Crítica: Homem-Formiga


"Homem-Formiga" chega a público cercado de preconceitos. Não bastasse o nome de caráter duvidoso, ainda é mais fácil acreditar na vinda de um deus, filho de Odin, para salvar a Terra do que na história de um homem capaz de encolher até o tamanho de um inseto. Mesmo com essa incredulidade, quem for ao cinema, não deve se arrepender.

O personagem praticamente desconhecido surgiu nos quadrinhos em 1962 sob o nome de Hank Pym, um cientista que criou partículas aptas a controlar a massa e a altura de um indivíduo. A versão cinematográfica não traz o inventor como protagonista. Ele é interpretado por Michael Douglas e vira uma espécie de mentor para o ladrão Scott Lang (Paul Rudd), que vestirá o poderoso uniforme. Apesar de pequenino, o herói mantém sua força física. 

Um dos maiores méritos da nova produção da Marvel é justamente fazer o público comprar a ideia do defensor em miniatura. Demora um pouco, mas o espectador envolve-se com o amigo das formigas. Parte dessa conquista é sustentada pelos atores do longa-metragem. Rudd é puro carisma. Ganha a simpatia logo nas primeiras aparições como o habilidoso assaltante. 

O restante do time é de igual competência. O veterano Douglas transmite confiança e seriedade à trama como o cientista Pym, o primeiro a vestir o traje do Homem-Formiga. Enquanto isso, sua filha, a misteriosa Hope, interpretada por Evangeline Lily, mescla frieza e emoção. Na esfera cômica, Michael Peña rouba as cenas como o divertido amigo do herói.  

O ponto alto do projeto é a comunicação de Lang com as formigas, suas principais aliadas. As cenas de ação dentro do formigueiro ou em canos de água são as mais empolgantes. Os voos de Lang, montado na formiga Anthony, também enchem os olhos. Pena que esses momentos são intercalados com outros que não estão à altura, o que compromete o ritmo da produção. 

A principal influência sobre essa oscilação é Daren Cross, interpretado por Corey Stoll, o Peter Russo de "House of Cards". No papel do vilão, o ex-pupilo de Pym pretende vender as partículas para grandes corporações, colocando o segredo do super-herói em risco. Suas aspirações não são bem trabalhadas pelo roteiro e, quando surge na tela o Jaqueta Amarela, a versão dele em capa e raios lasers, há pouco impacto e veracidade. 

Mesmo um pouco irregular, com uma trama que alterna humor, ação e até drama familiar, o longa-metragem pode ser considerado um filme menor do estúdio, um entretenimento leve e divertido, não mais que isso. Sua esperteza maior é mostrar que as aparências realmente enganam e o tal Homem-Formiga pode ser um novo e interessante personagem para a Marvel - inclusive para a turma dos Vingadores.

Nota: 7

Crítica: Cidades de Papel



Não adianta esperar que "Cidades de Papel" repita o mesmo sucesso de "A Culpa é das Estrelas", ambos adaptações de livros do escritor sensação John Green. O mais recente adota um tom leve, com bom humor e mistério, enquanto a produção lançada ano passado - e campeã de bilheteria no Brasil - tem seu mérito na forte carga dramática. Ou seja, na capacidade de levar 99,9% dos espectadores às lágrimas.

Com menos choro, "Cidades de Papel" apresenta uma história sensível sobre adolescência, primeiro amor, desilusão e amadurecimento. Nessa ordem mesmo. Um filme que dialoga, principalmente, com os “young adults” (jovens adultos), na faixa entre 14 e 29 anos. Talvez esteja aí seu ponto fraco: um público de identificação específico. Um apelo não tão popular como o do casal Hazel e Gus.

A trama gira em torno de Quentin, um jovem que está se formando no colégio e possui como meta cursar faculdade, casar e ter filhos. Tudo está esquematizado para conquistar até os 30 anos. Ele sabe que seu plano é um pouco entediante, mas, ainda assim, está satisfeito, pois gosta de viver uma rotina. Até porque é somente isso que conhece: ir à escola e curtir com os amigos Ben e Radar, dois nerds.

Sua perspectiva muda quando, certa noite, a bela vizinha Margo Spiegelman invade seu quarto. Quentin é apaixonado por ela desde a infância. Eles cresceram juntos, viraram melhores amigos, mas acabaram se afastando durante o colégio. Atualmente são estranhos um para o outro. Apesar disso, o rapaz ainda nutre uma paixão platônica pela moça.

Quando Margo invade seu quarto e convida-o para executar um plano de vingança ele prontamente aceita. Torna-se o motorista de fuga para as travessuras dela contra o seu ex-namorado. As poucas horas com Margo tiram Quentin da inércia e o deixam à flor da pele, como ele mesmo diz: “Agora sinto o coração batendo no meu peito”. E ela responde: “É assim que deveria se sentir sua vida inteira”.

A jovem sacode o mundo de Quentin. Margo é adrenalina, emoção e imprevisibilidade. Ela questiona o futuro medíocre planejado pelo rapaz e apresenta sua inquietude quanto ao sonho americano, a vida cotidiana e a falsidade disso tudo. Abismado, ele encanta-se ainda mais pela garota, por essa vida sem regras, por suas aventuras épicas e, claro, pelo olhar magnético que o atinge.

Após os momentos compartilhados, Margo desaparece. Inicia, então, a busca de Quentin pela verdade, seguindo pistas deixadas pela própria jovem. Mesmo distante, Margo fará que ele saia de sua zona de conforto. Quentin deixará de tomar decisões seguras e irá matar aula, comparecer a festas da escola e embarcar em uma viagem de carro cruzando vários estados do país. Tudo pela primeira vez. Como o próprio cartaz do filme anuncia, é preciso se perder para se encontrar.

O rapaz, obcecado por Margo, fica cego pela luz que ela emite. Porém, em sua jornada, ele irá perceber que o amor é uma idealização, na qual se cria uma pessoa que na verdade não existe. O filme desmitifica o mito de Margo para Quentin e o mostra qual é o verdadeiro milagre de sua vida.

O diretor Jake Schreier, do fraco "Franck e o Robô", comanda essa aventura romântica com leveza, sem esquecer a profundidade por trás da história. "Cidades de Papel", em um olhar pouco inspirado, pode soar simplista, mas possui mais camadas do que aparenta. Relaciona-se fácil com outras produções nesse mesmo estilo, como "As vantagens de ser Invisível" e "500 Dias com Ela", sendo inclusive mais acessível.

O roteiro, assinado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, os mesmos de "A culpa é das Estrelas", valoriza a trama de John Green e acrescenta, inclusive, novas cenas para a história. Enfatiza com ternura a passagem da adolescência para o mundo adulto, o amadurecimento. Para isso, utiliza o carisma dos protagonistas, Natt Wolf e Cara Delevigne, novatos no cinema.

"Cidades de Papel" prova que John Green não é apenas modismo ou marketing literário. Suas narrativas possuem conteúdo e identificação com o público-alvo, principalmente por abordar assuntos difíceis, como doença ou desilusão amorosa, de forma natural e transformadora. Já pode-se esperar para 2016, "Deixe a Neve Cair", com estreia marcada para 9 de dezembro, e no ano seguinte, "Quem é Você, Alasca?".

Nota: 8,2

Crítica: O Jogo da Imitação



Um segredo de guerra guardado ao longo de 50 anos pelo governo britânico é levado para as telas do cinema em "O jogo da Imitação", indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme. A produção inglesa acompanha os feitos de um personagem histórico praticamente desconhecido, porém responsável por uma das mais significativas criações humanas. Injustiçado em vida, somente agora ele recebe um reconhecimento a altura.

O longa-metragem de Morten Tyldum conta a história verídica de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um criptoanalista prodígio que, junto de uma equipe de matemáticos, é encarregado de desvendar códigos nazistas emitidos pela máquina Enigma, responsável por despistar os demais países envolvidos na Segunda Guerra Mundial.

Dotado de uma complexa personalidade, Turing apresenta-se como uma pessoa fria e arrogante, incapaz de desenvolver qualquer simpatia, principalmente por parte de seus colegas. O relacionamento entre eles melhora quando entra em cena a jovem Joan Clarke (Keira Knightley), que torna-se uma amiga e passa a ajudá-lo na interação com os demais.

Com um clima amistoso, o trabalho ultra secreto protagonizado por Turing progride - na criação do que seria o primeiro computador - e resulta no fim da guerra, com a Inglaterra interceptando as mensagens da Alemanha. Mesmo tendo realizado um feito notório, o projeto é considerado confidencial e por décadas permaneceu como um segredo de estado, uma vez que no futuro tais códigos desvendados poderiam ser novamente utilizados como vantagem durante o conflito.

Apesar da sinopse confusa, "O jogo da Imitação" é extremamente didático - o que até fez o filme receber críticas negativas quanto ao seu formato de "isca para as premiações", semelhante ao consagrado "Uma Mente Brilhante", que também traz um gênio incompreendido. Apesar das queixas, a estrutura narrativa convencional não compromete o resultado impactante.

O londrino Cumberbatch (da série "Sherlock") surpreende como o matemático de poucas emoções, que, no decorrer do roteiro, apresenta cada vez mais nuances em sua personalidade. A abordagem de Turing revela-se extremamente humana, potencializada principalmente por sua orientação sexual, que na época era considerada crime. Aliás, esse detalhe é de sumária importância para a história.

Sua petulância e egoísmo mostram-se como defesas, barreiras de proteção, para desconfianças ou atos de discriminação. O filme mostra a origem dos traumas do menino prodígio através de flashbacks. Assim, o homem que precisa desvendar constantemente diferentes códigos, sendo um deles o mais importante da história da humanidade, necessita esconder um segredo que pode colocar sua vida em risco.

De forma tensa, "O jogo da Imitação" oferece o registro digno para um fascinante capítulo da Segunda Guerra Mundial, com uma abordagem superior a "Enigma" (2001), que também utilizou como pano de fundo os mesmos acontecimentos. A recente produção assume o viés biográfico e louva, merecidamente, tanto o caráter pacifista de Turning como seu título de pai da computação moderna. Um triunfo. 

Nota: 8,6


Crítica: Birdman



É no mínimo engraçado acompanhar o hype da mídia em torno do novo filme de Alejandro González Iñárritu, "Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)". A produção, na verdade, é uma crítica feroz a própria Hollywood: a indústria do cinema e sua obsessão por cifras, o desespero dos atores pela fama, o público que deseja diversão descerebrada e o papel medíocre dos críticos em etiquetar os defeitos de cada projeto. "Birdman" sinaliza como tudo está errado no setor do entretenimento, mas não prevê perspectiva de mudança.

O filme acompanha a saga existencial e filosófica de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator que teve seu período de glória no passado ao interpretar um super herói - o tal homem-pássaro do título. Agora, no presente, ele amarga o ostracismo. Buscando o retorno aos holofotes como um ator sério, o veterano decide adaptar, dirigir e protagonizar um clássico texto da literatura para o teatro.

Desta forma, a história se passa nos bastidores de uma casa de espetáculos, transcorrendo do início ao fim em um falso plano sequência. O diretor vale-se dos ensinamentos de Alfred Hitchcook em "Festim Diabólico" e utiliza cortes escondidos e efeitos visuais para realizar as emendas no suposto take de duas horas de duração. A sensação é de acompanhar o que acontece em tempo real - apesar de alguns saltos na estrutura narrativa. O feito repercute como um dos principais acertos do filme.

O roteiro, que inclusive venceu o Globo de Ouro, bebe muito da série canadense "Slings and Arrows", que serviu de inspiração para "Som e Fúria", produzido pela Rede Globo em 2009, e aborda a montagem de uma peça teatral. As semelhanças são tantas que o protagonista de "Birdman" também possui poderes paranormais. Ele é atormentado por uma estranha voz em sua mente, personificada posteriormente como o ícone cultural responsável por seu sucesso.

Se para Riggan Thomson o seu fantasma é um homem-pássaro, para Michael Keaton é um homem-morcego. O ator que interpretou Batman nas duas aventuras dirigidas por Tim Burton na década de 1990 também passou por uma série de fracassos até ser praticamente esquecido nos anos 2000. "Virei a resposta de um quiz", debocha ele, ou melhor, seu personagem nas telas. "Birdman" apresenta o retorno de Keaton ao topo na melhor atuação de sua carreira.

E não é apenas ele que brilha em cena. Edward Norton rouba a atenção para si como Mike, um ator de método, capaz de infernizar a vida de todos aqueles ao seu redor. Infelizmente o personagem e seus conflitos não são inteiramente desenvolvidos e acabam sem desfecho. Como seu par romântico, Emma Stone interpreta a filha de Thomson que recém saiu da reabilitação e ajuda o pai na montagem do espetáculo. Apesar de competentes, as poucas aparições não valeriam um Oscar. Ainda no elenco de apoio, Amy Ryan, Naomi Watts e Zach Galifianakis.

"Birdman" soa como um filme indie que, por acaso, encontrou estrelas hollywoodianas para realizar a tão esperada crítica ao sistema. Apesar de uma direção brilhante, não parece nem um pouco algum projeto do homem que trouxe dramas densos e humanos como "Amores Brutos", "21 Gramas", "Babel" e "Biutiful". Seus novos personagens tomam atitudes desmedidas e inflam egos que não encontram uma fácil identificação. São seres egoístas que mais geram repulsa que afeto.

A análise aferida ao meio artístico é válida, interessante e tratada certas vezes de forma poética, mas não deixa de repetir o que justamente critica ao utilizar de esteriótipos e clichês. Mesmo travestido de comédia, aponta o dedo para todos e se leva a sério demais. O homem-pássaro parece mais inteligente do que realmente é.

Nota: 6,7


Crítica: Whiplash - Em Busca da Perfeição




Ao lado de "Selma", "O Jogo da Imitação" e "Sniper Americano", "Whiplash - Em Busca da Perfeição" faz parte da extensa turma que deve sair de mãos abanando do Oscar 2015. Na verdade, o filme possui apenas uma chance. É na categoria de Ator Coadjuvante, que tem J.K.Simmons como favorito ao prêmio. O veterano, na verdade, é o protagonista do projeto, ao lado do jovem revelação Miles Teller.

"Whiplash" foi escrito e dirigido por Damien Chazelle, de 29 anos, a partir de um curta-metragem de mesmo nome lançado em 2013. O rapaz já possía no currículo o longa-metragem musical "Guy and Madeline on a Park Bench". Se nessa primeira experiência o jazz era uma força motora, em seu mais recente longa-metragem ele é o nirvana para o jovem promissor Andrew Neyman.

O aspirante a baterista profissional chama a atenção do consagrado professor Terence Fletcher e entra para a orquestra principal da melhor escola de música dos Estados Unidos. Nas mãos do mestre, o aluno irá sofrer pressões psicológicas e físicas, precisando doar, literalmente, o seu sangue para provar que é o melhor.

J. K. Simmons está arrebatador no papel do impiedoso professor. O maestro transforma a vida dos estudantes em um verdadeiro pesadelo, exigindo dedicação ao máximo e incentivando a competição entre eles. Seu método de ensino é como um jogo de humilhação que ou empurra o aluno a superar-se ou o leva a uma profunda depressão.

Após sucessivas tiranias sofridas, inverte-se o jogo no tabuleiro e "Whiplash" fica ainda mais interessante. Abre para uma discussão sobre quais são os limites para estimular o talento de um aluno. Fletcher pede nada menos do que a perfeição e Neyman embarca nessa obsessão doentia, chegando aos extremos. Seria essa mesmo a linha a ser seguida para atingir a plenitude?

"Whiplash", assim como "Birdman", traça um panorama sobre a paranoia da sociedade contemporânea em ser bem sucedido profissionalmente. Um clima de tensão e debate ao som de jazz, de uma edição classuda e frenética como as baquetas do jovem baterista. A indicação como um dos melhores do ano é mais do que merecida.

Nota: 8

Crítica: Garota Exemplar


David Fincher, definitivamente, é um mestre do suspense. Desde o início de sua carreira, com o desastroso “Alien 3”, ele já provocava tensão no espectador. Se no filme do alienígena boa parte do seu material gravado foi descartado pelo estúdio, em “Seven - Os Sete Pecados Capitais” ele atingiu a consagração como um dos diretores mais promissores dos anos 90. Cumpriu sua promessa.

Lançou “Vidas em Jogo” e “O Quarto do Pânico”, dois longas-metragens de roer as unhas. Com “Zodíaco”, mais uma vez, abordou o universo de um serial killer. Após essa experiência, seu nome foi o mais indicado para adaptar o bestseller “Millennium - Os Homens que não Amavam as Mulheres”, sobre a investigação de um crime sem solução há mais de 40 anos.

Se o suspense permeou os principais filmes de sua carreira (até o “Clube da Luta” possui uma dose de mistério e tensão), o novo projeto do diretor só poderia ser um caprichado quebra-cabeças. Em “Garota Exemplar”, Fincher adapta mais uma obra literária para o cinema e utiliza a atmosfera sufocante para contar a história do marido (Ben Aflleck) que chega em casa e descobre que sua esposa desapareceu.

A partir dessa premissa, a trama envereda por várias searas do relacionamento do casal: as constantes brigas, a complicada situação financeira, o ex-namorado obsessivo dela e a jovem amante dele. Ou seja, a vida perfeita de Nick e Amy é pura fachada. O casamento em frangalhos torna-se o foco dessa primeira parte, que aos poucos apresenta como principal suspeito do crime o próprio marido.

Porém, na metade de “Garota Exemplar”, rompe-se com essa estrutura narrativa e ocorre o grande turning point do projeto. Surpreendente e talvez um pouco mirabolante. A partir desse momento, o filme dedica-se a cuidar da reviravolta e de suas consequências. Fincher, como bom arquiteto do suspense, empenha-se em convencer a plateia da sua proposta. E o roteiro a leva além dos limites imagináveis.

É esse pulso firme do cineasta, com uma direção segura e classuda, que torna o projeto sólido, mantido pela tensão e curiosidade latente. Exatamente a mesma receita de suas produções anteriores, aprimorada ainda mais no primeiro capítulo da série “Millennium”. Uma fórmula infalível até mesmo para a extensa duração de 150 minutos, que em nenhum momento apresenta sinais de cansaço.

Somado a essa aula de como conduzir uma narrativa policial, Fincher recebe em troca atuações a altura. Ben Affleck, competente como de costume, provoca dúvidas quanto a sua personalidade, sem cair numa caricatura. Enquanto isso, Rosamund Pike, escolha irrevogável do diretor, surpreende com delicadeza e força assustadora para uma figura instável. O time de apoio, como a irmã de Nick (Carrie Coon), o advogado (Tyler Perry) a policial responsável pela investigação (Kim Dickens) e os pais de Amy (David Clennon e Lisa Banes), oferece ainda mais auteticidade para esse universo tipicamente americano.

Por todos estes méritos, Garota exemplar é um engenhoso suspense que, ao lado de produções como “Os suspeitos (Prisioners)”, apresenta-se como o melhor do gênero atualmente. Suas chances ao Oscar são altas, principalmente em direção, elenco e roteiro. Como resposta, o público compareceu aos cinemas e tornou o filme a maior bilheteria do cineasta nos Estados Unidos, superando “O Curioso Caso de Benjamin Button”, um dos raros dramas de sua carreira. 

Nota: 8

Crítica: Grace de Mônaco



O reinado de uma das maiores atrizes da história do cinema foi interrompido quando esta casou-se com o príncipe-soberano de Mônaco. Grace Kelly, privilegiada por sua beleza e talento, deixou os Estados Unidos e abandonou a carreira para viver um conto de fadas. Deu início, então, a um outro reinado: o de princesa num castelo no sul da França.

Apesar de fazer parte da realeza, Grace não viveu a esperada "vida perfeita". Atormentada pelas consequências de sua decisão, a jovem de apenas 26 anos enfrentou conflitos familiares, políticos e pessoais. O filme "Grace de Mônaco" concentra-se nesse período de crise da biografada, de dezembro de 1961 à novembro de 1962, quando ela percebe que não poderá mais ser uma atriz e viverá à sombra de seu importante marido.

Na essência, Grace era uma mulher destemida, de opiniões polêmicas e independente. Características abomináveis para uma nobre esposa. Sem apoio do marido e também dos pais opressores, a princesa vê-se perdida nos corredores do palácio. Ainda mais quando é proibida de aceitar o convite do mestre do suspense para protagonizar seu mais novo projeto "Marnie - Confissões de uma Ladra".

A ex-atriz, então, passa a ter aulas de etiqueta e de francês, a fim de aprimorar sua performance como princesa. Sua imagem perante o povo de Mônaco é de uma estrangeira que não merece representar o país. No meio das adversidades, Grace precisa enfrentar a crise em seu casamento e a provável guerra entre França e Mônaco, ela encontra motivação com os trabalhos humanitários. Assim, soma-se os conflitos (internos e externos) em cena, inclusive com diversos momentos de negociação política. Porém, a sensação é de frieza, falta emoção na tela.

A culpa é do roteiro superficial que pouco explora a sua homenageada. O longa-metragem de Olivier Dahan é um filme bom, porém morno, algo semelhante ao resultado visto recentemente em Hitchcock e Diana, ou seja, muito distante do êxito que o cineasta obteve com "Piaf - Um Hino ao Amor". A ideia transmitida em sua produção é de que Grace Kelly utilizava a beleza e a inteligência para resolver seus problemas, como demonstra o inspirado discurso na baile da Cruz Vermelha. Um dos pontos altos da produção.

Nicole Kidman, que foi dura e injustamente criticada no Festival de Cannes, segura o filme. Mesmo que sua atuação não seja arrebatadora, é competente o bastante e não faria milagre frente a um texto ruim. Soma-se ao elenco, boas interpretações de Tim Roth e Frank Langella, além de participações quase imperceptíveis de Paz Vega e Parker Posey.

Para completar a mediocridade da adaptação, o filme insinua um final feliz para Grace Kelly. Qualquer espectador disposto a refletir um pouco sobre a história precisará de dois segundos para perceber que ela dificilmente viveu um conto de fadas. Grace rejeitou sua bem-sucedida carreira para cuidar dos filhos e de um marido autoritário, distante de amigos e família. Escolhas da princesa de Mônaco e da atriz de cinema que mereciam um melhor acabamento do que o oferecido nesta cinebiografia.

Nota: 6,5

Crítica: Sin City: A Dama Fatal



Quase dez anos separam os dois filmes sobre Sin City. O hiato deu-se, principalmente, por problemas legais, visto que o primeiro projeto foi um sucesso de público e crítica. Com o lançamento de "A Dama Fatal", as comparações são inevitáveis. Se ambos relatam histórias de personagens marginalizados como prostitutas, bêbados e criminosos, diferem no teor e na qualidade dos contos.

Enquanto a estreia de "Sin City", em 2005, apresentava um conjunto coeso de histórias, sendo as três excelentes tramas sobre as figuras mais icônicas da graphic novel, "A Dama Fatal" oscila com tramas mais e menos interessantes, sem manter um ritmo crescente. A abertura com uma fantástica apresentação de Marv oferece todo o impacto proposto pela produção que imita os quadrinhos. Porém, essa prévia logo é esquecida, deixando o brutamontes como um coadjuvante nos enredos protagonizados por outros personagens.

Assim, ele junta-se à narrativa que envolve Dwight (Josh Brolin, substituindo Clive Owen) e sua femme fatale Ava Lord, interpretada por Eva Green, no trecho que ocupa a maior parte da exibição. O ponto alto é a beleza nua da atriz francesa, que se despe praticamente a cada cena, o que faz sentido para uma personagem que a todo momento utiliza a sua principal arma de sedução. Infelizmente o conto que dá nome ao filme não é o melhor em tela. Cai facilmente em clichês estúpidos e numa previsibilidade banal.

Em contrapartida, a trama protagonizada pelo jovem apostador Johnny (Joseph Gordon Levitt, estreando na série) revela-se a mais completa e semelhante à primeira experiência em Sin City. Sua jornada trágica e violenta apresenta, mesmo que em dois momentos, no início e no fim da exibição, a verdadeira face de uma brutal cidade que não poupa ninguém.

Completando a trinca, Nancy (Jessica Alba, em danças ainda mais sensuais) encerra o longa-metragem com uma breve tentativa de vingança ao senador Roark, culpado pela morte de sua paixão John Hartigan (Bruce Willis, em pequenas aparições como fantasma). Os rápidos minutos oferecem a adrenalina necessária, mas a agilidade em conduzir a tão esperada revanche soa simplista demais.

Apesar de deixar a desejar em roteiro, o visual deslumbrante desta suposta continuação recompensa, principalmente quando exibido no cinema. A tecnologia 3D, como em raras vezes, surpreende, não tanto pelos elementos saírem da tela mas pela profundidade e dinâmica no quadro. Logo no início do filme, sequências incríveis como de um desfiladeiro, carros girando em torno de Marv ou a neve caindo sob os prédios são de arregalar os olhos.

"Sin City: A Dama Fatal" pode não ser tão incrível e original como o primeiro projeto, mas a cidade e os soturnos moradores ainda seguem fascinantes. Suas histórias marginais, motivadas principalmente pela sede de vingança, ainda são um presente para os fãs da graphic novel e, também, do cinema noir, gênero esquecido na produção cinematográfica mais recente. Embora o passeio não apresente o mesmo frescor de antes, ainda é muito bom visitar a cidade do pecado.

Nota: 7,8

Crítica: O Protetor



Antes mesmo do lançamento de "O Protetor" nos cinemas, o estúdio da Sony já havia encomendado uma sequência do filme para 2015. A notícia comprova a clara intenção de transformar o projeto em uma franquia, seguindo o estilo do seriado dos anos 1980 "The Equalizer", o qual o filme é baseado. Como esse primeiro capítulo estreou em primeiro lugar nas bilheterias dos Estados Unidos,  do Canadá e do Brasil, a decisão foi acertada.

"O Protetor" acompanha a vida de Robert Call (Denzel Washington), que durante o dia trabalha como atendente em uma loja de ferramentas e à noite lê livros na lanchonete da esquina de casa. Lá, ele conhece uma prostituta russa (Chloë Grace Moretz) sob esquema de tráfico de pessoas. Assistindo aos abusos que a jovem sofre diariamente, Robert decide agir. 

O homem pacato revela ser uma máquina de matar, enfrentando todo o eixo leste da máfia russa em sequências cada vez mais violentas. Tem-se mortes com abridores de garrafas, peso de papel, arames farpados e até furadeiras. E, além da defesa da sua protegida, o veterano passa a ajudar aqueles a sua volta, como os colegas de trabalho. 

Robert, na verdade, é um ex-agente da CIA que trabalha no comércio para disfarçar a sua perigosa personalidade. Provocado pelas injustiças sociais, ele sai das sombras e se torna um justiceiro, praticamente um herói urbano. O que intriga é se esse rastro de sangue terá consequências, pois pouco mostra-se sobre o aval de seus superiores quanto ao método sem freios do Protetor. 

No auge da carreira, com um salário de 20 milhões de dólares, Denzel Washington protagoniza a suposta série de títulos e convence como um sujeito ameaçador, hábil em inúmeros golpes - mesmo estando prestes a completar 60 anos. Na outra ponta da balança, Marton Csokas equilibra o duelo como um vilão igualmente sombrio. 

Porém, o embate entre eles somente ocorre nos últimos minutos da projeção. O diretor Antoine Fuqua aposta em um ritmo lento no início, que desenvolve a relação do policial aposentado com a garota - o que seria a motivação para revelar sua verdadeira identidade. Somente na segunda metade que a produção ganha ares de filme de ação.

"O Protetor", a nova parceria entre Washington e o cineasta (os dois haviam trabalhado juntos em "Dia de Treinamento", que rendeu um Oscar para o ator), é um bom entretenimento. O sucesso nos cinemas só torna ainda mais garantido o futuro da franquia. Não por menos os produtores deixaram uma pista ao final do filme, quando o herói atende um pedido de ajuda pela internet. Exatamente como ocorre a cada novo caso do seriado.

Nota: 7

Crítica: Amante a Domicílio


John Turturro acordou com a vontade de ser Woody Allen. Escreveu um roteiro cômico-dramático que se passa em um bairro judeu de Nova York, introduziu uma trilha sonora jazzística instrumental e ainda escalou o próprio cineasta para atuar. Não é por menos que “Amante a Domicílio”, dirigido por Turturro, é constantemente confundido como um filme de Allen. O problema, ou melhor, a realidade, é que ele não é o seu ídolo.

A trama, também de responsabilidade de Turturro, acompanha Murray (Allen), dono de uma livraria que tenta convencer o amigo Fioravante (Turturro, novamente), um vendedor de flores, a virar um gigolô de luxo. As primeiras clientes são mulheres ricas e casadas, basicamente entediadas com a vida monótona existente nos altos prédios da metrópole. Assim, de lar em lar, de cama em cama, a nova profissão leva Fioravante a conhecer a judia Avigal (Vanessa Paradis), que pode mudar o rumo da história.

Com “Amante a Domicílio”, Turturro demonstra talento na direção, alterando bom humor e sensibilidade com belas tomadas. O tom da narrativa também obedece esse ritmo. O seu gigolô não é apresentado como uma máquina de sexo, mas como um acompanhante másculo e atencioso com as mulheres. Ele flerta, dança, faz massagem nas costas e conversa com as clientes. Talvez sejam esses seus diferenciais.

Se por um lado Turturro saiu-se bem no comando do projeto, por outro, todo esse esforço desempenhado na concepção dos enquadramentos afastou-o de manter o foco na atuação. Fioravante tem porte, mas não tem carisma. O ator preferiu acionar o piloto automático e deixar o público voltar os olhares para o seu ilustre companheiro de cena, o divertido Allen, que toma conta da tela como o velho cafetão, naquele estilo “Woody Allen sendo Woody Allen”.

Porém, a participação do veterano não salva o filme de seu ponto mais fraco: o roteiro, que apresenta aquela história do “gigolô por acidente” já reproduzida inúmeras vezes pelo cinema – mesmo que injetando um caráter cult. Dentro da previsibilidade, a trama ainda peca por não oferecer personagens bem construídos. A única que possui um arco dramático completo e bem desenvolvido é Avigal.

A quinta incursão de Turturro na direção pode entreter pelo charme novaiorquino, as canções suaves e o desfile de beldades, como Sharon Stone e Sofia Vergara, mas uma coisa que fique clara: Turturro, definitivamente, não é Woody Allen. Bem longe disso.


Nota: 6,5

Crítica: "O Lobo de Wall Street"



A idade não amoleceu o coração do homem que trouxe “Caminhos Perigosos”, “Taxi Driver”, “Touro Indomável” e “Os Bons Companheiros”. Aos 71 anos, Martin Scorcese mostra que continua ousado e controverso com “O Lobo de Wall Street”, uma história verídica recheada de sexo, violência, linguajar chulo e muitas drogas – não por menos a produção foi censurada para menores de 18 anos.

O longa-metragem é baseado no livro homônimo de John Belfort, que relata sua experiência no mercado de ações. Ambicioso desde jovem, ele se tornou multimulionário aos 26 anos. Sua brilhante jogada foi investir em papéis de baixo valor e fora da Bolsa de Valores, tornando-se líder de um esquema de corrupção. Como presidente da Stratton Oakmont, transformou a empresa em uma espécie de máfia ou um centro religioso, que chamava seus corretores de Mestres do Universo.

A rápida ascensão de Belfort e de seus companheiros possibilitou uma vida frenética de diversão sem limites, dentro e fora do escritório, com festas homéricas com direito a prostitutas, substâncias alucinóginas e até mesmo anões. Sem freios para controlar uma fortuna diária em chegava em sua conta, os exageros e as inconsequências levaram o novato empresário a perder o controle de seu império.

Na pele do protagonista, Leonardo DiCaprio realiza sua quinta parceria com o diretor e, de quebra, oferece a melhor atuação da carreira. O Belfort de DiCaprio é exagerado, hipnotizante e carismático, influenciador não apenas de todos os personagens em cena como também da plateia que acaba torcendo pelo anti-herói – apesar da abordagem neutra de Scorcese.

Mais que um filme sobre Wall Street, “O Lobo” é um estudo de personagem, uma história excitante sobre um jovem se descobrindo na década de 1980, buscando seu lugar no mundo e querendo usufruir tudo que a vida pode oferecer. Belfort não queria apenas existir. Ele queria mais e nada era o bastante. Sua trajetória não é inspiradora, mas provoca a reflexão sobre quando se tem tudo o que deseja. É a desastrosa combinação de poder, drogas e dinheiro.

Apesar dos fatos terem ocorrido durante os anos 80, o filme é extremamente atual. A abordagem cinematográfica não dispensa certas críticas, como a corrupção dos corretores e a conquista do sonho americano a qualquer preço. O símbolo dessa distorcida realidade é o personagem de Matthew McConaughey (fantástico em poucos minutos em cena), que ensina Belfort todos os “truques” do negócio sujo.

Com mais de 30 títulos no currículo, Scorcese supera-se em uma obra agressiva, obscena e visceral. A duração de três horas não é empecílio, pois o diretor comprova o completo domínio do que ocorre na tela. Ele brinca com o ritmo da produção, alternando múltiplas cenas aceleradas com momentos em que prefere diminuir o fluxo e se deliciar com uma longa sequência, como a hilariante aventura compartilhada por Belfort e seu amigo Donnie (Jonah Hill, inspirado) ao tomar um vidro de comprimidos vencidos.

“O Lobo de Wall Street” já é um marco na carreira do diretor. Um filme memorável, com uma história vibrante e surpreendente, em perfeita sintonia com seu elenco. O projeto ainda é afinado por passagens cômicas e uma trilha sonora rock´n´roll. De absurdos e hedonismo exarcebado, nasce mais um clássico para a consagrada filmografia de Scorcese.

Nota: 9

Crítica: É o Fim


James Franco resolve dar uma festa na sua mansão e convida uma série de atores e cantores do momento, entre eles Seth Rogen, Jonah Hill, Jay Baruchel, Danny McBride e Craig Robinson. No meio da bebedeira e muita loucura, crateras profundas brotam do chão e luzes azuis sugam as pessoas em direção ao céu. Essa é grande ideia de “É o Fim”, filme que coloca jovens atores da comédia americana interpretando a si mesmos durante o apocalipse.

Escrito pelos roteiristas de “Superbad” e “Segurando as Pontas”, o projeto é um deboche quanto aos selos que caracterizam as celebridades. Os seis amigos, todos integrantes do time de Judd Apatow (“O Virgem de 40 Anos”, “Ligeiramente Grávidos”) praticam autoreferências o tempo todo, com piadas internas que se tornam eficazes quando se conhece os atores e seus filmes.

O grupo aproveita o fim do mundo para refletir sobre a vida e rir de si mesmo. Falam do fracasso de Seth como “O Besouro Verde”, o peso da indicação ao Oscar de Hill para “Moneyball”, os questionamentos sobre a sexualidade de Franco, o fato de Baruchel não ser famoso e outros absurdos que provocam as mais altas risadas.

Recheado de participações especiais, “É o Fim” concentra na balada apocalíptica personalidades como Jason Lee, Jason Segel, Paul Rudd e Christopher Mintz-Plasse, além de pontas hilárias de Rihanna, Emily Watson, Michael Cera e até uma boy band que é melhor não revelar. Todos entram no clima da brincadeira nonsense e divertem-se em papéis inesperados, vide Channing Tatum.

O filme é baseado no curta-metragem “Jay and Jay Versus the Apocalypse”, de 2007, produzido pelos dois atores. Com maior orçamento, o longa promove o juízo final com direito a monstros, possessão, sustos e muita violência, numa curiosa mistura de fim do mundo com piadas impagáveis. Definitivamente, é a melhor comédia do ano.

“É o Fim” encontra seu público naquele mesmo espectador que favoritou o alucinógeno “Segurando as Pontas”. É indicado para “dudes”, adolescentes do sexo masculino que vão curtir o humor politicamente incorreto e sem limites. Então, se você é um deles, prepare a cerveja e aperte o play.

Nota: 8

Crítica: O Lugar Onde Tudo Termina


“O Lugar Onde Tudo Termina” marca o reencontro do diretor Derek Cianfrance e o ator Ryan Gosling. A dupla esteve junta no drama “Namorados para sempre”, primeiro longa-metragem do cineasta. Nessa segunda incursão cinematográfica, Cianfrance manteve o tom realista e delicado, criando uma obra profunda e humana sobre pais, filhos e consequências. Uma saga familiar multigeracional da qual ninguém sai impune. 

O filme é claramente dividido em três atos. O primeiro – e o mais interessante – envolve o motociclista de globo da morte, Luke (Gosling) que, para oferecer melhores condições para seu filho, torna-se um ladrão de bancos. O segundo é sobre um  policial novato na corporação (Bradley Coooper) que vira herói do dia para a noite. A terceira parte é sobre dois jovens que carregam o peso do destino nas costas. 

Escrito por Cianfrance e Ben Coccio, o roteiro aborda momentos que definem a vida dos personagens. São decisões e  consequências que afetam, inclusive, gerações posteriores. Dessa forma, os dois primeiros atos preparam para o derradeiro capítulo, em que tudo colide, numa acentuada catarse de sentimentos proferida por um personagem que vem a ser o reflexo do passado. 

Parte da intensidade do projeto deve-se ao elenco. Gosling, no auge de sua carreira, encontra-se hipnótico em cena, conferindo a sua participação o ponto alto do filme. Cooper segue a frutífera investida em papéis sérios (“As Palavras”, “O Lado Bom da Vida”) e mostra-se mais uma vez competente. Completando o time, Eva Mendes surpreende como Romina, par romântico do motociclista e talvez a personagem que mais sofre ao longo dos três atos.  


“O Lugar Onde Tudo Termina” configura como mais um êxito do cineasta. Apesar das partes divergirem em qualidade – a central é a mais fraca -, torna-se difícil, em qualquer momento, tirar os olhos da tela. O diretor e roteirista constrói uma trama dramática e nervosa, interligada pela sensibilidade tocante com a qual apresenta as figuras que criou. Por este especial exercício, Cianfrance é um nome para ficar atento no futuro. 

Nota: 7,8

Crítica: Guerra Mundial Z


Lembra daquela cena no filme "Independence Day" em que a população está nas ruas, presa no tráfego, tentando fugir, e aparece uma nave alienígena? Na abertura de "Guerra Mundial Z", a sequência praticamente se repete, em um grau de tensão mais elevado. A ameaça é uma epidemia que transforma as pessoas em zumbis. Ao fim da rua, escuta-se uma explosão e o pânico se alastra, somado ao ataque de inúmeras criaturas sedentas por sangue. 

O início arrebatador do novo longa-metragem de Marc Foster ("Em Busca da Terra do Nunca") concentra-se em apresentar o trágico cenário que se sucede quando uma contaminação em nível mundial atinge à raça humana. Remete, em certos momentos, a produções como Contágio e 2012, conforme a gravidade apocalíptica adotada. Inclui-se ao quadro assustador, uma trilha sonora pesada que pontua a trama, aumentando a dose de adrenalina. 

Na linha de frente do projeto, Brad Pitt interpreta Gerry Lane, um ex-investigador da Organização das Nações Unidas (ONU), que havia se aposentado e estava cuidando da esposa e das duas filhas. O agente é obrigado a voltar a ativa para garantir a segurança de sua família em um navio militar. Assim, Lane viaja pelo mundo na tentiva de encontrar a cura para a pandemia. 

As habilidades insubstituíveis do protagonistas, constantemente citadas por seu superior, nunca vêm a tona. Seu diferencial é apenas alguns músculos e uma constatação que fica evidente para qualquer observador. Para chegar a essa conclusão, ele vai à Coreia do Sul e à Israel – dois momentos em que o longa-metragem perde o fôlego, investindo em situações banais. Volta a ficar interessante no último ato, passado em um laboratório clínico, com sequências de roer as unhas.

Temas característicos de filmes de zumbi como epidemia, luta pela sobrevivência e mutações estão presentes em "Guerra Mundial Z", mas a produção é, essencialmente, um filme de ação. Distante do terror, resulta em um filme catástrofe que substitui o aquecimento global e a fúria da natureza pela ameaça de mortos-vivos. Outro fator que deixa evidente a fuga do gênero original é a ausência de sangue, mesmo ao decepar um braço ou esmagar uma cabeça. A violência implícita foi a alternativa para garantir a censura de apenas 12 anos, que possibilita uma diversão para quase toda família.

"Guerra Mundial Z" consagra a alta popularidade das criaturas devoradoras de miolos, que recentemente receberam animações ("Paranorman"), seriados ("The Walking Dead"), filmes românticos ("Meu Namorado é um Zumbi"), inserção em clássicos da literatura ("Orgulho e Preconceito e Zumbis") e agora um blockbuster no currículo. A produção milionária – e com claro objetivo de lucro – resulta em duas horas de pura diversão. E, ao menos, não ofende o gênero. 

Nota: 7,7

Crítica: Terapia de Risco


Considerado o melhor filme de Steven Soderbergh desde “Traffic”, “Terapia de Risco” vem para mostrar que o diretor pode fazer filmes que não sejam tão chatos como boa parte dos exemplares de sua carreira. Após o auge com “Erin Brockovich” e “Onze Homens e um Segredo”, esteve envolvido em projetos blase, como “Full Frontal”, “Bubble”, “O Desinformante”, “O Segredo de Berlim” e “Confissões de uma Garota de Programa”. Até os mais recentes sofreram desse mal. “Magic Mike” é divertido, porém vazio. E “À Toda Prova” é apenas vazio. 

“Terapia de Risco” possui um interessante ponto de partida. Emily Hawkins (Rooney Mara) é uma jovem mulher que toma diversos medicamentos para conter a ansiedade pelo fato de que seu marido (Channing Tatum) está prestes a sair da prisão. Para lidar com a depressão profunda, busca um tratamento psicológico com o doutor Jonathan Banks (Jude Law). A combinação desses remédios provoca efeitos inesperados que mudam o rumo da história. 

Como os demais projetos de Soderbergh, este também conta com um time de astros. Rooney Mara, após o sucesso de “Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, é a atração principal do longa-metragem. Despida de elementos góticos, ela está bem diferente da hacker Lisbeth. Um desempenho competente, mas nada extraordinário. Por outro lado, Jude Law destaca-se com o personagem mais consistente em cena e roubas as atenções para si. Enquanto isso, Catherine Zeta-Jones encontra-se novamente exagerada e caricata – vide “Rock of Ages”. 

O thriller desenvolve uma curva ascendente de tensão e inquietude em pouco mais de 90 minutos. O cineasta contribui com um produto estiloso, fundamentado em um cenário contemporâneo frio e de poucos e ternos contatos humanos. Perde um pouco o foco em sua segunda metade, quando despreza a indústria farmacêutica como vilã (leia-se o ponto alto do filme), para enveredar por uma reviravolta de cunho policial. A escolha não tão é eficaz. 

“Terapia de Risco” assume seu lado banal ao concluir a trama, sem recompensar com um grande final o espectador que acompanhou o desenrolar do mistério. É um filme bem construído, curioso e envolvente, até com jeito de produção cult. Porém, se não fosse pelos atores famosos, passaria batido nos cinemas. No fim, é mais do mesmo.

Nota: 7

Filmes para namorar

Casais de todo o país estarão reunidos nesta quarta-feira para comemorar o Dia dos Namorados. A data mais apaixonante do ano é sinônimo de troca de presentes e juras de amor. Porém, todo esse romantismo nem sempre é aproveitado em sua plenitude quando o 12 de junho cai em um dia da semana - este ano, numa quarta-feira. As tarefas diárias e profissionais não cessam para ninguém. Muitos terminam o dia cansados e ainda precisam encarar filas de espera em restaurantes, cinemas, shows e motéis. Para evitar uma noite estressante, a dica do CinemaX é preparar uma programação no conforto do lar, com jantar especial e um bom filme para acompanhar. 

Como sugestão, oferecemos uma lista formada por 12 comédias românticas lançadas recentemente no Brasil, entre 2011 e 2013, sendo que a maior parte já está disponível em DVD. A diversão com qualquer um dos títulos a seguir é garantida, ainda mais que a melhor companhia para uma sessão de cinema você já possui.


Ruby Sparks
Quem nunca imaginou como seria o seu par perfeito? Um homem ou uma mulher de seus sonhos? Em "Ruby Sparks - A Namorada Ideal", o jovem escritor Calvin apaixona-se pela personagem de seu novo livro e, como travessura do destino, a garota da ficção se materializa, saindo de sua mente para a vida real. Esta comédia romântica terna e inteligente mostra o quanto o amor pode ser mágico e que, apesar da realidade não corresponder com o que esperamos, a perfeição encontra-se justamente na imperfeição.


O Lado Bom da Vida
Uma equipe em perfeita sintonia é a fórmula do sucesso de "O lado Bom da Vida". A produção sobre dois adultos traumatizados que se apaixonam é encantadora. Apesar de não apresentar nada surpreendente em sua história, compensa pelo charme e desempenho impecável do quarteto Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jacki Weaver e Robert DeNiro.


Um Divã para Dois
Ao lado de "Alguém Tem que Ceder" e "Simplesmente Complicado", "Um Divã para Dois" aborda o relacionamento na terceira idade. O filme retrata o momento em que é preciso inovação no casamento para resgatar um amor que pode não estar perdido. Destaque, como sempre, para a excepcional Meryl Streep. 


Moonrise Kingdom
"Moonrise Kingdom" é uma história de amor infantil que vai do triste ao engraçado, da aventura ao drama, do romântico ao esquisito. Entre seus inúmeros acertos, cabe salientar a aposta em uma abordagem mais doce do que a habitual preferência do diretor Wes Anderson pelo azedo. Uma obra de arte apaixonante, que resgata um espírito de aventura juvenil e a poesia do primeiro amor.


Para Sempre
Após sofrer um acidente de carro, Paige perde a memória dos últimos cinco anos, esquecendo-se de tudo que viveu com o seu marido. Leo, então, não mede esforços para que a esposa se apaixone mais uma vez por ele. O filme mescla romance e drama em uma mistura gostosa de assistir: é meloso na medida e não exagera nos clichês. Um passatempo ideal para os enamorados.


Amizade Colorida
Amizade colorida é a melhor comédia romântica produzida por Hollywood em anos. Os diálogos inteligentes e a química da dupla protagonista - Justin Timberlake e Mila Kunis - criam empatia imediata com o público. A trama desvia dos lugares-comuns, utiliza diversas referências pop e consegue ser atual e refrescante ao gênero.


Meia-noite em Paris
Com "Meia-noite em Paris", Woody Allen voltou ao topo ao arrecadar elogios e inúmeros prêmios, como Melhor Roteiro no Oscar e Globo de Ouro. A trama sobre um escritor fracassado que “viaja no tempo” para uma Paris dos anos 20, de encontros com grandes artistas do passado, deleitou gerações saudosistas. E, de brinde, apontou o verdadeiro sentido do amor.


Weekend
Depois de O segredo de Brokeback Mountain não houve um filme que retratasse o relacionamento gay de forma tão verdadeira como a produção inglesa Weekend. Em uma história romântica e atual, o diretor Andrew Haigh mostra que o amor pode surgir quando menos se espera - e por que não entre pessoas do mesmo sexo? O filme virou cult de forma espontânea, divulgado principalmente pela internet e, ainda, revelou o talento de Tom Cullen.


Solteiros com Filhos
Maturidade no cinema sempre é bem-vinda. "Solteiros com Filhos" distingui-se por ser um entretenimento sincero sobre os relacionamentos modernos. Discute o sexo entre recém-casados, sexo entre pais e sexo entre amigos. Três estágios diferentes que são experienciados pelos casais na faixa dos 30 e poucos anos que formam o mesmo grupo de amigos. Esta comédia dramática provoca questionamentos interessantes, com foco ainda em dúvidas quanto à paternidade.


Amor a Toda Prova
Grande sucesso nas bilheterias, "Amor a Toda Prova" veio para deixar o mundo babando por Ryan Gosling. Além desse atributo, o filme é uma divertida comédia romântica que carrega várias pequenas tramas. A principal delas é sobre um casal de meia-idade que se acomodou e perdeu o tesão, decidindo pela separação. O marido, agora solteiro, passa a receber dicas de sedução vindas de um jovem “pegador”.


O Homem do Futuro
Um dos raros exemplares de ficção científica nacional, "O Homem do Futuro" é, acima de tudo, uma comédia romântica. Utiliza a questão do tempo para mostrar que o amor é necessário para a humanidade, através de um retrato nostálgico e sentimental sobre a vida. Apesar de beber da fonte de exemplares como "De Volta para o Futuro" e "Efeito Borboleta", a produção é original a sua maneira. Ao término, "Tempo Perdido", da Legião Urbana, não será ouvida da mesma forma.


Meu Namorado é um Zumbi
Esta comédia de ação sobre o relacionamento entre uma garota e um morto-vivo é mais indicada para as plateias adolescentes. O filme provoca um estranhamento inicial ao distorcer o conceito de zumbi, mas, aos poucos, acaba conquistando o espectador. "Meu Namorado é um Zumbi" entretém bastante e mostra que os casais no cinema estão cada vez mais ecléticos. 

Crítica: As Palavras


"As Palavras" é aquele filme que não vai se tornar um sucesso de bilheteria, não virará cult e nem ao menos será reconhecido como um belo drama existencial. É o exemplar que estreia em poucos cinemas e passa batido entre as cópias na locadora. Pouca gente assiste e dá valor. Mas, a produção escrita e dirigida pela dupla Brian Klugman e Lee Sternthal possui uma das melhores histórias de 2012 e, na mão de um diretor de renome, poderia ser um blockbuster devorador de muitos prêmios.

A trama é dividida em três capítulos. Inicia com o escritor Clay Hammond (Dennis Quaid) realizando uma sessão de leitura de seu novo livro. Ele narra ao público os acontecimentos de Rory Jansen (Bradley Cooper), um jovem ambicioso que deseja assinar contrato com uma editora para lançar seus romances. Certo dia, ele encontra um manuscrito antigo e resolve mandar para um editor, como se a obra fosse sua. O texto é publicado e não demora para se tornar um sucesso. Porém, o verdadeiro autor (Jeremy Irons) surge para atormentar o tal “ladrão de palavras”.

A partir deste momento, o projeto muda o rumo e passa a revelar os fatos que motivaram o relato contido nas páginas do agora bestseller. Aborda, assim, as escolhas feitas na vida e o preço que se paga por elas. Registra momentos que transformam para sempre as pessoas. Escolhas que permanecem conosco. Irreversíveis. O filme entrega sua intensa carga dramática através de belos diálogos: “O que aconteceu com ele?”, pergunta um dos personagens, e o outro responde, tristemente, “A vida”, com um peso que dói na alma. 

Passagens de uma sensibilidade extrema marcam o dinamismo entre realidade e ficção. Em determinado instante, o escritor misterioso despeja: “Você roubou a vida de um homem e achou que não haveria um preço a pagar? A alegria e a dor deram origem àquelas palavras. Roubando as palavras, você leva a dor”. E desta figura amargurada, judiada pela vida, numa versão masculina da Ms. Dinsmoor, de "Grandes Esperanças", surge a força do sofrimento contido no filme. 

A estrutura multifacetada consegue atingir um de seus maiores desafios ao conciliar de forma coesa as três narrativas. De quebra, o elenco entrelaça os personagens com atuações competentes. Jeremy Irons (magnífico) e Quaid entregam atuações vigorosas como há tempos não apresentavam nas telas. Durante os flashbacks, Ben Barnes surpreende como um “personagem do passado”. E Cooper, antes do desempenho em O lado bom da vida, mostra seus primeiros passados como ator sério.

Por todas essas razões, "As Palavras" oferece uma grande história. Seu roteiro é tão literário que chega a ser possível imaginar a estrutura de uma versão impressa. Carece apenas de um aprimoramento, uma lapidada, retirando cenas que deixam a trama mastigada para o espectador, pois a sugestão é sempre mais elegante que a revelação explícita. Outro fator inconveniente é que, em certas ocasiões, o longa-metragem parece um filme feito para a televisão, conforme o baixo investimento no projeto. 

Ainda assim, pequenos deslizes não tiram o mérito de uma brilhante construção filosófica. Nas mãos de Almodóvar, Scorsese, Stephen Daldry ou outro diretor com experiência e notoriedade, "As Palavras" teria uma invejável carreira em festivais e premiações. Infelizmente, fica restrito a poucos que, ao acaso, o descobrem. E, para esses sortudos, a seguinte frase, proferida pelo sábio personagem de Irons, provavelmente ficará marcada na memória: “Nós todos fazemos escolhas na vida. O difícil é conviver com elas”.

Nota: 8,7

Crítica: Sem Segurança Nenhuma




A cada ano diversos projetos independentes são chamados de “a sensação do Festival de Sundance”. O encontro que ocorre anualmente em janeiro em Park City, Utha, é a premiação alternativa mais badalada do cinema e, recentemente, consagrou diversos projetos, como “Pequena Miss Sunshine”, “Ruby Sparks”, “Loucamente Apaixonados”, “Indomável Sonhadora” e “As Sessões”. Este ano, a comédia dramática “Sem Segurança Nenhuma” tornou-se o queridinho indie do evento ao ter seu roteiro agraciado com o Waldo Salt Screenwriting Award para Derek Connolly. 

Na trama, homem publica nos classificados de um jornal que precisa de um companheiro para viajar no tempo. Nas poucas linhas escritas, ele conta que já realizou o experimento uma única vez e pede para que o passageiro leve suas próprias armas, pois a “segurança não é garantida” (referência ao título original). O caso curioso desperta o interesse de um jornalista, que parte uma cidade do interior com dois estagiários para investigar o caso. 

Entre os quatro personagens, quem rouba a cena é Darius, a estagiária escalada para interagir com o “maluco”, interpretada por Audrey Plaza (do seriado Parks & recreation). A relação desenvolvida entre a dupla é a tônica do filme. Darius encontra em sua fonte jornalística alguém parecido com ela e isso faz com que deixe ser triste e antisocial, como define seu pai em uma das cenas do início. Ela finalmente se sente parte de algo e até começa a acreditar que pode voltar no tempo. 

A narrativa esperta mistura drama, romance e ficção científica de forma simples e inteligente. Tiradas de humor também são sabiamente pontuadas durante a exibição, além de uma trilha sonora bacana, com direito a Brick by brick do Arctic Monkeys. Esse conjunto de atribuições define com excelência o resultado de uma produção independente despretenciosa e cativante. Um feito concretizado com êxito neste projeto.

Boa parcela desse mérito deve-se também ao carisma dos personagens desajustados. E o mais interessante é que cada um deles fará descobertas ao longo do filme. Apenas o enredo do jornalista Jeff (Jake Johnson) que, apesar de ser bem interessante, torna-se inconclusivo. Já a dúvida quanto a veracidade do anúncio, mantida até o último instante, deixa para o clímax a revelação se a tal máquina do tempo realmente existe ou é apenas fruto da imaginação do sujeito. 

Com apenas uma hora e 25 minutos, “Sem Segurança Nenhuma” revela-se um filme eficiente e terno sobre as relações humanas. O primeiro longa-metragem de Colin Trevorrow, oriundo do Sundance, é uma surpresa extremamente agradável. Por isso, é mais que merecido ser chamado de “a mais nova sensação do cinema independente”.   

Nota: 7,9

Crítica: O Voo



Os acontecimentos de “O Voo” são tão passíveis de ocorrer fora da tela que o filme poderia receber o selo de “baseado em uma história real”. Na trama do novo filme de Robert Zemeckis (“Forrest Gump”, “Náufrago”), o piloto de avião Whip Withaker, interpretado por Denzel Washington, depara-se com uma falha mecânica que provoca o mergulho em queda livre da aeronave. Withaker consegue, através de uma manobra surpreendente, salvar boa parte dos passageiros. O feito louvável o transforma em herói americano. Entretanto, um exame de sangue posterior ao acidente comprova a existência elevada de álcool no organismo do piloto. Withaker dirigiu o avião embriagado. 

A partir desse ponto, o filme desenvolve questionamentos éticos sobre a possível culpa do comandante quanto à morte de quatro passageiros e dois tripulantes, decorrentes da aterrissagem forçada. A problemática, que poderia facilmente ser um acontecimento verídico, é mais complexa do que se pode julgar de imediato. Assim, o roteiro explora dualidades essenciais, como por exemplo: ao mesmo tempo que demonstrou ser um excelente piloto, evitando o provável desastre aéreo, Withaker também recebe repreensões por sua conduta, que, caso não estivesse alcoolizado, poderia ter salvo mais pessoas. Será?

Em uma de suas melhores atuações, Washington assume o personagem com um desempenho irretocável, apresentando-o de forma humana, na oscilação entre as faces de farrista, ameaçador, arrependido e bêbado. O ponto máximo é o seu depoimento durante o tribunal de acusação. Completam o elenco, os competentes Don Cheadle, Tamara Tunie, Melissa Leo e James Badge Dale, em ponta marcante como um paciente terminal. 

A narrativa de “O Voo” desenvolve-se em dois períodos. O início é de ação, com as cenas sufocantes do acidente - este que é peça fundamental para os futuros acontecimentos. O restante do filme avança pelo drama, com direito a uma subtrama desnecessária, que envolve Kelly Reilly como uma drogada. De tão descartável, a atriz nem aparece no trailer do projeto. Porém, o roteiro insiste em torná-la importante, colocando seus momentos intercalados, inclusive, com o que ocorre no interior do avião. Essa tentativa de par romântico serve apenas para aumentar a duração do filme.  

Zemeckis comanda o espetáculo com a experiência de veterano no cinema, valorizando o que seu projeto tem de melhor: a atuação do protagonista, a tensão do acidente, o questionamento ético e a aceitação do alcoolismo. Mesmo com os últimos minutos tendendo a uma lição de moral e frases de efeito/clichê, “O Voo” consegue um resultado excepcional ao apresentar um caso polêmico que, ao invés de dividir opiniões, deixa o espectador com dificuldade de escolher um lado. 

Curiosidade
O longa-metragem inspirou-se no fato verídico ocorrido em 2000, em que um avião rumo a Chicago, repentinamente, mergulhou em direção ao solo. O piloto precisou colocar a aeronave de “cabeça para baixo” a fim de estabilizá-la. Ao contrário do filme, o pouso não foi bem-sucedido. Nenhum passageiro sobreviveu.

Nota: 7,8

Crítica: Os Miseráveis



"Os Miseráveis" é um sucesso desde que foi lançado em 1962. Vendeu mais de sete mil exemplares nas primeiras 24 horas na capital francesa. Durante as décadas seguintes, a história de Jean Valjean foi assistida por mais de 60 milhões de espectadores no teatro e adaptada 46 vezes para o cinema e a televisão. Este ano, Hugh Jackman interpreta o coitado que roubou um pão, tornou-se prisioneiro e acabou perseguido para sempre pelo inspetor Javert (Russel Crowe). Então, a pergunta é: o que esta recente versão apresenta de novo?

Após a consagração de "O Discurso do Rei" com cinco Oscars, Tom Hooper poderia escolher o projeto que quisesse. A decisão foi recontar a obra de Vitor Hugo, igualmente famosa por sua versão musical na Broadway. O visual primoroso é o maior mérito da atualização do clássico. Um trabalho magnífico de direção de arte, fotografia, figurino e maquiagem – requisitos merecidamente indicados aos Oscar. 

Além da atmosfera histórica, recriando o período da Revolução Francesa de forma impressionante, o cineasta foi bem sucedido ao desafiar os atores a cantarem ao vivo durante as filmagens, sem a gravação em estúdio e posterior dublagem. Por um lado, o canto perde um pouco em qualidade, mas, por outro, a atuação é potencializada na sua carga dramática. A técnica valorizou as interpretações de Hugh Jackman – em sua melhor performance - e Anne Hawthaway, que levou o Oscar como Atriz Coadjuvante. 

O núcleo da trama que envolve Jackman e Hawthaway é o mais interessante do projeto. Nos 40 minutos iniciais, em que os dois contracenam juntos, "Os Miseráveis" é um musical perfeito, envolvente e vigoroso desde as cenas em que o pobretão Jean Valjean é humilhado por Javert até ele receber a ajuda de um bondoso padre e dar a volta por cima. Nesse contexto, surge Fantine, funcionária da fábrica gerenciada por Valjean, que perde o emprego e sucumbe à prostituição para ajudar a filha.    

Após essa primeira parte inspirada, o longa-metragem vai perdendo o ritmo com uma série de tramas tediosas, como os insuportáveis tutores de Cosette (Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), o romance morno entre a jovem (Amanda Seyfried) e Marius (Eddie Redmayne) e, por fim, o cenário de luta armada, ápice da revolução, que, infelizmente, carece de emoção. Até mesmo as músicas perdem a graça ao longo da narrativa, com exceção daquelas cantadas pela trágica personagem Éponine (Samantha Barks) e o hino absoluto do projeto, "One More Day".

Mesmo sendo cansativo, "Os Miseráveis" mantém-se grandioso, somando cenas icônicas que ficarão para a história do cinema. A principal marca do filme é a ausência de diálogos. Cantado do início ao fim, pode provocar repulsa em alguns avessos ao gênero. O sucesso comercial – e também em premiações -, provavelmente, deve-se ao fato da história ser muio familiar aos americanos. Ao restante do mundo, não tão apaixonado pela obra, o resultado é um bom filme, irregular ao longo de seus 157 minutos, mas que vale a sessão pela pompa e pelo capricho visual como conta sua história. 

Nota: 7,5