, repetindo praticamente os nomes do Globo de Ouro. Porém, ainda assim, a confirmação de um Oscar no currículo redefine o curso dos profissionais do cinema e do que o público assistirá nas telas pelos próximos anos. Este é o poder da Academia. 

Vencedores
Filme: “Argo”
Direção: Ang Lee, por "As Aventuras de Pi" 
Ator: Daniel Day-Lewis, "Lincoln" 
Atriz: Jennifer Lawrence, "O Lado Bom da Vida"
Ator coadjuvante: Christoph Waltz, “Django Livre”
Atriz coadjuvante: Anne Hathaway, "Os Miseráveis"
Roteiro original: “Django Livre”
Roteiro adaptado: “Argo” 
Animação: "Valente"
Filme estrangeiro: "Amor" (Áustria) 
Trilha sonora: "As Aventuras de Pi"
Canção original: "Skyfall", de Adele,"007 - Operação Skyfall"
Fotografia: "As Aventuras de Pi"
Figurino: "Anna Karenina"
Documentário: "Searching for Sugar Man"
Curta de documentário: "Inocente"
Edição: “Argo”
Maquiagem: "Os Miseráveis"
Direção de arte: "Lincoln"
Curta de animação: "Paperman" 
Curta-metragem: "Curfew" 
Edição de som: "A Hora Mais Escura" e "007 - Operação Skyfall"
Mixagem de som: "Os Miseráveis"

Apostas para o Oscar 2013



Desde que o Oscar passou a escolher até dez filmes como os melhores do ano, a seleção de indicados abriu espaço para gêneros que pouco figuravam em premiações. Na cerimônia realizada no dia 24 de fevereiro, a partir das 21h30min, no Kodak Theatre, em Los Angeles, e transmitida pela Rede Globo e TNT, temmos concorrendo nas principais categorias um violento faroeste, uma fábula filosófica, um thriller de pura tensão, um grandioso musical, uma produção austríaca densa, uma biografia política, um filme de ação sobre terrorismo, um drama independente e uma sedutora comédia romântica.

O pluralismo dessa edição deve acabar disseminando as estatuetas entre os nove indicados, sem gerar um grande vencedor da noite. A expectativa é de que o resultado seja semelhante ao do Globo de Ouro, repetindo os vitoriosos nas categorias Filme (Argo), Ator (Daniel Day-Lewis), Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (Christopher Waltz), Atriz Coadjuvante (Anne Hathaway), Animação (Valente) e Filme Estrangeiro (Amor). A seguir, o CinemaX elenca as chances de cada um dos projetos que disputam o maior prêmio do cinema.


LINCOLN
Favorito na disputa com 12 indicações, Lincoln apresenta o episódio histórico em que o 16º presidente dos Estados Unidos aprova emenda constitucional para acabar com a escravidão. O principal atrativo do projeto é a personificação de Daniel Day-Lewis, fisicamente idêntico. Deve levar como Melhor Ator. Steven Spielberg também possui grande possibilide de ser consagrado como Diretor. Apesar do alto número de indicações, vencer a categoria principal é o seu maior desafio.
Deve ganhar: Diretor, Ator
Altas chances: Filme


ARGO
A história real apresentada por Argo é realmente fantástica. E pode lhe render o tão cobiçado prêmio de Melhor Filme. Na trama, um especialista da CIA executa plano mirabolante para resgatar seis americanos do Irã. O thriller de ação é habilmente conduzido por Ben Affleck, que assume como protagonista e diretor. A produção surpreendeu vencendo o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Diretor, disparando na lista de apostas do Oscar. Seu ponto fraco é a ausência de indicação para Affleck nas duas funções que exerce.
Deve levar: Filme, Roteiro Adaptado, Edição


OS MISERÁVEIS
Após a consagração de O discurso do rei com cinco Oscars, Tom Hooper poderia escolher o projeto que quissesse. A decisão foi adaptar o clássico de Vitor Hugo, Os miseráveis, que também ganhou versão musical na Broadway. As oito indicações podem converter em estatuetas principalmente nas categorias técnicas. Anne Hathaway é a aposta certeira como Atriz Coadjuvante e Hugh Jackman é o único capaz de ameaçar o favoritismo de Daniel Day-Lewis na categoria de Melhor Ator.
Deve ganhar: Atriz Coadjuvante, Direção de Arte, Mixagem de Som, Maquiagem
Altas chances: Ator


AMOR
O estranho no ninho desta vez é Amor, produção austríaca de Michael Haneke que figura como o único exemplar não americano entre os indicados a Melhor Filme. Este drama sobre um casal de idosos frente as fragilidades da morte arrecadou diversos prêmios, incluindo a Palma de Ouro em Cannes. A consagração como Melhor Filme Estrangeiro é óbvia. Em contrapartida, ainda resta a dúvida se Emmanuelle Riva ganha como Atriz. Se não acontecer, será mais uma das grandes injustiças da história da premiação.
Deve ganhar: Filme Estrangeiro
Altas chances: Atriz e Roteiro Original


INDOMÁVEL SONHADORA
Indomável sonhadora está longe de ser uma obra-prima, mas tem seu mérito ao revelar dois talentos: o do competente cineasta Benh Zeitlin, que explora uma triste realidade pouco vista no cinema americano, e da expressiva menina de nove anos, Quvenzhané Wallis. Ambos estão concorrendo, respectativamente, nas categorias Diretor e Atriz. Com poucas chances de vencer, este drama independente deve se contentar apenas em ser indicado.


DJANGO LIVRE
O faroeste de Quentin Tarantino aproveitou o hype provocado por Bastardos inglórios e conquistou cinco indicações da Academia. Sem a nomeação para Melhor Diretor, Django livre perdeu sua força na disputa. Configura ameaça nas categorias Roteiro Original e Ator Coadjuvante, esta última com a poderosa atuação de Christopher Waltz.
Deve ganhar: Ator Coadjuvante, Edição de Som e Roteiro Original


O LADO BOM DA VIDA
Uma equipe em perfeita sintonia é a fórmula do sucesso de O lado bom da vida. A comédia romântica sobre dois adultos traumatizados que se apaixonam não apresenta nada surpreendente em sua história, mas compensa pelo desempenho impecável do quarteto Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jacki Weaver e Robert DeNiro – todos merecidamente indicados. O resultado é fruto do trabalho do diretor e roteirista David O. Russel, que também está no páreo. Jennifer Lawrence é a preferida como Atriz.
Deve ganhar: Atriz
Altas chances: Ator Coadjuvante (Robert DeNiro)


A HORA MAIS ESCURA
Kathryn Bigelow foi catapultada para o primeiro time de Hollywood depois que levou o Oscar de Melhor Diretora por Guerra ao terror. A ex-esposa de James Cameron preferiu seguir filmando no Oriente Médio em seu próximo projeto, A hora mais escura, que relata a caçada ao terrorista Osama Bin Laden. Dessa vez, o filme de Bigelow deve sair de mãos vazias.


AS AVENTURAS DE PI
Adaptação do livro homônimo de Yann Martel, As aventuras de Pi conquistou notoridade entre os lançamentos de 2012 não apenas por sua parcela de entretenimento, mas também por ser uma bela fábula que discute a sobrevivência e a filosofia. O resultado primoroso de Ang Lee no comando da narrativa e os quesitos técnicos, como a exeburante fotografia, podem render alguma estatueta.
Deve ganhar: Fotografia, Trilha Sonora, Efeitos visuais
Altas chances: Diretor


Fora dos nove principais:
Animação: Valente
Canção Original: 007 – Skyfall
Figurino: Anna Karenina

Crítica: O Lado Bom da Vida



Exemplares de comédia, terror e ação não costumam figurar em listas de premiações. O drama, geralmente, é o gênero favorito às láureas. Portanto, quando uma comédia romântica conquista oito indicações ao Oscar, é preciso ficar atento a esse campeão. “O Lado Bom da Vida” deve boa parte de seu mérito ao elenco inspirado e, também, ao comando competente do diretor. Além disso, um elemento-chave: personagens fora do controle, atípicos à cartilha tradicional do gênero. O filme de David O. Russel é uma história que você provavelmente já assistiu, porém, apresentada de forma madura, verdadeira e detentora de um charme irresistível.

A trama, baseada no livro homônimo de Matthew Quick, gira em torno de Pat  (Bradley Cooper), um professor de História que surta após flagrar a esposa o traindo com um colega do trabalho. Ele é diagnosticado bipolar, internado em um hospital psiquiátrico por oito meses e, após receber alta, volta a morar com o pai (Robert DeNiro) e a mãe (Jacki Weaver). Pat pretende recomeçar sua vida, mas encontra-se obcecado em ter de volta o amor da esposa. É perdido nessa missão de reconquista que ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence), uma garota de sua vizinhança que recentemente ficou viúva e também passou por um período sombrio. A afinidade entre eles surge justamente a partir dos traumas compartilhados.

Pat e Tiffany são dois adultos que perderam o equilíbrio frente a situações estressantes. Tornam-se amigos ao dividir suas experiências. E, aos poucos, percebem que são feitos um para o outro. São essas figuras complexas e reais que salvam o filme do trivial, personagens valorizados pela surpreendente atuação de Bradley Cooper (“Se Beber, Não Case”) como o maníaco depressivo e a perfomance sexy e hipnótica de Jennifer Lawrence (“Jogos Mortais”), vencedora do Globo de Ouro 2013 como Melhor Atriz.


Para unir esse casal disfuncional, nada melhor que divertidas (e reveladoras) aulas de dança. Alguma dúvida de que o filme terminará em uma competição esportiva? Esse é apenas um dos clichês presentes no roteiro. “O Lado Bom da Vida” não se importa que muitas cenas clássicas do gênero estejam no pacote. Seu ponto forte é tornar esses momentos verdadeiros. Escolhas acertadas de David O. Russell, um cineasta que se reinventou nos últimos anos, e que repete o feito de seu projeto anterior, “O Vencedor”, em que transformou uma história tradicional num potente e prazeroso entretenimento.

Nota: 7,9

Crítica: Lincoln



Depois das críticas ao exagero e didatismo de “Cavalo de Guerra”, Steven Spielberg avançou por um caminho mais seguro no drama histórico “Lincoln”. Ao enveredar pela vida do 16º presidente dos Estados Unidos, preferiu dar destaque à principal causa defendida pelo republicano: a abolição da escravatura. O filme não é necessariamente uma cinebiografia do personagem, revela-se um episódio altamente político da aprovação da 13ª emenda à Constituição e o fim da guerra civil, momentos marcantes para a transformação da América.

Entre jogos de poder e burocracias políticas, Abraham Lincoln negocia e utiliza até da corrupção para dar fim aos seus objetivos. São necessárias duas horas e 30 minutos para a produção concretizar na tela o feito tão importante que o presidente almeja. O conteúdo político torna a exibição em diversos momentos cansativa, mas o peso não interfere na construção desse belo exemplar de um registro histórico. A direção de arte retrata o período com perfeição, assim como o primoroso trabalho de maquiagem em Daniel Day-Lewis para torná-lo idêntico à figura pública que representa.

Como já não é novidade, o ator brilha em cena, principalmente, quando relata histórias e casos particulares como analogias para reafirmar seu ponto de vista em discussões. O esforço do ator mais uma vez impressiona. Porém, o que não encontra equilíbrio durante a sessão é como o roteiro trata a imagem do presidente, resumindo-o como um senhor bonzinho, fraco, cansado e com uma causa que o deixa inquieto. A fala lenta de Lincoln impede um rompante com verve de Day-Lewis, o que deixa a representação do personagem distante de uma demonstração poderosa da responsabilidade que está nas suas mãos.

Spielberg, que já havia trabalhado com o tema da escravidão em “Amistad”, comanda o projeto com pulso firme. Não há sentimentalismos e ode à nação. Uma oportunidade para conhecer o homem que promoveu o progresso humano em uma época de preconceitos. “Lincoln” aborda em essência a luta pela liberdade e o sentido de democracia, dentro de sua abordagem verídica.   

Nota: 7,2

Crítica: Marcados para Morrer



Diretor de “Tempos de Violência” e “Os Reis das Ruas”, além de roteirista em “Dia de Treinamento”, David Ayer demonstra em sua filmografia uma forte ligação com a luta contra o crime. Em seu novo projeto, “Marcados para Morrer”, o cineasta segue com a temática e exalta a classe policial, começando pela narração que abre o filme e apresenta os profissionais como heróis do dia a dia, limpando as ruas dos maus elementos. 

A história é, mais uma vez, o retrato das atividades diárias da polícia. Os colegas Brian (Jake Gyllenhaal) e Zavala (Michael Peña) personificam a organização. Sua tarefa é patrulhar uma das áreas mais perigosas de Los Angeles. Entre uma ocorrência e outra, atendendo incêndios, casos de crianças desaparecidas e caçadas a criminosos, a dupla irá se envolver com uma perigosa quadrilha organizada. Apesar do filme caminhar para uma trama específica de ação, a veracidade do projeto fica com a demonstração de companheirismo entre os personagens. 

Gyllenhaal e Peña (ambos ótimos) demonstram naturalidade na pele dos agentes, confirmando uma irmandade autêntica entre eles. São profissionais quando se faz necessário, os inimigos do tráfico, corajosos e destemidos, mas também mostram-se brincalhões e confidentes no contato diário, dentro da viatura. O filme apresenta ainda a vida além da farda, com os dois amigos interagindo fora do trabalho, com a esposa de Zavala e a namorada de Brian.

Uma escolha duvidosa da produção foi utilizar câmera em primeira pessoa. A justificativa é que Brian está filmando um documentário para a faculdade, porém, a gravação é inquieta, mesclando o treme-treme dessa perspectiva com as imagens do cinegrafista. O que não faz sentido. Não acrescenta ao filme, porque a sensação de realidade não é tão poderosa que não pudesse ser feita de maneira convencional.

Mais uma consideração importante é a falta de originalidade no núcleo de ação. Carece de uma motivação maior que torne essa subtrama mais relevante e envolvente ao restante da história. O capítulo acaba se desenvolvendo nos minutos finais e deixa uma sensação de vazio. Por este motivo, a potência de “Marcados para morrer” (péssimo título nacional) resulta da intensa relação da dupla de policiais. O diretor oferece um bom filme do gênero, amparado na sintonia dos protagonistas, e, apesar da escassez em novidades, permanece como um clichê gostoso de assistir.

Nota: 7,3

Crítica: Amor



O fim da vida não abre exceções. E "Amor", novo filme do diretor austríaco Michael Haneke, apresenta esse término através do penoso envelhecimento de um casal. Desenvolvido inteiramente dentro de um apartamento, a história acompanha Anne (Emmanuelle Riva) e Georges (Jean-Louis Trintignant), ambos pianistas e intelectuais, que parecem não se abalar com os problemas da idade. Isso até precisarem encarar a degradante realidade quando Anne sofre um AVC e tem seu lado direito paralisado.

O laço que une o casal é tão forte que Georges não demonstra incomodar-se com os novos cuidados à esposa. Ele descarta a possibilidade de levá-la a um hospital ou interná-la em um asilo. Quer Anne ao seu lado, sob sua supervisão. Essa dedicação apresenta-se como prova do companherismo e do afeto que sentem um pelo outro. Um amor alheio ao restante do mundo, o qual não parece existir além das janelas daquele cenário comum à dupla.

O espectador observa atenta e lentamente a transformação da charmosa e elegante artista em uma pessoa doente, incapaz de ter sua independência e até mesmo a racionalidade. O humilhante estado da velhice é mostrado por meio de cenas do cotidiano, como tomar banho e se alimentar. O incansável marido tem ciência de qual será o destino de sua amada – e o seu próprio. E não luta contra isso. Aceita.

As poucas visitas que circulam pelo soturno apartamento são da filha, de um aluno de música e duas enfermeiras, além de uma pomba que persiste em entrar no recinto. Seria uma analogia para dizer que o que se encontra ali está morto, abandonado ou próximo do fim? A resistência à vida não tarda a enfraquecer e o desfecho, assim como o restante da exibição, é desesperador.

Premiado com a Palma de Ouro em Cannes e indicado a cinco categorias no Oscar 2013, incluindo Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro, "Amor" destaca-se pelo fiel retrato das fragilidades diante da morte, com um olhar poético e triste sobre a relação desses personagens. O ponto alto, sem dúvidas, vai para as atuações impecáveis dos dois ícones do cinema francês. A fantástica performance de Emmanuelle Riva é de uma entrega tão verdadeira que assombra mesmo após a sessão. Digna de todos os prêmios. 

Nota: 7,5

A Entidade



“Eu tenho um ótimo pressentimento sobre isso”, fala o escritor Ellison Oswalt (Ethan Hawke) para esposa, quando muda-se de cidade para escrever sobre um crime hediondo que ocorreu novo endereço. Ao começar a investigação sobre o caso, ele nem imagina os eventos trágicos que o esperam. A incursão de Ellison a um território aterrorizante de mortes brutais e sustos incessantes é a equação de sucesso de “A Entidade”, um dos melhores filmes de terror dos últimos anos.  

Na verdade, o escritor não contou para família que a nova moradia deles foi palco dos assassinatos que pretende averiguar. A intenção de Ellison é aprofundar-se no acontecimento chocante e, através do relato escrito, resgatar a fama obtida apenas em seu primeiro livro. A investigação ganha, aos poucos, contornos cada vez mais sinistros, conforme seu envolvimento com os incidentes do passado. 

A tensão na tela é mantida alta desde o início, a partir do momento em que o protagonista encontra no sotão da casa uma caixa com filmes antigos em super 8, cujos títulos são “Passeio de família”, “Churrasco de 1973” e outros registros aparentemente inocentes. Porém, cada um dos vídeos apresenta uma situação cotidiana que termina em chacina.  

Ao logo do filme, o nervosismo só aumenta. Cenas perturbadoras se multiplicam cada vez que chega a noite e o mal desperta na casa. E os sustos não são poucos. Fazem o espectador pular da cadeira várias vezes. A revelação do mistério não é novidade, mas também não compromete. Ao menos, o “responsável” pelos crimes é realmente apavorante, assim como suas aparições. 

“A Entidade” é um filme de terror sério, de ritmo lento e intrigante. E estas podem ser consideradas suas principais virtudes. Sem um assassino que mata jovens um a um ou persegue incessantemente o mocinho, este exemplar prefere ir a fundo no cerne da trama: a investigação criminal realizada pelo protagonista. O diretor Scott Derrickson (“O Exorcismo de Emily Rose”) conduz com mão firme a narrativa e Ethan Hawke comprova como pode ser consistente na pele de qualquer personagem, inclusive no campo do horror.


Na falta de bons exemplares do gênero, “A Entidade” destaca-se na safra 2012 como um projeto eficiente, recheado de suspense e com muita tensão. Mesmo com um título ruim em português, o filme merece ser descoberto pelos adoradores do medo. “A Entidade” é tudo que se espera de boa produção de terror: é asustador, pesado, hipnótico, angustiante e perturbador. Prepara-se para não dormir tranquilo algumas noites. 

Nota: 8,1

Crítica: Um Divã Para Dois


Casados há 31 anos, Kay (Meryl Streep) e Arnold Soames (Tommy Lee Jones) estão em crise. A desgastada convivência acabou os isolando: dormem em camas separadas, pouco conversam e a intimidade entre os dois não ultrapassa aquele beijo de saudação, uma espécie casual de “bom dia”. Como diz Kay, seu marido só a toca para tirar fotografias. Dessa forma, a vida na casa dos Soames é triste. Para tentar salvar o relacionamento, decidem participar de uma semana intensiva de terapia. “Um Divã Para Dois” dialoga sobre e com os casais na terceira idade, retratando o momento em que é preciso de inovação para resgatar um amor que pode não estar perdido.

A reconstrução do casamento desenvolve-se através de conversas com o terapeuta Dr. Bernie Feld (Steve Carell), famoso autor de best-sellers do gênero. O tratamento e seus exercícios provocarão, gradativamente, a aproximação de Kay e Arnold. Porém, o roteiro resume a intimidade do casal a prática sexual, submetendo os sessentões a diversas situações desconfortáveis/cômicas que nem sempre funcionam. O que o projeto sugere é que se tudo vai bem na cama, então não é preciso de mais nada.

Justamente por serem opostos, os personagens principais incomodam um pouco. Ele é ranzinza ao extremo, reclama sem parar e possui um mau humor contagiante. Por outro lado, ela é pacífica demais, suplicando por ser amada por alguém que aparentemente não lhe dá valor. A acelerada mudança de personalidade de Arnold, conforme anuncia-se o final do filme, soa um pouco forçada, já que o contexto apresentado aparece praticamente sem solução.

O grande atrativo, é claro, fica com Meryl Streep, que repete a parceria junto ao diretor David Frankel, do excelente “O Diabo Veste Prada”. A atriz, como sempre, dá um show em cena. Sua Kay possui uma fragilidade encantadora – não por menos foi indicada ao Globo de Ouro. Tommy Lee Jones personifica a si mesmo e convence como o teimoso Arnold. Em contrapartida, o cineasta não se decide em qual gênero conferir sua história. Essencialmente é um drama, mas diversas vezes paga de comédia.

Mesmo com seus relativos problemas, “Um Divã Para Dois” motiva o espectador a torcer pelo final feliz e cumpre o prometido ao encontrar identificação com seu público-alvo. Inúmeros casais certamente se enxergarão retratados na tela. E este é principal mérito do projeto. Assim, o filme configura-se como mais um exemplar a somar na coleção das comédias românticas para a meia-idade, ao lado de “Alguém Tem Que Ceder” e “Simplesmente Complicado”.

Nota: 7

Crítica: Paranorman


Misturando comédia e terror, “Paranorman” mostra-se uma animação um tanto interessante. Reúne elementos de filmes de horror – aí vale-se de algumas referências – com a comédia pastelão comum às produções infantis. Em sua estética, aposta em traços à la Tim Burton, explorando um universo sombrio que envolve espíritos, zumbis e uma bruxa malvada. Se por um lado acerta na direção artística e no argumento do roteiro, por outro, perde uma oportunidade preciosa de ser um entretenimento nerd, com apreciação também pelos adultos.

Na trama, Norman é um garoto que consegue ver e falar com fantasmas. Ele sofre bullying na escola e não tem amigos, justamente, por ser diferente dos demais. Mesmo sem ser o cara mais popular, está sempre acompanhado: em casa, pelo espírito de sua vó e, na rua, pelos diversos seres ainda presos ao plano terrestre. A aventura de Norman inicia quando seu tio – que possui o mesmo dom – o alerta sobre uma antiga maldição que será despertada naquela noite. Sem conseguir impedir que a desgraça venha à tona, o rapaz tentará salvar a cidade do retorno de mortos-vivos e do espírito de vingança de uma menina que foi considerada bruxa no passado.

O charme da produção concentra-se nas pequenas homenagens aos filmes de terror, como os créditos de abertura e de encerramento que reproduzem os filmes B do gênero. Além desse exemplo, tem-se ainda a fascinação do protagonista por filmes de zumbis, possuindo despertador, pantufas, cartazes, escova de dentes e outros objetos referentes aos monstros. O roteiro também ironiza a estupidez dos mortos-vivos em cenas divertidas. É o caso da sequência em que um personagem, prestes a ser devorado pelas criaturas, espera o salgadinho cair de um máquina automática para depois correr.

No geral, as referências ao macabro não sustentam o projeto. Ainda mais, o filme mantem um tom comedido para não assustar os espectadores menores. Não há sustos. Também fica carente de piadas inteligentes no estilo da Pixar. “Paranorman” segue a cartilha previsível de uma animação tipicamente infantil e, por isso, seu destino acaba sendo as crianças, que vão curtir a atmosfera “sinistra” e, de quebra, aprender/reforçar uma mensagem importante: deve-se sempre aceitar as diferenças. O resgate à trabalhosa técnica de stop-montion acrescenta uma graciosidade extra ao projeto.

Nota: 6

Crítica: Cinco Anos de Noivado


O jovem casal Vic (Emily Blunt) e Tom (Jason Segel) decide se casar. Ao começar o planejamento da cerimônia, ela recebe uma carta da Universidade de Michigan com a oferta irrecusável de um emprego com validade de dois anos. Para não perder a oportunidade, os dois mudam-se de cidade e optam por adiar o casamento pelo período. Este será o primeiro empecílio do casal. Muitos ainda virão, porque, não por menos, o título dessa história é “Cinco Anos de Noivado”. Acompanhar os altos e baixos desse relacionamento é uma experiência interessante, cansativa e carismática.

O roteiro escrito por Segel e Nicholas Stoller (“Ressaca de Amor”), que também dirige o longa-metragem, é calcado na atual realidade em que ambas figuras do casal possuem individualmente suas carreiras profissionais – o que pode gerar conflitos. Tom, por exemplo, abdicou do cargo de chef de cozinha para morar com a noiva em uma cidade do interior que não tem apresenta um mercado em desenvolvimento para a gastronomia. O filme, ao abordar temas da vida moderna, representa novos impasses que se apresentam frente a instituição do casamento – esta que já não demonstra a mesma importância do passado.

No filme, a cerimônia simboliza o final feliz para os protagonistas. O problema é que esse encerramento parece ficar cada vez mais difícil ao passo que o casal cria lentamente uma distância entre si. Dessa forma, a comédia romântica insere uma pitada amarga quanto o desgate dos relacionamentos, promovendo perguntas como “Por que adiamos as coisas? Nunca estamos satisfeitos? Estamos sempre esperando um melhor momento?”.

Enquanto tentam resolver seus problemas antes de casar, Tom e Vic acabam esticando a duração do longa-metragem, deixando-o massante para o público. Inevitavelmente, a trama extensa de mais de duas horas torna-se cansativa – o que salva é o carisma absurdo de Emily Blunt, que ilumina cada uma de suas cenas. Um bom corte na edição resolveria esse problema. Fora isso, Cinco anos de noivado encerra em alta e consegue fazer uma análise válida sobre as relações humanas. Só é preciso ter um pouco de paciência.

Nota: 6,5

Crítica: Ruby Sparks - A Namorada Ideal


Quem nunca imaginou como seria o seu par perfeito? Um homem ou uma mulher de seus sonhos? Em “Ruby Sparks – A Namorada Ideal”, o jovem escritor Calvin Weir-Fields (Paul Duno) cria para o seu próximo livro uma personagem feminina tão encantadora que acaba se apaixonando pela garota da ficção. Como uma travessura do destino, a musa das páginas se materializa, saindo de sua mente, para a vida real. A partir dessa premissa, o filme explora a idealização do ser amado, brincando com os conceitos de perfeição e destino.

Dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris, do sucesso “Pequena Miss Sunshine”, o longa-metragem possui uma aura indie e realista – apesar de ser um conto de elementos fantásticos. A história não se exime da possibilidade de Calvin interferir nas ações de Ruby (Zoe Kazan), sua criação. Em cada momento que o protagonista encontra-se insatisfeito com os rumos de seu romance, ele escreve as atitudes que espera da namorada, moldando-a à sua vontade. Aos poucos, calvin vai aprender que vale mais a pena deixar a vida ter seu rumo próprio.

Na pele do casal principal, Paul Duno e Zoe Kazan demonstram a química necessária ao projeto. Tarefa extremamente fácil já que os dois são namorados fora das telas. Enquanto Duno conquistou seu espaço em produções como “Sangue Negro”, Kazan tem no currículo pequenas participações em dramas e comédias, mas ainda é desconhecida do grande público. Neta do consagrado cineasta Elia Kazan, a jovem prodígio também assina o roteiro de “Ruby Sparks” e, por seu talento frente às câmeras e na produção, tem tudo para despontar na indústria cinematográfica.

“A Namorada Ideal” é uma combinação do romantismo de “500 dias Com Ela” com o realismo fantástico de “Mais Estranho Que a Ficção”. Uma fórmula relativamente original (longe de muitos clichês do gênero) que não poderia dar errado. Esta comédia romântica terna e inteligente mostra o quanto o amor pode ser mágico e, que apesar da realidade não ser aquela que esperamos, a perfeição encontra-se justamente na imperfeição.

Nota: 7,7

Crítica: Ted


Um urso boca-suja desbancou concorrentes de peso e garantiu vaga no ranking das maiores bilheterias do ano. “Ted” é o sucesso surpresa de 2012, com mais de 470 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, tornando-se a comédia número 1 entre aquelas com classificação R (proibida para menores de 18 anos). O segredo do filme está nos diálogos espertos preenchidos por um humor sarcástico e infame, na maior parte das vezes proferido por um fofo bichinho de pelúcia.

Na produção da Universal Pictures, Mark Wahlberg interpreta John, um adulto infantilizado, que ainda não encontrou seu lugar no mundo. Quando criança, ele ganhou um urso de presente e pediu a uma estrela cadente que Ted fosse seu amigo. A partir disso, o brinquedo ganha vida e transforma-se em celebridade. Trinta anos depois, John trabalha como balconista em uma loja de aluguel de carros e Ted, sem a fama do passado, virou um vagabundo profissional. O impasse surge no momento em que Lori (Mila Kunis), a namorada de John, pede que o urso saia de casa para ter sua independência.

A comédia marca a estreia de Seth MacFarlane no cinema, o criador da série televisiva “Family guy”. O diretor e roteirista, que costuma atacar a moral e o conservadorismo americano, recebeu críticas fervorosas por incentivar as drogas e a vida fácil, sem estudo ou emprego, como foi o caso polêmico do deputado Protógenes Queiroz que se pronunciou revoltado no Twitter. O feito só incentivou a repercussão do filme e o aumento de sua arrecadação no Brasil.

Tanto alvoroço se justifica porque Ted é um urso que aparece cercado de prostitutas, fumando maconha, bebendo cerveja, falando inúmeros palavrões, dirigindo carro usando celular, apalpando seios de uma mulher e simulando sexo com um picolé e uma máquina registradora, além de disparar comentários preconceituosos. Curiosamente, esse conjunto de piadas ácidas funciona tão bem que as gargalhadas são involuntárias. E afeição com uma critura adorável e grotesca torna-se imediata.

“Ted” é um filme ousado, que segue à risca a cartilha das piadas policamente incorretas e aproveita-se de referências da cultura pop (Susan Boyle, Flash Gordon, Superman, Katy Perry e outros) para tirar muito sarro. A história de amizade com doses de humor negro e pastelão virou sensação nos cinemas e sua continuação está aprovada. Extremamente engraçado, o filme pode ser considerado, junto a “American Pie - O reencontro”, uma das melhores comédias do ano.

Nota: 8,1

Crítica: Até a Eternidade


Os maiores atores franceses da atualidade estão reunidos na produção “Até a Eternidade”, de Guillaume Canet, sobre um grupo de amigos que passam as férias em uma casa da praia. Marion Cotillard, François Cluzet, Gilles Lellouche e o vencedor do Oscar por “O Artista”, Jean Dujardin, integram o excepcional elenco. A produção de 2010 foi um dos principais sucessos de bilheteria dos últimos anos na França, com arrecadação de 44 milhões de dólares, e, após dois anos de atraso, finalmente chega ao circuito brasileiro. Um filme envolvente que trata de forma sincera e verdadeira diferentes assuntos, como relacionamento, homossexualidade, casamento, morte e, claro, amizade.

Na trama, um grupo de adultos formado por homens e mulheres entre 30 e 50 anos encontra-se anualmente na casa de veraneio do anfitrião Max (Cluzet). O encontro é um ritual para esses companheiros de longa data. Porém, desta vez, a viagem tem um gosto amargo: um dos companheiros, Ludo (Dujardin), sofre um acidente de moto e vai para o hospital em estado grave. Mesmo com a fatalidade, o grupo decide manter a reunião de férias sem a presença do amigo. Entre almoços, passeios de barco, partidas de futebol, jantares e conversas íntimas, segredos e mentiras que contam entre si acabarão sendo revelados. E, num último estágio, a indiferença ou a impotência quanto ao ocorrido com Ludo será colocada à prova.

O maior mérito de “Até a Eternidade” é a sólida construção de personagens, que faz as duas horas e meia de duração passarem sem que se perceba. São figuras bem definidas, com personalidades desenvolvidas com precisão a ponto de o espectador esperar a exata reação de cada um deles perante os fatos. Essa característica deve ser atribuída a Canet, que, além da direção, assina o roteiro. Talvez seja por isso que a personagem feminina de maior destaque ficou a cargo de sua esposa, Marion Cotillard – sempre competente em cena.

Inevitavelmente, o filme é comparado ao clássico “O Reencontro”, longa-metragem de 1983 que reúne um grupo de amigos no funeral de um deles. O título concentra grandes astros americanos: Kevin Kline, Glen Close, Tom Berenger, William Hurt e Jeff Goldbum. Canet assume sua inspiração no passado e sai vitorioso por conseguir criar um projeto próprio. Atualiza os conflitos para os dias de hoje, como quando introduz a história de Vicent (Benoît Magimel), casado e pai de dois filhos, que passa a sentir atração pelo amigo Max. Aliás, esta é uma das mais emocionantes narrativas que integram o filme.

A trilha sonora de “Até a Eternidade” merece um destaque em especial - semelhança que também divide com “O Reencontro”. Uma seleção de sucessos de Janis Joplin, David Bowie, The Isley Brothers, The Band, Damien Rice, Ben Harper e Jet embala as cenas dos amigos franceses. E nesse decorrer de situações casuais, a produção faz rir e chorar com a mesma intensidade. Apesar de se basear em alguns clichês e ter um jeitão de novela, consegue capturar o espectador desde a primeira cena, com um belo plano sequência. Ao final, é difícil se despedir do convívio com personagens que se tornam tão familiares.

Nota: 8

Crítica: Moonrise Kingdom


O novo filme de Wes Anderson segue a mesma e deliciosa cartilha utilizada em "Os Excêntricos Tenembaums", "A Vida Marinha com Steve Zissou", "Viagem a Darjeeling" e "O Fantástico Sr. Raposo". Os quatro são considerados “filmes de diretor”, em que o cineasta imprime uma marca própria e inconfundível. Na elaboração de seus projetos, Anderson costuma utilizar como figuras centrais pessoas esquisitas, desajustados sociais, fracassados. Para constituir esse universo geralmente melancólico, introduz uma fotografia que abusa da paleta de cores e aposta em trilha sonora composta por faixas dos anos 1960 e 1970. O cinema de Anderson permanece peculiar em "Moonrise Kingdom", produção em tom de fábula infantil sobre o primeiro amor.

A história se passa em 1965, em uma ilha da costa da Nova Inglaterra, onde dois jovens de 12 anos, Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward), se apaixonam. O casal decide fugir. Enquanto se aventuram vivendo na floresta, autoridades locais tentam localizar as crianças que sumiram. O filme consegue ir além da destemida fuga dos enamorados e apresenta surpresas para o seu segundo ato. Grande elenco integra o projeto: Bill Muray e Frances McDormand interpretam os pais de Suzy, Bruce Willis é o xerife que comanda as buscas, Edward Norton atua como o chefe do grupo de escoteiros e Tilda Swinton assume como a assistente social. Ainda tem participações especiais de Harvey Keitel e Jason Schwartzman.

Apesar de tantos astros na produção, os protagonistas são os estreantes Gilman e Hayward, totalmente encantadores como o jovem casal. Eles são os responsáveis por apresentar uma visão inocente e pura sobre o amor. Através desse delicado universo, o diretor proporciona um retrato sobre o período entre a infância e a adolescência, utilizando como metáfora o fato de estarem isolados em uma ilha. E, em cada frame, imprime sua plasticidade sedutora e particular, transformando o filme em uma peça gráfica de um charme estético irresistível.

"Moonrise Kingdom" é uma história de amor infantil que vai do triste ao engraçado, da aventura ao drama, do romântico ao esquisito. Entre seus acertos, cabe destacar a aposta em uma fórmula mais doce do que o habitual gosto pelo azedo do diretor. Com uma carreira de sucesso, de inúmeros elogios por onde é exibido, o filme apresenta-se como um forte concorrente ao Oscar 2013. Sem dúvidas, é uma obra de arte apaixonante, que resgata um espírito de aventura juvenil e a poesia do primeiro amor. Deve se tornar o principal projeto de Anderson a ser lembrado no futuro.

Nota: 8,4

O Que Esperar Quando Você Está Esperando


Manual básico para qualquer casal grávido, o livro “O Que Esperar Quando Você Está Esperando” tornou-se um sucesso imediato, com mais de dez milhões de cópias vendidas em todo o mundo. Tamanho êxito não passaria em branco por Hollywood, que encomendou uma versão para o cinema do best-seller escrito por Heidi Murkoff, Arlene Eisenberg e Sandee Hathaway. Um superelenco dá vida a várias histórias que retratam experiências dramáticas e divertidas com a gravidez.

O filme de Kirk Jones transforma as dicas do livro em cinco narrativas: Holly (Jennifer Lopez) quer muito adotar uma criança, mas seu marido (Rodrigo Santoro) possui dúvidas quanto à tarefa de ser pai, Jules (Cameron Diaz) é a estrela de um programa televisivo sobre emagrecimento e, de surpresa, fica grávida do atual namorado Evan (Matthew Morrison), Wendy (Elizabeth Banks) consegue engravidar após inúmeras tentativas, porém, ela perceberá que a gestação não será nada fácil, o sogro de Wendy (Denis Quaid) acaba de casar com a jovem Skyler (Brooklyn Decker), que está esperando gêmeos, e, por fim, Rosie (Anna Kendrick) envolve-se por uma noite com o sedutor Marco (Chace Crawford) e passa a esperar um filho dele.

O emaranhado de episódios, como de costume, apresenta seus altos e baixos. A melhor história é protagonizada por Banks, que abusa da comédia para mostrar como a gravidez pode ser massacrante. Em oposição, a trama que envolve Kendrick não é bem aproveitada, repercutindo em um romance sem graça e de pouca relação com a ideia central do filme. Nessa mesma linha, o núcleo envolvendo Diaz é completamente dispensável. Alguns momentos cômicos salvam a presença do enredo de Decker no projeto.

A parte que discute a adoção, protagonizada por Lopez e Santoro, oscila entre humor raso e cenas emocionantes, como aquela em que o casal encontra pela primeira vez a criança que será seu filho. O ator brasileiro destaca-se em um papel de relativa importância para a trama e apresenta um bom e convincente desempenho. Pena que ele participe de situações vergonhosas, como a do grupo de homens que se une para cuidar de seus bebês. Uma bobagem completa, principalmente quando Joe Manganiello entra em cena como um ganharão que todos veneram.

“O Que Esperar Quando Você Está Esperando” pode ser um guia literário bastante útil para os futuros pais, porém, como cinema não encontra essa relevância. É apenas um retrato pouco aprofundado e repleto de clichês sobre a gravidez. São poucos momentos que o salvam da completa inutilidade. O filme é recomendado para as plateias femininas e casais que estão vivenciado essa etapa da vida. Do resto, não vale tanto a espera por assistir.

Nota: 5,0

Crítica: 360


Um quebra-cabeças formado por numerosos personagens não é novidade no universo da sétima arte. Desde as sete indicações ao Oscar de Babel, a narrativa chamada de multi-plot (literalmente “multienredo” ou “enredos múltiplos”) foi experienciada por diversos cineastas. Porém, nem todos conseguiram o feito de Alejandro Gonzáles Iñarritu ao enlaçar os diversos núcleos de maneira orgânica. Utilizando praticamente o mesmo formato, o diretor Fernando Meirelles realizou o despretencioso longa-metragem 360, um passeio por nove histórias passadas nos Estados Unidos, Eslováquia, Inglaterra, França e Áustria. O filme, apesar de inconstante, apresenta um resultado satisfatório.

O giro pela vida dessas figuras inicia com uma garota tirando fotos para um site de agenciamento de prostitutas. Jude Law interpreta o executivo que contrata o serviço da novata e está prestes a trair sua esposa (Rachel Weiz). Não por menos, ela tem um caso com um fotógrafo brasileiro (Juliano Cazarré), recém-abandonado pela namorada após descobrir sua infidelidade. A jovem traída (Maria Flor) embarca em avião e conhece um homem obcecado pelo desaparecimento da filha (Anthony Hopkings). No aeroporto, flerta com um ex-presidiário (Ben Foster), acusado de agressão sexual. Soma-se ao conjunto, o motorista de um gângster russo, a esposa dele que está apaixonada pelo chefe dentista e, para completar o ciclo, a irmã da garota de programa lá do início.

As inúmeras tramas paralelas possuem apenas um objetivo: confirmar que estamos todos conectados, já que a decisão de um afeta a dos demais, independentemente de onde estejam. Em oposição a Babel, o filme de Meirelles não ambiciona discutir questões mundiais. O foco é no retrato íntimo de pessoas comuns, com os personagens dividindo o mesmo sentimento de melancolia, pois a maior parte deles encontra-se insatisfeito com suas escolhas. O roteiro de Peter Morgan (A rainha, Frost/Nixon) cruza essas histórias pessoais e oferece destinos curiosos, influenciados pelo mantra que rege a produção: “apenas vivemos uma vez”.

Em certos momentos, a combinação de muitos enredos fica desarmônica. Conflitos essenciais da trama são resolvidos com uma praticidade anormal. É o caso da personagem de Maria Flor, que sofre uma forte decepção e se recupera num estalar de dedos. O mesmo ocorre com o casal em crise formado por Law e Weiz, distantes um do outro nas primeiras cenas e apaixonado instantes depois. Um fato interessante é que a narrativa concentra-se mais nos núcleos dos artistas menos conhecidos do público, deixando de se aprofundar justamente nos contos dos quatro atores que estampam o cartaz do filme.

O renomado diretor brasileiro mergulha em casos simples, do dia a dia, e imprime sua técnica impecável atrás das câmeras, conferindo à produção um clima urbano e contemporâneo urgente. O projeto tem seu ápice nos 40 minutos iniciais, com um desenvolvimento impecável no entrosamento das histórias. Ganha fôlego novamente com um discurso emocionante de Hopkings e chega a apostar em um eficiente cinema de suspense e ação no encerramento. Ao final, esse envolvente giro de 360º pelo universo de diversas pessoas reforça uma mensagem essencial: não deixar a vida passar sem usufruir dela cada segundo.

Nota: 7,8



Crítica: Rock of Ages


"Rock of Ages" é um guilty pleasure (misto de prazer com culpa). O musical da Broadway que ganhou versão cinematográfica dirigida por Adam Shankman ("Hairspray") possui diálogos ruins, trama clichê, ritmo irregular e atuações artificiais. Porém, por outro lado, as cenas são contagiantes, as músicas deliciosas e a atmosfera dos anos 80 é visualmente encatadora. Apesar dos problemas, o filme é um prato cheio para quem gosta de musicais – e, principalmente, para quem curte o som das guitarras.

Considerado um jukebox musical, "Rock of Ages" utiliza canções populares previamente lançadas para contar sua história. As mais de 25 faixas que integram os números coreografados são conhecidas do público: sucessos de Dep Leppard, Bon Jovi, Foreigner, Journey, Poison, Twisted Sister e outros clássicos do rock da década de 1980. A produção ousa e promove mashups interessantes, oferecendo maior dinamismo e um ar contemporâneo para o projeto.

O filme acompanha dois jovens sonhadores, Sherrie (Julianne Hough) e Drew (Diego Boneta), que tentam a carreira musical em Los Angeles. Os dois se conhecem na Sunset Strip e acabam trabalhando juntos no bar do rock, o famoso The Bourbon Room, administrado por Dennis Dupree (Alec Baldwin). A casa se prepara para receber o último show do astro Stacee Jaxx (Tom Cruise), antes de deixar a banda Arsenal e trilhar carreira solo. No papel de vilã, a carola Patricia Whitmore (Catherine Zeta-Jones) é a esposa do prefeito que mobiliza a cidade para banir o rock.

De todo elenco, Tom Cruise é disparado o melhor em cena. Sua caracterização como Stacee Jaxx é incrível, uma mistura de Bon Jovi com Axel Rose. Quando está no palco, o artista brilha em suas performances musicais, evocando "Wanted Dead or Alive" e "Pour Some Sugar on Me". Catherine também está admirável, vide o show que oferece em "Hit Me With Your Best Shot", mas não tão fenomenal como esteve em outro musical, "Chicago". Enquanto isso, o lindo casal protagonista (Hough e Boneta) esforça-se para convencer e sustentar o desenrolar bobo de seus personagens, mas tudo soa pouco natural. Já o restante dos atores parece divertir-se com o clima alegre de danças e cantorias.

"Rock of Ages" é uma grande brincadeira. Não se leva a sério em nenhum instante, promovendo piadas constantemente - a principal delas vem de Dupree e seu “ajudante” Lonnie (Russell Brand). O projeto tem sua força no poder das músicas e no carisma dos astros. Divide com "Nine" um resultado semelhante: os dois são cheios de equívocos, mas ao mesmo tempo, maravilhosos. As duas horas de duração chegam ao final deixando a sensação de que poderiam ser mais enxutas. Porém, o filme é um musical delicioso de assistir, independente que não tenha profundidade ou carga dramática intensa. O alvo de "Rock of Ages" é registrar as aspirações de uma geração, com som e imagens pulsantes.

Nota: 7,8

Crítica: American Pie - O Reencontro




Um grupo de amigos dispostos a tudo para perder a virgindade antes do baile de formatura marcou o retorno das comédias adolescentes picantes para as novas gerações. "American Pie - A Primeira Vez é Inesquecível" foi um tremendo sucesso em 1999 e rendeu duas sequências com o elenco original e quatro títulos lançados diretamente em vídeo. Treze anos depois do primeiro filme, Jim e sua turma voltam para conferir um nostálgico e hilário capítulo final à série com "American Pie - O Reencontro".

Os icônicos personagens precisam encaram a vida adulta nesta nova produção. Jim e Michelle estão casados e têm um filho de dois anos, o que faz com que se afastem sexualmente. Kevin também é casado e interpreta o marido exemplar. Oz virou apresentador de um programa esportivo na televisão e namora uma modelo. Finch mantém contato apenas pelo Facebook, postando fotos em diversos países do mundo. Todos eles, incluindo o incorrigível Stiffler, irão se encontrar para a festa de reunião da turma de 1999.

Apesar do humor escrachado, vulgar e grosseiro que não poderia faltar, o projeto apresenta maturidade ao mostrar que os tempos mudaram. Na casa dos trinta anos, todos agora possuem responsabilidades, seja com a esposa, com o filho, com o trabalho ou com as demais escolhas que foram feitas nesse caminho. O filme faz questão de revisitar amores antigos e boas lembranças que a turma viveu. Existe uma busca pela satisfação e felicidade em cada um deles, aspirações urgentes que os jovens tanto almejam atualmente.

A aura que cerca o projeto é de nostalgia ao observar um autêntico reencontro - porque, além de reunir personagens, é a união de atores que tiveram suas carreiras lançadas pelo sucesso do original. E, para o público, que se divertiu com essa turma durante a adolescência, revê-los é um terno prazer. A identificação vem ainda de qualquer pessoa que integrou um forte grupo de amigos durante a escola.

O novo "American Pie" é um filme de grupo. Com um roteiro muito bem executado, promove o retorno de todos os personagens da série, mantendo-se fiel às suas características e conferindo a devida importância a cada um deles na conclusão. Incluindo nesse conjunto, os característicos (e constrangedores) diálogos entre Jim e seu pai - aliás, o veterano é responsável por cenas impagáveis nessa produção.

Quem, para variar, rouba a cena é Sean William Scott como Stiffler. Ele é o único que não mudou: continua festeiro, sacana e conquistador. Stiffler não se enquadra nessa nova realidade e não consegue lidar bem com as dificuldades da vida, permanecendo um adolescente. O interessante é que o roteiro valoriza sua figura e o coloca como a essência de que todos perderam, de quem eles eram anteriormente.

"American Pie - O Reencontro" consegue trazer de volta toda loucura da juventude e proporcionar muitas gargalhadas. Um resultado admirável para o oitavo filme de uma série de comédia. É ao mesmo tempo perceber e não perceber que o tempo passou. É reencontrar uma turma que fez parte da nossa vida, tanto na tela como nas memórias pessoais. É rever um divertido passado que deixamos para trás.

Nota: 8,4

Crítica: O Segredo da Cabana



A sinopse é a mesma: grupo de amigos viaja para lugar inóspito e é aterrorizado por assassino/criatura que os mata um a um. "O Segredo da Cabana" parte de uma premissa comum, mas subverte os clichês do terror com uma reviravolta surpreendente e apoteótica. O cartaz, o trailer e a primeira cena do filme entregam de imediato que tudo é, na verdade, um sádico experimento. Ir além disso estraga a surpresa ou, melhor, a revelação do tal segredo. 

Na trama, cinco amigos decidem passar o final de semana em uma cabana no meio da floresta. A viagem de diversão e descanso começa a ficar esquisita logo na primeira parada: um posto de gasolina desativado. Recebidos com hostilidade pelo proprietário do estabelecimento, os jovens são advertidos que o retorno de Tillermane não será tão simples. O suspeito aviso não é levado a sério. Chegando à casa, deparam-se com um recanto rústico e simpático situado na encosta de uma montanha e à beira de um lago. Lugar perfeito para relaxar longe da cidade. Porém, na primeira noite, o grupo desperta o desconhecido e terá que lutar por sua sobrevivência.

O filme é dividido em duas linhas narrativas. A principal fica por conta das assustadas vítimas na cabana, enquanto, paralelamente, funcionários de uma corporação observam e interferem no destino dos jovens protagonistas. Elementos de produções como "O Albergue", "Cubo" e "Jogos Vorazes" são de fácil identificação. Até esse momento, o longa-metragem parece seguir uma cartilha - mesmo que estranha.

Alternar as histórias acaba por quebrar a permanência de um clima de suspense desenvolvido na trama principal. Porém, provocar medo e sustos não é o objetivo central do projeto. A ambição dos realizadores vem à tona no terceiro ato, quando a "brincadeira" na montanha foge do controle e descamba para o cinema fantástico. "O Segredo da Cabana" mostra suas reais intenções e une terror, ação, ficção científica e muita violência em uma proposta original. Está aí a sua melhor parte.

Surgem deliciosas referências a clássicos, como "O Iluminado", "It", "Hellraiser", "Evil dead", "Os Estranhos", "Anaconda" e outros exemplares, em uma mistura de homenagem e sátira. Sua motivação é bastante curiosa e acaba por restringir o filme ao grande público. Inclusive, a crítica nos Estados Unidos ficou dividida quanto ao incomum conteúdo do projeto. Tanto foi chamado de obra-prima como de lixo completo. 

Essas denominações se justificam porque a produção é diferente de qualquer outro modelo do gênero. Parte do total clichê para um terreno inexplorado da narrativa de terror. Comprar essa ideia pode não ser das mais fáceis, mas sua experiência é válido porque apresenta interessantes novidades. Quem está acostumado com a fórmula tradicional de sustos e mortes bizarras, tem aqui o acréscimo de tensão, humor negro, carnificina e uma inteligente revelação. Como a maioria dos filmes que se tornam cult, "O Segredo da Cabana" é para poucos.

Nota: 7,7

Crítica: O Vingador do Futuro


Na onda de refilmagens (remake), prelúdios (prequels), reinícios (reboots) e sequências (sequels), Hollywood lança mais uma produção que se baseia numa obra lançada no passado. O conto de Phillip K. Dick que rendeu o clássico da ficção científica, “O Vingador do Futuro”, com Arnold Schwarzenegger, ganha nova versão pelo olhar do diretor Len Wiseman (“Anjos da Noite”/“Duro de Matar 4.0”). Com um show de efeitos especiais, algumas mudanças na trama e um novo astro à frente do projeto, a refilmagem pretende agradar a nova geração sedenta por deslumbrantes cenas de ação.

Ao invés de centralizar a história no planeta Marte, como no original, esta refilmagem se passa em uma Terra arrasada, cujas imagens são uma mistura de “Blade Runner” com “Minority Report”. O protagonista, Douglas Quaid (Colin Farrell), é um operário que começa a questionar o sistema opressor e, a fim de fugir da realidade, procura a empresa Rekall para participar de um experimento que transforma sonhos em uma simulação quase verdadeira. Algo dá errado e ele descobre ser um espião procurado pela polícia.

O filme coloca em dúvida se a nova identidade de Quaid é ou não uma consequência do procedimento pelo qual foi submetido. A provável reativação dessa parte da memória que havia sido apagada possibilita incessantes cenas de aventura. Duas delas se destacam: a sequência em que ele luta pela primeira vez com sua esposa (Kate Beckinsale), com início dentro no apartamento e depois por todo bairro; e, também, a tensa perseguição entre caixas de metal que servem como elevadores. Fora esses dois momentos, faltam emoção e adrenalina na caçada ao protagonista.

O que surpreende no novo projeto é a rica concepção do futuro, com uma fantástica direção de arte e os efeitos mais deslumbrantes e convincentes dos últimos anos no cinema. Em comparação com o filme de 1990, a refilmagem dá um nocaute em tecnologia. As imagens do primeiro longa-metragem envelheceram bastante nesses 12 anos e hoje podem ser consideradas trash. O investimento de 125 milhões de dólares na produção de 2012 é justificável.

Na substituição do protagonista, Colin Farrell cumpre seu papel como herói - apesar de certas vezes parecer no piloto automático - e se sai melhor que suas colegas de cena: Kate Beckinsale está canastrona demais como a vilã e Jessica Biel permanece apática ao meio das correrias e explosões. Mas, ainda assim, o principal problema do projeto é a história que acaba sendo um total clichê, uma desculpa para reproduzir muitas cenas de ação. Sem conseguir torcer pelo personagem, “O Vingador do Futuro” pode ser um passatempo facilmente esquecível logo após a sessão.

Nota: 6,8