Crítica: Guardiões da Galáxia - Volume 2



Desde o subtítulo que remete às fitas cassetes até a sequência de abertura ao ritmo de um rock dos anos 1980, na qual Baby Groot ensaia seus passos de dança enquanto os heróis enfrentam um monstro gigantesco, a cultura pop dita as regras em "Guardiões da Galáxia - Volume 2". Não faltam referências - e também diversão - na continuação para o sucesso de 2014.

Os acontecimentos do primeiro filme serviram para reunir o improvável grupo formado por Peter Quill, Gamora, Drax, Rocky e Groot. Agora, eles precisarão enfrentar novos desafios, como a perseguição da alta sacerdotisa Ayesha ou ainda desvendar os mistérios que envolvem o verdadeiro pai do Senhor das Estrelas.

A nova aventura aposta na união da turma, desenvolvendo dramas pessoais tanto do protagonista quanto dos demais personagens, vide a relação conflituosa entre Gamora e sua irmã Nebulosa, o envolvimento despretensioso entre Drax e a alienígena Manty, a preocupação dos guardiões com o pequeno Groot e as decisões determinantes de Yondu - que ganha merecido destaque na trama.

Desta forma, o roteiro valoriza suas criações com a proeza de acertar nos momentos de alívio cômico e, também, nos mais emotivos. Difícil não se emocionar quando toca "Father and son", do Cat Stevens... Tudo isso sem deixar o caráter cool da produção, com trilha sonora relevante para a história, figurinos vintage/futuristas e cenas de visual deslumbrante, como a visita a um planeta pouco desbravado ou o balé proferido por uma flecha assassina.

O ponto fraco do projeto talvez sejam as motivações pouco satisfatórias oferecidas para as ações do pai de Quill, interpretado por Kurt Russel. Do restante, mesmo sendo completamente nonsense (absurdo), "Guardiões da Galáxia 2" é mais verdadeiro que todos os demais filmes da Marvel. Combina interessantes conflitos familiares com adrenalina, estilo e muito carisma. Falando em carisma, o símbolo da palavra poderia Baby Groot. Fica impossível resistir à adorável arvorezinha durante toda projeção. É, sem dúvidas, a grande estrela do longa. 

Nota: 8,7


Crítica: Fome de Poder


Poucas vezes o título "traduzido" funciona tão bem quanto o original. O novo filme de John Lee Hancock ("Um sonho possível") consegue essa proeza, tanto com o explícito "Fome de poder" quanto com o irônico "The founder". A história baseada em fatos reais aborda a ascensão da maior rede de fast food do planeta, o McDonald's.

O responsável por este feito é Ray Kroc, um homem de 52 anos, classe média, inicialmente vendedor de máquinas de milkshake. Seria ele o criador do conceito de comida rápida, de produzir um hambúrguer em 30 segundos ao invés de 30 minutos? Não. Os verdadeiros inovadores foram os irmãos Richard e Maurice McDonald. Os dois moradores de San Bernardino, interior da Califórnia, apostaram em uma pequena grande ideia e fizeram sua lanchonete transformar-se em um sucesso local.

Numa visita à cidade para entregar suas máquinas, Ray fica encantado com o negócio idealizado pelos irmãos e dá um jeito de tornar-se sócio do empreendimento. Fica, então, responsável pela expansão da marca através de franquias.

O intruso realmente transforma a marca em um império mundial, porém sua ambição desmedida leva-o a caminhos no mínimo controversos, prejudicando a dupla que começou o projeto. A briga entre o trio vai longe no decorrer de quase duas horas de projeção.

Hancock adota uma pegada neutra, apresentando tanto o lado "persistente" quanto sacana do protagonista. Já enquanto projeto cinematográfico, o diretor segue a cartilha, sem apresentar nenhum frescor. Quem sustenta o interesse, além da curiosa história real, é Michael Keaton como o personagem dúbio, oscilando entre uma expressão carismática e um sorriso diabólico.

No geral, a produção funciona, principalmente, enquanto biografia, uma história sobre os desafios enfrentados por grandes empreendedores. E levanta questões, como quais são os limites para a ambição, a fome pelo poder? Ray, sem dúvidas, tinha uma visão empreendedora, mas levou-a ao extremo para conseguir o que queria. Foi graças a sua falta de moral que o McDonald's está espelhado pelos quatro cantos do mundo. 

Nota: 7

Crítica: Blue Jay


Jim e Amanda se reencontram no supermercado. O primeiro contato, depois de muitos anos, é constrangedor. "Já perguntei 'como você está?'"?, fala ele. "Já", responde ela. A dificuldade em travar uma conversa é latente, mas logo percebe-se que existe uma extrema afinidade entre os dois. Algo adormecido, que vem à tona durante a jornada de 24 horas apresentada em "Blue Jay", uma produção original do Netflix.

Na linha de "Antes do amanhecer" e "Before we go", o longa-metragem acompanha o encontro dos dois personagens ao longo de 80 minutos, sustentado praticamente em diálogos. Jim e Amanda deixam o supermercado para beber em uma cafeteria, depois sentam a beira de um lago, fazem compras em uma loja de conveniências, jantam e dançam na casa dele e, por fim, caminham pelas ruas da pequena cidade na Califórnia que dá nome ao projeto.

Todas essas passagens ocorrem na presença de uma fotografia em preto e branco, o que reforça a melancolia da trama. Jim e Amanda eram aquele casal perfeito dos tempos de colégio, mas precisaram se separar. O que a vida lhes ofereceu na sequência não foi bem o que esperavam. Agora, ambos acreditam que deveriam estar completamente realizados, felizes. Infelizmente, não é esta a realidade.

O olhar sensível do novato diretor Alex Lehmann apresenta gradativamente os machucados e as desilusões de cada um. O filme, em sua essência, é sobre escolhas, perdas, relacionamentos, o que deixamos no caminho, a procura pela felicidade. É sobre o curso avassalador da vida, o lado melancólico da existência.

Toda essa cumplicidade dos personagens funciona tão bem graças à dupla Mark Duplass e Sarah Paulson, completamente entregues ao projeto. O próprio ator assina o roteiro, que, segundo ele, estava delimitado em cenas, mas valeu-se de bastante improviso durante os diálogos. Talvez esteja aí o segredo para tamanha sintonia e veracidade presentes em "Blue Jay": deixar que a experiência real tome frente.

Nota: 8

Crítica: Passageiros


A nave Avalon encontra-se em trânsito ao seu destino: um novo planeta colonizado pelos humanos. No curso da viagem, uma pane no sistema provoca o despertar de um único passageiro. Jim (Chris Pratt) acorda cerca de 90 anos antes do previsto. Diante da  perspectiva de envelhecer e morrer sozinho no espaço, ele decide tirar da hibernação um segundo passageiro para lhe fazer companhia, a bela Aurora (Jennifer Lawrence).

O ato controverso de Jim deveria ser a essência de "Passageiros", longa-metragem do norueguês Morten Tyldun ("O jogo da Imitação") que aposta em drama, avança pelo romance e termina como aventura. Tamanha mistura torna a digestão difícil frente a uma uma trama com tantas variações em menos de duas horas, sem conseguir explorar bem nenhuma das possibilidades.

O primeiro ato, certamente, é o mais interessante. Após um ano tentando de tudo para resolver o problema na câmara de hibernação, o mecânico Jim depara-se com Aurora, repousando tranquilamente. Fica obcecado pela jovem, acessa os arquivos com suas entrevistas e encanta-se com a personalidade e beleza da escritora. Resolve, então, despertá-la do sono profundo, condenando-a à morte ao seu lado.

Qual seria a atitude mais cabível nesta situação? Acordar alguém que, entre os cinco mil passageiros, entenda sobre engenharia espacial, astronomia, matemática, tecnologia, informática? Alguém que possa salvá-lo? Não. Melhor escolher a mulher mais bonita.

Outra questão a ser levantada é a ridícula justificativa do roteiro para que as câmaras de hibernação não voltem a funcionar. Os cientistas do futuro simplesmente descartam a possibilidade de falha mecânica. Não há um suporte técnico ou um botão que reative a hibernação. Caso algo aconteça, o capitão e sua equipe estão isolados em uma cabine blindada.

Relevando esses dados importantes, o filme desenvolve com cuidado a crise do protagonista, que inicialmente culpa-se por sua atitude. Há uma poderosa discussão ética aqui e esta se intensifica quando Aurora, após envolver-se emocionalmente com Jim, descobre sobre o seu despertar provocado - e não acidental.

Jennifer Lawrence sustenta a revolta da personagem com explosões de raiva e desprezo por seu algoz. Porém, tudo é esquecido quando pequenos danos passam a se agravar na nave. O segundo ato do projeto faz com que os dois precisem unir forças para consertar Avalon, o que serve como uma espécie de "razão divina" para o casal ter sido acordado antes do tempo ou, como preferir, um artifício para evitar a condenação do personagem masculino.

"Passageiros" torna-se, assim, uma ficção científica de aventura na linha de "Gravidade". Exagero? Sim. "Gravidade" é muito melhor. As cenas de ação comandas por Tyldun são forçadas, os clichês borbulham na tela, assim como os absurdos. Por mais que os atores esbanjem química e talento, as questões morais, inclusive de machismo, ficam latentes e poderiam render um textão à parte.

O filme teria saído melhor se tivesse apostado em uma pegada semelhante a "Perdido em Marte", "Interestelar" e até mesmo "Solaris", histórias que servem de entretenimento e, de quebra, abordam com seriedade questionamentos sobre a sobrevivência no espaço e, consequentemente, a solidão.

Nota: 5,8


Crítica: Fragmentado



Vinte e três personalidades vivem no corpo de Kevin Wendell Crump. Interagem como se estivessem sentadas em círculo, sendo chamadas uma a uma para externar sua individualidade. Em "Fragmentado", novo filme do indiano M. Night Shyamalan, ele utiliza a rara doença chamada de Transtorno Dissociativo de Identidade (TDI) para criar um intrigante conto de horror.

Na trama, Kevin mantém uma vida tranquila sob constante tratamento psiquiátrico. Porém, escondido dos olhos da sociedade, o homem sequestra três adolescentes no estacionamento de um shopping. O responsável, na verdade, foi Dennis, a versão mais perigosa de si mesmo.

Dennis desenvolve um plano, coloca-o em prática e mantém os outros 22 companheiros sob seu domínio. Quando o lado maligno aflora, o próprio Kevin fica refém desse jogo psicológico. O propósito de Dennis é despertar uma nova personalidade, muito mais poderosa.

Quem dá vida a todas essas personagens é o ator James McAvoy, certamente um dos mais subestimados de sua geração. Já deu show em produções como "Desejo e reparação", "O procurado", "Em transe", "Filth" e até mesmo na tenebrosa modernização do clássicao de Mary Shelley, "Victor Frankenstein".

Em "Fragmentado", McAvoy realiza um trabalho tanto de entrega quanto de repertório, uma vez que impressiona pela facilidade e  rapidez com que passa de uma personalidade para outra na mesma cena, seja um menino de nove anos, uma mulher mais velha, um gay estilista ou uma figura ameaçadora.

Se por um lado há uma certa preocupação sobre quem é esse complexo indivíduo, há um total descaso com os demais personagens, com exceção de Cassey (Anya Taylor-Joy, de "A bruxa"), em que o roteiro forçadamente apresenta um traumático passado para a jovem.

As demais meninas sequestradas são reduzidas a estereótipos de patricinhas fúteis. Até mesmo a psiquiatra Dra. Fletcher (Betty Bucley) recebe cenas lamentáveis junto da irmã ou de colegas de profissão. Sua presença é apenas para fins didáticos.

A sensação é de que estamos frente a um roteiro com sérios problemas, sustentado principalmente por uma atuação visceral. A curiosa doença de Kevin poderia ser abordada de forma mais interessante, valorizando a crise de consciência, ou seja, o combate entre as suas forças internas.
Querendo ou não, há uma identificação com o protagonista, uma vez que todos possuímos várias personalidades perante a sociedade, enquanto filhos, pais, profissionais, amigos, netos, etc. Também possuímos nosso lado bom e também um lado negro.

Ao invés de explorar essas nuances típicas de qualquer ser humano, o terceiro ato busca provocar a repulsa do espectador por Kevin. Se o caminho até ali pouco apresentava de sangue e violência, a conclusão aposta nesse combo, somado a elementos sobrenaturais. Nos últimos 30 segundos de projeção, Shyamalan tenta fundamentar suas escolhas ao instaurar a trama em uma outra realidade, com direito a participação especial de uma estrela de Hollywood.

Mesmo desconsiderando essa última sequência, "Fragmentado" como um todo carece de cuidados. O filme não é bem orquestrado, deixando seu privilegiado lugar como suspense psicológico para um descambar para um filme de serial killer ou uma fantasia. Falta a complexidade presente em seus primeiros longas, como "O sexto sentido", "Corpo fechado", "Sinais" e "A vila".

Apesar de detalhes importantes como estes, o filme é um bom suspense (gênero praticamente esquecido pela indústria), sendo bastante tenso e instigante. Revela-se também um retorno ao topo para o diretor. O projeto faturou mais de US$ 125 milhões nas bilheterias norte-americanas em apenas três semanas, tornando-se o filme de terror mais rentável dos últimos anos. Desta forma, Shyamalan deixa para trás os recentes fracassos como "Depois da terra", "A dama da água" e "O último mestre do ar", e inaugura um novo - e quem sabe promissor - ciclo.

Nota: 7,5

Crítica: Homem-Formiga


"Homem-Formiga" chega a público cercado de preconceitos. Não bastasse o nome de caráter duvidoso, ainda é mais fácil acreditar na vinda de um deus, filho de Odin, para salvar a Terra do que na história de um homem capaz de encolher até o tamanho de um inseto. Mesmo com essa incredulidade, quem for ao cinema, não deve se arrepender.

O personagem praticamente desconhecido surgiu nos quadrinhos em 1962 sob o nome de Hank Pym, um cientista que criou partículas aptas a controlar a massa e a altura de um indivíduo. A versão cinematográfica não traz o inventor como protagonista. Ele é interpretado por Michael Douglas e vira uma espécie de mentor para o ladrão Scott Lang (Paul Rudd), que vestirá o poderoso uniforme. Apesar de pequenino, o herói mantém sua força física. 

Um dos maiores méritos da nova produção da Marvel é justamente fazer o público comprar a ideia do defensor em miniatura. Demora um pouco, mas o espectador envolve-se com o amigo das formigas. Parte dessa conquista é sustentada pelos atores do longa-metragem. Rudd é puro carisma. Ganha a simpatia logo nas primeiras aparições como o habilidoso assaltante. 

O restante do time é de igual competência. O veterano Douglas transmite confiança e seriedade à trama como o cientista Pym, o primeiro a vestir o traje do Homem-Formiga. Enquanto isso, sua filha, a misteriosa Hope, interpretada por Evangeline Lily, mescla frieza e emoção. Na esfera cômica, Michael Peña rouba as cenas como o divertido amigo do herói.  

O ponto alto do projeto é a comunicação de Lang com as formigas, suas principais aliadas. As cenas de ação dentro do formigueiro ou em canos de água são as mais empolgantes. Os voos de Lang, montado na formiga Anthony, também enchem os olhos. Pena que esses momentos são intercalados com outros que não estão à altura, o que compromete o ritmo da produção. 

A principal influência sobre essa oscilação é Daren Cross, interpretado por Corey Stoll, o Peter Russo de "House of Cards". No papel do vilão, o ex-pupilo de Pym pretende vender as partículas para grandes corporações, colocando o segredo do super-herói em risco. Suas aspirações não são bem trabalhadas pelo roteiro e, quando surge na tela o Jaqueta Amarela, a versão dele em capa e raios lasers, há pouco impacto e veracidade. 

Mesmo um pouco irregular, com uma trama que alterna humor, ação e até drama familiar, o longa-metragem pode ser considerado um filme menor do estúdio, um entretenimento leve e divertido, não mais que isso. Sua esperteza maior é mostrar que as aparências realmente enganam e o tal Homem-Formiga pode ser um novo e interessante personagem para a Marvel - inclusive para a turma dos Vingadores.

Nota: 7

Crítica: Cidades de Papel



Não adianta esperar que "Cidades de Papel" repita o mesmo sucesso de "A Culpa é das Estrelas", ambos adaptações de livros do escritor sensação John Green. O mais recente adota um tom leve, com bom humor e mistério, enquanto a produção lançada ano passado - e campeã de bilheteria no Brasil - tem seu mérito na forte carga dramática. Ou seja, na capacidade de levar 99,9% dos espectadores às lágrimas.

Com menos choro, "Cidades de Papel" apresenta uma história sensível sobre adolescência, primeiro amor, desilusão e amadurecimento. Nessa ordem mesmo. Um filme que dialoga, principalmente, com os “young adults” (jovens adultos), na faixa entre 14 e 29 anos. Talvez esteja aí seu ponto fraco: um público de identificação específico. Um apelo não tão popular como o do casal Hazel e Gus.

A trama gira em torno de Quentin, um jovem que está se formando no colégio e possui como meta cursar faculdade, casar e ter filhos. Tudo está esquematizado para conquistar até os 30 anos. Ele sabe que seu plano é um pouco entediante, mas, ainda assim, está satisfeito, pois gosta de viver uma rotina. Até porque é somente isso que conhece: ir à escola e curtir com os amigos Ben e Radar, dois nerds.

Sua perspectiva muda quando, certa noite, a bela vizinha Margo Spiegelman invade seu quarto. Quentin é apaixonado por ela desde a infância. Eles cresceram juntos, viraram melhores amigos, mas acabaram se afastando durante o colégio. Atualmente são estranhos um para o outro. Apesar disso, o rapaz ainda nutre uma paixão platônica pela moça.

Quando Margo invade seu quarto e convida-o para executar um plano de vingança ele prontamente aceita. Torna-se o motorista de fuga para as travessuras dela contra o seu ex-namorado. As poucas horas com Margo tiram Quentin da inércia e o deixam à flor da pele, como ele mesmo diz: “Agora sinto o coração batendo no meu peito”. E ela responde: “É assim que deveria se sentir sua vida inteira”.

A jovem sacode o mundo de Quentin. Margo é adrenalina, emoção e imprevisibilidade. Ela questiona o futuro medíocre planejado pelo rapaz e apresenta sua inquietude quanto ao sonho americano, a vida cotidiana e a falsidade disso tudo. Abismado, ele encanta-se ainda mais pela garota, por essa vida sem regras, por suas aventuras épicas e, claro, pelo olhar magnético que o atinge.

Após os momentos compartilhados, Margo desaparece. Inicia, então, a busca de Quentin pela verdade, seguindo pistas deixadas pela própria jovem. Mesmo distante, Margo fará que ele saia de sua zona de conforto. Quentin deixará de tomar decisões seguras e irá matar aula, comparecer a festas da escola e embarcar em uma viagem de carro cruzando vários estados do país. Tudo pela primeira vez. Como o próprio cartaz do filme anuncia, é preciso se perder para se encontrar.

O rapaz, obcecado por Margo, fica cego pela luz que ela emite. Porém, em sua jornada, ele irá perceber que o amor é uma idealização, na qual se cria uma pessoa que na verdade não existe. O filme desmitifica o mito de Margo para Quentin e o mostra qual é o verdadeiro milagre de sua vida.

O diretor Jake Schreier, do fraco "Franck e o Robô", comanda essa aventura romântica com leveza, sem esquecer a profundidade por trás da história. "Cidades de Papel", em um olhar pouco inspirado, pode soar simplista, mas possui mais camadas do que aparenta. Relaciona-se fácil com outras produções nesse mesmo estilo, como "As vantagens de ser Invisível" e "500 Dias com Ela", sendo inclusive mais acessível.

O roteiro, assinado por Scott Neustadter e Michael H. Weber, os mesmos de "A culpa é das Estrelas", valoriza a trama de John Green e acrescenta, inclusive, novas cenas para a história. Enfatiza com ternura a passagem da adolescência para o mundo adulto, o amadurecimento. Para isso, utiliza o carisma dos protagonistas, Natt Wolf e Cara Delevigne, novatos no cinema.

"Cidades de Papel" prova que John Green não é apenas modismo ou marketing literário. Suas narrativas possuem conteúdo e identificação com o público-alvo, principalmente por abordar assuntos difíceis, como doença ou desilusão amorosa, de forma natural e transformadora. Já pode-se esperar para 2016, "Deixe a Neve Cair", com estreia marcada para 9 de dezembro, e no ano seguinte, "Quem é Você, Alasca?".

Nota: 8,2

Crítica: O Jogo da Imitação



Um segredo de guerra guardado ao longo de 50 anos pelo governo britânico é levado para as telas do cinema em "O jogo da Imitação", indicado a oito Oscars, incluindo melhor filme. A produção inglesa acompanha os feitos de um personagem histórico praticamente desconhecido, porém responsável por uma das mais significativas criações humanas. Injustiçado em vida, somente agora ele recebe um reconhecimento a altura.

O longa-metragem de Morten Tyldum conta a história verídica de Alan Turing (Benedict Cumberbatch), um criptoanalista prodígio que, junto de uma equipe de matemáticos, é encarregado de desvendar códigos nazistas emitidos pela máquina Enigma, responsável por despistar os demais países envolvidos na Segunda Guerra Mundial.

Dotado de uma complexa personalidade, Turing apresenta-se como uma pessoa fria e arrogante, incapaz de desenvolver qualquer simpatia, principalmente por parte de seus colegas. O relacionamento entre eles melhora quando entra em cena a jovem Joan Clarke (Keira Knightley), que torna-se uma amiga e passa a ajudá-lo na interação com os demais.

Com um clima amistoso, o trabalho ultra secreto protagonizado por Turing progride - na criação do que seria o primeiro computador - e resulta no fim da guerra, com a Inglaterra interceptando as mensagens da Alemanha. Mesmo tendo realizado um feito notório, o projeto é considerado confidencial e por décadas permaneceu como um segredo de estado, uma vez que no futuro tais códigos desvendados poderiam ser novamente utilizados como vantagem durante o conflito.

Apesar da sinopse confusa, "O jogo da Imitação" é extremamente didático - o que até fez o filme receber críticas negativas quanto ao seu formato de "isca para as premiações", semelhante ao consagrado "Uma Mente Brilhante", que também traz um gênio incompreendido. Apesar das queixas, a estrutura narrativa convencional não compromete o resultado impactante.

O londrino Cumberbatch (da série "Sherlock") surpreende como o matemático de poucas emoções, que, no decorrer do roteiro, apresenta cada vez mais nuances em sua personalidade. A abordagem de Turing revela-se extremamente humana, potencializada principalmente por sua orientação sexual, que na época era considerada crime. Aliás, esse detalhe é de sumária importância para a história.

Sua petulância e egoísmo mostram-se como defesas, barreiras de proteção, para desconfianças ou atos de discriminação. O filme mostra a origem dos traumas do menino prodígio através de flashbacks. Assim, o homem que precisa desvendar constantemente diferentes códigos, sendo um deles o mais importante da história da humanidade, necessita esconder um segredo que pode colocar sua vida em risco.

De forma tensa, "O jogo da Imitação" oferece o registro digno para um fascinante capítulo da Segunda Guerra Mundial, com uma abordagem superior a "Enigma" (2001), que também utilizou como pano de fundo os mesmos acontecimentos. A recente produção assume o viés biográfico e louva, merecidamente, tanto o caráter pacifista de Turning como seu título de pai da computação moderna. Um triunfo. 

Nota: 8,6


Crítica: Birdman



É no mínimo engraçado acompanhar o hype da mídia em torno do novo filme de Alejandro González Iñárritu, "Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância)". A produção, na verdade, é uma crítica feroz a própria Hollywood: a indústria do cinema e sua obsessão por cifras, o desespero dos atores pela fama, o público que deseja diversão descerebrada e o papel medíocre dos críticos em etiquetar os defeitos de cada projeto. "Birdman" sinaliza como tudo está errado no setor do entretenimento, mas não prevê perspectiva de mudança.

O filme acompanha a saga existencial e filosófica de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator que teve seu período de glória no passado ao interpretar um super herói - o tal homem-pássaro do título. Agora, no presente, ele amarga o ostracismo. Buscando o retorno aos holofotes como um ator sério, o veterano decide adaptar, dirigir e protagonizar um clássico texto da literatura para o teatro.

Desta forma, a história se passa nos bastidores de uma casa de espetáculos, transcorrendo do início ao fim em um falso plano sequência. O diretor vale-se dos ensinamentos de Alfred Hitchcook em "Festim Diabólico" e utiliza cortes escondidos e efeitos visuais para realizar as emendas no suposto take de duas horas de duração. A sensação é de acompanhar o que acontece em tempo real - apesar de alguns saltos na estrutura narrativa. O feito repercute como um dos principais acertos do filme.

O roteiro, que inclusive venceu o Globo de Ouro, bebe muito da série canadense "Slings and Arrows", que serviu de inspiração para "Som e Fúria", produzido pela Rede Globo em 2009, e aborda a montagem de uma peça teatral. As semelhanças são tantas que o protagonista de "Birdman" também possui poderes paranormais. Ele é atormentado por uma estranha voz em sua mente, personificada posteriormente como o ícone cultural responsável por seu sucesso.

Se para Riggan Thomson o seu fantasma é um homem-pássaro, para Michael Keaton é um homem-morcego. O ator que interpretou Batman nas duas aventuras dirigidas por Tim Burton na década de 1990 também passou por uma série de fracassos até ser praticamente esquecido nos anos 2000. "Virei a resposta de um quiz", debocha ele, ou melhor, seu personagem nas telas. "Birdman" apresenta o retorno de Keaton ao topo na melhor atuação de sua carreira.

E não é apenas ele que brilha em cena. Edward Norton rouba a atenção para si como Mike, um ator de método, capaz de infernizar a vida de todos aqueles ao seu redor. Infelizmente o personagem e seus conflitos não são inteiramente desenvolvidos e acabam sem desfecho. Como seu par romântico, Emma Stone interpreta a filha de Thomson que recém saiu da reabilitação e ajuda o pai na montagem do espetáculo. Apesar de competentes, as poucas aparições não valeriam um Oscar. Ainda no elenco de apoio, Amy Ryan, Naomi Watts e Zach Galifianakis.

"Birdman" soa como um filme indie que, por acaso, encontrou estrelas hollywoodianas para realizar a tão esperada crítica ao sistema. Apesar de uma direção brilhante, não parece nem um pouco algum projeto do homem que trouxe dramas densos e humanos como "Amores Brutos", "21 Gramas", "Babel" e "Biutiful". Seus novos personagens tomam atitudes desmedidas e inflam egos que não encontram uma fácil identificação. São seres egoístas que mais geram repulsa que afeto.

A análise aferida ao meio artístico é válida, interessante e tratada certas vezes de forma poética, mas não deixa de repetir o que justamente critica ao utilizar de esteriótipos e clichês. Mesmo travestido de comédia, aponta o dedo para todos e se leva a sério demais. O homem-pássaro parece mais inteligente do que realmente é.

Nota: 6,7


Crítica: Whiplash - Em Busca da Perfeição




Ao lado de "Selma", "O Jogo da Imitação" e "Sniper Americano", "Whiplash - Em Busca da Perfeição" faz parte da extensa turma que deve sair de mãos abanando do Oscar 2015. Na verdade, o filme possui apenas uma chance. É na categoria de Ator Coadjuvante, que tem J.K.Simmons como favorito ao prêmio. O veterano, na verdade, é o protagonista do projeto, ao lado do jovem revelação Miles Teller.

"Whiplash" foi escrito e dirigido por Damien Chazelle, de 29 anos, a partir de um curta-metragem de mesmo nome lançado em 2013. O rapaz já possía no currículo o longa-metragem musical "Guy and Madeline on a Park Bench". Se nessa primeira experiência o jazz era uma força motora, em seu mais recente longa-metragem ele é o nirvana para o jovem promissor Andrew Neyman.

O aspirante a baterista profissional chama a atenção do consagrado professor Terence Fletcher e entra para a orquestra principal da melhor escola de música dos Estados Unidos. Nas mãos do mestre, o aluno irá sofrer pressões psicológicas e físicas, precisando doar, literalmente, o seu sangue para provar que é o melhor.

J. K. Simmons está arrebatador no papel do impiedoso professor. O maestro transforma a vida dos estudantes em um verdadeiro pesadelo, exigindo dedicação ao máximo e incentivando a competição entre eles. Seu método de ensino é como um jogo de humilhação que ou empurra o aluno a superar-se ou o leva a uma profunda depressão.

Após sucessivas tiranias sofridas, inverte-se o jogo no tabuleiro e "Whiplash" fica ainda mais interessante. Abre para uma discussão sobre quais são os limites para estimular o talento de um aluno. Fletcher pede nada menos do que a perfeição e Neyman embarca nessa obsessão doentia, chegando aos extremos. Seria essa mesmo a linha a ser seguida para atingir a plenitude?

"Whiplash", assim como "Birdman", traça um panorama sobre a paranoia da sociedade contemporânea em ser bem sucedido profissionalmente. Um clima de tensão e debate ao som de jazz, de uma edição classuda e frenética como as baquetas do jovem baterista. A indicação como um dos melhores do ano é mais do que merecida.

Nota: 8