Crítica: Guardiões da Galáxia - Volume 2



Desde o subtítulo que remete às fitas cassetes até a sequência de abertura ao ritmo de um rock dos anos 1980, na qual Baby Groot ensaia seus passos de dança enquanto os heróis enfrentam um monstro gigantesco, a cultura pop dita as regras em "Guardiões da Galáxia - Volume 2". Não faltam referências - e também diversão - na continuação para o sucesso de 2014.

Os acontecimentos do primeiro filme serviram para reunir o improvável grupo formado por Peter Quill, Gamora, Drax, Rocky e Groot. Agora, eles precisarão enfrentar novos desafios, como a perseguição da alta sacerdotisa Ayesha ou ainda desvendar os mistérios que envolvem o verdadeiro pai do Senhor das Estrelas.

A nova aventura aposta na união da turma, desenvolvendo dramas pessoais tanto do protagonista quanto dos demais personagens, vide a relação conflituosa entre Gamora e sua irmã Nebulosa, o envolvimento despretensioso entre Drax e a alienígena Manty, a preocupação dos guardiões com o pequeno Groot e as decisões determinantes de Yondu - que ganha merecido destaque na trama.

Desta forma, o roteiro valoriza suas criações com a proeza de acertar nos momentos de alívio cômico e, também, nos mais emotivos. Difícil não se emocionar quando toca "Father and son", do Cat Stevens... Tudo isso sem deixar o caráter cool da produção, com trilha sonora relevante para a história, figurinos vintage/futuristas e cenas de visual deslumbrante, como a visita a um planeta pouco desbravado ou o balé proferido por uma flecha assassina.

O ponto fraco do projeto talvez sejam as motivações pouco satisfatórias oferecidas para as ações do pai de Quill, interpretado por Kurt Russel. Do restante, mesmo sendo completamente nonsense (absurdo), "Guardiões da Galáxia 2" é mais verdadeiro que todos os demais filmes da Marvel. Combina interessantes conflitos familiares com adrenalina, estilo e muito carisma. Falando em carisma, o símbolo da palavra poderia Baby Groot. Fica impossível resistir à adorável arvorezinha durante toda projeção. É, sem dúvidas, a grande estrela do longa. 

Nota: 8,7


Crítica: Fome de Poder


Poucas vezes o título "traduzido" funciona tão bem quanto o original. O novo filme de John Lee Hancock ("Um sonho possível") consegue essa proeza, tanto com o explícito "Fome de poder" quanto com o irônico "The founder". A história baseada em fatos reais aborda a ascensão da maior rede de fast food do planeta, o McDonald's.

O responsável por este feito é Ray Kroc, um homem de 52 anos, classe média, inicialmente vendedor de máquinas de milkshake. Seria ele o criador do conceito de comida rápida, de produzir um hambúrguer em 30 segundos ao invés de 30 minutos? Não. Os verdadeiros inovadores foram os irmãos Richard e Maurice McDonald. Os dois moradores de San Bernardino, interior da Califórnia, apostaram em uma pequena grande ideia e fizeram sua lanchonete transformar-se em um sucesso local.

Numa visita à cidade para entregar suas máquinas, Ray fica encantado com o negócio idealizado pelos irmãos e dá um jeito de tornar-se sócio do empreendimento. Fica, então, responsável pela expansão da marca através de franquias.

O intruso realmente transforma a marca em um império mundial, porém sua ambição desmedida leva-o a caminhos no mínimo controversos, prejudicando a dupla que começou o projeto. A briga entre o trio vai longe no decorrer de quase duas horas de projeção.

Hancock adota uma pegada neutra, apresentando tanto o lado "persistente" quanto sacana do protagonista. Já enquanto projeto cinematográfico, o diretor segue a cartilha, sem apresentar nenhum frescor. Quem sustenta o interesse, além da curiosa história real, é Michael Keaton como o personagem dúbio, oscilando entre uma expressão carismática e um sorriso diabólico.

No geral, a produção funciona, principalmente, enquanto biografia, uma história sobre os desafios enfrentados por grandes empreendedores. E levanta questões, como quais são os limites para a ambição, a fome pelo poder? Ray, sem dúvidas, tinha uma visão empreendedora, mas levou-a ao extremo para conseguir o que queria. Foi graças a sua falta de moral que o McDonald's está espelhado pelos quatro cantos do mundo. 

Nota: 7

Crítica: Blue Jay


Jim e Amanda se reencontram no supermercado. O primeiro contato, depois de muitos anos, é constrangedor. "Já perguntei 'como você está?'"?, fala ele. "Já", responde ela. A dificuldade em travar uma conversa é latente, mas logo percebe-se que existe uma extrema afinidade entre os dois. Algo adormecido, que vem à tona durante a jornada de 24 horas apresentada em "Blue Jay", uma produção original do Netflix.

Na linha de "Antes do amanhecer" e "Before we go", o longa-metragem acompanha o encontro dos dois personagens ao longo de 80 minutos, sustentado praticamente em diálogos. Jim e Amanda deixam o supermercado para beber em uma cafeteria, depois sentam a beira de um lago, fazem compras em uma loja de conveniências, jantam e dançam na casa dele e, por fim, caminham pelas ruas da pequena cidade na Califórnia que dá nome ao projeto.

Todas essas passagens ocorrem na presença de uma fotografia em preto e branco, o que reforça a melancolia da trama. Jim e Amanda eram aquele casal perfeito dos tempos de colégio, mas precisaram se separar. O que a vida lhes ofereceu na sequência não foi bem o que esperavam. Agora, ambos acreditam que deveriam estar completamente realizados, felizes. Infelizmente, não é esta a realidade.

O olhar sensível do novato diretor Alex Lehmann apresenta gradativamente os machucados e as desilusões de cada um. O filme, em sua essência, é sobre escolhas, perdas, relacionamentos, o que deixamos no caminho, a procura pela felicidade. É sobre o curso avassalador da vida, o lado melancólico da existência.

Toda essa cumplicidade dos personagens funciona tão bem graças à dupla Mark Duplass e Sarah Paulson, completamente entregues ao projeto. O próprio ator assina o roteiro, que, segundo ele, estava delimitado em cenas, mas valeu-se de bastante improviso durante os diálogos. Talvez esteja aí o segredo para tamanha sintonia e veracidade presentes em "Blue Jay": deixar que a experiência real tome frente.

Nota: 8

Crítica: Passageiros


A nave Avalon encontra-se em trânsito ao seu destino: um novo planeta colonizado pelos humanos. No curso da viagem, uma pane no sistema provoca o despertar de um único passageiro. Jim (Chris Pratt) acorda cerca de 90 anos antes do previsto. Diante da  perspectiva de envelhecer e morrer sozinho no espaço, ele decide tirar da hibernação um segundo passageiro para lhe fazer companhia, a bela Aurora (Jennifer Lawrence).

O ato controverso de Jim deveria ser a essência de "Passageiros", longa-metragem do norueguês Morten Tyldun ("O jogo da Imitação") que aposta em drama, avança pelo romance e termina como aventura. Tamanha mistura torna a digestão difícil frente a uma uma trama com tantas variações em menos de duas horas, sem conseguir explorar bem nenhuma das possibilidades.

O primeiro ato, certamente, é o mais interessante. Após um ano tentando de tudo para resolver o problema na câmara de hibernação, o mecânico Jim depara-se com Aurora, repousando tranquilamente. Fica obcecado pela jovem, acessa os arquivos com suas entrevistas e encanta-se com a personalidade e beleza da escritora. Resolve, então, despertá-la do sono profundo, condenando-a à morte ao seu lado.

Qual seria a atitude mais cabível nesta situação? Acordar alguém que, entre os cinco mil passageiros, entenda sobre engenharia espacial, astronomia, matemática, tecnologia, informática? Alguém que possa salvá-lo? Não. Melhor escolher a mulher mais bonita.

Outra questão a ser levantada é a ridícula justificativa do roteiro para que as câmaras de hibernação não voltem a funcionar. Os cientistas do futuro simplesmente descartam a possibilidade de falha mecânica. Não há um suporte técnico ou um botão que reative a hibernação. Caso algo aconteça, o capitão e sua equipe estão isolados em uma cabine blindada.

Relevando esses dados importantes, o filme desenvolve com cuidado a crise do protagonista, que inicialmente culpa-se por sua atitude. Há uma poderosa discussão ética aqui e esta se intensifica quando Aurora, após envolver-se emocionalmente com Jim, descobre sobre o seu despertar provocado - e não acidental.

Jennifer Lawrence sustenta a revolta da personagem com explosões de raiva e desprezo por seu algoz. Porém, tudo é esquecido quando pequenos danos passam a se agravar na nave. O segundo ato do projeto faz com que os dois precisem unir forças para consertar Avalon, o que serve como uma espécie de "razão divina" para o casal ter sido acordado antes do tempo ou, como preferir, um artifício para evitar a condenação do personagem masculino.

"Passageiros" torna-se, assim, uma ficção científica de aventura na linha de "Gravidade". Exagero? Sim. "Gravidade" é muito melhor. As cenas de ação comandas por Tyldun são forçadas, os clichês borbulham na tela, assim como os absurdos. Por mais que os atores esbanjem química e talento, as questões morais, inclusive de machismo, ficam latentes e poderiam render um textão à parte.

O filme teria saído melhor se tivesse apostado em uma pegada semelhante a "Perdido em Marte", "Interestelar" e até mesmo "Solaris", histórias que servem de entretenimento e, de quebra, abordam com seriedade questionamentos sobre a sobrevivência no espaço e, consequentemente, a solidão.

Nota: 5,8


Crítica: Fragmentado



Vinte e três personalidades vivem no corpo de Kevin Wendell Crump. Interagem como se estivessem sentadas em círculo, sendo chamadas uma a uma para externar sua individualidade. Em "Fragmentado", novo filme do indiano M. Night Shyamalan, ele utiliza a rara doença chamada de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) para criar um intrigante conto de horror.

Na trama, Kevin mantém uma vida tranquila sob constante tratamento psiquiátrico. Porém, escondido dos olhos da sociedade, o homem sequestra três adolescentes no estacionamento de um shopping. O responsável, na verdade, foi Dennis, a versão mais perigosa de si mesmo.

Dennis desenvolve um plano, coloca-o em prática e mantém os outros 22 companheiros sob seu domínio. Quando o lado maligno aflora, o próprio Kevin fica refém desse jogo psicológico. O propósito de Dennis é despertar uma nova personalidade, muito mais poderosa.

Quem dá vida a todas essas personagens é o ator James McAvoy, certamente um dos mais subestimados de sua geração. Já deu show em produções como "Desejo e reparação", "O procurado", "Em transe", "Filth" e até mesmo na tenebrosa modernização do clássicao de Mary Shelley, "Victor Frankenstein".

Em "Fragmentado", McAvoy realiza um trabalho tanto de entrega quanto de repertório, uma vez que impressiona pela facilidade e  rapidez com que passa de uma personalidade para outra na mesma cena, seja um menino de nove anos, uma mulher mais velha, um gay estilista ou uma figura ameaçadora.

Se por um lado há uma certa preocupação sobre quem é esse complexo indivíduo, há um total descaso com os demais personagens, com exceção de Cassey (Anya Taylor-Joy, de "A bruxa"), em que o roteiro forçadamente apresenta um traumático passado para a jovem.

As demais meninas sequestradas são reduzidas a estereótipos de patricinhas fúteis. Até mesmo a psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Bucley) recebe cenas lamentáveis junto da irmã ou de colegas de profissão. Sua presença é apenas para fins didáticos.

A sensação é de que estamos frente a um roteiro com sérios problemas, sustentado principalmente por uma atuação visceral. A curiosa doença de Kevin poderia ser abordada de forma mais interessante, valorizando a crise de consciência, ou seja, o combate entre as suas forças internas.
Querendo ou não, há uma identificação com o protagonista, uma vez que todos possuímos várias personalidades perante a sociedade, enquanto filhos, pais, profissionais, amigos, netos, etc. Também possuímos nosso lado bom e também um lado negro.

Ao invés de explorar essas nuances típicas de qualquer ser humano, o terceiro ato busca provocar a repulsa do espectador por Kevin. Se o caminho até ali pouco apresentava de sangue e violência, a conclusão aposta nesse combo, somado a elementos sobrenaturais. Nos últimos 30 segundos de projeção, Shyamalan tenta fundamentar suas escolhas ao instaurar a trama em uma outra realidade, com direito a participação especial de uma estrela de Hollywood.

Mesmo desconsiderando essa última sequência, "Fragmentado" como um todo carece de cuidados. O filme não é bem orquestrado, deixando seu privilegiado lugar como suspense psicológico para um descambar para um filme de serial killer ou uma fantasia. Falta a complexidade presente em seus primeiros longas, como "O sexto sentido", "Corpo fechado", "Sinais" e "A vila".

Apesar de detalhes importantes como estes, o filme é um bom suspense (gênero praticamente esquecido pela indústria), sendo bastante tenso e instigante. Revela-se também um retorno ao topo para o diretor. O projeto faturou mais de US$ 125 milhões nas bilheterias norte-americanas em apenas três semanas, tornando-se o filme de terror mais rentável dos últimos anos. Desta forma, Shyamalan deixa para trás os recentes fracassos como "Depois da terra", "A dama da água" e "O último mestre do ar", e inaugura um novo - e quem sabe promissor - ciclo.

Nota: 7,5